segunda-feira, 23 de abril de 2018

São Jorge


    Um dos mais venerados do catolicismo, também está entre os 14 santos auxiliares, aqueles que com extrema eficácia intercedem contra certas doenças, e por isso grandes beneficiadores dos pobres e desamparados.
    Nasceu em 275 na Capadócia, região da atual Turquia, terra que poucas décadas depois nos daria São Gregório Nazianzeno e os irmãos São Basílio Magno e São Gregório de Nissa, os três chamados Padres Capadócios, de tão importantes que são para a Igreja suas colaborações na compreensão das divinas revelações.
    São Jorge ainda era criança quando numa batalha morreu seu pai, pois era oficial do exército romano, e sua mãe teve que voltar para Lida, sua cidade natal, atualmente em terras da Palestina, onde São Pedro curou Eneias e converteu toda a gente da região ao cristianismo: "Pedro, que caminhava por toda parte, de cidade em cidade, desceu também aos fiéis que habitavam em Lida. Ali achou um homem chamado Eneias, que havia oito anos jazia paralítico num leito. Disse-lhe Pedro: 'Eneias, Jesus Cristo te cura! Levanta-te e faze tua cama.' Ele levantou-se imediatamente. Viram-no todos que habitavam em Lida e da planície de Saron, e converteram-se ao Senhor." At 9,32-35
    De rica família, sua mãe educou-o com os melhores mestres. Mas já na adolescência, movido por recordações, quis entrar para o exército romano. Acolhido por oficiais que haviam conhecido seu pai, fez carreira militar e aos 23 anos foi nomeado conde da Capadócia, indo morar em Nicomédia, cidade da corte imperial, próxima a Constantinopla, onde ocupou o cargo de Tribuno Militar.
    Por esses tempos, porém, sua mãe veio a falecer e sua vida tomou outro rumo. O cristianismo, que até então vivia secretamente, irrompeu em seu coração. A solidão, as lembranças de sua mãe e de seu pai, e as perseguições que sofriam os cristãos de seu tempo precisaram de verdadeiras práticas espirituais para que se tornassem suportáveis. Distribuiu toda sua herança com os pobres e começou a prestar serviços de Sacerdote a toda gente.
    Mas não abriu mão nem da função militar nem de suas influentes relações na corte, pois acreditava que o tratamento dado à Igreja logo mudaria, tamanha era a adesão de todo o povo do Império Romano à em Cristo naqueles tempos.
    Vivia o celibato e, de tão puro, pelos os cristãos era visto como um anjo. E tal qual o Arcanjo São Miguel, como se vê em suas imagens, tomou como missão lutar e derrotar Satanás, à época representado por Roma, que perseguia a Igreja, ou seja, os filhos de Nossa Senhora, como bem descreveu São João Evangelista: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. A terra, porém, acudiu à Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o Dragão vomitara. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13.16-17
    De fato, esse monstro crescia diante dele e dos fiéis, que apesar de numerosos eram obrigados a viver a fé clandestinamente. Em 303, quando São Jorge tinha 28 anos, Diocleciano iria publicar o 'Édito contra os cristãos', que dava início a mais cruel e sangrenta perseguição aos seguidores do Nazareno. Por ódio e malícia de alguns generais, entretanto, suas ordens começaram a ser aplicadas no dia anterior ao Édito, e exatamente na igreja recém-construída por nosso Santo em Nicomédia, com instruções para destruí-la, queimar as Escrituras e confiscar seus bens e de todos que a frequentassem.
    A intenção do imperador era mesmo dar um golpe mortal no cristianismo, tomando para si propriedades e extinguindo todo o clero. Os cristãos que detivessem cargos públicos no império deveriam ser imediatamente depostos e obrigados a prestar culto aos deuses pagãos. Mas, talvez porque Diocleciano já estivesse arrependido do brutal assassinato de São Jorge, que se deu dias antes pelas mãos de soldados romanos, foi anunciado que o Édito deveria ser cumprido 'sem derramamento de sangue'. Os juízes que tinham poderes para fazer cumprir o que estava escrito, no entanto, não conseguiam mais conter os ensandecidos praticantes do paganismo. E para a gravar a situação, Galério, um dos césares, recomendava publicamente a morte na fogueira a quem resistisse, o que, pelo amor que os fieis tinham a Cristo, acabou por tornar-se corriqueira execução.
    O segundo Édito, do mesmo ano, dava ordens para imediata prisão de bispos, sacerdotes, diáconos e leitores. E tantos clérigos cristãos já enchiam as prisões que os juízes tiveram que libertar os presos comuns. No fim do mesmo ano, porém, Diocleciano, que não tinha como sustentar tal situação, anistiou a todos com um terceiro Édito, sob condição de que os clérigos oferecessem sacrifícios aos deuses. Juízes e guardas, então, que deveriam soltá-los, começaram a torturá-los para que aceitassem a proposta, o que se tornou mais um espetáculo de barbárie, porque os fieis simplesmente não concordavam.
    Vendo-se sem sucesso, no quarto Édito, em 304, Diocleciano tentou vencer o cristianismo de outro modo: obrigou todo o povo do império, homens, mulheres e crianças, a prestar culto público aos deuses pagãos por meio de sacrifícios. Quem se recusasse, deveria ser sumariamente executado. E mais uma vez houve um banho de sangue. Inúmeros cristãos foram martirizados.
    Como fiel seguidor de Cristo e exemplo para todos esses mártires, São Jorge, dias antes da publicação do primeiro Édito, havia-se levantado na reunião do senado imperial que aprovaria tais medidas e dito que aquela não era a solução. Ao contrário, os romanos é que deveriam converter-se ao cristianismo para a Salvação de suas almas. Todos ficaram perplexos. Ali, em pleno senado, um membro da corte romana declarava-se cristão. Um dos cônsules, visivelmente indignado, perguntou-lhe qual a razão de tamanha ousadia, e ele apenas respondeu: "A Verdade. Cristo é a Verdade."
    Como a proposta deste Édito de Diocleciano já estava previamente aceita, e aquela assembléia era mera formalidade, São Jorge foi retirado do ambiente e torturado para que renegasse publicamente o cristianismo. Levado algumas vezes ao imperador, após muitas seções e vários tipos de tortura, ele resistia bravamente dizendo que jamais prestaria sacrifício aos deuses. Quem assistiu seus suplícios, dores absolutamente insuportáveis, sabia que ele só podia estar vivo por milagre. Muitos deles, vendo tanta fé em seu iluminado semblante, terminariam por converter-se, como aconteceu com a própria esposa de Diocleciano.
    Assombrado e nervoso, vendo que nada conseguiria através das flagelações, esbravejando mandou que São Jorge fosse decapitado. Nascia assim uma das maiores devoções religiosas de todo o mundo. Em sua homenagem, uma igreja foi construída em Efraim, próspera cidade próximo a Lida, mas em 614 foi destruída por muçulmanos de origem persa.


    Seus restos mortais, porém, já haviam sido levados para Lida, onde poucas décadas depois de sua morte, Constantino, filho de Santa Helena, o primeiro imperador a converter-se ao cristianismo, mandou construir-lhes uma igreja.


    São Jorge, rogai por nós!

domingo, 22 de abril de 2018

O Espírito de Cristo


    São Pedro disse sobre São Paulo: "Reconhecei que vos é salutar a longa paciência de Nosso Senhor, como também vos escreveu vosso caríssimo irmão Paulo, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala destes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os ignorantes ou pouco fortalecidos espíritos deturpam, para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras." 2 Pd 3,15-16

    Extrato da Carta de São Paulo ao Romanos:

    "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito. Os que vivem segundo a carne gostam do que é carnal; os que vivem segundo o espírito apreciam as coisas que são do espírito.
    Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
    Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se é que o Espírito de Deus realmente habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o espírito vive pela justificação. Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a Vida a vossos corpos mortais, através de Seu Espírito que habita em vós.
    Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o Espírito de adoção pelo qual clamamos: 'Aba!', Pai!
    O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.
    Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a Glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de também ser ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia.
    Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a Redenção do nosso corpo. Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança. Porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos.
    De toda forma, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos. E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o Qual intercede pelos Santos, segundo Deus. Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios.
    Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou Seu próprio Filho, mas que O entregou por todos nós, como não nos dará também com Ele todas as coisas? Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus Quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é Quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?
    Está escrito: 'Por amor de Ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23)'. Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d'Aquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem qualquer outra criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor." Rm 8,2-28.31-39


O PENSAMENTO DE CRISTO

     Após ensinar o Pai Nosso, falando sobre a 'força' que nos move tanto para o perdão como para a caridade, Jesus explicou: "Portanto, Eu digo-lhes: peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; todo aquele que procura, acha; e ao que bater, abrir-se-lhe-á. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,9-10.13
    Ao acusar o Sinédrio pelo Sacrifício de Cristo, São Pedro esclareceu como se dá a aquisição desse dom: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    E consagrando a importância da obediência, sob todos os aspectos, ele também explicou a finalidade desta unção, dizendo que somos "... santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2a
    Inspiradamente, Santo Estevão não acusa o Sinédrio de desobedecer a Deus, mas em específico às moções do Divino Paráclito: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam vossos pais, assim também procedeis vós! A qual dos Profetas não perseguiram vossos pais? Mataram os que prediziam a Vinda do Justo, do Qual vós agora tendes sido traidores e homicidas." At 7,51-52
    A Igreja, ao contrário, tem perseverado justamente por obedecer ao Santo Paráclito, como faziam São Paulo e São Timóteo quando estavam em missão: "Ao chegarem aos confins da Mísia, tencionavam seguir para a Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu." At 16,7
    Como no trecho acima, da carta aos romanos, onde sustenta que só pelo Espírito de Cristo nos é possível vencer o pecado, São Paulo fala nestes termos a São Tito sobre o amor de Deus: "E não por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de Sua Misericórdia, Ele salvou-nos mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo que nos foi concedido em profusão por meio de Cristo, Nosso Salvador." Tt 3,4.5-6
    São João Batista disse o mesmo sobre esse dom, ao testemunhar a unção de Deus sobre Jesus: "... porque Ele concede o Espírito sem medidas." Jo 3,34
    Pois, como afirma São Lucas, foi através do Divino Paráclito que Jesus instruiu os Apóstolos: "... todas as coisas que Jesus fez e ensinou, desde o início até o dia que foi arrebatado aos Céus, depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera." At 1,1b-2
    São João Evangelista também O tinha como parâmetro de obediência: "Eis Seu Mandamento: que creiamos no Nome do Seu Filho Jesus Cristo, e amemo-nos uns aos outros como Ele nos mandou. Quem observa Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,23-24
    Ele dá esses detalhes: "Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo Se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e agora já está no mundo. Vós, filhinhos, sois de Deus, e venceste-los, porque O que está em vós é maior que aquele que está no mundo. Eles são do mundo. É por isto que falam segundo o mundo, e o mundo ouve-os. Nós, porém, somos de Deus. Quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos n'Ele e Ele em nós, por Ele ter-nos dado Seu Espírito." 1 Jo 4,2-6.12b-3
    Aos coríntios, São Paulo d'Ele fala como a garantia da Eterna Aliança: "Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é o próprio Deus, que nos deu por penhor Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança: sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor." 2 Cor 5,4-6
    E discorrendo sobre o Mistério de Cristo aos efésios, fala de Seu Espírito como um selo: "N'Ele também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13-14
    Aliás, como ele havia dito aos próprios coríntios: "Ora, Quem confirma a nós e a vós em Cristo, e consagrou-nos, é Deus. Ele marcou-nos com Seu selo e deu aos nossos corações o penhor do Espírito." 2 Cor 1,21-22
    Porque sabia que só movidos por Ele temos a Comunhão: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    De fato, "... quem se une ao Senhor, com Ele torna-se um só Espírito." 1 Cor 6,17b
    E assim justificou aos filipenses o incondicional anúncio do Evangelho: "Pois sei que isto me resultará em Salvação, graças às vossas orações e ao socorro do Espírito de Jesus Cristo." Fl 1,19
    Garantia, enfim, aos gálatas: "A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: 'Aba!', Pai! Portanto já não és escravo, mas filho. E se és filho, então também és herdeiro de Deus." Gl 4,7
    Falando sobre a Sabedoria, o sagrado autor d'Ele deu este conceito: "Há nela, com efeito, um Espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que tudo pode, que de tudo cuida, que em todos os espíritos penetra: os inteligentes, os puros, os mais sutis." Sb 7,22-23
    Como inequívoco sinal de Deus para Israel, Ele manifestou-Se no Profeta Ezequiel: "'Filho do Homem', dizia-me, 'fica de pé, porque Eu te falo!' Enquanto Ele me falava, entrou o Espírito em mim, e fez-me ficar de pé; então ouvi Aquele que me falava. 'Filho do Homem', dizia-me, 'envio-te aos israelitas, a essa nação de rebeldes, revoltada contra Mim, a qual, do mesmo modo que seus pais, vem pecando contra Mim até este dia. É a esses filhos de dura testa e insensível coração que te envio, para dizer-lhes: 'Oráculo do Senhor Javé!' Quer te ouçam ou não (pois é uma indomável raça), hão de ficar sabendo que há um Profeta no meio deles!" Ez 2,2-5
    E Isaías profetizou-O como a marca do Cristo: "Um Renovo sairá do tronco de Jessé, um Rebento brotará de suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor." Is 11,1-2


