quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A Cátedra de São Pedro


    A cadeira de um bispo é chamada de cátedra, que vem do latim 'cathedra'. Daí vem o nome Catedral, isto é, a igreja que abriga a cátedra do bispo local.
    Há registros do ano de 370, do Papa São Damásio I, descrevendo uma cadeira portátil que era usada exclusivamente pelo Bispo de Roma, nas dependências do Vaticano, e mencionando várias celebrações festivas de anos anteriores, que eram feitas em sua homenagem.
    A Tradição sustenta que as relíquias da cadeira de sacerdócio usada por São Pedro, enquanto viveu em Roma, estão guardadas no espaço embaixo do assento dessa cadeira elevada feita em bronze, nas fotos acima.
    Ela fica atrás do Altar Papal da Basílica que leva o nome do Príncipe dos Apóstolos, e é sustentada por 4 Doutores da Igreja que magistralmente defenderam sua primazia sobre todos os demais bispados pelo mundo. São eles: Santo Ambrósio e Santo Atanásio, à esquerda, e São João Crisóstomo e Santo Agostinho, à direita. Não por acaso, sua posição na Basílica é exatamente abaixo e adiante da principal imagem do Espírito Santo, Divino Guia da Igreja, como se vê na segunda foto.
    Registros igualmente antigos dão conta de uma segunda cadeira usada por São Pedro, vista na foto abaixo, bem posterior e mais sofisticada, que começou a ser usada por ele pouco antes de seu sacrifício e em seguida foi escondida nas catacumbas de Priscila.


    É muito significativo que essa relíquia tenha sido guardada exatamente nessas catacumbas, pois eram veneradas com especial devoção pelos primeiros cristãos. É nelas, por exemplo, que se encontra a mais antiga representação de Nossa Senhora, datada do século II. Nela vemos Isaías, o Profeta que anunciou que uma Virgem daria à luz o Salvador, a Estrela de Belém e a Mãe Santíssima com o Menino Jesus ao colo.


    Havia, portanto, para cada uma dessas cadeiras um dia de festa: 18 de janeiro e 22 de fevereiro. As duas datas foram incluídas no Calendário Tridentino pelo Papa Clemente VIII, em 1604. No ano de 1960, porém, o Papa São João XXIII retirou do calendário 8 festas que estavam em duplicidade, e uma delas foi a do 18 de janeiro. Ficou então o dia 22 de fevereiro como a data da celebração.
    A Cátedra de São Pedro, no entanto, representa muito mais que a cadeira do bispo, mesmo que seja o Bispo de Roma, o Sumo Pontífice. Ela representa o próprio poder do representante máximo de Deus entre nós: a autoridade e a unidade da Igreja de Jesus Cristo.
    Representa também a Infalibilidade do Papa, poder dado pelo próprio Jesus: "Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    Por fim, significa os maiores prêmio e o poder; para o errante ser humano, algo só imaginável numa mais que generosa relação de pai e filho, o que, de fato, é o que Deus quer oferecer-nos. Exatamente o que Jesus prometeu: "Ao vencedor concederei assentar-se comigo no Meu Trono, assim como Eu venci e sentei-Me com Meu Pai em Seu trono." Ap 3,21
    E São Pedro revelou-se o administrador fiel, a quem Jesus entregou todas as coisas: "'Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.' Disse-Lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o administrador sábio e fiel que o Senhor estabelecerá sobre Seus operários para dar-lhes a seu tempo sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor achar procedendo assim, quando vier! Em verdade, digo-vos: confiar-lhe-á todos Seus bens." Lc 12,40-44
    Pois ainda antes de Sua Paixão, Jesus já havia colocado o destino da Igreja em suas mãos: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar-vos como o trigo; mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32
    Quanto à sua vitória, desde o próprio martírio que sofreu, não deve haver dúvida. Aliás, ele até a previu e deixou registrado: "Eis a exortação que dirijo aos anciãos que estão entre vós; porque sou ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e serei participante com eles daquela Glória que há de manifestar-se." 1 Pd 5,1
    Ora, enquanto braço direito de Jesus, o Primeiro Apóstolo sabia muito bem qual era o seu papel. E cumpriu-o dignamente, pois partiu em sã consciência, mas não sem alguns privilégios, para a Vida Eterna: "Eis por que não cessarei de trazer-vos à memória essas coisas, embora estejais instruídos e confirmados na presente Verdade. Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, de manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer. Mas cuidarei para que, ainda depois de meu falecimento, possais conservar sempre a lembrança dessas coisas." 2 Pd 1,12-15



    "São Pedro, rogai por nós!"

