sexta-feira, 25 de maio de 2018

São Beda, O Venerável


    Doutor da Igreja e Pai da História da Inglaterra, recluso em seu mosteiro escreveu mais de 60 obras, com as quais ajudou a refletir a Luz de Deus na Europa e no mundo, desde o século VII até os dias de hoje. Usando sempre uma linguagem acessível e agradável, traduz a beleza e a profundidade do Verbo Divino arrebatando e cativando grande número de almas. Estudou as Sagradas Escrituras por toda vida. Foi ele que percebeu que a Igreja é a atual Arca da Aliança.
    Em 701, quando São Beda nem havia ainda sido ordenado, o Papa Sérgio I pediu a seu abade que lhe permitisse vir a Roma, para que se manifestasse sobre algumas importantes questões e a sede da Igreja pudesse conhecer sua Sabedoria. Ele tinha apenas 29 anos, mas sua fama de Santo já lhe conferia o título de Venerável, qualidade reverenciada nos Santos.
    Aos 7 anos havia sido enviado ao mosteiro de Wearmouth, em terras vizinhas, "para ser educado pelos monges", como ele mesmo escreveu, e aos 19 anos mudou-se para o recém-construído mosteiro de São Paulo, em Jarrow, sua terra natal, no norte da Inglaterra, de onde pouquíssimas vezes saiu para cumprir incumbências dadas por seus superiores. Enquanto criança, foi orientado diretamente pelo próprio abade, que desde cedo nele havia reconhecido uma inteligência absolutamente incomum. Todos documentos da Igreja até então eram colocados à sua disposição, e ele estudava-os com veneração.
    Além de Teologia, escreveu sobre todas áreas do conhecimento da Alta Idade Média: filosofia, matemática, medicina, história, gramática, música e astronomia. Empenhava-se em organizar e transmitir tudo que aprendia, pois via as ciências como dons de Deus para que possamos contemplar Sua obra. Escreveu: "Tenho dedicado minhas energias ao estudo das Escrituras, observando a disciplina monástica e cantando nos diários ofícios na igreja. Estudar, ensinar e escrever sempre foi meu deleite."


    Várias gerações de monges foram formados sob seu carisma, e a civilidade européia de seu tempo deve muito à sua espiritualidade e devoção. Por designação de seu abade, fundou a renomada Escola Catedral de York, onde poucos anos mais tarde iria estudar o Mestre Alcuíno, fundador da escola que se tornaria a Universidade de Paris. Por volta de 720, o Papa Gregório II requisitou-o para ser seu auxiliar em Roma, mas ele humildemente implorou para continuar em seu mosteiro como um simples estudante. Inspiradamente, achava que assim colaboraria mais para a edificação da Igreja. E estava certo, como poucos séculos mais tarde se demonstraria: a Inglaterra seria exposta a maliciosas heresias.
    Sua obra mais famosa é a 'História Eclesiástica do Povo Inglês', onde com maestria exalta a Igreja como Católica, Apostólica e Romana, sem se fechar, porém, às pontuais contribuições de todos povos e culturas, que para ele também portavam vivas centelhas do Espírito de Deus, a culminar na Vinda do Salvador. Foi dos primeiros a enxergar o Cristo como a figura central das Sagradas Escrituras, como vemos na obra 'Codex Amiatinus', da qual participou. Confirmava assim o que Jesus mesmo havia dito: "Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Na obra 'Chronica Maiora', faz um apreciável estudo da História da Igreja, comentando os seis primeiros Concílios Ecumênicos, apontando com clareza os erros das heresias e ressaltando a superioridade dos conhecimentos de Soteriologia e de Mariologia.
    Mestre também em Liturgia, escreveu homilias sob a ótica 'realista' de São Cirilo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, que visa fazer de cada fiel "não só cristão, mas (o próprio) Cristo". Ele ensinou que, pelos Sacramentos, a Igreja "gera a Si mesma", torna-se 'Mãe de Deus' ao gerar Deus em seus filhos.
    Para ele, os pastores, doutores e doutoras da Igreja devem conhecer tão intimamente a Palavra de Deus a ponto de serem capazes de explicá-la com toda sua riqueza às mais humildes pessoas; e as pessoas consagradas devem viver a Comunhão, através da ascese e da contemplação, de modo a revelar ao mundo a verdadeira espiritualidade cristã.
    Convidava os fiéis a serem tão assíduos à Igreja de modo a não dar tempo aos 'Apóstolos' nem mesmo para comer, como acontecia nos tempos de Jesus (cf. Mc 6,31), e lembrava aos pais que, perante os filhos, eles têm o ofício de Sacerdotes.
    São Bonifácio, Arcebispo da Germânia e Mainz, ao saber de sua morte, pediu insistentemente ao arcebispo de York e ao seu abade que fizessem cópias de seus principais escritos, que ele havia conhecido, para que os cristãos pudessem beneficiar-se de sua divina iluminação. O monge beneditino Notker Balbulus, do século X, dizia que São Beda era o novo sol que Deus havia feito brilhar para iluminar os caminhos da cristandade.
    Ele ensinava:
    "O homem sensato torna-se conhecido por poucas palavras."
    "Peçamos por todos os meios e antes de tudo, que Ele (Jesus) dirija nossos passos segundo Sua Palavra e que o mal não tenha domínio sobre nós."
    "Ouvindo Sua voz (de Jesus), abrimos a porta para recebê-Lo ao aceitarmos de bom grado Suas secretas ou evidentes advertências, e pormos-nos a realizar aquilo que compreendemos como nosso dever. Ele entra para que ceemos, Ele conosco e nós Consigo, porque, pela Graça de Seu amor, habita nos corações dos eleitos para sempre alimentá-los com a Luz de Sua presença."

