quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Deus confunde


    Para além da dicotomia 'de frente para Deus, Luz, de costas para Ele, trevas', pode parecer contraproducente, ou até igualmente simplório, mas o fato é que há nuances, tanto de Luz quanto de trevas, e vez e outra Deus confunde o mundo. A despeito do que não nos foi revelado, essa é uma de Suas estratégias de correção, ou mesmo de castigo. Num rápido exemplo, temos a mensagem que Jesus mandou através do anjo da igreja de Laodiceia: "Conheço tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, teu zelo e arrepende-te." Ap 3,15-16.19
    Sem dúvida, em paralelo às mais animalescas concupiscências, a racionalidade tem tornado o ser humano soberbamente presunçoso, e isso não remanesce incólume perante o Pai. O primeiro pecado, aliás, foi exatamente esse. A serpente enganou Eva prometendo, no fruto que Deus havia proibido, a sabedoria dos 'deuses': "... no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal." Gn 3,5
    Falando muitas vezes por parábolas, em várias situações Jesus preferia não ser entendido de imediato, nem por todos: "Quando se acharam a sós, os que O cercavam e os Doze indagaram d'Ele o sentido da parábola. Ele disse-lhes: 'A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas.'" Mc 4,10-11
    Isso veio a ser questionado pelos Apóstolos, e Ele invocou as Escrituras para explicar que o processo de conversão exige uma preparação. Ora, não é reconhecendo o pecado que nos voltamos para Deus? "Os discípulos aproximaram-se d'Ele, então, para dizer-Lhe: 'Por que lhes falas em parábolas?' Respondeu Jesus: 'Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. Ao que tem, mais se dará e terá em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem. Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam. Assim se cumpre para eles o que foi dito pelo Profeta Isaías: 'Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração deste povo se endureceu. Taparam seus ouvidos e fecharam seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e Eu os sare (Is 6,9s).'" Mt 13,10-15
    Nosso Senhor afirmou que essa é a função do Espírito Santo: "E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque Eu Me vou para Meu Pai e vós já não Me vereis; Ele o convencerá a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,8-11
    O próprio São Pedro foi chamado a seguir Jesus mais duas vezes: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar como o trigo, mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32
    Isso só aconteceu após a Ressurreição do Senhor, quando Ele confiou-lhe Seu rebanho e profetizou seu martírio: "Por estas palavras, Ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: 'Segue-Me!' Voltando-se Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava... Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: 'Senhor, e este? Que será dele?' Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu." Jo 21,19-20a.21-22
    Por isso, ao usar das parábolas, Jesus estimulava a uma reflexão mais profunda: "E dizia: 'Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!'" Mc 4,9
    Contudo, também as usou exatamente para fazer-Se melhor compreendido: "Era por meio de numerosas parábolas desse gênero que Ele lhes anunciava a Palavra, conforme eram capazes de compreender." Mc 4,33
    Antes de Sua Paixão, porém, e perante aqueles que perseveraram a Seu lado, Ele passou a usar de mais clareza: "Disse-vos essas coisas em termos figurados e obscuros. Vem a hora em que já não vos falarei por meio de comparações e parábolas, mas vos falarei abertamente a respeito do Pai." Jo 16,25
    De fato, muitos não viviam a verdadeira fé; fossem pessoas que apenas se maravilhavam com Seus prodígios, as quais Ele alertou para o poder do Pão da Vida Eterna: "Respondeu-lhes Jesus: 'Em verdade, em verdade, digo-vos: buscais-Me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu Seu sinal.'" Jo 6,26-27
    Fossem pessoas que se atinham a Ele sem saber exatamente porquê: "Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões procuravam-nO e foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse. Mas Ele disse-lhes: 'É necessário que Eu anuncie a Boa Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é Minha Missão.'" Lc 4,42-43
    Fossem pessoas que queriam conhecê-Lo e alcançar a Graça de uma cura: "Entretanto, espalhava-se mais e mais Sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e ser curadas de suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar." Lc 5,15-16
    Ou ainda pessoas só interessadas em ver um 'sinal': "Vieram os fariseus, puseram-se a disputar com Ele e pediram-Lhe um sinal do Céu, para pô-Lo à prova." Mc 8,11
    Realmente confusos, muitos religiosos de Seu tempo viam-se provocados: "Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.'" Jo 10,24
    Mas o próprio Jesus já havia levantado esse problema: "Por que não compreendeis Minha linguagem?" Jo 8,43a
    E Ele mesmo respondeu, colocando Sua vida em julgamento: "Quem de vós Me acusará de pecado? E se vos falo a Verdade, por que Me não credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    Entretanto, até seguidores mais próximos precisaram ouvir mais explicações após Sua Ressurreição: "Disse-lhes Jesus: ''Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    São Paulo também reclamaria dos coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais." 1 Cor 3,1-2
    Assim como os seguidores de sua tradição: "A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornastes-vos tais que precisais de leite em vez de alimento sólido! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,12-14
    Gente de bom coração, entretanto, mostrava-se realmente burilada quando Jesus pregava no dias de festa em Jerusalém: "Muitos do povo, porém, creram n'Ele e perguntavam: 'Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que Este faz?'" Jo 7,31
    Mas desde o início Ele sempre guardou prudente distância do testemunho humano: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois Ele bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-25