    Extrato da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

    "É como está escrito: 'O que os olhos não viram, os ouvidos ouviram (Is 64,3), e o coração do homem não imaginou (Jr 3,16), isso Deus preparou para aqueles que O amam (Eclo 1,10).'
    Todavia, Deus no-las revelou por Seu Espírito, porque o Espírito tudo penetra, mesmo as profundezas de Deus. Pois quem conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus, ninguém as conhece senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais.
    Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. 'Quem instruiu o Espírito do Senhor ou que conselheiro Lhe deu lições (Is 40,13)?' Nós, porém, temos o pensamento de Cristo." 1 Cor 2,9-16


    "Mandai Vosso Espírito Santo!"

sábado, 21 de abril de 2018

Fé e Razão


    Recordando algumas palavras do amado Papa São João Paulo II, temos uma boa ideia de sua Sabedoria, assim como da lucidez de sua . Homem de profundas reflexões, ele seguia fielmente uma recomendação de São Pedro: "Estai sempre prontos a responder, para vossa defesa, a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,15
    Ele certamente não esquecia, como registrou São Paulo da atitude de seu colaborador Epafras, que a verdadeira fé só se alcança pela clareza de entendimento: "Ele não cessa de lutar por vós em suas orações, para que, numa perfeita e plena convicção, permaneçais plenamente submissos à divina vontade." Cl 4,12b
    Ou mesmo a crítica que este Apóstolo fazia à passional religiosidade dos judeus, que seguiam renegando o Cristo: "Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2
    Na fulgurante encíclica 'Fé e Razão', nosso amado Papa argumentou com singular harmonia sobre essas duas grandes capacidades humanas: "Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a Verdade e, em última análise, de conhecê-Lo, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à plena Verdade sobre Si próprio."
    Falando sobre a inteligência, ele registrou que a busca da Verdade chegou a "resultados que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento... uma espécie de patrimônio espiritual da humanidade." Por isso, a Igreja "considera a filosofia uma indispensável ajuda para aprofundar a compreensão da fé."
    Lamenta, no entanto, o atual estágio em que ela se encontra: "... a busca da Verdade última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o grande mérito de ter concentrado sua atenção sobre o homem...", mas "... parece ter-se esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se também a uma realidade que o transcende..."
    E apontou que o engano está em esquecer o ser humano e apegar-se a "... pragmáticos critérios baseados essencialmente sobre o dado experimental, na errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica..." Pois não há como separar o homem daquilo que ele conhece, como fez a filosofia atual, que, em erro ainda mais grave, "esquecendo-se de orientar sua pesquisa para o ser, concentrou a própria investigação sobre o conhecimento humano. Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se nas movediças areias de um ceticismo geral."
    Nesse conjunto de assuntos interdependentes, ele usou algumas palavras do Concílio Vaticano I para sustentar que precisamos do próprio Deus para compreender Seus mistérios: "... além das verdades que a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos forem revelados do Alto." E afirma: "A fé... conta com a sobrenatural ajuda da Graça..."
    Citou também a Carta de São Paulo aos Efésios, para tratar da patente realidade que é a Divina Revelação: "Aprouve a Deus, em Sua bondade e Sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da Sua vontade." Ef 1,9
    E completa: "Pela fé, o homem presta assentimento a este divino testemunho. Isto significa que reconhece plena e integralmente a Verdade de tudo o que foi revelado, porque é o próprio Deus que o garante..."
    Porque a fé é a mais elevada capacidade humana: "No acreditar é que a pessoa realiza o ato mais significativo da sua existência..."
    Lembra, contudo, que o ser humano não está sozinho nessa busca: "Em auxílio da razão, que procura a compreensão do mistério, também vêm os sinais presentes na Revelação... esses sinais dão maior força à razão, porque lhe permitem pesquisar dentro do mistério com seus próprios meios, de que ela justamente se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a transcender sua realidade de sinais para apreender o ulterior significado de que eles são portadores. Portanto, já há neles uma verdade escondida..."
    Nesse sentido, ele menciona uma bela síntese da Missão do Messias: "Cristo Senhor, 'na própria revelação do mistério do Pai e do Seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe sua sublime vocação' (Gaudium et spes), que é participar no mistério da trinitária vida de Deus." E, oportunamente, cita o livro dos Provérbios: "O Senhor é Quem dirige os passos do homem. Como poderá o homem compreender seu próprio destino?" Pr 20,24
    Pois uma vez iniciada à busca do divino conhecimento, o ser humano não pode confranger-se aos limites da razão: "Sente-se isso mesmo, por exemplo, nas palavras com que o livro dos Provérbios denuncia o cansaço provado ao tentar compreender os misteriosos desígnios de Deus: 'Eu fatiguei-me por Deus, estou esgotado por Deus, eis-me entregue.'" Pr 30,1
    Para que se chegue ao auto-conhecimento, então, que abre caminho à Revelação, ele viu e resumiu o processo em três passos: "A primeira regra é ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que não permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não se pode percorrer tal caminho com o orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de conquista pessoal; a terceira regra funda-se no 'temor de Deus', de Quem a razão deve reconhecer tanto a soberana transcendência como o solícito amor no governo do mundo."
    Sem isso, diz, seríamos apenas insensatos: "É que o insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas essenciais realidades..."
    E vai buscar as origens dos erros do racionalismo, ou seja, do excessivo e distorcido uso da razão na busca de tudo entender, que implica no arrogante despeito para com a fé: "O livro do Gênesis descreve de figurada maneira esta condição do homem, quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden, tendo no centro 'a árvore da ciência do bem e do mal' (Gn 2,17). O símbolo é claro: o homem não era capaz de discernir e decidir, por si só, aquilo que era bem e o que era mal, mas devia apelar-se a um princípio superior..." Esse erro foi o que nosso Santo chamou de a "desobediência original."
    E, ao falar da insuficiência da razão, nosso amado papa cita mais uma vez São Paulo, quando parafraseou Aristóteles: "Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que nada são, para anular as que são." 1 Cor 1,28


    Por fim, mencionou também o discurso do Areópago, onde o Apóstolo dos Gentios afirma o sentido da vida de todo ser humano, enquanto obra de Deus: "Fez a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós." At 17,26-27


    São Tomé Apóstolo, após teimar durante uma semana recusando-se a acreditar na Ressurreição de Jesus, ao vê-Lo diante de si e tocar Suas feridas, foi ainda mais longe e reconheceu Sua divindade: "Meu Senhor e Meu Deus!" Jo 20,28


    São João Paulo II, rogai por nós!

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A Paciência

    Uma das grandes qualidades do cristão deve ser a paciência. Vivemos uma longa espera, e algumas situações são tão impactantes que o chão parece se abrir sob nossos pés, ficamos como que flutuando no vazio, sentindo-nos ou totalmente impotentes, na iminência do desespero, ou, no extremo oposto, cegos de raiva, a ponto de agredir.


    A paciência de Jó, ainda que uma alegoria, tornou-se emblemática para todos que creem em Deus, embora este personagem também tenha chegado a momentos de tocante desespero, desejando a própria morte: "Que Deus consinta em esmagar-me, que deixe Suas mãos cortarem meus dias! Pois, que é minha força para que eu espere? Qual é meu fim, para portar-me com paciência? Será que tenho a fortaleza das pedras, e será de bronze minha carne?" Jó 6,9.11-12
    Inspiradamente, São Paulo colocou nesses termos nossa expectativa pela Redenção como filhos de Deus: "Pois sabemos que toda a Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo." Rm 8,22-23
    E não desenganava quanto à longa espera: "No que se refere à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa união com Ele, nós vos pedimos, irmãos: não deixeis tão facilmente transtornar vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação, ou carta atribuída a nós, afirmando que o Dia do Senhor está próximo." 2 Ts 2,1-2
    No entanto, ainda segundo o último Apóstolo, temos o amparo da , que em si traz a esperança: "Nós que esperamos o que não vemos, e é em paciência que o aguardamos." Rm 8,25
    E pela obediência e pela constante oração são-nos concedidos o conhecimento da Palavra, a Consolação e a Comunhão com o Pai, que nos permitem perseverar: "Por isso... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, em tudo confortados pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Essa paciência vem da certeza de que é Deus mesmo que tudo realiza por meio de Cristo: "N'Ele é que fomos escolhidos, predestinados segundo o desígnio d'Aquele que tudo realiza por um ato deliberado de Sua vontade, para servirmos à celebração de Sua Glória, nós que desde o começo voltamos nossas esperanças para Cristo." Ef 1,11-12
    Pois pelo Evangelho, e principalmente pelo Espírito de Deus sobre nós derramado, temos a Vida Eterna: "N'Ele (Cristo) também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor de Sua Glória." Ef 1,13-14
    Segundo São Pedro, a paciência é uma inalienável etapa do desenvolvimento espiritual, pelo qual se obtém a verdadeira e definitiva purificação do coração: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    É nesse compasso, portanto, entre a oração e o perfeito culto ao Santíssimo Sacramento, que devemos levar a vida. São Tiago Menor via no enfrentar das provações um exercício para alcançar essa virtude: "... sabendo que a prova de vossa fé produz a paciência." Tg 1,3
    E, de fato, pelas mãos de Deus tudo tem sua razão de ser: "Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma." Tg 1,4
    Pois assim viveram os antigos destinatários da promessa, que foram dignos de Deus: "Tomai, irmãos, por modelo de paciência e de coragem os Profetas, que falaram em Nome do Senhor." Tg 5,10
    Esse foi o exemplo dado por Tobit, pai de Tobias, qua ao fim acabou sendo curado: "Deus permitiu que lhe acontecesse essa prova para que sua paciência, como a do santo homem Jó, servisse de exemplo à posteridade. Como sempre havia temido a Deus desde sua infância, e guardado Seus Mandamentos, ele não se afligiu nem murmurou contra Deus por ter sido atingido pela cegueira. Mas perseverou firme no temor de Deus, e continuou a dar-Lhe graças em todos os dias de sua vida." Tb 2,12-14
    Bem como o dos próprios membros da Igreja, já ao tempo dos seguidores de São Paulo: "Desejamos, apenas, que ponhais todo empenho em guardar intata vossa esperança até o fim, e que, longe de tornardes-vos negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas." Hb 6,11-12