    "Peço-te, ó Bom Jesus, que benevolamente me permitiste haurir as dóceis palavras da Tua Sabedoria, concede-me benigno que um dia eu chegue a Ti, fonte de toda Sabedoria, e que eu sempre permaneça diante de Tua face."
    "Cristo é a Estrela da Manhã, Aquele que, quando a noite deste mundo tem passado, dá a Seus Santos a promessa da Luz da Vida, e abre o Eterno Dia."
    "Só Ele ama perfeitamente o Criador, Aquele que manifesta um puro amor pelo próximo."
    "Nenhum homem tira os pecados (que a Lei, embora santa, justa e boa, não poderia tirar), mas Ele em Quem não há pecado."
    "Maria é bendita entre as mulheres, porque com o decoro da virgindade se beneficiou da Graça de ser geradora de um Filho, que é Deus."
    "A inspiração voltou, de repente, para render-se à Mãe. Foi totalmente inesperado! E assim, de alguma forma eu fiz uma entrega à Mãe. Então tive uma experiência de irresistível amor. Ondas de amor como que fluíram para dentro de mim."
    "Eu acho que a Mãe está revelando-se gradualmente e assumindo o controle. Mas não é a Mãe sozinha. É a Mãe e o Pai, o homem e a fêmea, como que gradualmente tendo seu casamento."
    "Em Belém, eis que os pastores se apressam, com grande alegria, para ver Aquele de Quem ouviram falar. E como buscaram com fervoroso amor, mereceram rapidamente achar o Salvador. Assim também os inteligentes pastores dos rebanhos, ou melhor, todos os fiéis que se propõem a procurar a Cristo com o trabalho do espírito, demonstram-no por suas palavras e atos."
    "'Vamos até Belém', disseram, 'para ver esta palavra que se realizou.' Vamos, pois, também nós, caríssimos irmãos, pelo pensamento, até Belém, cidade de Davi, e lembremos, cheios de amor, que nela o Verbo Se fez carne, e com honras celebremos Sua Encarnação."
    "Não há o que duvidar: se São João (Batista) suportou o cárcere e as cadeias, foi por Nosso Redentor, de Quem como precursor dera testemunho. Também por Ele deu a vida. O perseguidor não lhe exigiu que negasse a Cristo, mas que calasse a Verdade. No entanto, morreu por Cristo."
    "Jesus, havendo feito o chicote com pedaços de corda, expulsou-os do Templo, de onde são expulsos aqueles que, eleitos e postos entre os Santos, ou fazem de fingida maneira suas boas obras ou agem abertamente mal."
    "Entristeceram-se os discípulos com a morte do Senhor, mas tendo tomado conhecimento de Sua Ressurreição, sua tristeza transformou-se em júbilo; em seguida, vendo o prodígio da Ascensão, com alegria ainda maior louvavam e bendiziam o Senhor."
    "Ninguém se atrase em converter-se ao Senhor. Que ninguém deixe ir passando os dias!"
    "Permanecemos em Deus na medida em que não pecamos."

    "O fogo do Purgatório será mais intolerável que todos tormentos que podem ser sentidos ou concebidos nesta vida."
    "Valente é o guerreiro que poderá vencer a si mesmo."
    "A valentia de qualquer soldado só se conhece na guerra."
    "É melhor ser vencido honestamente do que vencer desonestamente."

    "Enquanto o Coliseu estiver de pé, Roma estará de pé. Quando o Coliseu cair, Roma cairá. E quando Roma cair, o mundo cairá."
    "Quem prepara cova para seu irmão, nela cairá."
    "Foge do lucro desonesto como de um prejuízo."
    "A prosperidade dá-nos os amigos, a adversidade confirma-os."
    "A qualidade do discurso dos professores deve ser adequada à qualidade dos ouvintes."
    "Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora."
    "Se a História registra boas coisas sobre boas pessoas, o pensativo ouvinte é encorajado a imitar o que é bom; ou se registra o mal das perversas pessoas, o piedoso ouvinte ou leitor é encorajado a evitar tudo que é pecaminoso e ruim, e a fazer o que sabe ser bom e agradável a Deus."

    "Eu não era mais o centro da minha vida e, portanto, em tudo podia ver Deus."
    "Todos caminhos deste mundo são tão inconstantes e instáveis quanto uma súbita tempestade no mar."
    "Esta vida humana aparece por um curto espaço, mas sobre o que foi antes, ou o que ainda vai seguir-se, somos totalmente ignorantes."
    "As lágrimas não pedem, mas merecem perdão."

    Morreu em 735, aos 63 anos, no mosteiro de Jarrow, onde escolheu para viver, e aí mesmo foi sepultado.


     Saqueado e destruído pelos vikings em 794, em 1022 suas relíquias foram levadas para a Catedral de Durham, em New Castle, ali nas proximidades, e no século XIV foram definitivamente depositadas na Capela do Galileu, uma de suas dependências.


    São Beda, rogai por nós!