    E seria mesmo rejeitado pelos principais dos judeus, como profetizou o salmista: "A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular. Isto foi obra do Senhor, é um prodígio a nossos olhos." Sl 117,22-23
    Ou como previu o Profeta Isaías, em menção feita por São Paulo: "E Israel tropeçou na pedra de escândalo, como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma pedra de escândalo, um rochedo que faz cair. Quem n'Ele crer não será confundido' (Is 8,14;28,16)." Rm 9,32b-33
    De fato, durante Sua Apresentação no Templo de Jerusalém, Jesus foi apontado pelo religioso Simeão como um sinal de contradição, um divisor de águas: "Simeão abençoou-Os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35a
    Aliás, Ele mesmo alegrou-Se com a Divina Providência, quando atestou que o Pai não revela indiscriminadamente Seu poder: "Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e revelaste-as aos pequeninos." Lc 10,21b
    E Ele mesmo vai dizer de Sua Missão: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.'" Jo 9,39
    Foi mais longe: "Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho Eu a desejar se ele já está aceso? Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação." Lc 12,49.51
    Nossa Senhora também observou que Deus, além conceder o êxtase espiritual aos pobres, não deixa que os 'sábios' cheguem a consenso entre si, levando-os a viver em constantes desentendimentos: "Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito alegra-se em Deus, Meu Salvador... Ele... dispersa os soberbos de coração... e eleva os humildes..." Lc 1,47.51-52
    E São Paulo anotou: "Mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte." 1 Cor 1,27
    Ora, era exatamente isso o que acontecia com aqueles que resistiam ao Mistério do Cristo, que ele começou a anunciar logo depois de sua conversão: "Saulo, porém, sentia crescer seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo." At 9,22
    Ele vai citar Isaías aos coríntios: "Pois está escrito: 'Anularei a sabedoria dos sábios e confundirei os inteligentes (Is 29,14).' Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo?" 1 Cor 1,19-20
    E foi nesse estado que ficou Herodes ao saber dos milagres de Jesus: "O rei Herodes ouviu falar de Jesus, Cujo Nome Se tornara célebre. Dizia-se: 'João Batista ressurgiu dos mortos e por isso o poder de fazer milagres opera nele.' Uns afirmavam: 'É Elias!' Diziam outros: 'É um Profeta como qualquer outro.' Ouvindo isto, Herodes repetia: 'Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!'" Mc 6,14a-16
    Sem dúvida, a Santíssima Trindade já usava desse artifício desde o conhecido episódio da Torre de Babel: "Vamos descer e confundir a língua deles, para que um não entenda a língua do outro." Gn 11,7
    Nos Salmos de Davi, que devem ser entendidos como o próprio Jesus rezando ao Pai, vemos um constante pedido para que Deus atordoe os sentidos Seus inimigos: "Que todos Meus inimigos sejam envergonhados e aterrados; recuem imediatamente, cobertos de confusão!" Sl 6,11
    De novo: "Que voltem para trás e sejam confundidos aqueles que planejam o mal contra Mim!" Sl 35,4
    Ou ainda mais claramente nessa passagem: "Fiquem confusos e cobertos de ignomínia aqueles que se alegram com Meus males, sejam envoltos em confusão e opróbrio aqueles que se erguem contra Mim com soberba." Sl 35,26
    E essa profecia cumpriu-se, ainda que episodicamente, quando Jesus entrou em Jerusalém, no Domingo de Ramos: "Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde Vossos adversários, e reduz ao silêncio Vossos inimigos." Sl 8,3
    Com efeito, os judeus reagiram assim: "Os cegos e os coxos vieram a Ele no Templo e Ele curou-os, para grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no Templo: 'Hosana ao filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,14-16
    E foi com base nessas palavras, fazendo menção à Sua Santíssima Mãe, que se deu a Ressurreição de Cristo: "Olhai-Me e tende piedade de Mim, dai ao Vosso Servo a Vossa força, salvai o Filho de Vossa serva. Dai-Me uma prova de Vosso favor, a fim de que vejam Meus inimigos, para sua confusão, que Vós, Senhor, sois Meu sustento e Meu consolo." Sl 85,16-17
    Por sua vez, Asaf pedia a Deus em seus Salmos que não o deixasse no vazio da desilusão: "Sustentai-me pela Vossa promessa, para que eu viva; não queirais confundir minha esperança." Sl 118,11
    Este salmista agarrava-se aos Mandamentos: "Afastai-me do caminho da mentira, e fazei-me fiel à Vossa Lei. Escolhi o Caminho da Verdade, impus-me Vossos decretos. Apego-me a Vossas ordens, Senhor. Não permitais que eu seja confundido." Sl 118,29-31
    E pedia a Deus a purificação de seu coração: "Seja perfeito meu coração na observância de Vossas leis, a fim de que eu não seja confundido." Sl 118,80
    O povo judeu, enfim, já sabia muito bem de onde vinha seu socorro e o que acontecia com seus inimigos: ".... mas fostes Vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes aqueles que nos odiavam." Sl 43,8
    Tal certeza foi enfatizada ao contrapor carentes e insensatos: "O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva, mas entrava os desígnios dos pecadores." Sl 145,9
    E assim eles pediam a Salvação da alma: "Defendei minha alma e livrai-me; não seja confundido eu que em Vós me recolhi." Sl 24,20
    Acertadamente, refugiavam-se em Deus, para livrarem-se da eterna condenação: "Junto a Vós, Senhor, refugio-me. Não seja eu confundido para sempre. Por Vossa justiça, livrai-me!" Sl 30,2
    Não por acaso, o livro da Sabedoria já apontava: "Com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e Seu poder, posto à prova, confunde os insensatos." Sb 1,3
    Prevê como se dará o Julgamento dos iníquos: "Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniquidades se levantarão contra eles para confundi-los." Sb 4,20
    E diz o que acontece com aqueles que afrontam o poder de Deus: "Mostrais Vossa força aos que não creem em Vosso poder, e confundis aqueles que a não conhecem e ousam afrontá-la." Sb 12,17