DEUS TAMBÉM ESPERA

    Contudo, não estamos sós nessa espera. Deus também aguarda com longanimidade por nossos gestos de efetiva caridade, seja material, seja espiritual. Esse proceder, como diz São Pedro aos fiéis, é prova de Sua intenção de a todos dar oportunidade de conversão: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    O sagrado autor do livro da Sabedoria diz ao Senhor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós tudo podeis. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    De fato, o tempo que nos é dado é de suma importância, pois, a despeito de quando se dará o Juízo Final, logo após a morte cada um de nós enfrentará o Juízo Particular: "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o Juízo..." Hb 9,27
    A São João Evangelista, por sinal, foi revelado que os perseverantes só serão premiados na hora realmente oportuna: "Porque guardaste a Palavra de Minha paciência, também Eu te guardarei da hora da provação, que está para sobrevir ao mundo inteiro, para provar os habitantes da terra." Ap 3,10
    E para momentos de provação, ele apontou os Santos como melhores exemplos: "Eis o momento para apelar para a paciência dos Santos, dos fiéis, aos Mandamentos de Deus e à fé em Jesus." Ap 14,12
    Foi, aliás, nessa condição de fidelidade e santidade que ele recebeu grandes revelações: "Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, forte voz como de trombeta, que dizia: 'O que vês, escreve-o num livro...'" Ap 1,9-11a
    São Paulo, no mesmo sentido, não com palavras mas atitudes, mostrou-nos os sinais para que reconhecêssemos um autêntico representante de Cristo: "Os sinais distintivos do verdadeiro Apóstolo realizaram-se em vosso meio através de uma paciência a toda prova..." 2 Cor 12,12
    Ele distinguia procederes no trato com cada fiel, porém pedia especificamente um deles para com todos: "Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos." 1 Ts 5,14
    Por isso, vai pedir o mesmo a São Timóteo: "Eu conjuro-te em presença de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por Sua aparição e por Seu Reino: prega a Palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir." 2 Tm 4,1-2
    Dá importantes instruções sobre essa batalha espiritual: "Rejeita as tolas e absurdas discussões, visto que geram contendas. Não convém a um servo do Senhor altercar. Bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres dos laços do Demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos." 2 Tm 2,23-26
    Em especial, dirigindo-se aos efésios, pedia pelos irmãos: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a Unidade do Espírito no vínculo da Paz." Ef 4,1-3
    Pediu também aos colossenses: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e mutuamente perdoai-vos, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós." Cl 3,12-13
    Pediu ainda maior amor para com os Sacerdotes da Igreja, escrevendo aos tessalonicenses: "Assim, pois, consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros, como já o fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e admoestar-vos. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,11-13
    E aos colossenses recomenda alguns cuidados a mais com quem não é da Igreja: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder devidamente a cada um." Cl 4,5-6
    Chegou a sintetizar uma bela fórmula, ao dirigir-se aos romanos: "Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração." Rm 12,12
    Pois via em sua própria história um grande exemplo da paciência de Jesus, sinalizando que qualquer um, independente do pecado que cometeu, pode alcançar a Salvação: "Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro. Se encontrei Misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda Sua longanimidade e eu servisse de exemplo para todos que, a seguir, n'Ele crerem, para a Vida Eterna." 1 Tm 1,15-16
    E deixou a simplicidade, o manso tocar do cotidiano como a grande marca de vida na fé: "Procurai viver com serenidade, ocupando-vos de vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado." 1 Ts 4,11
    Sobre esse aspecto, no livro dos Provérbios encontramos uma pérola da Sabedoria. Não teria sido esse o exemplo do Cristo? Diz assim: "Mais vale a paciência que o heroísmo, mais vale quem domina o coração que aquele que conquista uma cidade." Pr 16,32
    Sem dúvida, na grande maioria dos casos, nem a ira nem a violência são as reações que Deus espera de nós, como diz São Tiago menor: "Já o sabeis, meus diletíssimos irmãos: todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para irar-se. Porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus." Tg 1,19-20
    São Pedro detalha: "Caríssimos: se suportais com paciência aquilo que sofreis por terdes feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus. De fato, para isto fostes chamados. Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais Seus passos. Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi encontrada em Sua boca. Quando injuriado, não retribuía as injúrias; atormentado, não ameaçava; antes, colocava Sua causa nas mãos d'Aquele que julga com justiça." 1 Pd 2,19.21-23
    Realmente, Jesus ensinou-nos a resignação perante a vontade de Deus: "Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas preocupações próprias. A cada dia basta seu mal." Mt 6,34
    E muito mais que resignação. Tomando a paciência do próprio Pai como exemplo, falou de amor aos inimigos: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,43-48
    Dias antes de morrer, falando das perseguições que sofreriam os primeiros cristãos, da destruição de Jerusalém, da violência, das incompreensões do mundo materialista e das tribulações do fim dos tempos, Ele deixou uma simples receita, que deve ser uma constante em nosso comportamento: "Na vossa paciência, possuí vossas almas." Lc 21,19
    Também foi o que recomendou São João Evangelista, ao falar dos poderes do inimigo em tempos especialmente difíceis: "Foi-lhe dado, também, fazer guerra aos Santos e vencê-los. Recebeu autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação, e hão de adorá-la todos habitantes da terra, cujos nomes não estão escritos desde a origem do mundo no livro da Vida do Cordeiro Imolado. Quem tiver ouvidos, ouça! Quem procura prender, será preso. Quem matar pela espada, pela espada deve ser morto. Esta é a ocasião para a constância e a confiança dos Santos!" Ap 13,7-10
    Poias mesmo alertando para tantas e tão grandes contrariedades, inclusive Sua própria crucificação, Jesus garantiu: "Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Fica, portanto, a lembrança do temor dos Apóstolos durante a tempestade no Mar da Galileia. Navegamos na frágil barca de Pedro, que é a Igreja, mas, por mais difícil que seja a situação, não podemos desesperar-nos: estamos com Jesus. E mesmo que Ele pareça dormir, devemos estar certos que Ele detém o controle de tudo: "De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a Ele e acordaram-nO, dizendo: 'Senhor, salva-nos! Nós perecemos!' E Jesus perguntou: 'Por que este medo, gente de pouca fé?' Então, levantando-Se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: 'Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?'" Mt 8,24-27

    "Esperamos, ó Cristo, Vossa vinda gloriosa!"

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Santo Expedito


    Foi senador romano e príncipe-cônsul da Armênia, revoltosa província do Império Romano que hoje corresponde à parte do norte do Irã e do sul da Turquia. Foi comandante-chefe da famosa XII Legião Romana, muito especial companhia, conhecida pelo apelido de 'a fulminante' pela proeza que realizou sob o comando do imperador Marco Aurélio, numa batalha contra os germanos. Ser comandante dessa legião era uma grande honraria.
    Foi enviado pelo imperador Diocleciano ao distrito de Metilene, na região da Capadócia, que era parte da província da Armênia, para dar combate aos violentos ataques dos bárbaros asiáticos. A esse tempo, esta legião já era formada por uma maioria de soldados cristãos. Expedito, que significa enviado, tornou-se o apelido do sempre disposto e prestativo comandante, logo após se converter ao Catolicismo.
    Como chefe de exército, levava uma vida de honrarias, às vezes entregando-se à devassidão, e seu maior sonho era um dia voltar triunfante a Roma, como tantos outros generais que se tronaram césares. Mas a de seus soldados e o Evangelho trataram de arrebatar seu coração, que vez e outra já se dava conta de quão fúteis são os valores mundanos. Tudo mera vaidade.
    No dia em que definitivamente resolveu abraçar a fé em Jesus, um corvo apareceu-lhe gritando: 'Crás! Crás!', que em latim significa: 'Amanhã! Amanhã!' Percebendo aí mais uma tentação do Maligno, e fazendo jus ao seu diligente espírito, ele pisou o corvo e exclamou: 'Hoje!'


    Sua conversão foi motivo de grande alegria para seus soldados, que mesmo em campanha sempre achavam um modo de cultuar e divulgar a fé em Cristo. A transformação de Santo Expedito foi tão profunda, e sua santidade era tão evidente, que ele mais parecia um sacerdote. Nem sequer lembrava um comandante-chefe romano, muito menos da famosa XII Legião, temida por sua bravura.
    Logo as relações com os asiáticos tornaram-se mais amistosas naquelas fronteiras. O povo que vivia sob sua jurisdição viu suavizar o tratamento recebido dos romanos, e a coleta de impostos passou a respeitar limitações humanas. E por sua sincera entrega às orações, não demorou e grandes milagres começaram a acontecer por sua intercessão. Acima de tudo, todos nele sentiam sinais da presença de Deus.


    Mas o imperador, que inicialmente era tolerante com os cristãos, entre 303 e 311 empreendeu contra a Igreja, fosse clero ou fiéis, a maior campanha de perseguição e extermínio de todo período do Império Romano. Como cultuava rituais pagãos, via o crescimento do cristianismo como uma fatal ameaça às antigas tradições romanas. E Santo Expedito, já conhecido por sua exemplar devoção, franco candidato a general, talvez mesmo a césar, tornou-se o grande foco do ódio de Diocleciano. Chamado à sua presença, e como corajosamente não renegava sua fé, foi flagelado e decapitado.
    Sua história, porém, não foi esquecida pelo povo dos lugares onde sua companhia atuou, muito menos pelos soldados que formavam sua legião. Assim, logo após o fim das perseguições, que se deu em 313 pelo Édito de Milão, foi popularmente aclamado como mártir em Roma.
    É o padroeiro dos militares e das causas urgentes. Santo sempre de prontidão e rápido, a inscrição 'hoje', na Cruz que ele empunha, continua sendo sua palavra de ordem. E ante a eminência de nossa morte, ou mesmo da definitiva Volta do Cristo, é luminoso e prudente sinal da urgência da conversão para todos que vivem afastados de Deus.


    Sua medalha é uma antiquíssima tradição pelo mundo.


    Um fragmento de osso é venerado como relíquia sua na Igreja de São Francisco Frade, em Fargo, Dakota do Norte, Estados Unidos.


    Santo Expedito, rogai por nós!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cristo, o Templo de Jerusalém e a Igreja