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Para Ler Jesus


AS ESCRITURAS

    Há detalhes absolutamente elementares a serem considerados quando lemos a Palavra de Deus. E, com perfeita correção, o primeiro deles veda exatamente a livre interpretação dos sagrados textos. Diz São Pedro: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana." 2 Pd 1,20-21a
    Ora, se temos que Deus Se revelou, e assim uma religião revelada, é de se concluir que tal Revelação tenha sido cercada de divinos cuidados para ser bem transmitida e bem compreendida. Não há, portanto, como negar a Sagrada Tradição, que, muito antes de alguma linha escrita, constituiu-se precisamente da única interpretação, inspirada pelo próprio Espírito de Deus desde as primeiras etapas da Revelação: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo, enviado do Céu. Revelações estas, que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,10-12
    E, sempre velando por esse meticuloso trabalho do Divino Espírito, São Pedro arremata a questão, citando a inspiração e a fonte da Revelação: "Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus." 2 Pd 1,21b
    Ele destaca, desta forma, a Sabedoria contida nos livros sagrados, nem sempre compreendida: "... vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras." 2 Pd 3,15b-16
    E o próprio São Paulo vai explicar o porquê das deturpações: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,12-14
    Seus seguidores também garantiram as Escrituras como Revelação: "Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos Profetas. Ultimamente, falou-nos por Seu Filho..." Hb 1,1-2a
    A Sagrada Tradição, pois, foi confiada por Jesus exclusivamente aos membros de Sua Igreja. E São Judas Tadeu atesta que a Revelação já foi completamente entregue: "... senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a pelejar pela fé, de uma vez por todas confiada aos Santos." Jd 1,3b
    E só pelo Sagrado Magistério ela é transmitida, como sensatamente vai questionar o ministro da rainha da Etiópia: "O Espírito disse a Filipe: 'Aproxima-te para bem perto deste carro.' Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o Profeta Isaías, e perguntou-lhe: 'Porventura entendes o que estás lendo?' Respondeu-lhe: 'Como é que posso, se não há alguém que mo explique?' E rogou a Filipe que subisse e sentasse junto a ele." At 8,29-31
    É essa interpretação guardada pelos Apóstolos, pois tradição significa entrega, que São Paulo repassou a São Timóteo: "Toma por modelo os salutares ensinamentos que de mim recebeste sobre a e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós." 2 Tm 1,13-14
    Assim, é em sua inteireza, e não em pedaços, que ela deve ser repassada. Pois escolher na doutrina o que acreditar e o que não, é exatamente o sentido da palavra heresia. O Apóstolo dos Gentios prega aos coríntios: "É que, de fato, não somos, como tantos outros, falsificadores da Palavra de Deus. Mas é na sua integridade, tal como procede de Deus, que nós a pregamos em Cristo, sob os olhares de Deus." 2 Cor 2,17
    E enquanto havia apenas o Evangelho de São Mateus, escrito em aramaico, mas nenhuma versão em grego, língua universal de então, São Paulo defendia ferrenhamente a tradição oral: "Mas ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do Céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema" Gl 1,8
    Como avisava São Pedro sobre deturpadores, São João Evangelista também advertiu os que corrompiam as Escrituras: "Eu declaro a todos aqueles que ouvirem as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes ajuntar alguma coisa, Deus ajuntará sobre ele as pragas descritas neste livro; e se alguém dele tirar qualquer coisa, Deus lhe tirará sua parte da árvore da Vida e da Cidade Santa, descritas neste livro." Ap 22,18-19
    Quantos aos apócrifos, livros não inspirados pelo Espírito Santo, São Lucas registrou, e desde as primeiras linhas de seu Evangelho, que muitos haviam tentado narrar a vida de Jesus: "Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e tornaram-se ministros da Palavra." Lc 1,1-2
    Contudo, por absoluto cuidado com a legítima transmissão da Revelação, sedimentada no correto entendimento do Antigo Testamento, o próprio Jesus questionava os Mestres da Lei: "Que está escrito na Lei? Como lês?" Lc 10,26
    E dizia que o erro do ser humano vem precisamente do desconhecimento das revelações e dos divinos poderes: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mc 12,24
    De fato, sendo Ele próprio a mais importante etapa da Revelação, Jesus não menospreza a Verdade que ao Seu tempo já havia sido revelada: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para aboli-los, mas sim para levá-los à perfeição." Mt 5,17
    Ao contrário, Ele afirmou com todas as letras: "... ora, a Escritura não pode ser anulada..." Jo 5,35b
    Mesmo porque os sagrados livros que O precederam fazem menção especificamente a Ele: "Vós examinais as Escrituras, julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Por essa perfeita coerência com o Antigo Testamento, Ele garante que Sua Palavra é o Caminho para a Verdade: "Se permanecerdes em Minha Palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos; conhecereis a Verdade e a Verdade libertar-vos-á." Jo 8,31-32
    Afirmou também que, assim como Ele, Seus ensinamentos dão imutáveis, eternos: "O céu e a terra passarão, mas  Minhas Palavras não passarão." Mt 24,35
    Aos que julgam conhecer Deus, Ele fez uma proposta: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    E vai desiludir a muitos: "Não conheceis nem a Mim nem a Meu Pai; se Me conhecêsseis, certamente também conheceríeis a Meu Pai." Jo 8,19b
    Por isso, para a Salvação de nossas almas, Ele oferece-nos Seu Senhorio e Sua Consolação: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Não por acaso, em carta a São Timóteo, São Paulo deixa uma perfeita definição da pureza das Escrituras e de seu poder: "E desde a infância conheces as Sagradas Escrituras e sabes que elas têm o condão de proporcionar-te a Sabedoria que conduz à Salvação, pela fé em Jesus Cristo. Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra." 2 Tm 3,15-17