JESUS: LUZ NUM MUNDO DE AFLIÇÕES

    Diante de Jesus, pois, os espíritos imundos temiam ser entregues aos transtornos sem fim, ou seja, ao lago de fogo: "Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para confundir-nos?" Mc 1,24
    Noutra passagem, um anjo de Satanás reclama da Luz, da realidade revelada por Jesus: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-Te por Deus, que não me atormentes." Mc 5,7
    Citando mais uma vez Isaías, São Paulo explica assim a insensibilidade de Israel em não perceber o Cristo: "Deus deu-lhes um espírito de torpor, olhos que não vejam e ouvidos que não ouçam, até ao dia de hoje." Rm 11,8
    Isso já havia acontecido com o rei Saul, por recusar-se a cumprir as ordens de Deus. Foi logo após a unção de Davi: "O Espírito do Senhor retirou-Se de Saul, e um espírito mau veio sobre ele, enviado pelo Senhor." 1 Sm 16,14
    Igualmente com o rei Acab, que morreria na batalha de Ramot por seguir enganosos conselhos, apesar dos avisos do Profeta Miqueias: "O Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos Profetas aqui presentes, mas é tua perda que o Senhor decretou." 1 Rs 22,23
    E com o próprio Faraó, nos tempos de Êxodo: "O Senhor disse a Moisés: 'Vai procurar o faraó, porque lhe endureci o coração e o de sua gente para manifestar Meus prodígios no meio deles, para que contes a teus filhos e a teus netos as maravilhas que fiz no Egito e os prodígios que operei no meio deles, e para que saibais que Eu sou o Senhor.'" Ex 10,1-2
    Jó, aliás, vai reclamar do próprio Deus e de Seus sobrenaturais procedimentos: "Orgulhoso como um leão Tu me caças, multiplicas proezas contra mim, redobras contra mim Teus assaltos, Teu furor cresce contra mim e vigorosas tropas vêm-me cercar. Por que me tiraste do ventre?" Jó 10,16-18a
    O Apóstolo dos Gentios, ademais, fala da ação do 'deus desse mundo' para afastar as pessoas do Evangelho: "Se nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    Na Segunda Carta aos Tessalonicenses, diz como ele age: "Ele usará de todas seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar." 2 Ts 2,10
    Afirma que esse pernicioso poder vem do próprio Pai: "... Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro." 2 Ts 2,11
    E cita especificamente o mistério do Mal, que no mundo atua sob a permissão de Deus: "Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém." 2 Ts 2,7
    Fala inclusive em milagres realizados por falsos profetas: "A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores." 2 Ts 2,9
    Tudo isso havia sido previsto pelo próprio Jesus: "Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos." Mt 24,24
    De fato, Ele cita a presença de figuras assim no Dia do Julgamento: "Muitos Me dirão naquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu lhes direi: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, maus operários!'" Mt 7,22-23
    Por isso São Pedro, entre vários outros autores sagrados, pertinentemente descreve o inferno como lugar de constante aflição: "Essa gente são fontes sem água, nuvens impelidas pelo furacão. Espera-os a escuridão das trevas." 2 Pd 2,17
    São Judas Tadeu dá idêntico parecer ao mencionar o livro de Henoc, um apócrifo, ou seja, livro não plenamente inspirado, no qual a condenação do Juízo Final é descrita assim: "Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus Santos para julgar a todos e confundir os ímpios, por causa das obras que praticaram..." Jd 14b-15a
    E assim o Príncipe dos Apóstolos estimula a permanecermos na Paz de Cristo, mesmo diante daqueles que levantam falso testemunho, explicando o porquê desse comportamento: para confundi-los: "Tende uma reta consciência a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos os que desacreditam vosso santo procedimento em Cristo." 1 Pd 3,16
    Com efeito, como replicou São Paulo na Carta aos Romanos, os Provérbios já ensinavam assim: "Tem teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará." Pr 25,21-22