    A relação entre o Cristo, o Tabernáculo, o Templo de Jerusalém e a Igreja em muito excede nosso entendimento. Sem dúvida, as Tábuas da Lei, as Escrituras e sobremaneira o Evangelho compõem um mesmo e especialíssimo patrimônio: é a Palavra de Deus, a ser transmitida, mas também é o próprio Verbo Encarnado.
    Desde a História do Patriarcas, Deus havia sinalizado que habitaria entre nós, inicialmente em Betel, uma cidade da antiga Samaria: "Despertando de seu sono, Jacó exclamou: 'Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!' E cheio de pavor, ajuntou: 'Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus. Aqui é a Porta do Céu.'" Gn 28,16-17
    Quanto às Tábuas da Lei, entregues por Deus a Moisés, eram guardadas dentro da Arca da Aliança, e esta era mantida no Tabernáculo, ambos pessoalmente solicitados por Deus a este Profeta. E de cima da Arca, Ele falava-lhe: "Far-Me-ão um Santuário e Eu habitarei no meio deles. Construireis o Tabernáculo e todo seu mobiliário exatamente segundo o modelo que vou mostrar-vos. Farão uma Arca de madeira de acácia; seu comprimento será de dois côvados e meio, sua largura de um côvado e meio, e sua altura de um côvado e meio. Tu a recobrirás de ouro puro por dentro, e farás por fora, em volta dela, uma bordadura de ouro. Porás na Arca o testemunho que Eu te der. Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa... Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a Arca da Aliança, que te darei todas Minhas ordens aos israelitas." Ex 25,8-11.16.18a.22
    O Tabernáculo, uma tenda especial para servir de abrigo à Arca da Aliança, também foi detalhadamente descrito: "Farás o Tabernáculo com dez cortinas de linho fino retorcido de púrpura violeta, púrpura escarlate e de carmesim, sobre as quais alguns querubins serão artisticamente bordados." Ex 26,1
    Dentro do Tabernáculo, a Arca ficava atrás de um véu: "Colocarás o véu debaixo dos colchetes, e é ali, atrás do véu, que colocarás a Arca da Aliança. Esse véu servirá para separar o ‘Santo’ do ‘Santo dos Santos’. É no Santo dos Santos que colocarás a tampa sobre a Arca da Aliança." Ex 26,33-34
    O Tabernáculo foi encomendado para ser digno da presença de Deus: "Farás para a entrada da Tenda um véu de púrpura violeta, de escarlate púrpura, de carmesim e de linho retorcido, artisticamente bordado. E farás, para suspender aí esse véu, cinco colunas de acácia recobertas de ouro, munidas de colchetes de ouro; e para essas colunas fundirás cinco pedestais de bronze." Ex 26,36-37
    Os ritos do Tabernáculo e da Tenda da Reunião também foram indicados por Deus: "Na Tenda de Reunião, diante do véu que oculta a Arca da Aliança, Aarão e seus filhos prepararão esse óleo para que ele se queime desde a tarde até pela manhã em presença do Senhor. Essa é uma perpétua lei para os israelitas e suas vindouras gerações." Ex 27,21
    Também aí eram feitos os sacrifícios dos cordeiros: "Este holocausto será perpétuo e será oferecido, em todas futuras gerações, à entrada da Tenda de Reunião, diante do Senhor, onde virei a vós, para falar contigo. É nesse lugar que darei entrevista aos filhos de Israel, e ele será consagrado pela Minha Glória. Consagrarei a Tenda de Reunião e o Altar; consagrarei igualmente Aarão e seus filhos, para que sejam sacerdotes a Meu serviço. Habitarei no meio dos israelitas e serei Seu Deus. Saberão então que Eu, o Senhor, sou Seu Deus que os tirou do Egito para habitar entre eles, Eu, o Senhor Seu Deus." Ex 29,42b-46
    As Tábuas da Lei, então, foram pessoalmente escritas por Deus: "O Senhor disse a Moisés: 'Sobe para Mim no monte. Ali ficarás para que Eu te dê as Tábuas de pedra, a Lei e as ordenações que escrevi para sua instrução.' Moisés levantou-se com Josué, seu auxiliar, e subiu o monte de Deus." Ex 24,12-13
    Mas o povo, antes que Moisés retornasse com as Tábuas, caiu em tentação: "Moisés desceu da montanha segurando nas mãos as duas Tábuas da Lei, que estavam escritas dos dois lados, sobre uma e outra face. Eram obra de Deus, e a Escritura nelas gravada era a Escritura de Deus. Ouvindo o barulho que o povo fazia com suas aclamações, Josué disse a Moisés: 'Há gritos de guerra no acampamento!' 'Não', respondeu Moisés, 'não são gritos de vitória, nem gritos de derrota: o que ouço são cantos.' Aproximando-se do acampamento, viu o bezerro e as danças. Sua cólera inflamou-se, arrojou de suas mãos as Tábuas e quebrou-as ao pé da montanha. Em seguida, tomando o bezerro que tinham feito, queimou-o e esmagou-o até reduzi-lo a pó, que lançou na água e a deu de beber aos israelitas. Moisés disse a Aarão: 'Que te fez este povo para que tenhas atraído sobre ele um tão grande pecado?' Aarão respondeu: 'Não se irrite o meu senhor. Tu mesmo sabes o quanto este povo é inclinado ao mal. Eles disseram-me: 'Faze-nos um deus que marche à nossa frente, porque este Moisés, que nos tirou do Egito, não sabemos o que é feito dele.' Eu disse-lhes: 'Todos aqueles que têm ouro, despojem-se dele! E entregaram-mo: joguei-o ao fogo e saiu esse bezerro.'" Ex 32,15-24
    Moisés, porém, tratou de erguer a Tenda da Reunião, onde ele conversava com Deus e o povo podia consultar-se: "Moisés foi levantar a Tenda a alguma distância fora do acampamento. E chamou-a Tenda de Reunião. Quem queria consultar o Senhor, dirigia-se à Tenda de Reunião, fora do acampamento. Quando Moisés dirigia-se à Tenda, todo mundo levantava-se, cada um diante da entrada de sua tenda, para segui-lo com os olhos até que entrasse na Tenda. E logo que ele acabava de entrar, a coluna de nuvem descia e punha-se à entrada da Tenda, e o Senhor entretinha-Se com Moisés. À vista da coluna de nuvem, todo o povo, em pé à entrada de suas tendas, prostrava-se no mesmo lugar. O Senhor entretinha-Se com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo. Voltava depois Moisés ao acampamento, mas seu ajudante, o jovem Josué, filho de Nun, não se apartava do interior da Tenda." Ex 33,7-11
    E dada a Misericórdia de Deus por Seu povo, acabou recebendo as novas Tábuas: "O Senhor disse a Moisés: 'Talha duas Tábuas de pedra semelhantes às primeiras: escreverei nelas as Palavras que se encontravam nas primeiras Tábuas que quebraste. Estejas pronto pela manhã para subir ao monte Sinai. apresentar-te-ás diante de Mim no cume do monte. Ninguém subirá contigo, e ninguém se mostre em parte alguma do monte: não haja nem mesmo ovelhas ou bois pastando em seus flancos.' Moisés ficou junto do Senhor quarenta dias e quarenta noites, sem comer pão nem beber água. E o Senhor escreveu nas Tábuas o texto da Aliança, as Dez Palavras. Moisés desceu do monte Sinai, tendo nas mãos as duas Tábuas da Lei. Descendo do monte, Moisés não sabia que a pele de seu rosto se tornara brilhante, durante sua conversa com o Senhor." Ex 34,1-3.28-29
    Convidou o povo, por fim, para construir o Tabernáculo, como Deus havia prescrito: "Venham todos aqueles dentre vós que são hábeis, e executem tudo que o Senhor ordenou: o Tabernáculo, sua Tenda, sua coberta, suas argolas, suas tábuas, suas travessas, suas colunas e seus pedestais; a Arca e seus varais; a tampa e o véu de separação..." Ex 35,10-12
    E assim iniciaram-se os ritos: "O Senhor disse a Moisés: 'No primeiro dia do primeiro mês, levantarás o Tabernáculo, a Tenda de Reunião. Porás nele a Arca da Aliança, e a ocultarás com o véu." Ex 40,1-2
    Deus indicou também uma das doze tribos de Israel, em especial, para cuidar do Tabernáculo: "O Senhor havia dito, com efeito, a Moisés: 'Não farás o recenseamento da tribo de Levi, nem porás a soma deles com os filhos de Israel. Confia-lhes o cuidado do Tabernáculo do Testemunho, de todos seus utensílios e de tudo que lhe pertence. Levarão o Tabernáculo e todos seus utensílios, farão seu serviço e acamparão em volta do Tabernáculo. Quando se tiver de partir, os levitas desmontarão o Tabernáculo, e o levantarão quando se tiver de acampar. O estrangeiro que se aproximar dele será punido de morte. Os israelitas acamparão cada um em seu respectivo acampamento e cada um perto de sua bandeira, segundo suas turmas. Quanto aos levitas, porém, acamparão em torno do Tabernáculo do Testemunho, para que não suceda explodir Minha cólera contra a assembléia dos israelitas; ademais, os levitas terão a guarda do Tabernáculo do Testemunho.'" Nm 1,48-53
    Após a morte de Moisés, coube a Josué conduzir a Arca da Aliança enquanto assentava as doze tribos: "Toda a assembléia dos filhos de Israel reuniu-se em Silo, onde levantaram a Tenda de Reunião; a terra estava-lhes sujeita. Havia sete tribos entre os israelitas que ainda não tinham recebido sua parte. Josué disse aos israelitas: 'Até quando tardareis a tomar posse da terra que vos deu o Senhor, Deus de vossos pais?'" Js 18,1-3
    Os levitas empenharam-se, pois, em seus serviços, incluindo os cânticos, como determinou o renomado rei ao instalar a Arca no Monte Sião, em Jerusalém: "Davi disse aos chefes dos levitas que estabelecessem seus irmãos como cantores com instrumentos de música, cítaras, harpas e címbalos, para que sons vibrantes e alegres se fizessem ouvir. Todo Israel, ao fazer subir a Arca da Aliança do Senhor, soltava brados de júbilo, ressoando trombetas, trompas e címbalos, retinindo cítaras e harpas." 1 Cr 15,16.28
     E assim cuidaram os levitas através dos séculos: "Eles cumpriram suas funções de cantores diante do Tabernáculo da Tenda de Reunião até que Salomão construiu o Templo do Senhor em Jerusalém. Faziam seu serviço segundo seu regulamento." 1 Cro 6,17
    Aliás, foi de Davi a ideia de edificar um Templo ao Senhor, após estabelecer-se em Jerusalém: "Quando Davi instalou-se em sua casa, disse ao Profeta Natã: 'Eis que moro numa casa de cedro e a Arca da Aliança do Senhor está debaixo de uma Tenda.'" 1 Cro 17,1
    Mas Deus mandou que Natã desse este recado a este rei, que prefigurativamente realizou-se através de seu filho Salomão, mas apenas em Jesus, e pela Igreja, iria consolidar-se: "Vai e dize a Davi, Meu servo: eis o que diz o Senhor: 'Não és tu que Me construirás a Casa em que habitarei. Quando teus dias acabarem-se e tiveres ido juntar-te a teus pais, levantarei tua posteridade após ti, num de teus filhos, e firmarei Seu Reino. É Ele que Me construirá uma Casa e firmarei Seu Trono para sempre. Serei para Ele um Pai, e Ele será para Mim um Filho. E nunca retirarei d'Ele Meu favor como retirei daquele que reinou antes de ti. Eu O estabelecerei na Minha Casa e no Meu Reino para sempre, e Seu Trono será firme por todos os séculos.'" 1 Cro 17,4.11.14
    E veio o tempo em que Salomão, um dos filhos de Davi, viu o oportuno momento: "No ano quatrocentos e oitenta depois da saída dos filhos de Israel do Egito, Salomão, no quarto ano de seu reinado, no mês de Ziv, que é o segundo mês, empreendeu a construção do Templo do Senhor." 1 Rs 6,1
    Assim a Arca da Aliança, que continha as Tábuas da Lei, foi conduzida do Monte Sião até ele: "Então convocou Salomão junto de si em Jerusalém os anciãos de Israel e todos chefes das tribos e chefes das famílias israelitas, para irem buscar na cidade de Davi, em Sião, a Arca da Aliança do Senhor. Todos os israelitas reuniram-se junto ao rei Salomão no mês de Etanim, que é o sétimo, durante a festa. Vieram todos anciãos de Israel, e os sacerdotes tomaram a Arca do Senhor. Levaram-na, assim como a Tenda de Reunião e todos sagrados utensílios que havia no Tabernáculo: foram os sacerdotes e os levitas que os levaram. O rei Salomão e toda a assembléia de Israel reunida junto dele conservavam-se diante da Arca. Sacrificavam tão grande quantidade de ovelhas e bois que não se podia contar. Os sacerdotes levaram a Arca da Aliança do Senhor para seu lugar, no santuário do Templo, no Santo dos Santos, debaixo das asas dos querubins. Pois os querubins estendiam suas asas sobre o lugar da Arca, e cobriam por cima a Arca e seus varais. Estes varais eram de tal forma compridos, que se podiam ver suas extremidades do lugar Santo, diante do santuário, mas não de fora, e ali ficaram até o dia de hoje. Na Arca só havia as duas Tábuas de pedra que Moisés ali depusera no monte Horeb, quando o Senhor fez Aliança com os israelitas, depois que saíram da terra do Egito. Quando os sacerdotes saíram do lugar Santo, a nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam ali ficar para exercer as funções de seu ministério; porque a Glória do Senhor enchia o Templo do Senhor. Então disse Salomão: 'O Senhor declarou que habitaria a escura Nuvem. Por isso, edifiquei uma Casa para Vossa residência, um lugar onde habitareis para sempre.'" 1 Rs 8,1-13