JESUS DEUS

    Quanto à Pessoa de Jesus, para que saibamos avaliar o peso de Sua Palavra, também há detalhes de suma importância. Primeiro, precisamos saber que ninguém se volta para Cristo por mera decisão pessoal. Temos mesmo que reconhecer que isso é puro mistério, desígnio de Deus, assunto de espiritualidade. É Deus Pai que nos inspira a procurá-Lo, como Jesus mesmo explicou: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o trouxer... " Jo 6,44a
    A recíproca também é verdadeira: só podemos conhecer Deus propriamente senão através de Jesus: "... ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Noutra passagem, Jesus vai dizer o mesmo por outras palavras: "Ninguém conhece Quem é o Filho senão o Pai, nem Quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar." Lc 10,22
    Por fim, e acenando para a Comunhão da Santíssima Trindade, São Paulo afirma que ninguém se dá conta de que Jesus é Deus se não for inspirado pelo próprio Espírito de Deus: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    E em mais uma assertiva sobre a Trindade Santa, vemos Jesus mesmo dizer aos judeus: "Eu e o Pai somos um." Jo 10,30
    A São Filipe, que pediu que tão somente lhes mostrasse o Pai, Jesus vai responder abertamente: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai." Jo 14,9
    Com efeito, Ele afirmou-o muitas vezes, e de outras formas, como logo após o lava-pés, falando aos Apóstolos: "Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque EU SOU." Jo 13,13
    Já havia dito aos judeus, por ocasião da Festa das Tendas: "Ele disse-lhes: 'Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Por isso, disse-vos: morrereis no vosso pecado. Porque se não crerdes que EU SOU, morrereis no vosso pecado.'" Jo 8,23-24
    E foi assim, invocando o Mistério da Trindade, que Ele explicou como fazia tantos e tão grandiosos milagres: "... o Pai, que permanece em Mim, é que realiza Suas próprias obras. Crede-Me: Eu estou no Pai, e o Pai em Mim." Jo 14,10b-11
    Por isso, recomendou-nos perseverar ao Seu lado, pois, como Deus, Ele é essencial a nossas vidas: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: tampouco podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,4-5
    Exatamente por perceber Sua Divina Encarnação, São Pedro, sempre inspirado pelo Pai, ao reafirmar seu amor por Jesus, com espontaneidade vai declarar Sua Onisciência: "Senhor, Tu sabes tudo..." Jo 21,17
    E de modo ainda mais explícito, São Tomé, depois de desacreditar em Sua Ressurreição, ao vê-Lo diante de si e tocar Suas feridas, vai balbuciar o que já suspeitava: "Meu Senhor e Meu Deus!" Jo 20,28


    Quanto à Missão de Jesus, já havia sido revelada a São José por seu Anjo da Guarda, quando lhe garantiu que a gravidez de Maria deu-se por obra do Espírito Santo: "Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará Seu povo de seus pecados." Mt 1,21
    Também São João Batista, após batizá-Lo, vai declarar Sua Obra: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29
    E desde o início de Sua vida pública, Ele ensinou-nos a renegar ao pecado: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Arrependam-se, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Aliás, exatamente a mesma função que delegou à primícias Sua Igreja, os Apóstolos: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram o arrependimento." Mc 6,7.12
    Mas, como bem disse São João Batista, notemos que não há como nos libertar do pecado sem a ajuda do Filho de Deus. E Jesus mesmo vai afirmar: "Portanto, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,36

O ESPIRITO SANTO

    Pois assim como precisamos de Seu Espírito para compreender as Escrituras, também d'Ele dependemos para vencer nossos pecados. São Paulo aponta: "Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,8-9
    O Divino Paráclito, pois, é o maior presente que Deus tem para nos dar, como explicou Jesus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    São Pedro, porém, falou de uma condição muito específica para que tal doação acontecesse: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32b
    Explicou também a finalidade dessa doação: "... santificados pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2
    Sem dúvida, o Divino Espírito era o 'prometido do Pai', também conhecido como Defensor, ou Consolador, que Jesus enviaria exclusivamente à Igreja, após Sua Ascensão: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que convosco fique eternamente. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,16-17
    Permanecendo conosco para sempre, ao longo dos tempos Ele tem assessorado a Igreja em cada novo detalhe que explicita da Revelação, como Jesus garantiu: "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,15
    E assim Ele tem feito desde o Primeiro Concílio da Igreja, realizado em Jerusalém, quando se decidiu suspender, para com os convertidos, a lei mosaica da circuncisão. São Tiago Menor pronunciou-se após a defesa feita por São Pedro: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável..." At 15,28
    Carentes, portanto, dos auxílios do Espírito de Deus para todas boas obras, cabe sermos humildes e solicitar Seus socorros, segundo recomendação de Jesus: "E Eu digo-vos: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, abrir-se-lhe-á." Lc 11,9-10

A VONTADE DE DEUS

    Em síntese, unindo-Se a nós em peregrinação por esse mundo, Jesus veio ensinar a cumprir plenamente a vontade de Deus. Ele disse na sinagoga, após a multiplicação dos pães e dos peixes: "Pois desci do Céu não para fazer Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 6,38
    E sentenciou que, em Sua Igreja, a hierarquia constitui-se de serviço ao próximo: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25-28
    Exemplo que Ele mesmo deu: "Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-vos os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, também façais vós." Jo 13,14-15
    Cumpriu, portanto, e em perfeita submissão, a vontade do Pai até a morte. Ele rezou no Horto das Oliveiras: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    Com razão, o salmista havia profetizado sobre Sua Missão: "... Eis que Eu venho. No rolo do livro está escrito de Mim. Fazer Vossa vontade, Meu Deus, é o que Me agrada, porque Vossa Lei está no íntimo de Meu Coração." Sl 39,8-9
    Assim, pelo mesmo motivo, São Paulo exorta-nos a resistir às ilusões do mundo e a cumprir nosso papel de cristão: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Contudo, demonstrando mais uma vez a Comunhão da Santíssima Trindade, Jesus fala em fazer a vontade do Pai, mas deixa claro que é Ele Quem vai realizar a Ressurreição: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no último Dia." Jo 6,40
    E no mesmo sentido, São João Evangelista diz que, para serem realizados, nossos pedidos devem amoldar-se à vontade do Filho de Deus: "A confiança que n'Ele depositamos é esta: em tudo quanto Lhe pedirmos, se for conforme à Sua vontade, Ele atender-nos-á." 1 Jo 5,14