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Os Sete Pecados Capitais


    O Catecismo da Igreja Católica ensina: "O pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma grave infração à lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior." CIC § 1855
    Dá detalhes: "A matéria grave é precisada pelos Dez Mandamentos, segundo a resposta de Jesus ao jovem rico: 'Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe' (Mc 10,19)." CIC § 1858
    E explica: "O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana [livre arbítrio], como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de Graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à Misericórdia de Deus." CIC § 1861
    São João Evangelista apresenta as propensões que levam aos pecados em três grandes grupos: "Porque tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    São Tiago Menor diz que essas fraquezas são como o germe da própria morte em vida: "A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,15
    E diz que elas são meras auto-ilusões: "Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,14
    Seriam, portanto, notórias carências da Palavra de Deus, pois segundo São João Evangelista "... a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    Por isso São Paulo advogava pelo anúncio do Evangelho: " Logo, a fé provém da pregação e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    De fato, Jesus afirmou aos Apóstolos: "Vós já estais puros pela Palavra que vos tenho anunciado." Jo 15,3
    E Ele mesmo sentenciou: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida." Jo 14,6a
    São Tomás de Aquino listou assim os maiores pecados:


    Também conhecido como o pecado do orgulho ou, mais apropriadamente, da soberba. É o doentio anseio de destacar-se perante os demais, seja menosprezando-os, exibindo-se, vangloriando-se ou atribuindo excessivo valor a si mesmo ou a coisas vãs, como na ostentação. O termo 'vaidade', aliás, tem intrinsecamente esse sentido, pois vem do latim 'vanitatis', relativo a 'vanus', que quer dizer vazio.
    Das coisas vãs, o jogo da aparência é o mais conhecido. A desmedida importância dada ao vestir, ao pentear, à maquiagem e à perfumaria demonstra carência de valores realmente dignificantes. E ao culto à aparência invariavelmente junta-se o orgulho do que se imagina de si, das coisas possui, do cargo ou da posição social que ocupa. Nota-se uma atenção incomodamente centrada em si mesmo, só capaz de enxergar suas supostas qualidades. Com frequência, esse pecado manifesta-se associado à inveja e à avareza.
    Ensinamentos de Jesus: "E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca ?" Mt 6,28-30
    "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens." Mt 23,2.5-7
    A virtude que se opõe à vaidade é a humildade: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10

A INVEJA

    Pecado comumente expresso pela cobiça, é dos desvios de conduta mais facilmente reconhecidos. Na realidade, é o mais claro sinal do sentimento de inferioridade ou da efetiva falta de qualidades.
    É gerada pelo egocentrismo e o invejoso sente-se arrasado diante do sucesso alheio. É também uma radical incapacidade de distinguir pessoas de pertences, de posições sociais ou de atribuições pessoais. Deriva do não descobrimento dos próprios talentos, talvez conscientemente sabotados, mas sempre indicando uma perigosa falha no processo de autoconhecimento e de amadurecimento. É comum que esse pecado se associe à ira e à preguiça.
    Ensinamentos de Jesus: "Porque é do interior do coração dos homens que procedem as más intenções: ... cobiças... inveja... Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem." Mc 7,21-23
    "Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor para ti entrares na Vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena." Mt 18,9
    A virtude que se opõe à inveja é a compaixão: "... porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim." Mt 25,35-36

A IRA

    Pecado fruto do indiscriminado ódio, que pode veladamente expressar-se através da agressividade ou de modo mais evidente pela violência, que quase sempre é um deplorável recurso, mas ainda muito presente no convívio humano.
    Em geral é motivado por profunda incompreensão, dificuldade de perdoar, rancor, mútuas ofensas e desejo de vingança. É o decaimento à brutal animalidade como forma de solução de conflitos. É o pecado responsável por injúria, calúnia, escárnios, torturas, assassinatos, chacinas, guerras e genocídios. Cúmulo inverso do amor incondicional. Pode estar associado à vaidade e à inveja.
    Ensinamentos de Jesus: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa." Mt 5,38-40
    "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,43-45
    A virtude que se opõe à ira é o amor: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12

A PREGUIÇA

    Inicialmente esse pecado só se referia a preguiça espiritual, manifesto contra as atividades religiosas. Tinha até um nome específico: acídia. Mas não demorou a ser observado com um comportamento abominável também em relação às demais atividades do cotidiano.
    Está maliciosamente dissimulado na pessoa relapsa, morosa ou negligente. Muita incompreensão, mau juízo e falso testemunho partem dessa índole. Egoísta e insensível para com os esforços alheios, por vezes tiranicamente manipulando a compaixão alheia, o preguiçoso abomina ou esquiva-se de alguns trabalhos ou obrigações morais, conforme seus interesses. Pecado frequentemente associado à luxúria e à gula.
    Ensinamentos de Jesus: "Vigiai, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor." Mt 24,42
    "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo 6,27
    A virtude que se opõe à preguiça é a perseverança: "Por acaso não fará Deus justiça a Seus escolhidos, que estão clamando por Ele dia e noite?" Lc 18,7

A AVAREZA

    Exacerbado apego a bens materiais e ao dinheiro. Mórbido traço de personalidade que padece de doentio ciúme ou encantamento por suas propriedades, em total desprezo pelos relacionamentos e pelas pessoas à sua volta. Tão fútil, não se basta com o que já possui e facilmente cede à ganância e à cobiça.
    Tal comportamento é absolutamente incompatível com o amar a Deus sobre todas as coisas. Ao contrário, ele é caracteristicamente o arrebatamento por toda sorte de idolatria. É frequente que esteja associado à inveja e à gula.
    Ensinamentos de Jesus: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam." Mt 6,19
    "Respondeu Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!'" Mt 19,21
    A virtude que se opõe à avareza é a piedade (enquanto culto a Deus e aos bens espirituais): "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,33

