quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Santo Antão


    O 'Pai dos Monges Cristãos' nasceu em 251, em Tebaida, região do Alto Egito, filho de ricos camponeses. Ao perder os pais, por volta dos 20 anos, ouviu numa Santa Missa o convite de Jesus à perfeição, feito a um jovem rico: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Mt 19,21
    Em sua já profunda espiritualidade, Santo Antão decidiu viver plenamente sua . Consagrou sua única irmã a uma congregação feminina, ofereceu a herança dela como doação, distribuiu sua parte entre os pobres e foi viver no deserto, onde seus ex-escravos, em agradecimento pela gratuita alforria, esporadicamente traziam-lhe algum alimento, conforme ele lhes requisitava.
    Por várias vezes foi tentado e até agredido fisicamente pelo Demônio, mas resistia com bravura. Sua história tornou-se conhecida em toda região, e ao inimigo interessava muito que ele fracassasse. De posse apenas das Escrituras, Santo Antão sabia que Deus não lhe faltaria, porém percebeu que Sua intervenção só se dava nos mais difíceis momentos, e que por suas próprias forças teria que vencer o inimigo. De fato, está escrito na Carta de São Tiago Menor: "Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao Mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e o alicia." Tg 14,13-14


    Para manter-se sempre atento aos artifícios do maligno, entregou-se tenazmente aos exercícios ascéticos, através de orações, leitura e meditação da Palavra, contemplação, jejuns e vigílias, entre outras penitências, e trabalhos forçados. Ocasionalmente, atendia a quem lhe procurava em busca de oração e aconselhamento espiritual. Após alguns anos e as primeiras grandes vitórias sobre o Mal, passou a viver vagando pelos cemitérios, dormindo em catacumbas. Queria enfrentar o maior dos medos: a morte.


    Os maus espíritos, entretanto, não lhe davam trégua. Era frequentemente atormentado e espancado, de modo que passava várias semanas de noites em claro, para evitar os sustos que eles lhe pregavam e protegendo o rosto e o corpo dos covardes golpes. Além de muitas escoriações, padeceu toda sorte de assombrações, das mais horríveis que se tem notícias, mas também a essas ele venceu.


    Voltou, enfim, para o deserto, mas a frequência com que o povo agora lhe procurava não mais permitia a vida de eremita. Afastou-se então para lugares ainda mais remotos e ermos, e conseguiu viver mais alguns anos sem ser encontrado. Fez sua própria horta e não mais dependia de que lhe levassem alimento. Contudo, acabou sendo localizado por religiosos que já o conheciam e queriam que lhes ensinasse a viver o eremitério. Espalharam-se, cada um em sua caverna, e periodicamente Santo Antão visitava-os, acompanhando e direcionando seus esforços.
    Aos poucos, esses anacoretas foram formando uma sólida estrutura e breve eram uma grande comunidade, onde por dias a fio o isolamento não tinha como ser mantido, ao contrário de como faziam no início. Tão numerosos, já se encontravam ao menos uma vez ao dia, quando iam buscar água ou visitar alguém com algum sintoma de fraqueza ou enfermidade.
    Precisaram também plantar coletivamente, embora em silêncio, para que tivessem alimento bastante. E alguns anos depois, precisaram mesmo construir um mosteiro para que não fossem tirados do isolamento por ataques de ladrões ou pelas frequentes visitas que recebiam de cristãos, carentes de orientação espiritual e de oração, ou querendo estar um pouco com eles.
    Quando começaram a construir, Santo Antão já não estava mais vivendo entre eles. Havia-se afastado para outro lugar no deserto, onde só era encontrado por seus discípulos mais antigos e mais próximos. Não podia abrir mão da solidão: aquela era sua identidade. Raramente vinha para uma visita à comunidade de ascetas, e certamente era conduzido até eles pelo próprio Espírito de Deus, pois nessas ocasiões sua presença realmente fazia-se necessária.
    Em 311, foi guiado pelo Espírito Santo a Alexandria, para defender os cristãos das perseguições de Maximino II, que havia se apaixonado por Santa Catarina de Alexandria e revoltou-se quando teve seu pedido de casamento rejeitado por esta virgem mártir. Orgulhoso e vingativo, ele suspendeu o Édito de Tolerância de Galério e declarou violentas perseguições aos seguidores de Cristo.
    Ao retornar, porém, Santo Antão achou que já havia dado sua contribuição aos eremitas, que os mais antigos já estavam prontos para instruir os demais, e assim partiu sem nada avisar. Isolou-se ainda mais longe nas montanhas do deserto do Egito, totalmente fora do alcance até dos seguidores mais próximos, decisão que eles respeitaram e entenderam.
    Contudo, em 334 um acontecimento tirou-o da solidão. Teve um sonho: havia um homem ainda mais velho que ele morando no deserto. Tratava-se um Santo, sem dúvida, e desde muitas décadas não via ninguém. Era São Paulo Eremita, uma pessoa cuja vida muito parecia com a de Santo Antão, mas que, após se esconder das perseguições de Décio, em 250, nunca mais se deixara encontrar por quem quer que fosse. Levava tão a sério seu isolamento, e por isso vivia tão afastado de tudo, que, quando as palmeiras não lhe davam o alimento, dependia apenas de um corvo (seu anjo da guarda?) para trazer-lhe o pão de cada dia.