A IGREJA
 
    Para que a vontade de Deus chegasse ao nosso conhecimento, portanto, desde a escolha de São Pedro, Jesus tem edificado pessoalmente de Sua Igreja, que é a guardiã da Palavra: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja." Mt 16,18a
    E declarou que ela é invencível: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18b
    Não ouvi-la, portanto, é incidir em heresia: "Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano." Mt 18,17
    Ou seja, é recusar-se a ouvir o próprio Jesus: "Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16
    Jesus rezou ao Pai, em especial, a fim de que a Palavra, que Ele confiou aos Apóstolos, fosse aceita por nós, e assim prevalecesse a Unidade da Igreja: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-21
    Para tanto, Ele derramou Sua Glória sobre a Igreja, notória representante d'Ele e do amor do Pai: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e amaste-os, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    E foi a Igreja, aqui representada pelos Apóstolos, que Jesus instituiu como Seu instrumento para perdoar nossos pecados pela Confissão: "Como o Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós. Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21b-23
    Antes de subir aos Céus, Ele pediu absoluta fidelidade aos Seus ensinamentos e garantiu total assistência através dos tempos: "Ensinai as nações a observar tudo que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,20
    E no livro do Apocalipse, por fim, Ele demonstrou ter absoluto controle sobre toda a Igreja: "Eis o simbolismo das sete estrelas que viste em Minha mão direita, e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas." Ap 1,20
    Por essa razão, São Paulo vibra com o acolhimento dado à Palavra da Salvação pela comunidade de Tessalônica, mesmo que o Evangelho ainda não tivesse sido escrito: "Por isso, é que também nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a Palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como Palavra de Deus, que eficazmente age em vós, os fiéis." 1 Ts 2,13

A ORAÇÃO

    Mas não há fé sem oração, e isso pedia São Paulo: "Orai sem cessar." 1 Ts 5,17
    Nem, claro, sem o frequente contato com o Verbo de Deus: "Logo, a fé provém da pregação e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    E assim também é em relação à compreensão das Escrituras. São Paulo rezava a Deus pela boa instrução da comunidade de Colossos: "Por isso, também nós, desde o dia em que o soubemos, não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento de Sua vontade, perfeita sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando em tudo agradar-Lhe, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus." Cl 1,9-10
    Ora, os próprios Apóstolos pediram a Jesus que lhes ensinasse a rezar, e foi nessa ocasião que Ele nos deixou o Pai Nosso: "Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-Lhe um de Seus discípulos: 'Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos.'" Lc 11,1
    O próprio Jesus, aliás, muito assíduo em Suas orações ao Pai, demoradamente rezou antes de escolher Seus Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus." Lc 6,12
    E recomendou pontualmente as orações contra as armadilhas do inimigo: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação." Mt 26,41
    Ou contra suas possessões: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20
    E deixou claro que, para uma verdadeira Comunhão com o Pai, a oração deve ser parte inalienável da vida de um cristão: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre, sem jamais deixar de fazê-lo." Lc 18,1