    Ora, o próprio Jesus havia ensinado: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem." Mt 5,43-44
    Por isso também São João Evangelista pede que d'Ele não nos afastemos, para evitarmos o pior na 'hora da nossa morte', como diz a Ave Maria, ou no Último Dia, se vivos estivermos: "E agora, filhinhos, permanecei n'Ele, para que, quando aparecer, tenhamos confiança e não sejamos confundidos por Ele, na Sua Vinda." 1 Jo 2, 28
    Porque aqueles que estão em Comunhão com Jesus, mesmo que vivendo as aflições e as cruzes deste mundo, não são atormentados, mas têm Sua Luz que conduz à eternidade: "Falou-lhes outra vez Jesus: 'Eu sou a Luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida.'" Jo 8,12
    São estes que recebem o Espírito Santo, como Jesus prometeu, e por Ele são guiados à Verdade: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,16-17
    Por isso São Paulo garante: "Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor Seu Espírito. Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,5.7
    E explica assim o que acontece com as pessoas do mundo: "Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,14
    Como preciosíssimo e divino bem, portanto, a Igreja de Jesus traz na alma Sua Paz: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    Isaías foi mensageiro também dessa profecia a respeito de Jesus: "Por isso, diz-lhes o Senhor Deus: 'Eu porei em Sião uma pedra, um bloco escolhido, uma pedra angular e preciosa, uma pedra de alicerce e bem firmada: quem nela confiar não será abalado.'" Is 28,16
    Quantos aos tempos que antecederam à Vinda do Cristo, a traição e malícia do povo de Israel não ficaria impune. Ao contrário, foi efetivamente corrigida: "Pasmai-vos e maravilhai-vos, obstinai-vos, feridos de cegueira, embriagai-vos, mas não de vinho, cambaleai, mas não por causa da bebida. Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de torpor, fechou vossos olhos e cobriu vossas cabeças. O Senhor disse: 'Esse povo vem a Mim apenas com palavras e honra-Me só com os lábios, enquanto seu coração está longe de Mim e o temor que ele Me testemunha é convencional e rotineiro. Por isso continuarei a tratar esse povo de modo tão estranho que a sabedoria dos espertalhões se perderá e a inteligência dos astutos desaparecerá.'" Is 29,9-10.13-14
    A passagem de Jesus entre nós, contudo, é a marca de um novo tempo: "Por isso, eis o que disse o Senhor, o Deus da casa de Jacó, que resgatou Abraão: 'Daqui em diante Jacó não será mais confundido, e seu rosto não mais empalidecerá, porque, quando n'Ele virem Minha obra, bendirão o Meu Nome. Glorificarão o Santo de Jacó e temerão o Deus de Israel. Os espíritos desencaminhados aprenderão Sabedoria, e aqueles que murmuravam receberão instrução." Is 29,22-24
    Não obstante, lembrando a definitiva Volta de Cristo, oportunamente São Pedro menciona as características tribulações da vida de um cristão: "É isto o que constitui vossa alegria, apesar das passageiras aflições a vós ainda serem causadas por diversas provações, para que a prova a que é submetida vossa fé (mais preciosa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) redunde para vosso louvor, para vossa honra e para vossa glória, quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7
    Sem dúvida, foram palavras de Jesus: "Referi-vos essas coisas para que em Mim tenhais a Paz. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Disse mais: "Em seguida, convocando a multidão juntamente a Seus discípulos, disse-lhes: 'Se alguém Me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me.'" Mc 8,34
    Assim o Príncipe dos Apóstolos pede o moderado mas firme testemunho de nossa fé: "E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! Portanto, não temais as ameaças nem fiqueis conturbados. Antes em vossos corações santificai Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,14-15
    Não é errado, portanto, dizer que o mundo está dividido entre os que creem e os que estão confusos...