A GULA

    Pecado de comer e beber com os olhos, além das reais necessidades, ou entregar-se ao álcool e às drogas em geral. Descontrole do apetite ou do equilíbrio dos sentidos como forma de saciação.
    Pecado um tanto controverso, porque outras razões podem der dadas como causas. Mas são absolutamente inescusáveis as atitudes contrárias à partilha ou à alienação da realidade. As vísceras ou os sentidos não podem dominar, escravizar a alma humana. Com frequência, esse pecado surge associado à avareza e à inveja.
    Ensinamentos de Jesus: "A vida vale mais que o alimento... Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro; entretanto, Deus alimenta-os. Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas." Lc 12,23a.24a.29-30
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a Teu Pai que está presente ao oculto; e Teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,16-18
    A virtude que se opõe à gula é a generosidade: "Mas, quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, e ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos." Lc 14,13-14

A LUXÚRIA

    Embora seja mais conhecida como desenfreada busca pelo prazer venéreo, é mais propriamente a conduta de quem submete o semelhante à condição de objeto, resultante de excessos de pervertidas paixões. No entanto, acaba escravizando e desmoralizando o próprio ser humano que dela faz uso.
    Manifesta-se, entre outros meios, pela promiscuidade, pornografia, quiromania, prostituição, sodomia, masoquismo, sadismo, zoofilia, pedofilia e incesto. Ou seja, leva à bestialização das relações humanas. Pecado costumeiramente associado à vaidade e à preguiça.
    Ensinamentos de Jesus: "Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: 'Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne'? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu." Mt 19,4-6
    "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28
    A virtude que se opõe à luxúria é a castidade: "... há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12


APÊNDICE

    Segundo a Psicologia, alguns desses pecados seriam manifestações de um mecanismo da psique chamado compulsão, especificamente a vaidade, a inveja, a gula, a luxúria e a avareza, acionado por deturpados processos de individuação. Pelos mesmos motivos, a ira seria uma contrária e desproporcional resposta aos mecanismos da repressão, muito importantes para a formação da boa conduta, e a preguiça, um disfarçado artifício da tirania afetiva.

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

'Eu venci o Mundo'


    E Seu principal trunfo foi a simplicidade.
    Jesus falava a linguagem popular, vestia-Se como Sua gente, trabalhou na oficina de Seu pai, fazia companhia à Sua mãe, convivia com parentes e vizinhos, gostava das crianças, dos jovens e dos mais velhos, com os quais frequentemente conversava. Trabalhava seis dias por semana, ajudava pobres e estrangeiros, visitava doentes e presos, participava de atividades sociais e religiosas, cumpria todos os ritos dos judeus, guardando os sábados, e não descriminava religiosos que não eram judeus.
    Não teve muito estudo. Só cinco anos durante a infância, dos 7 aos 12, como a maioria das crianças judias.
    Não usava palavras difíceis, nem falava muito. Ia direto ao assunto e sempre tratava do que realmente era mais importante. Era acessível a qualquer um que se aproximasse...
    Mostrou que ser simples nos permite conhecer a verdadeira essência das coisas, contemplar a beleza, perceber os principais detalhes, analisar difíceis situações, compreender profundos ensinamentos. Foi assim que Ele enxergou e ensinou a Verdade, afastando-se de ilusões, ambições, egoísmo, corrupção, medo e ódio.
    E tinha uma difícil missão para cumprir: Sua Doutrina enfrentava, ao mesmo tempo, poderosos e mundanos costumes. Mas foi até o fim, arcando com as consequências de ser plenamente humano. Viveu sinceramente o amor e não demonstrou ódio nem na hora da crucificação.
    O mundo todo reconhece: Ele venceu!
    E venceu na carne, sem se valer de Sua condição divina: "Enviando, por causa do pecado, Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rm 8,3b-4
    Aliás, fez-Se servo do ser humano: "Sendo Ele de divina condição, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    Enfrentou, portanto, realisticamente os maiores sofrimentos: "Nos dias de Sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, Àquele que O podia salvar da morte, e foi atendido por Sua Misericórdia. Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve. E uma vez chegado a Seu termo, tornou-Se Autor da Eterna Salvação para todos os que Lhe obedecem, porque Deus O proclamou sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque." Hb 5,7-10
    Por isso Ele é o Caminho para nossa vitória: "Graças, porém, sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Cor 15,57
    Pois acreditar n'Ele significa nascer de novo: "... porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: nossa fé." 1 Jo 5,4
    É acreditar na Santíssima Trindade: "Quem é o vencedor do mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" 1 Jo 5,5
    É resistir ao mal: "Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem." Rm 12,21
    É obedecer a Deus: "Sede submissos a Deus. Resisti ao demônio, e ele fugirá para longe de vós." Tg 4,7
    É desiludir-se do mundo: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós." 1 Pd 5,8-9
    É abraçar a verdadeira batalha: "Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos maus dias e manter-vos inabaláveis no cumprimento de vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos inflamados dardos do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." Ef 6,13-17
    É perceber os verdadeiros inimigos: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    É combater, por si e pelos irmãos, através da oração: "Ele não cessa de lutar por vós em suas orações, para que, numa perfeita e plena convicção, permaneçais plenamente submissos à divina vontade." Cl 4,12b
    É entregar-se ao projeto da Salvação: "Porque quem quiser salvar sua vida, perdê-la-á; mas quem perder sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    É praticar as obras prescritas por Jesus: "Então ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder sobre as nações pagãs." Ap 2,29
    É ouvir o Espírito Santo: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus.'" Ap 2,7
    É ouvir a Igreja: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'O vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte.'" Ap 2,11
    É alimentar-se do Santíssimo Sacramento, e assim ser convidado ao Eterno Banquete: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei o maná escondido e lhe entregarei uma pedra branca, na qual está escrito um novo nome que ninguém conhece, senão aquele que o receber.'" Ap 2,17
    É revestir-se de Cristo: "O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei seu nome do livro da Vida, e o proclamarei diante de Meu Pai e de Seus anjos." Ap 3,5
    É ser membro do Corpo Místico de Cristo: "Farei do vencedor uma coluna no Templo de Meu Deus, de onde jamais sairá, e escreverei sobre ele o Nome de Meu Deus, e o nome da cidade de Meu Deus, a nova Jerusalém, que desce dos Céus enviada por Meu Deus, assim como Meu Nome Novo." Ap 3,12
    É ser agraciado com o dom da santidade: "Ao vencedor concederei assentar-se comigo no Meu trono, assim como Eu venci e assentei-Me com Meu Pai em Seu trono." Ap 3,21
    É recuperar a divina semelhança: "O vencedor herdará tudo isso; e Eu serei Seu Deus, e ele será Meu filho." Ap 21,7
    É ter Cristo como modelo: "Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    É ter a consciência tranquila nos últimos dias: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante de minha libertação aproxima-se. Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, Justo Juiz, dar-me-á naquele dia. E não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor Sua aparição." 2 Tm 4,6-8
    É a obrigação de nossos Sacerdotes: "Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, de manter-vos vigilantes com minhas admoestações. Porque sei que em breve terei que deixá-lo, assim como Nosso Senhor Jesus Cristo me fez conhecer. Mas cuidarei para que, ainda depois de meu falecimento, possais conservar sempre a lembrança dessas coisas." 2 Pd 1,13-15
    É ter como motivação o projeto do Pai: "Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, e cumprir Sua obra.'" Jo 4,34
    É enfrentar o mundo: "Eis que vem a hora, e ela já veio, em que sereis espalhados, cada um para seu lado, e Me deixareis sozinho. Mas não estou só, porque o Pai está Comigo. Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,32-33