    "Em comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Deus dá Condições


    Nas várias fraquezas humanas, sempre está o pecado como principal motivo, e invariavelmente como fonte de tristeza. É quando se percebe nossa carência dos socorros de Deus para uma efetiva libertação, como ensinou Jesus: "Portanto, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,36
    De fato, só Ele pode reconduzir-nos a tão salutares alegria e esperança. Nossa Senhora diz no Magnificat: "... meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador..." Lc 1,47
    Contudo, precisamos melhor entender o agir do Pai, Sua regência, como São Paulo pregou aos colossenses: "Por isso... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, em tudo procurando agradar-Lhe, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, em tudo confortados pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Alguns não acreditam na existência de Deus justamente porque esbarram e param nessa pergunta: 'Se Ele tem poder e controle sobre tudo, como pode haver tanta coisa errada?' O próprio Jesus teria afirmado essa aparente permissividade: "... pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,45b
    Mas é demasiadamente primário achar que Deus deveria ter criado não pessoas à Sua imagem e semelhança, mas robôs, que tudo fizessem apenas conforme Sua vontade, sem nenhuma capacidade de decisão própria nem liberdade. No entanto, São Paulo adverte: "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para prazeres carnais. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, porque toda a Lei se encerra num só preceito: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18).'" Gl 3,13-14
    Também não é sensato pensar que Deus deveria ser imediatista e punitivo, fulminando instantaneamente qualquer pessoa que sequer pensasse em praticar algum mal. Seu amor expressa exatamente o contrário, como se lê na Sabedoria: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos os seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    Nosso Pai, pois, não é nem ausente, nem autoritário! São Pedro argumenta: "O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    E além de tudo que já nos deu, como a vida, a Criação, a vida de Seu Filho, o Espírito Santo, a Virgem Mãe, os anjos, os Santos, a Igreja, os Sacramentos e as Escrituras, Ele continua oferecendo as mais apropriadas condições para que realizemos nossos maiores sonhos. Jesus prometeu aos Apóstolos: "Em verdade, em verdade, digo-vos: o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele vo-lo dará. Pedi e recebereis, para que vossa alegria seja perfeita." Jo 16,23b.24b
    Sonhos, aliás, por Ele mesmo inspirados, pois não nos entrega a obra acabada, por Si só realizada, mas faz-nos sonhar e ajuda a realizá-la, como atestou o Eclesiástico: "Ele não deu ordem a ninguém para fazer o mal, e a ninguém deu licença para pecar; pois não deseja uma multidão de filhos infiéis e inúteis. Neles criou a ciência do Espírito, encheu-lhes o coração de Sabedoria, e mostrou-lhes o bem e o mal. " Eclo 15,21-22;17,6
    E fora decisivos momentos nos quais resolve tudo sozinho por livramentos ou milagres, na maioria das vezes, para quem pede Sua Luz, na hora certa Ele concede apoio espiritual e material. É isso o que diz São Paulo aos coríntios, especificamente sobre a luta espiritual: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação Ele dar-vos-á os meios de suportá-la e dela sairdes." 1 Cor 10,13
    Aos tessalonicenses, ele disse-o de outra forma: "Mas o Senhor é fiel, e Ele há de dar-vos forças e preservar-vos do Mal." 2 Ts 3,3
    Ora, não sabemos nem mesmo de que realmente precisamos, como ele afirmou aos romanos: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,26
    São Tiago Menor é ainda mais contunde: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes vossas paixões." Tg 4,1-3
    Por isso, explica o Apóstolo dos Gentios aos filipenses: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Assim, em nome de nossa total entrega a Seus desígnios, rezavam seus seguidores para que Deus "... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável a Seus olhos..." Hb 13,21a
    A verdade é que não percebemos algo muito simples sobre os desígnios de Deus: mesmo considerando todos sonhos humanos, Seu principal intuito é convidar-nos para trabalhar na construção do Reino dos Céus, quer dizer, na Salvação das almas. Nossos projetos precisam ser suficientemente amadurecidos e bons para encaixar-se nessa grande obra da verdadeira e definitiva família humana. Se eles estiverem realmente fundamentados no bem comum, podemos estar certo que, ao longo do tempo, Ele vai colaborar com todos os benefícios e contra todas as dificuldades. É o que nos garante São João Evangelista: "A confiança que depositamos n'Ele é esta: em tudo quanto Lhe pedirmos, se for conforme à Sua vontade, Ele nos atenderá." 1 Jo 5,14
    Também diz São Paulo: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios." Rm 8,28
    É que as 'armas' desta batalha são outras, e Deus não retém só para Si o exercício de todos poderes. Aí estão, tantas vezes vistos e comprovados na vida dos Santos, os dons do Espírito Santo. Jesus afirmou: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Cosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    São Paulo corrigia os coríntios: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pois bem: Nosso Pai Celeste quer partilhá-las com todos Seus filhos, entre os quais colocou Cristo, modelo de toda Criação. Ele não nos obriga a praticar o Bem; Ele nos inspira para o Bem! Contudo, o tempo urge e Sua obra é avassaladora, como diz Gamaliel no Sinédrio quando os Apóstolos foram presos pela primeira vez: "Agora, pois, eu aconselho-vos: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se seu projeto ou sua obra não provém de homens, por si mesma se destruirá. Mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus." At 5,38-39a
    E foi exatamente essa a sentença que Santo Estevão proferiu contra o Sinédrio, pouco antes de ser apedrejado: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51a
    Também foi o que aconteceu com São Paulo, enquanto era fariseu e perseguia a Igreja. Pois Jesus não reclama de perseguição à Igreja, mas a Ele mesmo: "Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente cercou-o uma luz resplandecente vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' Saulo disse: 'Quem és, Senhor?' Respondeu Ele: 'Eu sou Jesus, a Quem tu persegues. Duro é debater-te contra as esporas.'" At 9,4-5
    Mas, salvo alguns episódios, ainda assim Ele age com total respeito à nossa liberdade. É o livre arbítrio, e cabe a nós a decisão de mudar nossos planos a qualquer hora, principalmente para melhor. Não encontramos as coisas prontas, mas as ferramentas se estivermos no caminho do trabalho. É por isso que esse Seu modo mais frequente de agir é chamado de Divina Providência. A finalidade, porém, é sempre vencer o pecado, como reza São Pedro: "... Graça e Paz sejam-vos dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor! O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,2-4
   Em Sua infinita Sabedoria, Deus deu-nos dois especialíssimos presentes: a responsabilidade e a autoridade. O primeiro, muito mais que mera obrigação prestar contas, é, na verdade, a capacidade de responder aos fatos ponderando circunstâncias, mas visando o Sumo Bem. A responsabilidade, portanto, determina o melhor ou pior nexo que se estabelece entre a situação que se vive e a solução adotada. Somos constantemente convidados a responder, a exercer a liberdade ponderando sobre questões que nos motivam ao aperfeiçoamento. Tanto quanto estivermos realmente melhorando nossas respostas, não iremos frustrar, mas estimular nossos irmãos e alegrar Nosso Pai.
    O segundo presente, a autoridade, que também muita gente confunde com o poder, é nossa capacidade de ser autores, de criar. Hoje se usa o termo autoria, mas é a autoridade, de fato, o vínculo entre quem fez e a coisa feita. Somos, portanto, como filhos de Deus Criador, convidados a criar o mundo em que vivemos. Que nós então tenhamos boas obras a mostrar, para que nem desanimemos nossos irmãos nem entristeçamos Nosso Pai.
    Esses 'brinquedos', entretanto, que alguns julgam perigosos demais, nem sempre são usados corretamente, como bem se pode constatar. De toda forma, não podemos dizer que a culpa é de Deus. São Tiago Menor argumenta: "Feliz o homem que suporta a tentação, porque depois de sofrer a provação receberá a Coroa da vida que Deus prometeu aos que O amam. Ninguém, quando for tentado, diga: É Deus Quem me tenta. Deus é inacessível ao Mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Não vos iludais, pois, irmãos meus muito amados. Toda boa dádiva e todo perfeito dom vêm de cima: descem do Pai das luzes, no Qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por Sua vontade é que nos gerou pela Palavra da Verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das Suas criaturas." Tg 1,12-18
    Por isso, conclui-se, Ele não deve tomar estes dons de volta, como alguns, na prática, sugerem. Nós é que temos que aprender a usá-los, eis o problema! Sempre que tivermos em vista o verdadeiro bem comum, muitas vezes em detrimento de certos 'bens' particulares, estaremos sendo autores de belas obras de e respondendo agradavelmente à inspiração do Espírito Santo. São Paulo ensina que devemos trabalhar na obra da Salvação: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12