    Santo Antão foi ao seu encontro e com ele conversou por todo o dia. Passaram a noite em oração e na manhã seguinte São Paulo pediu-lhe um manto, que havia recebido de presente de Santo Atanásio: queria ser enterrado com ele. Santo Antão inicialmente surpreendeu-se, pois nada lhe havia falado sobre aquele manto nem de quem lhe dera, mas logo ficou muito feliz por constatar que ele possuía o divino dom da clarevidência. Despediu-se brevemente e foi então buscar-lhe o manto. Ao voltar, porém, não o encontrou mais.
    Poucas semanas mais tarde, teve uma visão: era a alma de São Paulo Eremita que subia aos Céus. Assim se apressou em pôr-se a caminho do lugar onde ele morava, e enterrou seu corpo com o manto que ele tinha solicitado.
    Décadas depois, seus discípulos precisaram mais uma vez consultar-se. Só Santo Antão poderia desfazer uma grande discussão que transtornava toda a Igreja. Ário, um cristão de origem judia, estava pervertendo toda cristandade local com uma heresia: pregava que Jesus não tinha natureza idêntica a de Deus Pai, seria a primeira e mais perfeita criatura, mas não seria Deus. E por isso eles procuraram Santo Antão por quase todo o deserto, para que interviesse em socorro da Sã Doutrina. Visitaram várias cidades e aldeias na região, indagaram os mais velhos, seguiram caravanas pelo deserto mas, mesmo após vários meses de esforços, não encontraram nenhuma pista.
    Numa feira, porém, interrogando comerciantes que viajavam com tropas de camelos, encontraram um homem de meia idade que dizia lembrar-se de um senhor com tais características. Quando criança, alguém assim havia acompanhado a caravana de seu pai por um trecho, e sabia dizer em que lugar ele se havia apartado, pois sua pessoa e tal atitude provocaram profunda admiração a todos. Disse que jamais o havia esquecido, de tão boa impressão que desde o primeiro momento lhe causara.
    Ele estava certo. Depois de algumas semanas de buscas nas cercanias do lugar indicado, encontraram Santo Antão no alto de uma montanha. Havia uma gruta, uma pequena plantação, uma fonte: era o Santo do deserto. E não precisaram insistir muito: ele já tinha sido informado em sonhos que precisaria viajar em missão.
    Era 355, e assim, aos 104 anos, Santo Antão foi mais uma vez a Alexandria. Na igreja principal acontecia um debate público e acalorado, no qual várias notáveis figuras se pronunciavam. Santo Antão, que falava apenas o copta e não entendia bem os detalhes que se discutiam, fosse em grego, fosse em latim, em certo momento, após vários discursos, levantou-se determinadamente e tal gesto fez com que todos se calassem, voltando os olhos para ele, que por aqueles tempos em toda parte já era reconhecido como um Santo em vida. Ergueu seu cajado e, referindo-se à Pessoa de Jesus, que era o tema da discussão, disse em alta voz em copta: 'Eu O vi!'
    Não precisou dizer mais nenhuma palavra. A multidão, que era contra o arianismo, entendeu muito bem seu recado e ovacionou-o com aplausos e grande alegria. Se Jesus lhe havia aparecido, e se ele o afirmava com vibrante convicção, era porque testemunhava Jesus como consubstancial ao Pai.
    Voltando de Alexandria, foi conhecer o mosteiro onde viviam seus primeiros discípulos. Estavam todos eufóricos, muitos fatos foram relembrados em comedidas palavras, mas Santo Antão precisava voltar para 'casa'. Alguns discípulos ofereceram-se para acompanhá-lo, o que ele permitiu só por um percurso da viagem.