    "Jesus Cristo deu-nos Vida por Sua morte!"

A Revelação


Deus revelou-Se Pai, porque de fato somos Seus filhos
Fez-Se humano em Jesus para demonstrar a santidade na carne
Ele quer que participemos da eternidade
De Sua divindade, de Sua Glória
A partir de nossa humanidade
Através da Paz e da caridade

Perdemos Sua semelhança, mas não Sua imagem
O pecado não anula o amor de Deus
Se quisermos, Ele perdoa-nos
E estimula-nos à e à esperança
Sua Palavra impele-nos à santidade
E a buscarmos os Céus

Na natureza, Deus deixou testemunho de Si
Mas Ele convida-nos a uma dimensão ainda maior
Os Santos são a prova da nossa divina filiação
Os profetas são o fogo divino da Verdade
Reflexos da Luz para o povo santo

A Igreja é a Casa de Deus e nossa, Seus filhos
Sermos irmãos é viver a Comunhão em torno do Pai
Os pobres, enfermos e humildes são Seus preferidos
Aliás, como em qualquer família
E viver a filiação é o sentido da vida

Jesus é Deus revelado
Disse tudo de que precisamos para nossa Salvação
Em Suas ações e palavras estão todo conhecimento
Todos os mistérios do Céu e da Terra

Não podemos entendê-Lo por completo
E para o necessário, precisamos da ajuda do Espírito Santo
Não há nova revelação nem novo livro nem nova igreja
Nada há para ser corrigido

O tempo é só mais uma criação de Deus
Jesus veio da eternidade e entrou no tempo
A eternidade não é longa
Como Deus, ela simplesmente é, e não deixa de ser