PARA A SALVAÇÃO DAS ALMAS

    O Papa São João Paulo II, falando sobre nossa natural vocação para formar sociedade, fez menção à imprescindível hierarquia de valores, que determina a superioridade das coisas que são espirituais e interiores sobre as que são materiais e instintivas. Jesus ensinou: "Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas ser-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,31-33
    Assim, a injustiça social, que é na maioria das vezes a causa primeira do sofrimento humano, precisa ser enfrentada por intensa participação do cristão nas instituições de sua sociedade. Precisamos achar o estreito caminho entre a covardia, que faz calar, e a violência, que aumenta e agrava o sofrimento. Esse é o caminho da caridade, que através do amor, da prudência e da paciência liberta o ser humano do Mal. Mas, como visto, precisamos ter a liberdade para agir, porque uma 'participação preestabelecida', convenhamos, não faria o menor sentido. Que teríamos? Uma 'história' de roteiro e final conhecidos?
    Notemos, pois, que a caridade, que é o mais elevado mandamento social, também é inspirada pela Divina Graça. Não é, igualmente, algo que nos é dado pronto e acabado. Ela é inspirada no coração do cristão. Ele sente a vontade de praticá-la, mas precisa perseverar para que não desanime diante dos desafios que vão surgindo.
    Vem, então, à cena a solidariedade, que tão bem representa o agir de Deus e o espírito cristão. Diferente de um deus interventor, temos Deus solidário que nos auxilia para além das nossas necessidades materiais. Não foi isso o que Jesus veio fazer entre nós? Viver conosco as dificuldades humanas e mostrar-nos o caminho para vencer o pecado? Devemos fazer o mesmo: apoiar, dedicar nosso conhecimento e nosso tempo consolando e convivendo com os mais carentes nas realidades mais difíceis. A solidariedade já é um imperativo moral e ético em qualquer sociedade. E a Igreja, enquanto Corpo Místico de Cristo, ou seja, Sacerdotes e fiéis, tem o sério compromisso de a todos garantir o direito a essa especial esperança.
    As relações interpessoais da Santíssima Trindade, ou seja, entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, são para nós modelo de sociedade e de interação. E isso nada tem de papéis predeterminados ou autoritarismo. Lembremos o momento da Transfiguração de Jesus, quando Ele conversou com Moisés e Elias sobre Sua Paixão. As obras de Deus são construídas passo a passo. E aquele foi um momento em que a humanidade, e, mais especificamente a Igreja por nascer, representada por São Pedro, São Tiago e São João, testemunhou as três Pessoas da Santíssima Trindade manifestando-se simultânea e harmoniosamente: Jesus transfigura-Se, o Espírito Santo apresenta-Se como nuvem e Deus Pai fala. A perfeita Comunhão entre Eles é nosso sumo exemplo de convivência em harmonia.
    Pois como ensinou Jesus, amar a Deus é inseparável de amar ao próximo. Ele chamou-os de Mandamentos semelhantes: "'Amarás o Senhor Teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças.' Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo.'" Mt 22,37-39
    Esse é o projeto de Nosso Deus, caridoso e solidário, para nossa convivência. Essa é Sua forma mais frequente de agir: colaborar, cooperar, oferecendo exemplos e condições. E é assim que podemos realizar nossos mais preciosos sonhos. O Reino de Deus, enfim, é essa família que cabe a nós construir, como Jesus afirmou: "Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe." Mt 12,50

    "Tornai viva nossa fé, nossa esperança!"