    Morreu em 356, aos 105 anos, em pleno isolamento. Pouco depois seu corpo foi encontrado por Santo Atanásio, que já era Bispo de Alexandria e, inspirado pelo Espírito Santo, procurava-o para mais uma visita espiritual. Ele contou sua história no livro 'Vita Antonii', escrita no ano de 360.


    Depois de muitas locações ao longo dos séculos, suas relíquias encontram-se em Marme, na província de Groningen, extremo norte da Holanda, na pequena mas muito venerada igreja da vila de Warfhuizen, de forte tradições espanholas e especial devoção a Nossa Senhora das Dores.


    Santo Antão, rogai por nós!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Inferno


    Não há mais triste assunto dentre os do Magistério da Igreja, mas, assim como fez Jesus, é seu dever alertar para o gravíssimo risco da eterna condenação. Falar das almas que se perdem e de seus sofrimentos, contudo, sempre será sumamente lastimável. Tão incômodo que o próprio Cristo, usando de brevidade, referia-Se ao fogo, termo que usou com mais frequência, ou ao Juízo, para lembrar que o maior castigo não é motivado por um divino capricho, mas por decisões pessoais.
    Seja com o nome de hades, xeol, geena, fornalha, fogo eterno, lago de fogo ou inferno, Ele apontou com clareza as consequências do pecado, do qual tem por Missão nos livrar, como afirmou: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Falando sobre os pecados, e um dos mais brandos, Jesus mencionou simples xingamentos, ou ofensas em forma de palavras, que dependendo da frequência e sem o devido arrependimento podem tornar-se graves faltas ou até mortais: "Mas Eu digo-vos: todo aquele que se irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: 'Idiota', será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: 'Louco', será condenado ao fogo da geena." Mt 5,22
    E esta não foi uma fortuita menção. Mais tarde Ele tornaria ao tema, ao denunciar pretensos religiosos que se arrogam falar, e falar mal, do que simplesmente desconhecem: "Raça de víboras, maus como sois, como podeis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda do coração. O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro. O mau, porém, tira coisas más de seu mau tesouro. Eu digo-vos: no Dia do Juízo os homens prestarão contas de cada vã palavra que tiverem proferido. É por tuas palavras que serás justificado ou condenado." Mt 12,34-37
    Sim, porque, sem o arrependimento e as correspondentes penitências, por pequenos que sejam os pecados se acumulam. São Paulo explicou: "Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o Dia da Cólera e da revelação do justo Juízo de Deus..." Rm 2,5
    Quanto ao comportamento, de um modo geral, Jesus indica que muito poucos irão direto ao Céu, isto é, sem passar por punição: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o Caminho da Vida e poucos são os que o encontram." Mt 7,13-14
    E referindo-Se propriamente ao inferno, embora propondo simbólicas mutilações como forma de evitá-lo, Ele falou da gravidade de alguns e imorredouros 'maus costumes', bem como de um fogo que não se apaga: "Se tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na Vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o inextinguível fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga. Se teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na Vida Eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do inextinguível fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga. Se teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos no Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado à geena do fogo, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,43-48