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Penitências


    Qualquer pessoa sensata sabe que não há como nos aproximarmos de Deus sem que antes reconheçamos, por força de Sua plena santidade, nossos pecados e busquemos, de fato, purificar-nos. O salmista admitia: "Se não perdoardes nossas iniquidades, Senhor Javé, quem poderá subsistir diante de Vós?" Sl 129,3
    Noutras circunstâncias, ele já se havia perguntado: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no Seu lugar santo? O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração dos que O procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Por isso, os seguidores da tradição de São Paulo recomendam os Sacramentos: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, acheguemo-nos a Ele com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Não por acaso, tanto pela pecaminosidade do mundo quanto pela triunfante Graça da Divina Misericórdia, é tão concreta o que a Sã Doutrina ensina sobre o Purgatório. Registrou São Pedro: "Pois para isto foi o Evangelho pregado também aos mortos; para que, embora sejam condenados em sua humanidade na carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Ora, ao iniciar Sua vida pública, as primeiras palavras de Jesus foram exatamente um convite à conversão, ou seja, a abandonar de uma vez o pecado, penitenciando-se por ele: "Desde então Jesus começou a pregar: "Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo." Mt 4,17
    Com idêntico propósito Ele enviou os Apóstolos, desde a primeira missão: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E tal e qual o batismo ministrado por São João Batista, que demandava prévia confissão de pecados, os Apóstolos também batizavam durante as pregações de Jesus: "Em seguida, foi Jesus com Seus discípulos para os campos da Judeia, e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Como explicou Jesus aos discípulos que iam a Emaús, a missão da Igreja é trazer o povo de Deus à contrição espiritual: "E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém." Lc 24,47
    Com efeito, antes mesmo de Jesus iniciar Sua Missão, era São João Batista que, revelando a vontade de Deus, exigia de todo o povo uma sincera conversão: "Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Assim faziam os próprios Profetas nos mais difíceis momentos da História de Israel: "Naquele tempo, eu, Daniel, fiz penitência durante três semanas. Não provei alimento delicado algum: não passou em minha boca nem carne nem vinho; não me ungi de óleo absolutamente durante o transcurso dessas três semanas." Dn 10,2-3
    Até mesmo São Paulo, e em nome de sua própria salvação: "Ao contrário, castigo meu corpo e mantenho-o em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de ter pregado aos outros." 1 Cor 9,27
    Essa também era a missão dos líderes de Israel, como o rei Josias: "Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado." Eclo 49,1
    E Jesus descreveu assim o que a conversão de um pecador significa para Deus: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    O livro da Sabedoria já deixava claro que Deus pacientemente espera por nosso arrependimento: "... inspirastes a Vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência..." Sb 12,19
    Ele atesta: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    Foi o mesmo que ensinou São Pedro: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Ele não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    Pois a primeiríssima das penitências é afastar-se do pecado, como pregava São Paulo, mesmo com toda privação que tal postura represente para nosso corpo: "Mortificai, pois, vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Porque é Deus mesmo que nos estimula a uma verdadeira conversão. E de idosos a crianças, como exortou o Profeta Joel ante o anúncio da Grande Tribulação: "'Agora, portanto' - Oráculo do Senhor -, 'voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, e compadece-Se da desgraça. Tocai a trombeta em Sião: publicai o jejum, convocai a assembléia, reuni o povo; santificai a assembléia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os meninos de peito; saia o recém-casado de seus aposentos, e a esposa de sua câmara nupcial." Jl 2,12-13.15-16
    Ele colabora para a definitiva transformação de nossos corações, como prometeu através do Profeta Ezequiel ainda durante a escravidão da Babilônia: "Dar-vos-ei um novo coração e em vós porei um novo espírito; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne." Ez 36,26
    Com efeito, a verdadeira penitência acontece em nosso íntimo, e assim reza o salmista: "Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar." Sl 50,19


ORAÇÃO, JEJUM E ESMOLA

    A Confissão, portanto, é uma das três etapas do Sacramento da Penitência, que foi instituído por Jesus. Por isso é insubstituível, uma indeclinável obrigação da Igreja. De fato, ao incumbir os Apóstolos do Ministério da Reconciliação logo em Sua primeira aparição, Ele deu-lhes este poder: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, assim também Eu vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    Foi o que fez São Pedro, como vemos no dia do Pentecostes: "Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: 'Que devemos fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus." At 2,37-39
    E também São Paulo: "Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava Consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    Há vários modos de cumprir a penitência, que é estabelecida pelo Sacerdote, e assim obter de Deus o perdão dos pecados. Contudo, os Padres da Igreja falavam mais frequentemente em oração, jejum e esmola, porque assim foram inspirados nas palavras do próprio Jesus, que recomenda:
    "Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,2-3
    "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra em teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,5-6
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto." Mt 6,16-17
    O Arcanjo São Rafael já havia falado dessas práticas a Tobit e a Tobias: "Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos escondidos tesouros de ouro. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a Misericórdia e a Vida Eterna..." Tb 12,8-9
    E há vários exemplos. Por primeiro, destaca-se São João Batista, que foi um penitente por vida: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel. João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Lc 1,80; Mt 3,4
    Outro grande sinal foi a profetisa do Templo de Jerusalém, como vemos no dia da Apresentação do Menino Jesus: "Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    E o próprio Jesus registrou o gesto de outra viúva no Templo, que cumpria fielmente os Mandamentos da Lei e vivia tão somente das Graças de Deus: "Jesus sentou-Se defronte do cofre de esmola e observava como o povo nele deitava dinheiro; muitos ricos depositavam grandes quantias. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. Ele chamou Seus discípulos e disse-lhes: 'Em verdade, digo-vos: esta pobre viúva deitou mais do que todos que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância; esta, porém, pôs, de sua indigência, tudo que tinha para seu sustento.'" Mc 12,41-44
    Por isso o Profeta Sofonias, que bem atinava para a gravidade do Juízo, com veemência exortava a todos: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha; antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor; antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, todos vós, humildes da terra, que observais Sua Lei; buscai a justiça e a humildade: talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    O Profeta Malaquias também se perguntava: "Quem estará seguro no Dia de Sua Vinda? Quem poderá resistir quando Ele aparecer? Porque Ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros." Ml 3,2
    São Pedro, por sua vez, lembrando os Provérbios, exaltava a excelência da caridade: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque ela cobre a multidão dos pecados." 1 Pd 4,8
    E aos fariseus, Jesus recomendou a esmola também como modo de purificação dos objetos de uso diário: "Dai antes esmola do que possuís, e todas as coisas ser-vos-ão limpas." Lc 11,41