terça-feira, 22 de maio de 2018

Santa Rita de Cássia


    Foi a Santa da reclusão e da oração, seja durante sua vida de filha única de pais idosos, de casada, de mãe ou de monja agostiniana da diocese de Espoleto. O fervor das preces e da contemplação sempre a arrebatava. Entregava-se por horas em adoração ao Cristo na Santa Cruz.
    Nasceu em 1381 em Roccaporena, um vilarejo na comuna de Cássia, na região italiana da Úmbria, e desde criança, ouvindo de seus iletrados pais as histórias de Jesus e Maria, desejou ser religiosa. Pela pobreza e por suas obrigações dentro de casa, não pôde ir a escola. Mas não se lamentava: seu livro era o crucifixo.
    Seus pais tiveram-na por milagre, quando já estavam em idade bastante avançada. Um anjo avisou sua mãe que aquela criança seria um sinal de Deus para o mundo. Num tempo de muitas guerras e conflitos por terra, até entre vizinhos, seus pais eram apaziguadores: mesmo sem muito conhecimento, apelavam a Jesus e rezavam, e assim conseguiam grandes feitos.
    Como Santa Rita era muito bonita, ainda muito jovem foi pedida em casamento por um nobre, ao que seus pais, por verem-na tão pura e só, cederam para que não ficasse sem cuidados após suas passagens. Mas seu esposo tornou-se muito violento, tomando parte em várias disputas e batalhas, e por muitas vezes maltratou também a ela.
    E por sua discrição, nossa Santa aconselhava às amigas como se relacionar com o marido. Seu exemplo de não se maldizer, nem aceitar que ninguém lhe falasse mal dos outros, fez com que muita gente dali deixasse esse mal hábito. Como num Calvário e suas estações, ela subia com frequência um rochedo nas proximidades, para rezar sobre uma pedra branca pela conversão do marido. E sempre lhe era muito carinhosa.
    Teve filhos gêmeos, que ao entrarem na juventude quiseram tomar o mesmo caminho do pai. Mas Santa Rita, rezando e dando a todos exemplo de profunda Paz, findou por receber de Deus a Graça da conversão do marido, o que fez mudar os planos de seus filhos. Um dia, porém, ele não voltou para casa. Havia sido assassinado por antigos inimigos.
    Enquanto Santa Rita pedia a Deus que perdoasse os assassinos, seus filhos, contrariando seus conselhos, consumiam-se em desejo de vingança. Vendo que parecia muito difícil tirar-lhes o ódio do coração, numa prece pediu a Deus que preferia vê-los mortos a culpados de assassinato. E assim terminou acontecendo: não demorou e eles morreram de enfermidade.
    Muito resignada, consolada através de assíduas orações, Santa Rita viu sua chance de entrar para o convento. Persistente, foi rejeitada três vezes pelas agostinianas, pois era idosa e não era mais virgem. Mas esse problema seria fácil de resolver: fez de sua própria casa um convento. Vivia para rezar, fazer penitências, embora assim não as considerasse, e aconselhar as pessoas.


    Uma noite, entre arrebatadas orações, foi chamada à porta, que batiam: "Rita, Rita!!!" Era São João Batista, Santo Agostinho e São Nicolau Tolentino, também agostiniano. Eles levaram-na pelos ares e puseram-na dentro do convento, quando todas as portas estavam fechadas. Ouvindo seu sincero relato e sem encontrar outra explicação, a superiora, profundamente admirada, acabou aceitando-a.
    No entanto, aí era constantemente menosprezada por tanta inocência e bondade. Tentando 'despertá-la' de sua introversão e candura, pediam-lhe que fizesse as mais duras tarefas, mas ela aceitava-as com um largo sorriso e alegremente aproveitava os momentos em que ficava a sós para rezar. Aguava duas vezes ao dia uma videira seca, que havia anos já estava morta, atitude que lhe dava um ar infantil, aparentemente débil. Riam-se dela as monjas por isso, até que um dia a videira tornou a florescer e a dar frutos. Há relatos de que essa videira ainda produz, e são as mais saborosas uvas do convento.
    Um dia, ao ouvir de um pregador sobre as terríveis dores que Jesus padeceu, entrou em oração pedindo-Lhe que também pudesse padecer de algum sofrimento para ajudar na Redenção da humanidade. O que fez com insistência até que numa ocasião, estando aos pés do Cristo Crucificado, caiu da Coroa um espinho que entrou profundamente na pele de sua testa, causando-lhe fortes dores até o dia de sua morte. Mais tarde, esse ferimento foi considerado um estigma, um ferimento idêntico aos causados em Jesus pela Coroa de espinhos.


    Como a ferida não cicatrizava e fedia bastante, as monjas alojaram Santa Rita num pequeno quarto em separado, o que ela recebeu com grande alegria, pois era mais uma oportunidade para ficar a sós com Jesus e rezar. Passava dias a pão e água, dormindo no chão. A ferida na testa só desapareceu em uma viagem que fez a Roma, ocasião muito especial para sua ordem religiosa, e ela fez questão de ir. Mas, tão logo voltou ao convento, ela tornou a aparecer.
    Sentindo aproximar-se sua morte, pediu a Jesus um sinal de que seus filhos já estavam nos Céus, em companhia do pai, pois rezava muito por suas almas que certamente tinham ido ao purgatório. Uma rosa e um figo, presentes que seus antigos vizinhos inesperadamente trouxeram, colhidos no jardim da casa em que havia morado, foram para Santa Rita a resposta de Deus.
    Após muito sofrimento, um dia o sino do convento começou a tocar sozinho. Ao falecer, sua testa estava miraculosamente curada. Apenas uma pequena marca vermelha ficou no lugar. O mau cheiro de sua cela transformou-se num suave perfume, que ainda hoje pode ser sentido.


    Sua casa também foi muito bem preservada por seus vizinhos e devotos, assim como a pedra branca sobre o rochedo nas proximidades, onde nossa Santa ia rezar. Aí foi construída uma capela.


    Como ao velório acorriam multidões, pois sua história já era muito conhecida e seu corpo não se decompunha, acabou que nunca foi enterrado. E ainda não se corrompeu por completo, permanecendo exposto desde 1457. Apenas trocaram o caixão de madeira por uma redoma de cristal.



    Santa Rita de Cássia, rogai por nós!