    "Vosso Filho permaneça entre nós!"

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A Piedade


    De que nos serve tanto conhecimento científico? Para o autodestrutivo conforto do individualismo, do hedonismo e do consumismo? Seguido das consequentes catástrofes pessoais, sociais e ecológicas? Para São Paulo, o amadurecimento tem, sob todos aspectos, muito especial finalidade. Deve necessariamente seguir na direção da piedade, mas não com significado de misericórdia, que é mais comum, na verdade uma corruptela, porém em seu original, de religiosidade, de natural e espontânea prática da . Ele escreveu a São Tito: "Paulo, servo de Deus, Apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da Verdade, que conduz à piedade..." Tt 1,1
    São Timóteo ele exalta a devoção de amor a Deus como sinal da Vida Eterna: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da Vida presente e da futura." 1 Tm 4,8
    E apelando à razão e à Revelação, divulgada pelos Apóstolos, condena todas crendices que se opõem a verdadeira espiritualidade: "Quanto às profanas fábulas, esses extravagantes contos de comadres, rejeita-as." 1 Tm 4,7
    Dizia que ela deve ser vivida na mais absoluta gratuidade: "Sem dúvida, grande é o valor da piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento." 1 Tm 6,6
    Conhecedor das forças do demônio, propunha pura e simplesmente correr, fugir de suas influências, e apontava, junto à piedade, algumas das principais virtudes cristãs: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,11
    São Pedro, na mesma linha do amadurecimento citada por São Paulo, afirma que é conhecendo Jesus que somos conduzidos a esses inestimáveis valores: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Àquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    Cita evidentes benefícios: "... é porque o Senhor sabe livrar das provações os piedosos homens e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo..." 2 Pd 2,9
    E como fruto de sua experiência ascética e mística, ensina a luminosa sequência de metas que um fiel cristão deve trilhar para achegar-se concretamente a Deus: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade." 2 Pd 1,5-7
    Ele exorta e garante: "Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto Sua Majestade com nossos próprios olhos." 2 Pd 1,10-11.16
    Falando das alterações cósmicas que se darão com o fim do mundo, o Príncipe dos Apóstolos prega a dignidade de filhos de Deus e a sincera devoção: "Entretanto, virá o Dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas hão de desagregar-se, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade..." 2 Pd 3,10-11
    Assertivamente, indicando quase os mesmos valores dos estágios espirituais propostos por São Pedro, São Tiago Menor diz que a verdadeira piedade consta, em essência, de contrição, sobriedade, caridade e castidade: "Se alguém pensa ser piedoso, mas não refreia sua língua e engana seu coração, então é vã sua religião. A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e Nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas em suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo." Tg 1,26-27
    São Paulo tem na piedade, sempre com significado de vivência da fé, a principal característica da Doutrina de Jesus: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é cego, não entende nada, é doente à procura de discussões e brigas de palavras." 1 Tm 6,3-4a
    Energicamente condena os falsos mestres, que, entre outros graves pecados por cobiça, distorcem as práticas religiosas, aproveitam-se da boa fé dos verdadeiros devotos e maculam a Igreja enquanto Corpo Místico de Cristo: "Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, os vãos conflitos entre homens de coração corrompido e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro." 1 Tm 6,4b-5
    E ressalta o esforço de Jesus para que cheguemos à solidez da Igreja, ao conhecimento da Verdade: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, Profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios." Ef 4,11-14
    Profetiza, enfim, sobre toda espécie de lobo que se esconderá sob pele de cordeiro, como falsos fiéis que não vivem da sincera busca da realidade, à qual devem curvar-se, e fogosamente escolhem a doutrina que lhes convêm: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um difícil período. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,1-7
    Esta, aliás, seria uma revelação particular que lhe foi feita pelo próprio Espírito Santo, como registrou: "O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a embusteiros espíritos e a diabólicas doutrinas, de hipócritas e impostores, marcados na própria consciência com o ferrete da infâmia." 1 Tm 4,1-2
    Por isso pedia aos colossenses ainda mais devoção: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças. Orai também por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa Palavra para que possamos anunciar o Mistério de Cristo." Cl 4,2-3a
    Aos romanos ele avisa dos sérios riscos do relaxamento da religiosidade: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    E dá uma lista de tenebrosas consequências da aridez espiritual: "Por isso, Deus entregou-os aos desejos de seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida a seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus, que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as cometem." Rm 1,24-32