PEDIR E OFERECER PERDÃO

    Sem dúvida, Jesus demonstrou que nossas devoções nada representam para Deus sem que tenhamos a humildade de pedir desculpas a quem ofendemos, ou simplesmente a quem quer que se julgue ofendido por nós: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Na parábola do filho pródigo, quando de seu retorno à casa do pai, vemos uma sincera confissão de arrependimento, expressando o pecado em toda sua dimensão: "Meu pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho." Lc 15,21
    Destaca-se de mesmo modo a importância do perdão oferecido ao próximo, que, aliás, igualmente ensinado pelo próprio Jesus, é uma obrigação e também um modo de penitenciar-se: "Porque se perdoardes aos homens suas ofensas, Vosso Pai Celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco Vosso Pai vos perdoará." Mt 6,14-15
    Ele ensinou ainda que nosso perdão não pode ter limites: "Então Pedro aproximou-se d'Ele e disse: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?' Respondeu Jesus: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.'" Mt 18,21-22
    E deve ser oferecido antes de qualquer oração: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também Vosso Pai, que está nos Céus, perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26


VIGÍLIA DE ORAÇÃO

    A vigília é mais um modo de penitenciar-se. O próprio Jesus, embora não tivesse de que se penitenciar, entrou em vigília pouco antes de ser preso no Jardim das Oliveiras, e convidou São Pedro, São João e São Tiago para acompanhá-Lo: "Minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai." Mc 14,34
    E ao ver que não era auxiliado por Seu principal companheiro, reclamou de São Pedro por sua sonolência: "Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora?" Mc 14,37
    Por fim, recomendou abertamente a vigília de oração contra as tentações: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mc 14,38

INTERCESSÃO PELO PRÓXIMO

    Rezar pela Salvação do próximo é outra maneira de penitenciar-se, agora em conjunto, com todo o corpo da Igreja, isto é, o Corpo Místico de Cristo. São Paulo exortava: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Jesus, ademais, pediu que rezássemos até mesmo por aqueles que nos perseguem: "Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem." Mt 5,44

COMPAIXÃO PELOS QUE SOFREM

    Mais que sacrifícios, porém, Jesus pedia misericórdia, e que nos juntássemos a Ele em busca das ovelhas perdidas. Perdição que às vezes se dá por falta de solidariedade, como Ele apontou: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício' (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mt 9,13
ACEITAR OS SOFRIMENTOS

    Muitos pecam por imaturas tentativas de fugir dos sofrimentos. Mas Jesus propôs exatamente o contrário, e segui-Lo com sinceridade é a maior das penitências: "Se alguém Me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me." Mc 8,34


ENFRENTAR AS INJUSTIÇAS

    Além de ícone de vida penitente, São João Batista foi também um poderoso Profeta, e assim denunciou a situação de adultério em que vivia o rei Herodes, razão pela qual foi martirizado. Jesus destacou essa bem-aventurança, que é igualmente uma penitência: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10

PEREGRINAÇÕES

    Viagens por devoção também são obrigação religiosa e uma maneira de expiar pecados, como é da tradição dos judeus: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo o país subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde Ele estava O denunciasse, para prenderem-nO." Jo 11,55-57
    É o que faziam São José e Nossa Senhora: "Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa." Lc 2,41
    E Jesus cumpria essa tradição: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,13

QUARESMA

    Os 40 dias que antecedem a Páscoa é o tempo mais apropriado para as penitências. A Igreja estabelece através de Seu quarto Mandamento: "Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja." No Brasil, isso se aplica a todas sextas-feiras da quaresma, à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira Santa.

CINZAS E TRADIÇÕES JUDAICAS

    No Antigo Testamento, vemos outras formas de penitência além de pôr cinzas sobre a cabeça, como fazemos na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma. É o rasgar as vestes e vestir-se de saco, que foi a penitência de Mardoqueu ao saber que o rei Assuero havia dado a Amã permissão para exterminar o povo judeu, enquanto estavam no Exílio da Babilônia: "Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor." Est 4,1
    Tamar também rasgou as vestes ao ser violentada e, em seguida, desprezada por Amnon, seu meio irmão: "Tamar derramou então cinza sobre a cabeça, rasgou seu longo vestido e, pondo a mão sobre a cabeça, afastou-se gritando." 2 Sm 13,19
    Esses costumes foram confirmados por Jesus: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza." Lc 10,13

DIZ O CATECISMO:

    "A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de Sua Graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e uma tristeza salutares, chamadas pelos Padres de 'animi cruciatus (aflição do espírito)', 'compunctio cordis (arrependimento do coração)'." CIC § 1431
    "O pecado é antes de tudo uma ofensa a Deus, uma ruptura da Comunhão com Ele. Ao mesmo tempo é um atentado à Comunhão com a Igreja. Por isso, a conversão traz simultaneamente o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, que é expresso e realizado liturgicamente pelo Sacramento da Penitência e da Reconciliação." CIC § 1440
    "O Sacramento da Penitência é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo sacerdote. Os atos do penitente são o arrependimento, a confissão ou manifestação dos pecados ao sacerdote e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação." CIC § 1491
    "Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem ter recebido previamente a absolvição pelo Sacramento da Penitência." CIC § 1415

    "Recebe, ó Senhor, por Tuas mãos este sacrifício, para a Glória de Teu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja!"

