quinta-feira, 23 de novembro de 2017

São Clemente


    Discípulo de São Pedro, São Clemente de Roma foi Papa do ano 88 até 97 da nossa era, iniciando seu papado aproximadamente 25 anos após a morte do Príncipe dos Apóstolos. Ele oficializou o rito da Crisma, tal e qual fazia São Pedro, e introduziu a palavra 'Amém', de uso judaico, na Liturgia da Igreja.
    Deixou um documento suma importância, a conhecida Carta de Clemente aos Coríntios, onde censurava jovens presbíteros por usurparem os postos dos mais velhos, talvez até de bispos, chegando à extrema decisão de depô-los. Ele pede a restituição dos cargos aos depostos, o absoluto respeito ao clero instituído e o arrependimento dos que cometeram tal pecado. É um registro de alta relevância para a História da Igreja, pois nele constata-se, desde os tempos dos Apóstolos, que sua hierarquia já se compunha, por ordem de importância, de bispo, presbíteros e diáconos.
    Ora, além de mencionar os 3 graus hierárquicos, São Paulo fez claras citações sobre disciplina na Primeira Carta a São Timóteo: "Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Do mesmo modo, os diáconos sejam honestos, não de duas atitudes nem propensos ao excesso da bebida e ao espírito de lucro... Os presbíteros que desempenham bem o encargo de presidir sejam honrados com dupla remuneração, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino." 1 Tm 3,2; 3,8; 5,17
    Quanto ao casamento, inicialmente permitido aos sacerdotes da Igreja, era uma concessão que se fazia antes de mais profundo entendimento do que ensinou o próprio Jesus: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12
    Sem dúvida, São Paulo mesmo já recomendava aos coríntios: "Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. Digo isto para vosso proveito, não para vos estender um laço, mas para vos ensinar o que melhor convém, o que vos poderá unir ao Senhor sem empecilhos." 1 Cor 7,8.32-33.35
    São Clemente também sustentava o primado do Bispo de Roma sobre todos os demais. Para isso tinha o respaldo de São João Evangelista, à época ainda vivo, que mesmo tendo sido Apóstolo não reclamava para si a liderança da Igreja nem se posicionava em desrespeito aos pronunciamentos do Papa. De fato, São Pedro foi o único a receber de Jesus as chaves do Reino de Deus, quando lhe disse: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    Nosso Santo escreveu: "Se algum homem desobedecer às palavras que Deus pronunciou através de nós (bispos), saibam que esse tal terá cometido uma grave transgressão, e se terá posto em grave perigo."
    Dizia ainda que os coríntios devem: "... obedecer às coisas escritas por nós através do Espírito Santo."
    Essa epístola é o mais antigo documento cristão não incluído no Novo Testamento. De fato, por suas profundas e devotas reflexões, ele foi agraciado com uma gloriosa visão da Santíssima Trindade.


    Quarto Papa, ele era contemporâneo de São Paulo, de quem também foi discípulo, de São Filipe, de quem foi colaborador, e ainda de São João Evangelista. São Paulo citou-o numa de suas primeiras cartas, escrita aos Filipenses: "Exorto a Evódia, exorto igualmente a Síntique que vivam em Paz no Senhor. E a ti, fiel Sínzigo, também rogo que as ajudes, pois que trabalharam comigo no Evangelho, com Clemente e com os demais colaboradores meus, cujos nomes estão inscritos no livro da Vida." Fl 4,2-3
    Seu papado aconteceu no período da segunda perseguição aos cristãos, perpetrada pelo imperador Domiciano, de quem era parente, mas sua santidade não lhe permitiu recuar. Ao contrário, chegou a converter Domitila, irmã do próprio Domiciano, que lhe serviu com grandes auxílios para diminuir os ataques à Igreja de Cristo. Nesse ínterim, São Clemente conseguiu um virtuoso crescimento do número de cristãos por todo Império Romano. Sua reputação e presença eram tão marcantes que quando Nerva se tornou imperador, por medo de sua influência, mandou que São Clemente fosse preso e condenado a trabalhos forçados nas minas da Crimeia, atualmente região da Rússia.
    Mas tal decisão revelou-se desastrosa para os interesses do imperador e muito proveitosa para o cristianismo, pois aí ele realizava muitos milagres e, por sua extrema humildade, convertia muitos presos. Irritado com tais notícias, Trajano, recém-tornado imperador e ferrenho perseguidor de cristãos em Roma, em consideração à sua bem quista família, exigiu que ele prestasse culto aos deuses pagãos. Contudo, como ele se negava, impiedosamente ordenou que fosse jogado ao Mar Negro com uma âncora amarrada ao pescoço.