    Por fim, ele explica a São Timóteo como deve ser a postura de um autêntico piedoso, ciente de que a verdadeira religiosidade é absolutamente sobrenatural: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade. Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da divina bondade: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,15-16
    E recomenda: "Empenha-te em apresentar-te diante de Deus como homem digno de aprovação, operário que não tem de que se envergonhar, íntegro distribuidor da Palavra da Verdade. Procura esquivar-te das frívolas conversas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena." 2 Tm 2,15-17a
    Ora, na Carta a São Tito, ele sintetizou assim a Missão de Jesus: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    De fato, Jesus prega a interiorização da fé: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    Pois quando realmente nos entregamos a Deus, é Ele mesmo Quem realiza em nós Sua vontade: "E o Deus da Paz que, no Sangue da Eterna Aliança, ressuscitou dos mortos o Grande Pastor das ovelhas, Nosso Senhor Jesus, queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável a Seus olhos, por Jesus Cristo, a Quem seja dada a Glória por toda eternidade. Amém." Hb 13,20-21 
    E com absoluta razão, São Paulo inclui na prática de fé que rezemos também pelas autoridades não religiosas: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos homens, pelos reis e por todos que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,2-3
    Além, claro, por todos os cristãos: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Nesse sentido, seus seguidores pedem especial deferência por nossos Sacerdotes: "Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta). Assim, eles o farão com alegria, e não a gemer, que isto vos seria funesto." Hb 13,17
    E eles, por óbvio, devem dar o primeiríssimo exemplo de piedade, como São Paulo exigia dos bispos: "Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à Doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a Sã Doutrina e rebater aqueles que a contradizem." Tt 1,8-9
    Ora, a religiosidade dos Profetas fazia toda diferença, podendo levar á descrença geral se eles eram falsos: "Por isso, eis o Oráculo do Senhor dos Exércitos contra os profetas: 'Vou nutri-los com absinto, e dar-lhes de beber águas contaminadas. Porquanto, é pela atitude dos profetas de Jerusalém que a impiedade invadiu a terra.'" Jr 23,15
    Bem como a de um sumo sacerdote, como se viu ao tempo dos Macabeus: "Enquanto os habitantes de Jerusalém gozavam de uma perfeita paz, por causa da piedade e retidão do sumo sacerdote Onias, na exata observância das leis, o Templo era respeitado até mesmo pelos reis estrangeiros." 2 Mc 3,1-2a
    Por ela se dão os mais virtuosos atos e fé: "Na verdade, quando nossos pais foram levados à Pérsia, os sacerdotes de então, inflamados de piedade, tomaram secretamente o fogo sagrado do altar e esconderam-no no fundo de um poço seco, onde eles o ocultaram tão cuidadosamente que o lugar permaneceu desconhecido de todos." 2 Mc 1,19
    Nela estava toda virtude dos reis do povo de Deus, como Saul: "'Eis que o povo está pecando contra o Senhor', vieram dizer a Saul, 'comendo carne com sangue.' 'Isso é uma impiedade', exclamou o rei." 1 Sm 14,33a
    Também foi o caso de Davi: "Por todos os séculos, em vista de sua piedade, mereceu Davi o trono real." 1 Mc 2,57
    E Josias: "Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado. Voltou o coração para o Senhor e fez desaparecer as abominações da impiedade. ... os demais reis de Judá abandonaram a Lei do Altíssimo e desprezaram o temor a Deus, por isso tiveram de entregar seu reino a outros, e sua glória a uma nação estrangeira." Eclo 49,3-4.6-7
    Os Macabeus rezavam pelos judeus que moravam no Egito: "Que Ele disponha vossa alma à piedade e à observância de Seus mandamentos com um coração generoso e uma fervente submissão!" 2 Mc 1,3
    Pois está nos Provérbios: "A justiça do homem íntegro aplana-lhe o caminho, mas o ímpio abisma-se em sua própria impiedade." Pr 11,5
    E no livro da Sabedoria: "Com efeito, Deus odeia tanto o ímpio quanto sua impiedade. " Sb 14,9
    A piedade, portanto, é a mais devota prática dos ritos religiosos, representados por excelência na Santa Missa, na qual se rende a Deus a Glória que Lhe é devida, como disse o cego de nascença curado por Jesus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    Prática essa que requer humildade e Confissão, como explicou Jesus: "Subiram dois homens ao Templo para rezar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, rezava no seu interior desta forma: 'Graças dou-Te, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10,14
    Pois muito mais que devoção, nas práticas de fé, assim como na Santa Missa, tal qual o Cristo devemos oferecer-nos em verdadeiro sacrifício. São Paulo diz: "Eu exorto-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este vosso culto espiritual." Rm 12,1
    Para tanto, é de suma importância que nos deixemos envolver por Seu Espírito: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, e pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    E como no temor ao Senhor é que está o início da Sabedoria (Pr 9,10), a verdadeira religiosidade não pode ser diferente: "Sim, possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que Lhe torne agradável nosso culto com temor e respeito. Porque Nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)." Hb 12,28