    Era diante do Templo que o povo de Jerusalém penitenciava-se, como quando temeram as ameaças de saque e profanação por parte de Holofernes, o general de Nabucodonosor, rei da Babilônia: "Os que viviam em Jerusalém, inclusive mulheres e crianças, prostraram-se diante do Templo, com cinzas na cabeça, e estenderam as mãos diante do Senhor. O povo jejuou por dias seguidos em toda a Judeia e em Jerusalém, diante do Templo do Senhor Todo-poderoso. O sumo sacerdote Joaquim, junto a todos sacerdotes e ministros do culto do Senhor, ofereciam o holocausto diário, as ofertas e os dons voluntários do povo. Vestidos com panos de saco e com cinza sobre os turbantes..." Jt 4,11.13b-15a
    Mas pela fúria de Nabucodonor, rei da Babilônia, o Templo erguido por Salomão acabou sendo destruído: "No sétimo dia do quinto mês, no décimo nono ano do reinado de Nabucodonosor, rei de Babilônia, Nabuzardã, chefe da guarda e servo do rei de Babilônia, entrou em Jerusalém. Incendiou o Templo do Senhor, o palácio real e todas as casas da cidade. E as tropas que acompanhavam o chefe da guarda demoliram o muro que cercava Jerusalém. Nabuzardã, chefe da guarda, deportou para Babilônia o que restava da população da cidade, os que já se tinham rendido ao rei de Babilônia e todo povo que restava. O chefe da guarda só deixou ali alguns pobres, como viticultores e agricultores. Os caldeus quebraram as colunas de bronze do Templo do Senhor, os pedestais e o mar de bronze que estavam no Templo, e levaram o metal para Babilônia. Tomaram também os cinzeiros, as pás, as facas, os vasos e todos objetos de bronze que se usavam no culto. O chefe da guarda levou também os turíbulos e os vasos, tudo quanto era de ouro, e tudo quanto era de prata. Quanto às duas colunas, ao mar e aos pedestais que Salomão mandara fazer para o Templo do Senhor, não se poderia calcular o peso do bronze de todos esses objetos. Uma das colunas tinha dezoito côvados de altura, e sobre ela descansava um capitel de bronze de três côvados; em volta do capitel da coluna havia uma rede e romãs, tudo de bronze. A segunda coluna era semelhante, com sua rede. O chefe da guarda levou também o sumo sacerdote Saraías, Sofonias, segundo sacerdote, e os três porteiros. Tomou na cidade um eunuco que era encarregado de comandar os homens de guerra, cinco homens do pessoal do rei que encontrou na cidade, e o escriba, chefe do exército, encarregado do recrutamento na terra, assim como sessenta homens da terra, que foram encontrados na cidade. Nabuzardã, chefe da guarda, prendeu-os e levou-os ao rei de Babilônia em Rebla, e este mandou executá-los em Rebla, na terra de Emat. Assim foi Judá deportado para longe de sua terra. Quanto ao resto da população que Nabucodonosor tinha deixado na terra de Judá, ele entregou-a ao governo de Godolias, filho de Aicão, filho de Safã." 2 Rs 25,8-22
    Era um castigo previsto por Deus: "Assim se cumpria a profecia que o Senhor tinha dado pela boca de Jeremias: 'Até que a terra desfrutasse seus sábados', pois a terra ficou inculta durante todo esse período de desolação, até que se completaram setenta anos." 2 Cro 36,21
    Deus acusava Israel de abandonar Sua Lei em nome de deleites e recompensas de religiões estrangeiras, como falou através do Profeta Ezequiel: "Por Minha Vida! - Oráculo do Senhor Javé - já que manchaste Meu Santuário com todas tuas infâmias e todas tuas abominações, Eu também te arrasarei sem nenhum gesto de consideração e piedade." Ez 5,11
    Ele arrebatou e em visões levou este Profeta a Jerusalém: "E Ele disse-me: 'Filho do homem, ergue os olhos para o norte.' Levantei os olhos para o norte e vi ao norte da porta do altar, à entrada, o ídolo que provoca o ciúme do Senhor. 'Filho do homem', disse-me, 'vês tu a abominação que praticam? Como eles procedem na Casa de Israel para que Eu Me afaste do Meu Santuário? Verás, todavia, coisas muito mais graves.'" Ez 8,5-6
    E Sua Glória, que preenchia o Templo, irá deixá-lo, para ser preenchido por uma nuvem de obscuridade: "... estavam os querubins à direita do Templo, e a nuvem enchia o átrio interior. A Glória do Senhor elevou-se acima dos querubins até a soleira do Templo, e enquanto o esplendor da Glória do Senhor enchia o átrio, a nuvem invadia o Templo. De repente, a Glória do Senhor deixou a soleira do Templo e pousou sobre os querubins. Estes desdobraram as asas, e eu vi-os alçarem-se da terra com as rodas ao lado, para partirem. Eles pararam à entrada da porta oriental do Templo, dominados pela Glória do Senhor. Estavam lá os seres vivos que eu tinha visto debaixo do Deus de Israel, às margens do Cobar, e reconheci os querubins..." Ez 10,3b-4.18-21
    Mas nos tempos de Esdras cumpriram-se as profecias sobre o fim da escravidão da Babilônia, quando ela caiu no domínio de Ciro: "No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a profecia posta pelo Senhor na boca de Jeremias, o Senhor suscitou o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual mandou fazer em todo seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: 'Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do Céu, deu-me todos os reinos da terra, e encarregou-me de construir-lhe um Templo em Jerusalém, que fica na terra de Judá. Quem é dentre vós pertencente ao Seu povo, que Seu Deus o acompanhe, suba a Jerusalém que fica na terra de Judá e construa o Templo do Senhor, Deus de Israel, o Deus que reside em Jerusalém. Que todos sobreviventes de Judá, onde quer que residam, sejam providos pelos habitantes da localidade onde se encontrarem, de prata, ouro, cereais e gado, bem como de oferendas voluntárias para o Templo do Deus que reside em Jerusalém.' Então os chefes de família de Judá e de Benjamim, bem como todos sacerdotes e levitas, principalmente todos aqueles cujo espírito Deus havia tocado, prepararam-se para ir reedificar o Templo do Senhor em Jerusalém. Todos que habitavam pelas redondezas ajudaram-nos, dando-lhes prata, ouro, bens diversos, gado, cereais e coisas preciosas, além das outras ofertas voluntárias. O rei Ciro entregou também os utensílios que Nabucodonosor trouxera do Templo do Senhor em Jerusalém, e colocara no templo de seu deus." Es 1,1-7
    E sob o comando de Zorobabel, com a unção dos Profetas de então, teve início a reconstrução: "Tendo chegado o sétimo mês, e estando os filhos de Israel instalados em suas cidades, todo o povo reuniu-se como um só homem em Jerusalém. Então Josué, filho de Josedec, e seus irmãos sacerdotes, bem como Zorobabel, filho de Salatiel, e seus irmãos principiaram a reconstrução do Altar do Deus de Israel e ofereceram holocaustos, como a Lei de Moisés, homem de Deus, prescrevia. Reconstruíram o altar sobre as antigas bases, porque tinham medo dos habitantes vizinhos, e ofereceram holocaustos ao Senhor pela manhã e pela tarde. Ora, o Profeta Ageu e o Profeta Zacarias, filho de Ado, profetizaram aos judeus que estavam em Judá e em Jerusalém, em Nome do Deus de Israel que estava com eles. Então Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Josedec, retomaram a reconstrução do Templo de Deus em Jerusalém com a ajuda e a assistência dos Profetas de Deus." Es 3,1-3;5,1-2
    Diante de enormes dificuldades, Deus promete fartura falando pelo Profeta Ageu: "'Haverá alguém entre vós que tenha visto esta Casa em seu primeiro esplendor? E em que estado a vedes agora! Tal como está, não parece ela insignificante aos vossos olhos? Todavia, ó Zorobabel, tem ânimo', diz o Senhor. 'Coragem, Josué, filho de Josedec, sumo sacerdote! Coragem todos vós, habitantes da terra', diz o Senhor. 'Mãos à obra! Eu estou convosco' - Oráculo do Senhor dos Exércitos. 'O esplendor desta Casa sobrepujará o da primeira' - Oráculo do Senhor dos Exércitos. 'Sim, farei reinar a Paz neste lugar', diz o Senhor dos Exércitos. 'Prestai toda atenção no que vai acontecer a partir deste dia, a partir do vigésimo quarto dia do nono mês, dia em que foram lançadas as pedras de fundamento da Casa do Senhor.'" Ag 2,3-4.9-10a.18a-22
    Era uma promessa feita ainda no tempo do Profeta Ezequiel, pois durante o período do novo Templo Cristo edificaria a Igreja: "Fui então conduzido ao pórtico oriental, e eis que a Glória do Deus de Israel chegava do oriente, com ruído semelhante ao ruído das muitas águas, enquanto a terra resplandecia com seu clarão. A visão que eu então contemplava recordava-me a que me havia aparecido quando eu tinha vindo para a destruição da cidade, e a que me havia aparecido nas margens do Cobar. Caí com a face em terra. A Glória do Senhor penetrou no Templo pela porta oriental. O espírito levou-me e transportou-me ao átrio interior: eis que o Templo estava cheio do resplendor do Senhor. Ouvi, então, que alguém me falava do interior do Templo, enquanto o homem se conservava (sempre) a meu lado. 'Filho do homem', disse-me a voz, 'aqui é o lugar do Meu trono, o lugar onde pus a planta de Meus pés, Minha definitiva morada entre os israelitas. De hoje em diante, nem o povo de Israel, nem seus reis profanarão mais Meu Santo Nome pelas suas fornicações nem pelos cadáveres de seus reis, seus lugares altos, pondo seu limiar junto ao Meu limiar, e sua porta junto à Minha porta, não havendo entre Mim e eles senão um muro. É assim que manchavam Meu Santo Nome pelas abominações que cometiam. Por isso, exterminei-os em minha cólera. Mas, doravante, eles afastarão de Mim suas prostituições e os cadáveres de seus reis, e Eu estabelecerei definitivamente Minha Morada entre eles." Ez 43,1-9
    Seu projeto também foi determinado por Deus: "No ano vinte e cinco de nossa deportação, no começo do ano, no décimo mês, catorze anos após a queda da cidade, naquele mesmo dia, a mão do Senhor veio sobre mim. Deus transportou-me, no curso das visões divinas, à terra de Israel. Ele colocou-me nos cimos de uma montanha muito elevada, sobre a qual pareciam elevar-se, do lado do meio-dia, as construções de uma cidade. Conduzido ao lugar, divisei um homem que parecia ser de bronze, levando nas mãos uma corda de linho e uma cana de agrimensor. Ele permanecia de pé à porta. Esse homem dirigiu-me as seguintes palavras: 'Filho do homem, volta teus olhos, escuta com teus ouvidos, e presta bem atenção a tudo quanto te vou mostrar, porque é para esse espetáculo que foste transportado até aqui. Darás conhecimento aos israelitas de tudo que te vou mostrar.' Um muro exterior formava o recinto do Templo. O homem tinha na mão uma cana de agrimensor, de seis côvados (cada côvado tendo um palmo a mais que o côvado corrente). Ele mediu a largura da construção - uma cana - e a altura - também uma cana." Ez 40,1-5
    Séculos depois, deu-se mais um inesquecível episódio: Heliodoro, enviado pelo rei da Ásia para confiscar os tesouros do Templo de Jerusalém, foi confrontado por um Cavaleiro que lembraria a imagem do próprio Jesus no Último Dia: "Diante da profanação que ameaçava o Templo, o povo se precipitava em multidão para fora das casas, a fim de se ajuntarem à prece comum. Causava dó observar toda confusão desse povo abatido e a angústia em que jazia o sumo sacerdote. Enquanto suplicavam assim a proteção do Todo-Poderoso para que conservasse invioláveis os depósitos que lhes haviam sido confiados, Heliodoro executava seu intento. Já se achava ali, com seus homens armados, quando o Senhor dos espíritos e Soberano detentor de todo poder suscitou uma tal aparição que todos que haviam ousado vir ali desfaleceram de espanto, atingidos de pavor ante a majestade de Deus. Viram eles, montado num cavalo ricamente ajaezado e guiado furiosamente, um Cavaleiro de terrível aspecto, que lançava em Heliodoro as patas dianteiras do cavalo. Aquele que nele vinha montado parecia ter uma armadura de ouro. Ao mesmo tempo, apareceram-lhe dois outros jovens, cheios de extraordinária força, fulgurantes de luz, ricamente vestidos; colocando-se dos dois lados, puseram-se eles a açoitá-lo sem interrupção e descarregaram sobre ele uma saraivada de golpes. Logo atirado por terra, Heliodoro foi envolvido por espessas trevas; seus companheiros ergueram-no e depositaram-no numa liteira. E ele, que vinha para penetrar no mencionado tesouro com numerosa escolta e guardas pessoais, incapaz de ajudar a si mesmo, foi levado por pessoas que reconheciam o manifesto poder de Deus." 2 Mac 3,18.21-28