    Se essa imagem, porém, não pareceu por demais severa, é de se observar o que Jesus disse da cidade onde foi morar São Pedro, que Ele mesmo escolheu como residência durante Sua vida pública. Não foi privilegiada por presenciar Seus milagres? Pois bem, tal e qual Sua profecia, há séculos ela simplesmente desapareceu do mapa! "E tu, Cafarnaum, serás elevada ao Céu? Não! Serás atirada no inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!" Mt 11,23-24
    E àqueles preocupados com a mera sobrevivência terrena, Ele deixa bem claro a Quem realmente se deve temer, mais uma vez indicando que a Ressurreição da carne também se dará para os que irão para o inferno: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    De fato, Jesus pregou a pureza de coração. Aliás, tão rara nos dias de hoje até mesmo entre crianças, como profetizou Nossa Senhora do Bom Sucesso na Aparição de Quito. Ele dizia: "Em verdade, declaro-vos: se não vos transformardes e não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus. E o que recebe em Meu Nome a um menino como este, é a Mim que recebe." Mt 18,3-5
    E usando como comparação uma das mais brutais punições de então, Ele ameaçou severamente quem corrompe crianças e adolescentes: "Mas se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em Mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e lançassem-no no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!" Mt 18,6-7
    Por isso, no Dia do Juízo o destino dos que provocam escândalos, em geral, não será exatamente uma novidade: "O Filho do Homem enviará Seus anjos, que retirarão de Seu Reino todos escândalos e todos que fazem o mal e lançar-los-ão na ardente fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 13,41-42
    Entretanto, assim como o pecado já existia antes mesmo da Criação, os seres humanos também não são os primeiros condenados ao fogo eterno. Segundo São Pedro, pela incomensurável Graça que tiveram de conviver pessoalmente com Deus, os anjos que se rebelaram contra Ele foram os precursores a serem sentenciados com a pena capital: "Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas precipitou-os nos tenebrosos abismos do inferno onde os reserva para o Julgamento; se não poupou o mundo antigo, e só preservou oito pessoas, dentre as quais Noé, esse pregador da justiça, quando desencadeou o dilúvio sobre um mundo de ímpios; se condenou à destruição e reduziu à cinzas as cidades de Sodoma e Gomorra para servir de exemplo para os ímpios do porvir... é porque o Senhor sabe livrar das provações os piedosos homens e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo, principalmente aqueles que correm com desejos impuros atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade." 2 Pd 2,4-6.9-10
    E como atesta São Judas Tadeu, além de lugar de castigos o fogo do inferno é eterno: "Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado os seus tronos, Ele guardou-os com eternos laços nas trevas para o julgamento do Grande Dia. Da mesma forma Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e entregaram-se a vícios contra a natureza, jazem lá como exemplo, sofrendo a pena do eterno fogo." Jd 1,7


DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS

    E o Julgamento, na prática, já se deu, com a Vinda de Jesus. Pouco antes de Sua crucificação, Ele disse: "Agora é o Juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo." Jo 12,31
    Sem dúvida, o Juízo é Sua poderosa Palavra, Seu veredicto, que já foi proferido: "Se alguém ouve Minhas Palavras e não as guarda, Eu não o condenarei, porque não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo. Quem Me despreza e não recebe Minhas Palavras, tem quem o julgue; a Palavra que anunciei julgá-lo-á no Último Dia." Jo 12,47-48
    Ora, Sua Palavra é eterna, o que faz com que Seu Juízo seja perene: "Passarão o céu e a terra, mas Minhas Palavras não passarão." Mc 13,31
    Ele garantiu: "Em verdade, em verdade, digo-vos: quem ouve Minha Palavra e crê n'Aquele que Me enviou tem a Vida Eterna e não incorre na condenação, mas passou da morte para a Vida." Jo 5,24
    Com efeito, desde Sua passagem entre nós o mundo está dividido. Pois diante de Cristo os corações se revelam, como disse o religioso Simeão a Nossa Senhora: "Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34b-35a
    O mais tem sido feito pelo Espírito Santo, convencendo-nos do Juízo que já está em curso e da automática condenação que é viver renegando o projeto de Deus. Disse Jesus: "Entretanto, digo-vos a Verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, vo-Lo enviarei. Ele convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Ele o convencerá a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,7.9.11
    De toda forma, isso não anula as condenações a serem anunciadas no Juízo Final, como explicou São Paulo: "Os pecados dos homens às vezes são conhecidos já antes de levados a Juízo; outras vezes o serão depois." 1 Tm 5,24
    Não por acaso, Jesus desceu à mansão dos mortos para que Sua Palavra fosse conhecida também pelos que viveram antes de Sua Vinda. Disse São Pedro: "Pois para isto foi o Evangelho pregado também aos mortos; para que, embora sejam condenados em sua humanidade de carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Ele mesmo havia assegurado: "Em verdade, em verdade, digo-vos: vem a hora, e já está aí, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem viverão." Jo 5,25
    Pois enquanto ser humano Ele também morreu, embora tenha ressuscitado antes da corrupção: "Por isso, Meu coração alegra-se e Minha alma exulta; até Meu Corpo descansará seguro porque vós não abandonareis Minha alma na mansão dos mortos, nem permitireis que Vosso Santo conheça a corrupção." Sl 16,9-10
    E assim, a partir de Jesus e por Seu Sacrifício, estabeleceu-se a Nova Aliança, através da qual Sua Palavra é infundida na alma humana pelo Divino Espírito. Pregam os seguidores da tradição de São Paulo: "Mas esta é a Aliança que estabelecerei com a Casa de Israel depois daqueles dias: 'Imprimirei Minhas leis em seu espírito e as gravarei em seu coração. Eu serei Seu Deus, e eles serão Meu povo. Ninguém mais terá que ensinar a seu concidadão, ninguém a seu irmão, dizendo: 'Conhece o Senhor', porque todos Me conhecerão, desde o menor até o maior." Hb 8,10-11
    Para realizar o projeto da Salvação, portanto, Ele deixou-nos Sua Igreja, que goza de Sua inviolável proteção contra as forças do Mal: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    E a Seus sacerdotes deu-lhes poder de ministrar o perdão, pelo Sacramento da Confissão: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    O arrependimento, pois, também chamado de Sacramento da Reconciliação ou da Penitência, deve ser o caminho de todos que querem aproximar-se de Deus. E assim se deve proceder a despeito da mais cruel realidade que se tenha notícia, pois do contrário ninguém será poupado: "Neste mesmo tempo contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com seus sacrifícios. Jesus toma a Palavra e pergunta-lhes: 'Pensais vós que estes galileus foram maiores pecadores de que todos outros galileus, por terem sido tratados desse modo? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e matou-os, foram mais culpados de que todos demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo.'" Lc 13,1-5
    Por isso, Ele condenou desde logo a hipocrisia dos falsos religiosos, os maiores opositores da Verdade: "Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? Vede, Eu envio-vos Profetas , sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros em vossas sinagogas. Persegui-los-eis de cidade em cidade, para que caia sobre todos vós o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o Templo e o Altar. Em verdade, digo-vos: todos esses crimes pesam sobre esta raça." Mt 23,33-36