As Vigílias de Dom Hélder


    "Que seria de mim sem a Vigília?"
    "A experiência ensina que, apesar das melhores resoluções e dos mais decisivos apelos de unidade, podemos acabar o dia esquartejados, de vez que nossos pedaços foram ficando, aqui e ali, enquanto as horas passavam. Sem perder a serenidade e a paz, achando muito natural que criatura seja criatura e barro seja barro, tentemos salvar a unidade antes de dormir. Se ela não se recompõe, tenhamos a confiança de dormir tranquilos e aproveitemos a Santa Missa da manhã seguinte para o reencontro com a Trindade, e, especialmente, com Jesus Cristo."
    "Reparem como no meio do trabalho mais intenso - e justamente na medida em que este aumenta e se agrava - é preciso abrir espaço, descobrir tempo para o essencial. A Regra é um esquema amplo, fácil de guardar... é a visão que Deus me dá nos dias que passam: visão positiva e larga, dentro do lema de Santo Agostinho: “Ama et fac quod vis” (Ama e faze o que quiseres)... Sua remessa vale como uma confidência, como um retrato do que desejo ser. E vale, também, como um convite a não deixar que o acidental tome conta de nós e nos afogue. É incrível como o essencial nos escapa e como é preciso uma vigilância constante para, de novo e sempre, segurá-lo com as duas mãos."
    "... Ela mesma, a Vigília, é um mistério tão grande! Talvez o seja devido às Vigílias do Filho de Deus (e que maravilhosas Vigílias foram as de Cristo, unido mais que ninguém ao Pai Celeste, louvando, agradecendo, pedindo perdão, suplicando!) que as nossas Vigílias ajudam tanto a ver claro, a ver largo, a esquecer os miúdos problemas pessoais pela união às grandes necessidades dos homens e pelo louvor à Santíssima Trindade... Na madrugada que escapou ao espaço e ao tempo, não nos cansamos de repetir os sete pedidos maravilhosos do Pater (Pai Nosso)..."

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Deus é Aquele que é


    Jesus ensinou-nos a tratar Deus de uma forma mais afetuosa, chamando-O frequente e carinhosamente de Pai: "Aba!" Mc 14,6
    E deixou bem evidente essa paternidade quando mandou um recado aos Apóstolos através de Santa Maria Madalena, instantes após Sua Ressurreição: "Subo para Meu Pai e Vosso Pai, Meu Deus e Vosso Deus." Jo 20,17
    Mas ainda que O chamemos de Pai, Criador, Onipotente, sabemos que, mesmo após tantas revelações e tantas referências, Deus continua muito além de nosso modesto entendimento. Para demonstrar Sua natureza absolutamente incriada, quer dizer, essencial e independente de tudo que existe, Ele identificou-Se assim, numa emblemática frase dita a Moisés: "EU SOU AQUELE QUE SOU." Ex 3,14
    Não por acaso, numa das vezes em que declarou Sua Divindade, Jesus usou exatamente essas mesmas palavras, ao falar aos chefes dos judeus: "... porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24
    E quando interrogado se teria visto Abraão, Ele respondeu: "Em verdade, em verdade, digo-vos: antes que Abraão fosse, EU SOU." Jo 8,58
    Para explicitar essa autonomia de Deus, Ele mencionou a imprevisibilidade do Espírito Santo, em conversa com Nicodemos: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    Ou seja, sabemos, ainda por Suas palavras, que a Trindade Santíssima usufrui de um inigualável universo de possibilidades: "... a Deus tudo é possível." Mc 10,27
    O Mistério do Cristo, por si só, já encantava São Paulo: "... coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o salvador desígnio de Deus, mistério oculto desde a eternidade..." Ef 3,8-9
    Ele dizia dos divinos desígnios: "Ó abismo de riqueza, de Sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são Seus juízos e inexploráveis Seus caminhos!" Rm 11,33
    Dizia da Onipresença de Deus: "Porque é n'Ele que vivemos, movemo-nos e existimos..." At 17,28a
    E maravilhava-se: "... o único que possui a imortalidade e habita em inacessível luz..." 1 Tm 6,16a
    Plenamente consciente da manifestação e importância do Divino Paráclito, ele apontava o caminho para essa Luz: "... as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus." 1 Cor 2,11
    Por isso rezava: "Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, que vos dê um espírito de Sabedoria e revele-vos o conhecimento d'Ele..." Ef 1,17
    E explica como nos foi dado saber alguma coisa do inefável: "Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito..." 1 Cor 2,9-10
    Mas Jesus já havia avisado da restritiva infusão do Espírito de Deus: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    E São Pedro indica a inafastável condição para recebê-Lo: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    O auxílio do Espírito Santo, portanto, é essencial para que saibamos Quem é Jesus. São Paulo escreveu: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Por outro lado, o Pai só pode ser verdadeiramente conhecido através do Cristo: "Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar." Lc 10,22
    Com efeito, São João Evangelista testemunhou esse fato em sua primeira epístola: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro." 1 Jo 5,20
    No mesmo sentido, São Pedro atestou que a Revelação do Cristo era a própria Revelação de Deus, pois só Ele é o Senhor da Glória: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    Por essa razão, Jesus exorta-nos a buscar as coisas de Deus: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Pois como demonstrou na noite de Sua Paixão, Ele mesmo foi um exemplo de perene obediência à vontade do Pai: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Porém, não se faça Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    E assim Ele ensinou a rezar no Pai Nosso: "... seja feita Vossa vontade, assim na terra como no Céu." Mt 6,10
    Aliás, Ele chegou a ser bem explícito sobre Sua condição humana: "De Mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e Meu julgamento é justo, porque não busco Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 5,30
    Propôs-nos até uma experiência, para que avaliássemos Seus ensinamentos e Seu proceder: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17