MARIA, A DEFINITIVA ARCA DA ALIANÇA 

    Desde poucas décadas após a passagem de Jesus, porém, como registra o Livro do Apocalipse, o Templo de Deus só foi visto no Céu, e não se tem mais notícia da Arca da Aliança. Pois a definitiva Arca da Aliança, receptáculo do Verbo feito carne, é Maria: "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, no Seu Templo, a Arca do Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Em seguida apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz." Ap 11,19;12,1-2
    Porque Jesus é a Nova Tábua da Lei, o esplendor a Palavra de Deus, como afirma São João Evangelista: "E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós, e vimos Sua Glória, a Glória que o único Filho recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,14
    Segundo os seguidores da tradição de São Paulo, de fato, pelas promessas de Deus feitas desde Abraão até São João Batista, o papel das Escrituras era levar-nos a Jesus, Verbo feito carne: "Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: 'aos seus descendentes, como se fossem muitos, mas fala de um só: e à tua descendência (Gn 12,7)', isto é, a Cristo. Afirmo, portanto: a Lei, que veio quatrocentos e trinta anos mais tarde, não pode anular o Testamento feito por Deus em boa e devida forma e não pode tornar sem efeito a promessa. Porque, se a herança se obtivesse pela Lei, já não proviria da promessa. Ora, pela promessa é que Deus deu seu favor a Abraão. Então que é a Lei? É um complemento ajuntado em vista das transgressões, até que viesse a descendência a Quem fora feita a promessa; foi promulgada por anjos, passando por um intermediário. Assim a Lei tornou-se-nos um pedagogo encarregado de levar-nos a Cristo, para sermos justificados pela ." Gl 3,16-19.24
    Referindo-Se a manifestação de São João Batista, Seu arauto, Jesus mesmo afirmou: "Porque os Profetas e a Lei tiveram a Palavra até João." Mt 11,13
    E nas palavras do Arcanjo Gabriel, em conformidade com a promessa de Deus feita através do Profeta Natã, Seu Reino não terá fim: "O anjo disse-lhe: 'Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e Lhe porás o Nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai Davi; e reinará eternamente na Casa de Jacó, e Seu Reino não terá fim." Lc 1,30-33
    A concreta relação de Jesus com o Templo de Jerusalém, que foi o sucessor do Tabernáculo das Tábuas da Lei, começa no dia de Sua Apresentação enquanto recém-nascido, após os dias da purificação de Nossa Senhora: "Concluídos os dias de sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2)'; e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,22-24
    Nessa ocasião, quando a Sagrada Família estava em fuga para o Egito, Ele foi reconhecido por um inspirado religioso como a Luz do Mundo: "Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem ver o Cristo do Senhor. Impelido pelo Espírito Santo, foi ao Templo. E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para cumprirem a respeito d'Ele os preceitos da Lei, tomou-O em seus braços e louvou a Deus nestes termos: 'Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos os povos, como Luz para iluminar as nações, e para a glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,25-32
    Com Sua família, que fielmente seguia a Tradição de Seu povo, todos os anos Ele ia a Jerusalém para a Páscoa, mas já aos 12 anos declarou Seu indefectível vínculo com o Templo: "Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d'Ele. Três dias depois, acharam-nO no Templo sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que O ouviam estavam maravilhados da Sabedoria de Suas respostas. Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição.' Respondeu-lhes Ele: 'Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?'" Lc 2,43-49
    E durante as Tentações no deserto, após ser batizado por São João Batista, o inimigo vai levá-Lo exatamente ao Templo, pois era o sinal da presença de Deus para todo o povo judeu: "O Demônio transportou-O à Cidade Santa, colocou-O no ponto mais alto do Templo e disse-Lhe: 'Se és Filho de Deus, lança-Te abaixo, pois está escrito: Ele deu a Seus anjos ordens a Teu respeito; proteger-Te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o Teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s). Disse-lhe Jesus: 'Também está escrito: Não tentarás o Senhor Teu Deus (Dt 6,16).'" Mt 4,5-7
    Nessa estreita relação com os lugares sagrados dos judeus, sempre que pôde Jesus usou as sinagogas para Suas pregações, como fez ainda em Nazaré quando começou Sua vida pública, pronunciando Seu discurso inaugural. Contudo, iniciava-se aí também uma ruptura: "Dirigiu-Se a Nazaré, onde Se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo Seu costume, e levantou-Se para ler. Foi-Lhe dado o livro do Profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (61,1s.): 'O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a Redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os presos, para publicar o ano da Graça do Senhor.' E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-Se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos n'Ele. Ele começou a dizer-lhes: 'Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir.' Todos Lhe davam testemunho e admiravam-se das palavras de Graça que procediam da Sua boca, e diziam: 'Não é este o filho de José?' Então Ele lhes disse: 'Sem dúvida Me citareis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo. Todas as maravilhas que fizeste em Cafarnaum, segundo ouvimos dizer, faze-o também aqui na Tua pátria.' E acrescentou: 'Em verdade, digo-vos: nenhum Profeta é bem aceito em sua pátria. Em verdade, digo-vos: havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando se fechou o céu por três anos e meio e houve grande fome por toda a terra. Mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.' A estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-nO fora da cidade. E conduziram-nO até o alto do monte sobre o qual estava construída Sua cidade, e queriam precipitá-Lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-Se. Desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e ali ensinava-os aos sábados." Lc 4,16-31
    A despeito das narrativas em São Mateus, São Marcos e São Lucas, que mostram uma progressiva subida a Jerusalém ao longo de Sua vida pública, desde os primeiros capítulos São João Evangelista atesta essa inafastável conexão de Jesus com o Templo. Ele sobe à Cidade Santa logo nas primeiras semanas, e já então expulsa do Templo os vendilhões, quando vai identificá-lo como Seu próprio Corpo: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no Templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez Ele um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: 'Tirai isto daqui e não façais da Casa de Meu Pai uma casa de negociantes.' Lembraram-se então Seus discípulos do que está escrito: 'O zelo de Tua Casa Me consome (Sl 68,10).' Perguntaram-Lhe os judeus: 'Que sinal nos apresentas Tu, para procederes deste modo?' Respondeu-lhes Jesus: 'Destruí vós este Templo, e Eu o reerguerei em três dias.' Os judeus replicaram: 'Em quarenta e seis anos foi edificado este Templo, e Tu hás de levantá-lo em três dias?!' Mas Ele falava do Templo do Seu Corpo. Depois que ressurgiu dos mortos, Seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na Palavra de Jesus." Jo 2,13-22
    Pois a 'Casa de Deus', segundo São Paulo, é o próprio Corpo de Jesus: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação. Porque aprouve a Deus n'Ele fazer habitar toda plenitude, e por Seu intermédio reconciliar Consigo todas criaturas..." Cl 1,15-16
    Ele disse-o de modo ainda mais claro: "Pois n'Ele corporalmente habita toda plenitude da divindade." Cl 2,9
    E voltando a Galileia, e tendo-se instalado na casa de São Pedro, em Cafarnaum, Jesus vai pregar precisamente nas sinagogas da região: "Jesus percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, curando todas doenças e enfermidades entre o povo." Mt 4,23
    Não por acaso, logo depois da multiplicação dos pães e dos peixes, na sinagoga de Cafarnaum Ele apresentou-Se como o alimento que dá a Vida Eterna: "EU SOU o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    Em seguida, Ele vai pregar por todo Israel, mas sempre usando as sinagogas: "Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade." Mt 9,35
    Claro, até não mais poder entrar nas cidades por conta do assédio das multidões, o que segundo São Marcos não demorou a acontecer: "Aproximou-Se d'Ele um leproso, suplicando-Lhe de joelhos: 'Se queres, podes limpar-me.' Jesus compadeceu-Se dele, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: 'Eu quero, sê curado.' E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado. Jesus despediu-o imediatamente com esta severa admoestação: 'Vê que não o digas a ninguém. Mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta, pela tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés para servir-lhe de testemunho.' Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade. Conservava-Se fora, nos lugares despovoados, e de toda parte vinham ter com Ele." Mc 1,40-45
    São Lucas registra que Ele viria a ser assediado mesmo nas pequenas aldeias: "Ao entrar numa aldeia, vieram-Lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando: 'Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!' Jesus viu-os e disse-lhes: 'Ide, mostrai-vos ao sacerdote.' E quando eles iam andando, ficaram curados. Um deles, vendo-se curado, voltou glorificando a Deus em alta voz. Prostrou-Se aos pés de Jesus e agradecia-Lhe. E era um samaritano. Jesus disse-lhe: 'Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?!' E acrescentou: 'Levanta-te e vai. Tua fé te salvou!'" Lc 17,12-19
    E por Suas frequentes vistas a Jerusalém, como aponta São João Evangelista, é no Templo que Ele vai reencontrar o paralítico que havia curado próximo ao tanque de Betesda, na Porta das Ovelhas. E vai advertir-lo dos perigos de uma recaída em pecado: "Mais tarde, Jesus achou-o no Templo e disse-lhe: 'Eis que ficaste são. Já não peques, para não te acontecer coisa pior!'" Jo 5,14
    Contudo, teve mesmo que Se confinar em Sua região, pois logo seria cassado em Jerusalém e em toda a Judeia: "Depois disso, Jesus percorria a Galileia. Ele não queria deter-Se na Judeia, porque os judeus procuravam tirar-Lhe a vida. Aproximava-se a festa dos judeus, chamada dos Tabernáculos. Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também Teus discípulos vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-Te ao mundo.' Com efeito, nem mesmo Seus irmãos acreditavam n'Ele." Jo 7,1-5
    E assim até precisar ocultar-Se, para dedicar-Se à instrução dos Apóstolos: "Tendo partido dali, atravessaram a Galileia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse. E ensinava Seus discípulos: 'O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-Lo-ão; e ressuscitará três dias depois de Sua morte.'" Mc 9,30-31
    Porém, apesar de haver-Se identificado como o próprio Templo, também vai deixar evidente que é maior que ele. Foi após profetizar contra as cidades à margem do mar da Galileia, que viram Seus milagres mas não se converteram: "Não lestes na Lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no Templo o descanso do sábado e não se tornam culpados? Ora, Eu declaro-vos que aqui está Quem é maior que o Templo." Mt 12,5-6
    Nenhum evento ocorrido na Casa de Deus, entretanto, será esquecido no Dia do Juízo. Principalmente os grandes sacrilégios, como Ele sentenciou: "Por isso, também disse a Sabedoria de Deus: 'Enviar-lhes-ei Profetas e Apóstolos, mas eles darão a morte a uns e perseguirão a outros.' E assim se pedirá conta a esta geração do sangue de todos os Profetas derramado desde a Criação do mundo, desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi assassinado entre o altar e o Templo. Sim, declaro-vos que se pedirá conta disso a esta geração!" Lc 11,49-51
    Pois até em Suas parábolas Ele evocava o Templo como lugar das mais importantes práticas religiosas: "Subiram dois homens ao Templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: 'Graças dou-Te, ó Deus, porque não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros. Nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10-14