    Ora, esse seria o destino de um de Seus Apóstolos, Judas Iscariotes: "O Filho do Homem vai, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por Quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" Mt 26,24
    E como registrou São Mateus, foi muito triste: "Ele jogou então no Templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se." Mt 27,5
    Considerados, então, os luminosos privilégios que tiveram a cidade de Cafarnaum, Judas Iscariotes e os anjos que vieram a cair, suas respectivas condenações já não parecem nenhum exagero. Da mesma forma, segundo Jesus, não terão outro destino os que relutantemente rejeitam a Salvação: "Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." Mt 13,49-50
    Tal anátema, aliás, será pronunciado pelo próprio Jesus: "Voltar-Se-á em seguida para os da Sua esquerda e dir-lhes-á: 'Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o eterno fogo destinado ao demônio e aos seus anjos.'" Mt 25,41
    O Profeta Malaquias já advertia: "E vereis de novo que há uma diferença entre justo e ímpio, entre quem serve a Deus e quem não o serve. Porque eis que vem o Dia, ardente como uma fornalha. E todos os soberbos, todos os que cometem o mal serão como a palha; este Dia que vai vir os queimará - diz o Senhor dos Exércitos - e nada ficará: nem raiz, nem ramos." Ml 3,19-20
    O salmista também previa essa completa e definitiva extinção dos maus: "O Senhor volta Sua irritada face contra os que fazem o mal, para apagar da terra a lembrança deles." Sl 33,17
    O atual inferno, porém, onde se encontram as almas já condenadas, que no versículo seguinte é chamado de morada subterrânea, na verdade ainda não é o definitivo. Este será o lago ou tanque de fogo, como aponta São João Evangelista no Livro do Apocalipse: "O Demônio, sedutor das nações, foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde dia e noite serão atormentados pelos séculos dos séculos. A morte e a morada subterrânea foram lançadas no tanque de fogo." Ap 20,10.14
    Tal condenação já havia sido dada aos maiores representantes do Demônio na terra: "Mas a Fera foi presa, e com ela o falso profeta, que realizara prodígios sob seu controle, com os quais seduzira aqueles que tinham recebido o sinal da Fera e tinham-se prostrado diante de sua imagem. Ambos foram lançados vivos no lago de fogo sulfuroso." Ap 19,20
    Com efeito, todos ressuscitarão, ou seja, terão seus corpos carnais plenamente restituídos. E é nessa condição que os condenados irão para o inferno definitivo, como Jesus ensinou: "Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de Sua voz: os que praticaram o bem irão para a Ressurreição da Vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados." Jo 5,28-29
    O definitivo inferno, portanto, é o que São João Evangelista chamou de segunda morte: "Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos mentirosos terão como quinhão o ardente tanque de fogo e enxofre, a segunda morte." Ap 21,8
    Ele descreveu-o assim: "... um mar de vidro, irisado com fogo... " Ap 15,2
    Para lá irá também todo mundo físico, isto é, todo o universo como hoje o conhecemos. É o que diz São Pedro, pois Deus fará novas todas as coisas: "Mas os céus e a terra que agora existem são guardados pela mesma Palavra Divina e reservados para o fogo no Dia do Juízo e da perdição dos ímpios." 2 Pd 3,7
    Entretanto, as almas dos que nem sobem de imediato aos Céus, pois não alcançaram a santidade, nem são condenados direto ao atual inferno, isto é, a grande maioria delas, passam por uma purificação antes de aproximarem-se de Deus. Tal 'lugar', ou melhor, estado de purificação é chamado de Purgatório: "Os outros mortos não tornaram à Vida até que se completassem os mil anos." Ap 20,5a
    Pois diferente do Juízo Final, pelo qual todos devem aguardar, o Juízo Particular é imediato: "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o Juízo..." Hb 9,27
    Os Santos, porém, têm suas almas prontamente levadas ao Céu, onde vão reinar junto a Cristo: "Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,6
    Por isso, como quase sempre não se sabe a hora de prestar contas, é essencial que estejamos sempre unidos a Jesus, em íntima Comunhão com Ele. Pois sem Ele não se produz nenhum fruto, e, qual ramo seco, o destino é ser queimado: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: tampouco podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em Mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á." Jo 15,4-6