UMA VISÍVEL MARCA

    Mas nem toda prática de fé está voltada para a verdadeira Luz. Ao contrário, a maioria contempla apenas Seus reflexos. Jesus disse à samaritana: "Vós adorais o que não conheceis." Jo 4,22a
    Sobre a religiosidade dos judeus, que também se expressa em forma de zelo, São Paulo observou: "Pois lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2
    Ele mesmo acusou seus erros de juventude: "Quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível." Fl 3,5b-6
    Disse essencialmente a quem são dirigidos os Mandamentos: "Sabemos que a Lei é boa, contanto que dela se faça legítimo uso, e se tenha em conta que a Lei não foi feita para o justo, mas para os transgressores e os rebeldes, para os ímpios e os pecadores, para os irreligiosos e os profanadores, para os que ultrajam pai e mãe, os homicidas, os impudicos, os infames, os traficantes de homens, os mentirosos, os perjuros e tudo o que se opõe à Sã Doutrina e ao glorioso Evangelho de Deus Bendito, que me foi confiado." 1 Tm 1,8-11
    E ressaltou a verdadeira guia do Espírito Santo: "Porém, se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei. Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas previno-vos, como já vos preveni: aqueles que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! O fruto do Espírito, ao contrário, é caridade, alegria, Paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Contra estas coisas não há Lei. Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências." Gl 5,18-23
    Essa grande dedicação, contudo, quando corretamente orientada, deve ser mantida: "Não relaxeis vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,11
    O próprio Jesus reclamou: "Ao anjo da igreja de Laodiceia, escreve: 'Eis o que diz o Amém, a fiel e verdadeira Testemunha, o Princípio da Criação de Deus. Conheço tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.'" Ap 3,14-16
    Também aqui: "Ao anjo da igreja de Éfeso, escreve: 'Eis o que diz Aquele que segura as sete estrelas em Sua mão direita, Aquele que anda pelo meio dos sete candelabros de ouro. Tens perseverança, sofreste por Meu Nome e não desanimaste. Mas tenho contra ti que arrefeceste teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste. Arrepende-te e retorna às tuas primeiras obras.'" Ap 2,1.3-5
    Ela pode ser facilmente atestada nas atitudes do fiel, como São Paulo diz de um de seus colaboradores: "Com eles enviamos ainda outro nosso irmão, cujo zelo pudemos comprovar várias vezes e em diversas ocasiões. Desta vez se mostrará ainda mais zeloso, em razão da grande confiança que tem em vós." 2 Cor 8,22
    Ela é contagiante: "Porquanto estou ciente de vossa boa vontade, que enalteço, para glória vossa, ante os macedônios, dizendo-lhes que a Acaia também está pronta desde o ano passado. O exemplo de vosso zelo tem estimulado a muitos." 2 Cor 9,2
    Aliás, é uma das mais marcantes características religiosas: "Vós distinguis-vos em tudo: na fé, na eloquência, no conhecimento, no zelo de todo gênero e no afeto para conosco. Cuidai de ser notáveis também nesta obra de caridade." 2 Cor 8,7
    Pois se faz notar em toda boa obra, inclusive ao distanciar-se dos que causam divisões na Igreja: "Certa é esta Doutrina e quero que a ensines com constância e firmeza, para que aqueles que abraçaram a fé em Deus se esforcem por aperfeiçoar-se na prática do bem. Isto é bom e útil aos homens. Quanto a tolas questões, genealogias, contendas e disputas relativas à Lei, foge delas porque são inúteis e vãs. O homem que assim fomenta divisões, depois de advertido pela primeira e segunda vez, evita-o, visto que esse tal é um perverso que, perseverando em seu pecado, condena-se a si próprio." Tt 3,8-11
    Ela está expressa nas peregrinações religiosas, como a visita dos judeus a Jerusalém durante o Pentecostes: "Achavam-se então em Jerusalém piedosos judeus de todas nações que há debaixo do céu. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maravilhava-se de que cada um os ouvia falar em sua própria língua." At 2,5-6
    No rito de sepultamento: "Entretanto, alguns homens piedosos trataram de enterrar Estêvão e fizeram grande pranto a seu respeito." At 8,2
    Por pessoas assim se cumprem as obras de Deus, como o cristão enviado a São Paulo em Damasco: "Um certo Ananias, piedoso homem e observador da Lei, muito bem conceituado entre todos judeus daquela cidade, veio ter comigo e disse-me: 'Irmão Saulo, recobra tua vista.' Naquela mesma hora pude enxergá-lo." At 22,12-13
    Elas são agraciadas e anunciam maravilhas, como aquele que testemunhou a Apresentação do Senhor: "Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a Consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor." Lc 2,25-26
    É uma vida, no entanto, de muitas contrariedades, por causa dos pecados do mundo: "Pois todos que quiserem viver piedosamente em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição." 2 Tm 3,12
    E por força da obediência, ela faz-se perceber ainda mais claramente diante de uma repreensão de nossos líderes: "Vede, pois, que solicitude operou em vós a tristeza segundo Deus! Muito mais: que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo! Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto." 2 Cor 7,11
    Se orientada para a verdadeira vontade de Deus, ela é amada e guiada por Ele: "Nesta esperança incessantemente suplicamos por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos de vossa vocação e que leve eficazmente a bom termo todo vosso zelo pelo bem e a atividade de vossa fé." 2 Ts 1,11
    Conforme os dons, esse ardoroso zelo manifesta-se de várias formas: "Temos diferentes dons, conforme a Graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério, dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas, faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade." Rm 12,6-8
    De toda forma, retornando ao mais usual e não menos importante significado da piedade, ou seja, o de compaixão, que aliás é fruto certo da legítima prática religiosa, Jesus ensina que todos nós devemos dela usar com liberalidade, pois inevitavelmente também precisaremos da divina clemência: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!" Mt 5,7
    E citando o Profeta Oseias, usando esse mesmo termo que significa 'coração de pobre', e bem designa o necessário aquebrantamento de coração para viver-se uma sincera devoção, Jesus colocou-a como mais importante que certos rituais: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício.'" Mt 9,13

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

Crer, Celebrar, Viver e Rezar



ELE ENSINOU-NOS A CRER
"Não tenha medo. Apenas creia." Mc 5,36

Crer conforme a Oração do Credo
Nela está a essência do que precisamos acreditar. É também uma poderosíssima oração, capaz de religar-nos a Deus, de unir-nos como Igreja, de aumentar-nos a  e de afastar tentações, maus espíritos e o inimigo. Por ela lembramos de todos importantes capítulos da Sã Doutrina, que professamos para a unção de nossa alma.

ENSINOU-NOS A CELEBRAR
"... fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19

Celebrar os 7 Sacramentos
Neles estão os visíveis sinais dos Mistérios de Deus. Os Sacramentos são ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, sinais e mistérios, e marcam os capítulos da vida cristã. Através deles, nossos compromissos com Deus materializam-se por toda existência terrena. O principal deles é a Eucaristia, onde está o Corpo e o Sangue de Cristo, o alimento da Vida Eterna. É uma imerecida Graça poder sentar-se com Ele à Sua mesa e comer de Pão da Vida.