    E persistindo essa situação até Sua última Festa das Tabernáculos, Jesus teve que subir a Jerusalém às ocultas, mas o povo esperava ansiosamente por Ele. E mais uma vez Ele vai ao Templo, agora para declarar-Se mensageiro da Palavra de Deus, ou o próprio Verbo Encarnado, como disse São João Evangelista: "Lá pelo meio da Festa, Jesus subiu ao Templo e pôs-Se a ensinar. Os judeus admiravam-se e diziam: 'Este homem não fez estudos. Donde Lhe vem, pois, este conhecimento das Escrituras?' Respondeu-lhes Jesus: 'Minha Doutrina não é Minha, mas d'Aquele que Me enviou. Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo. Quem fala por própria autoridade busca a própria glória, mas quem procura a Glória de Quem O enviou é digno de fé e n'Ele não há impostura alguma." Jo 7,14-18
    Uma vez na Cidade Santa, Ele dormia no Horto das Oliveiras, mas o lugar de ensinar era sempre o Templo, onde sempre Se mostrava muito condescendente com a errante natureza humana, não julgando nem a mulher adúltera nem os próprios escribas e fariseus: "Dirigiu-Se Jesus para o monte das Oliveiras. Ao romper da manhã, voltou ao Templo e todo o povo veio a Ele. Assentou-Se e começou a ensinar. Os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher que fora apanhada em adultério. Puseram-na no meio da multidão e disseram a Jesus: 'Mestre, agora mesmo esta mulher foi apanhada em adultério. Moisés mandou-nos na Lei que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes Tu a isso?' Perguntavam-Lhe isso a fim de pô-Lo à prova, e poderem acusá-Lo. Jesus, porém, inclinou-Se para a frente e escrevia com o dedo na terra. Como eles insistissem, ergueu-Se e disse-lhes: 'Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra.' Inclinando-Se novamente, escrevia na terra. A essas palavras, sentindo-se acusados por sua própria consciência, eles foram-se retirando um por um, até o último, a começar pelos mais idosos, de sorte que Jesus ficou sozinho, com a mulher diante d'Ele. Então Ele Se ergueu e vendo ali apenas a mulher, perguntou-lhe: 'Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?' Respondeu ela: 'Ninguém, Senhor.' Disse-lhe então Jesus: 'Nem Eu te condeno. Vai e não tornes a pecar.'" Jo 8,1-11
    Em seguida, ainda no Templo, Ele apresentou-Se como o 'sol' de nossas vidas, como havia previsto o religioso Simeão, prometendo a Vida Eterna e afirmando que conhecê-Lo é conhecer o Pai: "Falou-lhes outra vez Jesus: 'Eu sou a Luz do mundo! Aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida.' A isso, os fariseus disseram-Lhe: 'Tu dás testemunho de Ti mesmo. Teu testemunho não é digno de fé.' Respondeu-lhes Jesus: 'Embora Eu dê testemunho de Mim mesmo, Meu testemunho é digno de fé porque sei de onde vim e para onde vou, mas vós não sabeis de onde venho nem para onde vou. Vós julgais segundo a aparência, Eu não julgo ninguém. E, se julgo, Meu julgamento é conforme a Verdade porque não estou sozinho, mas Comigo está o Pai que Me enviou. Ora, em vossa Lei está escrito: 'O testemunho de duas pessoas é digno de fé (Dt 19,15).' Eu dou testemunho de Mim mesmo, e Meu Pai, que Me enviou, dá-o também.' Perguntaram-Lhe: 'Onde está Teu Pai?' Respondeu Jesus: 'Não conheceis nem a Mim nem a Meu Pai. Se Me conhecêsseis, certamente conheceríeis também a Meu Pai.' Estas palavras proferiu Jesus ensinando no Templo, junto aos cofres de esmola. Mas ninguém O prendeu, porque ainda não era chegada Sua hora." Jo 8,12-20
    De fato, Ele evocava Suas obras como um testemunho de Deus, o que sem dúvida era testemunho maior que o de São João Batista: "Mas tenho maior testemunho que o de João, porque as obras que Meu Pai Me deu para executar - essas mesmas obras que faço - testemunham a Meu respeito que o Pai Me enviou." Jo 5,36
    E mesmo com toda perseguição, Ele valia-Se da multidão para fazer-Se presente em Jerusalém nas importantes datas de fé, e aí sempre estava no Templo. Numa dessas ocasiões, Ele vai declarar-Se UM com o Pai: "Celebrava-se em Jerusalém a Festa da Dedicação. Era inverno. Jesus passeava no Templo, no pórtico de Salomão. Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.' Jesus respondeu-lhes: 'Eu vo-lo digo, mas não credes. As obras que faço em Nome de Meu Pai, estas dão testemunho de Mim. Entretanto, não credes, porque não sois das Minhas ovelhas. Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me. Eu dou-lhes a Vida Eterna; elas jamais hão de perecer, e ninguém as roubará de Minha mão. Meu Pai, que Mas deu, é maior que todos; e ninguém as pode arrebatar da mão de Meu Pai. Eu e o Pai somos um." Jo 10,22-30
    Entretanto, logo viria a definitiva Páscoa, quando Ele seria crucificado. A ressurreição de Lázaro foi um sinal muito grande, e por isso os principais dos judeus resolveram matá-Lo: "Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram n'Ele. Alguns deles, porém, foram aos fariseus e contaram-lhes o que Jesus realizara. Os pontífices e os fariseus convocaram o conselho e disseram: 'Que faremos? Esse homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todos crerão n'Ele, e os romanos virão e arruinarão nossa cidade e toda a nação.'" Jo 11,45-48
    E o povo continuava a procurá-Lo no Templo: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo o país subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à Festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde Ele estava O denunciasse, para prenderem-nO." Jo 11,55-57
    Segundo São Marcos, no Domingo de Ramos Jesus teria entrado em Jerusalém apenas para zelar pelo Templo, demonstrando Seu amor à Casa do Pai: "Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-Se ao Templo. Aí lançou olhos para tudo o que O cercava. Depois, como já fosse tarde, voltou para Betânia com os Doze." Mc 11,11
    Segundo São Mateus, porém, mais uma vez Ele logo teria feito um chicote e expulsado os vendilhões do Templo. Era Sua terceira e última Páscoa na companhia do Apóstolos, e as crianças vão cantar-Lhe 'Hosanas': "Jesus entrou no Templo e expulsou dali todos aqueles que se entregavam ao comércio. Derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos negociantes de pombas, e disse-lhes: 'Está escrito: Minha Casa é uma Casa de Oração (Is 56,7), mas vós dela fizestes um covil de ladrões (Jr 7,11)!' Os cegos e os coxos vieram a Ele no Templo e Ele curou-os, com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no Templo: 'Hosana ao Filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' Perfeitamente, respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes vosso louvor (Sl 8,3)'?" Mt 21,12-16
    São Marcos, mais precisamente, aponta que só na manhã seguinte Ele teria expulsado os vendilhões, após retornar de Betânia, onde teria ido pernoitar: "Chegaram a Jerusalém e Jesus entrou no Templo. E começou a expulsar os que no Templo vendiam e compravam; derrubou as mesas dos trocadores de moedas e as cadeiras dos que vendiam pombas. Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo." Mc 11,15-16
    Nesta última Páscoa, para pôr em questão Sua formação, os principais dos religiosos perguntaram-Lhe por Sua autoridade. E este episódio também aconteceu no Templo: "Num daqueles dias, Jesus ensinava no Templo e anunciava ao povo a Boa Nova. Chegaram os príncipes dos sacerdotes e os escribas com os anciãos, e falaram-Lhe: 'Dize-nos: com que direito fazes essas coisas, ou quem é que Te deu essa autoridade?' Jesus respondeu: 'Também Eu vos farei uma pergunta. Respondei-Me: O batismo de João era do Céu ou dos homens?' Eles começaram a raciocinar entre si, dizendo: 'Se dissermos: Do Céu, Ele dirá: Por que razão, pois, não crestes nele? Se, porém, dissermos: Dos homens, todo o povo nos apedrejará, porque está convencido de que João era Profeta.' Responderam, por fim, que não sabiam de onde era. Replicou-lhes também Jesus: 'Nem Eu vos direi com que direito faço estas coisas.'" Lc 20,1-8
    É quando Ele esclarecer que o Filho de Deus, ou Filho do Homem, título que mais usou, não pode ser um mero filho de Davi, título pelo qual era frequentemente invocado: "Continuava Jesus a ensinar no Templo e propôs esta questão: 'Como dizem os escribas que Cristo é o Filho de Davi? Pois o mesmo Davi diz, inspirado pelo Espírito Santo: Disse o Senhor a Meu Senhor: senta-Te à Minha direita, até que Eu ponha Teus inimigos sob Teus pés (Sal 109,1). Ora, se o próprio Davi O chama Senhor, como então é Ele seu Filho?' E a grande multidão ouvia-O com satisfação." Mc 12,35-37
    E por esses dias que Ele vai prever a definitiva destruição do Templo, que ocorreria pouco mais de 30 anos depois: "Ao sair do Templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-nO apreciar as construções. Jesus, porém, respondeu-lhes: 'Vedes todos estes edifícios? Em verdade, declaro-vos: não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído.'" Mt 24,1-2
    Os Apóstolos mais próximos, então, vão perguntá-Lo por sinais para identificar esse acontecimento, enquanto do Getsêmani Ele contemplava o Templo: "E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso estará para realizar-se?' Jesus pôs-Se então a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. Muitos virão em Meu Nome, dizendo: 'Sou eu.' E seduzirão a muitos. Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerra, não temais. Porque é necessário que estas coisas aconteçam, mas não será ainda o Fim. Levantar-se-ão nação contra nação e reino contra reino; e haverá terremotos em diversos lugares, e fome. Isto será o princípio das dores. Cuidai de vós mesmos. Sereis arrastados diante dos tribunais e açoitados nas sinagogas, e comparecereis diante de governadores e reis por Minha causa, para dar testemunho de Mim diante deles. Mas primeiro é necessário que o Evangelho seja pregado a todas as nações.'" Mc 13,3-10
    No entanto, todas as manhãs Ele retornava à Casa do Pai: "Todos os dias ensinava no Templo. Porém, os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os chefes do povo procuravam tirar-Lhe a vida. Mas não sabiam como realizá-lo, porque todo o povo ficava suspenso de admiração, quando O ouvia falar." Lc 19,47-48
    E assim, por exemplar humildade Ele mantinha essa rotina: "Durante o dia, Jesus ensinava no Templo, e à tarde saía para passar a noite no monte chamado das Oliveiras. E todo o povo ia de manhã cedo ter com Ele, no Templo, para ouvi-Lo." Lc 21,37-38
    Quando foi preso e levado ao Sinédrio, Jesus vai atestar Sua predileção por lugares sagrados de Seu povo: "O sumo sacerdote indagou de Jesus acerca de Seus discípulos e de Sua Doutrina. Jesus respondeu-lhe: 'Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no Templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.'" Jo 18,19-20
    E durante o julgamento, eles vão recordar Sua identificação com o Tempo, que tanto os perturbava: "Os sumos sacerdotes e todo o Conselho buscavam algum testemunho contra Jesus, para condená-LO à morte, mas não o achavam. Muitos diziam falsos testemunhos contra Ele, mas seus depoimentos não concordavam. Levantaram-se, então, alguns e deram esse falso testemunho contra ele: 'Ouvimo-Lo dizer: Eu destruirei este Templo, feito por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, que não será feito por mãos de homens.'" Mc 15,55-58
    Mesmo durante a Crucificação, eles não esqueceriam esse detalhe: "Os que iam passando injuriavam-nO e abanavam a cabeça, dizendo: 'Olá! Tu que destróis o Templo e o reedificas em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Desce da Cruz!' Desta maneira, escarneciam d'Ele também os sumos sacerdotes e os escribas, dizendo uns para os outros: 'Salvou a outros e a Si mesmo não pode salvar! Que o Cristo, Rei de Israel, desça agora da Cruz, para que vejamos e creiamos!'" Mc 15,29-32a
    O véu do Templo, enfim, será rasgado no momento de Sua morte: "E à hora nona Jesus bradou em alta voz: 'Elói, Elói, lammá sabactáni?', que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste? Ouvindo isto, alguns dos circunstantes diziam: 'Ele chama por Elias!' Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta de uma vara, deu-Lho para beber, dizendo: 'Deixai, vejamos se Elias vem tirá-Lo.' Jesus deu um grande brado e expirou. O véu do Templo então se rasgou de alto a baixo em duas partes. O centurião que estava diante de Jesus, ao ver que Ele tinha expirado assim, disse: 'Este homem realmente era o Filho de Deus.'" Mc 15,34-39