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Santo Amaro


    Filho de Eutíquio, senador romano, e de uma fidalga, Júlia, Santo Mauro, seu verdadeiro nome, nasceu em Roma em 512, e num sonho aos 12 anos ouviu uma voz pedindo que entregasse sua vida a Cristo.
    Seu pai era muito amigo de São Bento, fundador da ordem beneditina e venerado em todo mundo como o pai dos monges do Ocidente. Santo Amaro, como ficou popularmente conhecido, não poderia ter sido confiado a alguém mais próximo de Deus. A ele acompanhou também São Plácido, seu primo, que, ainda mais precoce, à época tinha apenas 7 anos. Foram levados ao hoje mundialmente conhecido Mosteiro Subiaco, a uns 70 quilômetros de Roma, onde numa pequena gruta São Bento havia começado a viver seu ermitério.


    Não foi um casual encontro: apesar da idade, nosso Santo viria a ser o braço direito de São Bento. Quando ele fundou, nos arredores de Nápoles, o mosteiro do Monte Cassino, a casa símbolo dos beneditinos, Santo Amaro foi indicado por ele como o primeiro abade, ou seja, pai, supervisor. As qualidades que nele São Bento admirava eram a humildade e a obediência.


    Quando surgiu a primeira oportunidade para fundar um mosteiro na França, em 535, o indicado por São Bento foi mais uma vez Santo Amaro. Nessa missão ele foi acompanhado de quatro monges, entre eles Fausto, que iria escrever sua história no famoso livro 'Vida de Amaro, abade'. Tão bem sucedido foi seu trabalho nessa região, a sudeste de Paris, que em torno do mosteiro floresceu uma cidade que leva seu nome, Saint-Maur-des-Fossés. Muito sólido, o Mosteiro de Santo Amaro, em ruínas desde o século XVII, resistiu à secularização da Europa, à estupidez da Revolução Francesa e aos tempos.


    Segundo Fausto, Santo Amaro foi acometido pela peste, que através dos anos já havia levado à morte muitas pessoas na região, entre elas quase cem religiosos, muitos deles por nosso Santo cativados. Ele morreu no início de 584, resistindo heroicamente após vários meses de sofrimentos. Foi intitulado Apóstolo dos Beneditinos na Gália, nome daquela região, um pouco maior que a atual França, e foi província romana.
    Seu corpo foi sepultado na capela de São Martinho, na abadia da cidade de Saint-Maur-sur-le-Loire, a noroeste de Orleans, erguida em sua homenagem e de restauração do século XVII, onde seu sarcófago ainda pode ser visto.


    Uma Cruz feita de corações, atribuída à sua inspiração e que leva seu nome, também é preservada nessa igreja.


    Anos mais tarde, por sua importância, seus restos foram levados para a capela do mosteiro de Monte Cassino.
    A congregação beneditina francesa, criada no século XVII, importante centro de formação de monges, fez questão de homenageá-lo adotando seu nome.
    Ainda no século XI, uma belíssima urna foi confeccionada em Florennes, atualmente na Bélgica, para guardar suas relíquias junto às de São Timóteo e São João Batista. A Abadia de Florennes, porém, foi destruída durante a Revolução Francesa, mas a urna foi preventivamente resgatada e levada por cristãos para um castelo na antiga Tchecoslováquia.


    A única relíquia que dele ainda hoje se tem, está exposta na igreja de Santa Eufemia da comuna italiana de Santo Mauro La Bruca, na província de Salerno, onde na segunda metade do primeiro milênio se ergueu um pequeno monastério que levava seu nome. Além de vários grandes milagres atribuídos a ele, como uma aparição sua que livrou quase todos operários, menos os teimosos, de um soterramento na galeria ferroviária em 1889, deu-se aí um Milagre Eucarístico, em 1969.


    Santo Amaro, rogai por nós!