ENSINOU-NOS A VIVER
"... faze isto e viverás." Lc 10,28

Viver os 10 Mandamentos
Os Mandamentos são a Lei da Vida, da Vida Plena. A consciência moral e a ética estão em Suas linhas, assim como a Paz e a justiça. 'Amar a Deus sobre todas as coisas' é uma frase muito significativa nesses tempos de hedonismo, materialismo e individualismo. 'Guardar os dias santos' é excelente remédio contra solidão, estresse, depressão, manias, compulsão e obsessão.

E ENSINOU-NOS A REZAR
"Eis como deveis rezar: Pai Nosso, que estais no Céu..." Mt 6,9

Rezar o Pai Nosso
Ao rezá-lo, voltamo-nos para o Pai, para a santidade, para o Reino dos Céus e para a divina justiça. E assim aprendemos a confiar em Sua Providência, em Sua Misericórdia e a ter as coisas sem possessividade ou ambição. Pedimos perdão por nossas frequentes faltas e, na mesma proporção, oferecemos perdão aos nossos irmãos. Pedimos ainda força contra as tentações que podem arruinar nossas vidas. E, caso não resistamos, pedimos que Ele nos livre das garras do Maligno, ou nossa derrocada será total.

QUANTO A NÓS...
Com sutileza, São Paulo questiona se realmente temos Jesus como mestre:


    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Jesus e o Pai Nosso


    A oração ensinada por Jesus, e rezada em todo o mundo, é um flagrante da intimidade do Divino Mestre com o Pai Celeste, sempre em nosso favor. Talvez o melhor 'retrato' de Jesus...

SETE PEDIDOS

    Ao rezar "Pai Nosso, que estais no Céu...", desde o início usando o plural 'nosso', Jesus instituiu uma prece que, apesar de perfeita para a piedade pessoal, pois sempre devemos interceder pelos demais, preferencialmente deve ser rezada em coletivo, para levar-nos à imprescindível Comunhão. Assim já afirmamos nosso semelhante como irmão, Deus como Pai e os Céus como morada, d'Ele e nossa, por sermos Seus filhos e pela certeza de que Ele jamais nos abandona.
    Em seguida, Ele faz recordar: "... santificado seja o Vosso Nome..." Está ensinando que, mesmo quando rezamos, devemos santificar o Nome de Deus, pois um dos Mandamentos diz que não podemos usá-Lo em vão. O Nome de Deus, de fato, por Si já é santo. Urge, portanto, que nós O santifiquemos no dia-a-dia por nosso comportamento, uma vez que ousamos invocá-Lo como Pai.
    "... venha a nós o Vosso Reino...": aqui assentimos que Deus reina, que queremos fazer parte de Seu Reino, e que ele venha o quanto antes para todos nós, sem discriminação nem egoísmo, ostensiva e definitivamente determinando o fim desse frágil e conflitante estado em que se encontra a humanidade.
    "... seja feita a Vossa vontade, assim na terra como nos Céus.": como verdadeiros filhos de Deus, voluntariamente aceitamos submeter-nos a Seus desígnios, e não impor-Lhe os nossos, que por certo são imperfeitos. O principal exemplo, para tanto, é o próprio Jesus, que viveu a total submissão aos planos de Deus, mesmo que isto tenha significado a Cruz, e sob idênticas condições pedimos que Sua vontade se cumpra imediatamente aqui na terra, como já acontece nos Céus.
    Após os assuntos celestes, Jesus passa a enfocar os terrenos. "O Pão Nosso de cada dia nos dai hoje...": de Sua modelar humildade, Ele insta-nos a pedir essencialmente aquilo de que precisamos, aqui simbolizado pelo alimento de cada dia, sem nenhuma gula nem ambição. Vale dizer: nada de ávido enriquecimento, ou seja, desmedida fartura, nem de falsa prudência, ou seja, abastado estoque, mas autêntica fé na Divina Providência. E como "Nem só de pão vive o homem (Dt 8,3)", nesse pedido também se expressa nossa diária carência do verdadeiro Pão da Vida, que é a Comunhão Eucarística, o Corpo de Cristo.
    No primeiro dos três últimos pedidos, Jesus segue pedindo não por Si mesmo, senão por nós, pois bem conhece nossas fraquezas. Ele ditou: "Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido..." Claramente exorta-nos a assumir que erramos e a pedir perdão. Aí deve ser lembrado o Sacramento da Confissão, também por Ele instituído, que é uma obrigação para que se possa receber o Santíssimo Sacramento. Observe-se, porém, que em oração só podemos pedir um perdão proporcional ao que oferecemos a nossos irmãos! E se nada perdoamos, sequer podemos recitar esta oração: estaríamos mentindo ao rezar a Deus!
    No penúltimo pedido, Ele ensina-nos a solicitar ajuda contra as fraquezas da carne e da alma, pois devemos reconhecer que estamos frequentemente expostos ao assédio do Mal: "... e não nos deixei cair em tentação..."
    Contudo, caso venhamos a cair em tentação, no último pedido Ele recomenda clamar para que o Pai nos livre da completa dominação do inimigo: "... mas, livrai-nos do Mal."
    Como Jesus viveu e ensinou, portanto, ousemos chamar Deus de Pai, e aceitar que assim seja.

    "Em comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"