IGREJA: O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

    Mas a Igreja não vai nascer no Templo! A instituição da Eucaristia, por sinal, vai acontecer no cenáculo: "No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-Lhe: 'Onde queres que preparemos a ceia pascal?' Respondeu-lhes Jesus: 'Ide à cidade, à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre manda dizer-te: Meu tempo está próximo. É em tua casa que celebrarei a Páscoa com Meus discípulos.' Os discípulos fizeram o que Jesus tinha ordenado e prepararam a Páscoa. Ao declinar da tarde, pôs-Se Jesus à mesa com os Doze discípulos. Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a Remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não mais beberei desse fruto da vinha até o dia em que de novo o beberei convosco no Reino de Meu Pai.' Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o monte das Oliveiras." Mt 26,17-20.26-30
    E é aí, 'na sala de cima' que se dará o Nascimento da Igreja no Pentecostes: "Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um impetuoso vento, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Pedro então, pondo-se de pé em companhia dos Onze, com forte voz disse-lhes: 'Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção às minhas palavras. Que toda a Casa de Israel saiba com a maior certeza que este Jesus, que vós crucificastes, Deus constituiu-O Senhor e Cristo.' Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais Apóstolos: 'Que devemos fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para Remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus.' Os que receberam Sua Palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos." Ap 2,1-4.14.36-39.41
    Mas, como ainda tentavam reformar o judaísmo, os Apóstolos continuavam presentes no Templo: "Unidos de coração frequentavam todos os dias o Templo. Partiam o Pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia ajuntava-lhes outros que estavam a Caminho da Salvação." At 2,46-47
    Lá os sinais prometidos por Jesus confirmariam Sua Igreja: "Pedro e João iam subindo ao Templo para rezar à hora nona. Nisto levavam um homem que era coxo de nascença e que punham todos os dias à porta do Templo, chamada Formosa, para que pedisse esmolas aos que entravam. Quando ele viu que Pedro e João iam entrando no Templo, implorou a eles uma esmola. Pedro fitou nele os olhos, como também João, e disse: 'Olha para nós.' Ele olhou-os com atenção esperando receber deles alguma coisa. Pedro, porém, disse: 'Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em Nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!' E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente os pés e os tornozelos firmaram-se-lhe. De um salto, pôs-se de pé e andava. Entrou com eles no Templo, caminhando, saltando e louvando a Deus. Todo o povo viu-o andar e louvar a Deus." At 3,1-9
    Presos por ordem do sumo sacerdote, pois as atividades da Igreja continuava agitando a Cidade Santa, um anjo dos Senhor vai libertar os Apóstolos e mandá-los exatamente ao Templo, como Jesus fazia: "Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor. De maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra cobrisse alguns deles. Também das cidades vizinhas de Jerusalém afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por espíritos imundos, e todos eles eram curados. Levantaram-se então os sumos sacerdotes e seus partidários (isto é, a seita dos saduceus) cheios de inveja, e deitaram as mãos nos Apóstolos e meteram-nos na cadeia pública. Mas um anjo do Senhor abriu de noite as portas do cárcere e, conduzindo-os para fora, disse-lhes: 'Ide e apresentai-vos no Templo, e pregai ao povo as Palavras desta vida.' Obedecendo a essa ordem, eles entraram ao amanhecer no Templo, e puseram-se a ensinar." At 5,14-21
    E assim eles cumpriram fielmente, embora celebrando também nas casas dos fiéis: "E todos os dias não cessavam de ensinar e de pregar o Evangelho de Jesus Cristo, no Templo e pelas casas." At 5,42
    São Paulo, por sua vez, dá análoga narrativa do comportamento da Igreja mesmo anos após sua conversão: "Voltei para Jerusalém e, orando no Templo, fui arrebatado em êxtase. E vi Jesus que me dizia: 'Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque não receberão teu testemunho a Meu respeito.' Eu reconheci: 'Senhor, eles sabem que eu encarcerava e açoitava com varas nas sinagogas aqueles que creem em Ti. E quando se derramou o sangue de Estêvão, Tua testemunha, eu estava presente, consentia nisso e guardava os mantos dos que o matavam.' Mas Ele me respondeu: 'Vai, porque Eu te enviarei para longe, às nações...'" At 22,17-21
    Mas os judeus acabariam por prendê-lo anos mais tarde, e precisamente no Templo de Jerusalém. Foi depois de ter tomado conselho de São Tiago Menor para fazer votos judeus, na tentativa de reverter uma acusação de heresia que lhe faziam: "Ao fim dos sete dias, os judeus, vindos da Ásia, viram Paulo no Templo e amotinaram todo o povo. Lançando-lhe as mãos, gritavam: 'Ó judeus, valei-nos! Este é o homem que por toda parte prega a todos contra o povo, a Lei e o Templo. Além disso, introduziu até gregos no Templo e profanou o lugar santo.' É que tinham visto Trófimo, de Éfeso, com ele na cidade, e pensavam que Paulo o tivesse introduzido no Templo. Alvoroçou-se toda a cidade com grande ajuntamento de povo. Agarraram Paulo e arrastaram-no para fora do Templo, cujas portas se fecharam imediatamente. Como queriam matá-lo, o tribuno da coorte foi avisado de que toda Jerusalém estava amotinada. Ele logo tomou soldados e oficiais e correu aos manifestantes. Estes, ao avistarem o tribuno e os saldados, cessaram de espancar Paulo. Aproximando-se então o tribuno, prendeu-o e mandou acorrentá-lo com duas correntes." At 21,27-33
    Conduzido a Félix, que administrava a região a partir de Cesareia, o advogado dos judeus fizeram-lhe essa acusação: "Encontramos este homem, uma peste, um indivíduo que fomenta discórdia entre os judeus no mundo inteiro. É um dos líderes da seita dos nazarenos. Tentou mesmo profanar o Templo, mas nós O prendemos!" At 24,5-6
    E ele mesmo fez sua defesa perante o governador romano, narrando a purificação proposta por São Tiago Menor e a essência do Evangelho: "Depois de muitos anos de ausência vim trazer à minha nação esmolas e oferendas rituais. Nesta ocasião, acharam-me no Templo, depois de uma purificação, sem aglomeração e sem tumulto. Viram-me ali uns judeus vindos da Ásia, e estes é que deviam comparecer diante de ti e acusar-me, se tivessem alguma queixa contra mim. Ou digam estes aqui que crime terão achado em mim, quando eu compareci diante do Grande Conselho. A não ser esta única frase que proferi em voz alta no meio deles: 'Por causa da ressurreição dos mortos é que sou julgado hoje diante de vós!'" At 24,17-21
    Segundo São Paulo, a Igreja, que ele chama de 'Templo', será lugar de um sinal realizado pelo Maligno no fim dos tempos: "Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus." 2 Ts 2,3-4
    E conforme São Pedro, é pela Igreja que Deus começará o Juízo Final: "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus?" 1 Pd 4,17
    Ela é, contudo, o próprio Corpo de Cristo, como Ele mesmo a identificou quando São Paulo perseguia os fiéis: "Saulo, porém, devastava a Igreja. Entrando pelas casas, arrancava delas homens e mulheres e os entregava à prisão. Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma resplandecente Luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' Saulo disse: 'Quem és, Senhor?' Respondeu Ele: 'Eu sou Jesus, a Quem tu persegues.'" At 8,3;9,3-5
    São Paulo diz aos colossenses: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja." Cl 1,24
    Também disse aos efésios: "... Cristo é o Chefe da Igreja, Seu Corpo, da qual Ele é o Salvador." Ef 5,23b
    Ele define-O ainda assim: "Ele é a Cabeça da Igreja, que é Seu Corpo." Cl 1,18a
    E pediu nosso empenho: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo." Ef 4,11-12
    Ele explicou-o assim aos coríntios: "Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para comum proveito. A um é dada pelo Espírito uma palavra de Sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a Graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas. Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons, repartindo a cada um como Lhe apraz. Porque, como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele; e se um membro é tratado com carinho, todos os outros se congratulam por ele. Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos Seus membros. Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os Apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas. São todos Apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a Graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos?" 1 Cor 4,4-12.26-30
    Por isso, recomendava: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    Definia nestes termos os cristãos, quando o Templo de Jerusalém diminuía em importância perante a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, que é indestrutível: "Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o Templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o Templo de Deus é sagrado - e isto sois vós." 1 Cor 3,16-1
    Jesus mesmo havia garantido ao apontar a inspiração de São Pedro, quando ele O reconheceu como o Messias: "Jesus então lhe disse: 'Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus. E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.'" Mt 16,1-18
    E São Paulo foi ainda mais explícito ao atestar Seu Corpo, 'restringindo' as 'liberdades' dos cristãos: "Ou não sabeis que vosso corpo é Templo do Espírito Santo, que habita em vós, o Qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis?" 1 Cor 6,19
    Assim, não temos como pensar a Igreja senão pela santidade, pois esta é a vontade de Deus: "Maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para a Si mesmo apresentá-la toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25-27.32
    E também somos convidados a participar desta família: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É n'Ele que todo edifício, harmonicamente disposto, levanta-se até formar um Templo Santo no Senhor. É n'Ele que também vós outros conjuntamente entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus." Ef 2,19-22
    Os seguidores de São Paulo referiam-se assim ao Seu Corpo: "Porém, já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos vindouros bens. E através de mais excelente e mais perfeito Tabernáculo, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo)." Hb 9,11
    Já estava nos Levíticos: "Porei Meu Tabernáculo no meio de vós, e Minha alma não vos rejeitará. Andarei entre vós: serei Vosso Deus e vós sereis Meu povo." Lv 26,11-12
    Nestes termos, enquanto presença material neste mundo, Ele falava de Si mesmo como de uma pedra: "Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22-23)? Por isso, digo-vos: ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos d'Ele. Aquele que tropeçar nesta pedra, far-se-á em pedaços; e aquele sobre quem ela cair, será esmagado." Mt 21,42b-44
    Mas esta família também já se estabeleceu nos Céus, conforme São Paulo: "Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra,..." Ef 3,14-15
    Com efeito, assim como os Apóstolos são as colunas da Igreja, Jesus prometeu aos que resistirem ao Mal: "Farei do vencedor uma coluna no Templo de Meu Deus, de onde jamais sairá..." Ap 3,12a
    São João Evangelista teve esta visão: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão... Um dos Anciãos então falou comigo e perguntou-me: 'Esses, que estão revestidos de brancas vestes, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes.' E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro. Por isso, estão diante do trono de Deus e dia e noite servem-nO no Seu templo. Aquele que está sentado no trono os abrigará em Sua Tenda. Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum os abrasará, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e os levará às fontes das Águas Vivas; e Deus enxugará toda lágrima de seus olhos.'" Ap 7,9.13-16
    Registrou que é do Templo do Céu, onde a Glória de Deus é total, que partem os anjos para flagelar a terra: "Depois disso, eu vi abrir-se no Céu o Templo que encerra o Tabernáculo do Testemunho. Os sete Anjos que tinham os sete flagelos saíram do Templo, vestidos de puro e resplandecente linho, cingidos ao peito com cintos de ouro. Um dos quatro Seres deu-lhes então sete taças de ouro, cheias da ira de Deus que vive pelos séculos dos séculos. Encheu-se o Templo de fumaça provinda da Glória de Deus e de Seu poder. E ninguém podia entrar, enquanto não se consumassem os sete flagelos dos sete Anjos." Ap 15,5-8
    E a Jerusalém Celestial é apresentada como a esposa do Cordeiro: "Nisto ouvi como que um imenso coro, sonoro como o ruído de grandes águas e como o ribombar de possantes trovões, que cantava: 'Aleluia! Eis que reina o Senhor, Nosso Deus, o Dominador! Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque se aproximam as Núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada.' Eu vi descer do Céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o Esposo." Ap 19,6-7;21,2
    Ao preparar "um povo bem disposto", São João Batista preparava a Igreja para receber Jesus. Ele vai dizer a seus discípulos que viram os Apóstolos batizando: "Aquele que tem a esposa é o Esposo. O amigo do Esposo, porém, que está presente e ouve-O, sobremaneira regozija-se com a voz do Esposo. Nisso consiste minha alegria, que agora se completa." Jo 3,29
    Na Nova Jerusalém, no entanto, não mais haverá Templo, pois sua transfiguração, ou da Igreja, na Pessoa de Deus já terá se completado: "Não vi nela, porém, templo algum, porque o Senhor Deus Dominador é Seu Templo, assim como o Cordeiro." Ap 21,22

    "Em Comunhão com toda a Igreja, aqui estamos!"