O MISTÉRIO DE CRISTO

    E no mistério do Encarnação do Salvador, vemos o Menino Jesus em Sua frágil humanidade, plenamente submisso ao projeto do Pai, passo a passo na aquisição da necessária condição para servir-Lhe: "E Jesus crescia em estatura, em Sabedoria e Graça, diante de Deus e dos homens." Lc 2,52
    Assim se portava também perante Seus pais ainda aos 12 anos, quando ficou no Templo de Jerusalém após a Páscoa: "Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-lhes submisso." Lc 2,51
    Aliás, assim se portou por toda a vida, segundo São Paulo: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens." Fl 2,6-7
    Isso foi reafirmado pelos seguidores de sua tradição: "Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve." Hb 5,8
    Versando sobre o entendimento meramente humano e sem inspiração, São Paulo diz: "Não que por nós mesmos sejamos capazes de algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus." 2 Cor 3,5
    Em havendo alguma divergência, ele garantia aos filipenses: "... Deus há de esclarecer-vos." Fl 3,15
    Pois assim como se dá relativamente ao entendimento sobrenatural, é sempre Deus que nos inspira à boa vontade e à boa ação: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem em vós realiza o querer e o executar." Fl 2,13
    E em caso de tribulações, São Paulo lembra os poderes d'Aquele que conforta nosso corpo, alma, mente e coração: "Não vos inquieteis com nada! Em todas circunstâncias apresentai a Deus vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a Paz de Deus, que excede toda inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,7
    Porque o Salvador revela, por excelência, o maior bem que o Pai nos oferece: Seu amor: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Amor que é o próprio amor do Filho, como exorta Jesus: "Como o Pai Me ama, também Eu vos amo. Perseverai no Meu amor." Jo 15,9
    Inspiradamente, São João Evangelista acusa a ignorância em contraste com nossa verdadeira filiação: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós somo-lo de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não O conheceu." 1 Jo 3,1
    Em suas profundas reflexões, São Paulo suspira: "O amor de Cristo constrange-nos..." 2 Cor 5,14a
    E refere-se assim à Paixão de Nosso Senhor: "... a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento..." Ef 3,19


DEUS É FIEL

    O cego de nascença, curado por Jesus, dá uma esclarecedora explicação sobre o proceder de Deus Pai. São João Evangelista registrou: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    E Jesus deixou claro que o ser humano não pode desfazer o que Deus sacramentou, como acontece com o Matrimônio: "Eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar." Mt 19,6
    Ou com a Ordenação de um sacerdote, como afirmou São Paulo: "Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 11,29
    Nosso Salvador também sentenciou que nem tudo nos foi revelado, como a definitiva Vinda do Reino dos Céus: "Não vos pertence saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em Seu poder..." At 1,7
    São Paulo, no mesmo sentido, disse que nem tudo sobre o Pai está à nossa disposição, quando se referiu aos não judeus: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles leem-no em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência." Rm 1,19
    E reconheceu: "Nossa ciência é parcial, nossa profecia é imperfeita. Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,9-12
    Os próprios anjos, aliás, precisam contemplar o que acontece na Igreja para bem entender os divinos projetos: "Assim, de ora em diante, as celestes dominações e as potestades podem conhecer, através da Igreja, a infinita diversidade da Sabedoria Divina..." Ef 3,10
    Tais mistérios, porém, não devem desestimular-nos. Ao contrário, em nome da fé nos divinos desígnios que por eles se expressam, devemos perseverar no combate espiritual: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Ora, temos muitas razões para continuar acreditando: "Fiel é Deus..." 1 Cor 1,9
    Somos depositários de inefáveis revelações: "Ora, o Senhor é Espírito..." 2 Cor 3,17
    Testemunhas de sutis realidades: "Deus... consola os humildes..." 2 Cor 7,6
    E não estamos sós: "Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé, Jesus." Hb 12,1
    Mais que isso: por amor aos irmãos, temos o dever de anunciar o Cristo, como disse São Paulo a Filémon: "... para que esta tua fé, que conosco compartilhas, seja atuante e faça conhecer todo bem que se realiza entre nós por causa de Cristo." Fm 1,6
    Pois apesar de Deus escolher os Seus, não cabe a nós discernir a quem anunciá-Lo, como disse São Pedro a Cornélio, pouco antes do 'Pentecostes dos Gentios': "Deus mostrou-me que nenhum homem deve ser considerado profano ou impuro..." At 10,28
    Assim, desde que arrependidos e desejosos de alcançar a Salvação, teremos sempre o amor do Pai: "... Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda nação é-Lhe agradável aquele que O temer e fizer o que é justo. " At 10,34-35
    De fato, como disse Jesus a Nicodemos: "Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que por Ele seja salvo." Jo 3,17

    "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo! O Céu e a terra proclamam Vossa Glória. Hosana nas alturas! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Hosana nas alturas!"