    Muito venerado pelos cristãos locais, secretamente logo conseguiram resgatar seu corpo e dar-lhe um digno sepultamento.
    Deixou importantes exortações e inspiradas orações:
    "E nossos Apóstolos foram informados, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria brigas pelo nome de cargo de bispo. Por isso, tendo recebido completa presciência, eles nomearam as pessoas acima mencionadas e depois criaram uma lei, para que, se eles adormecessem, outros homens aprovados pudessem sucedê-los em seus ministérios."
    "... fiel e vigorosamente tu deves resistir aos hereges em defesa da única verdadeira e vivificante fé, que a Igreja - os Apóstolos - recebeu e retransmitiu aos filhos. Porque o Senhor de todos deu o poder do Evangelho a Seus Apóstolos, através dos quais também nós conhecemos a Verdade, isto é, a Doutrina do Filho de Deus, e aos quais o Senhor também declarou: "Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou (Lc 10,16).'"
    "Já dissemos o suficiente sobre a necessidade do Arrependimento, unidade e Paz, pois falamos a fiéis que estudaram profundamente as Escrituras e eles compreenderão os exemplos apontados e os seguirão. E deveremos estar felizes se vós obedecerdes."
    "Percorramos todas as épocas do mundo e verificaremos que em cada geração o Senhor concedeu o favorável tempo da penitência a todos que a Ele quiseram converter-se."
    "Noé proclamou a penitência, e todos que o escutaram foram salvos. Jonas anunciou a ruína aos ninivitas, mas eles, fazendo penitência por seus pecados, reconciliaram-se com Deus por suas súplicas e alcançaram a Salvação, apesar de não pertencerem ao povo de Deus."
    "Fixemos atentamente o olhar no Sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos de Deus, Seu Pai, esse Sangue que, derramado para nossa Salvação, ofereceu ao mundo inteiro a Graça da penitência."
    "Senhor, perdoai nossas infidelidades e injustiças, nossos pecados e delitos."
    "Não acuseis de pecado Vossos servos e Vossas servas, mas purificai-nos por Vossa Verdade e conduzi nossos passos para caminharmos com piedade, justiça e simplicidade de coração, fazendo tudo o que é bom e agradável aos Vossos olhos e diante de nossos pastores."

    "Concedei-nos, Senhor, a Graça de esperar em Vosso Nome, princípio de toda criatura."
    "Abertos os olhos de nosso coração, conheçamos a Vós somente, Altíssimo entre os altíssimos, Santo a repousar entre os santos."
    "Que todas as nações Vos conheçam, porque só Vós sois Deus, e conheçam igualmente a Jesus Cristo, Vosso Filho, e com elas também nós, Vosso povo e ovelhas do Vosso rebanho."
    "Senhor, Vós sois cheio de Sabedoria ao criar, e prudente em firmar as coisas criadas. Sois bom em tudo quanto é visível, e fiel, benigno e misericordioso para com aqueles que em Vós confiam."
    "Dai-nos concórdia e Paz, a nós e a todos os habitantes da terra, como as destes a nossos antepassados, que piedosamente Vos invocavam na fé e na Verdade."
    "Senhor, mostrai-nos Vossa face e que possamos gozar dos bens na Paz, à sombra de Vossa poderosa mão. Por Vosso braço estendido, sejamos livres de todo pecado. Guardai-nos daqueles que nos odeiam sem motivo."
    "Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do Universo e desejemos com todo ardor Seus dons de Paz e Seus magníficos e incomparáveis benefícios."
    "Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a Paz."
    "Vamos abrir caminho... para aqueles que cultivam a Paz com piedade, e não para aqueles que hipocritamente professam desejá-la. Pois a Escritura diz em um determinado lugar: "Este povo honra-Me com seus lábios, mas seus corações estão longe de Mim (Mc 7,6).'"

    "Deixe que seus filhos sejam criados nas instruções do Senhor, e aprendam quão grande poder tem a humildade perante Deus, o quanto a caridade pura e santa é valorizada por Ele, e quão excelente e grande é o temor a Ele."
    "Quão abençoados e admiráveis são as dádivas de Deus, queridos amigos! Vida com imortalidade, esplendor com justiça, Verdade com confiança, fé com certeza, autocontrole com santidade! E todas essas coisas estão dentro da nossa compreensão."
    "Quem pode descrever o vínculo do amor de Deus? Quem é capaz de explicar a majestade de sua beleza? A altura a que o amor leva é indescritível. ... Por amor, recebeu-nos o Mestre, Jesus Cristo Nosso Senhor, e de acordo com a vontade de Deus deu Seu Sangue por nós, Sua Carne por nossa carne e Sua vida por nossas vidas."
    "A caridade une-nos a Deus ... Nada de mal há na caridade, nada de arrogante. A caridade não conhece cisma, não se rebela, tudo faz em concórdia. Na caridade, todos os eleitos de Deus foram feitos perfeitos."
    "Segui os Santos, porque aqueles que os seguem se tornarão Santos."
    "Que cada um seja sujeito a outro, de acordo com a ordem em que é colocado pelo dom de Deus."
    "Aquele que é casto de carne não deve orgulhar-se, pois deve saber que deve o dom da continência a Outro."
    "Devemos deixar Deus ser o único a elogiar-nos, e não louvar a nós mesmos. Pois Deus detesta aqueles que se recomendam. Deixe os outros aplaudirem nossas boas ações."
    "Se alguém disser que viu um homem justo necessitado de pão, respondo que era em algum lugar onde não havia outro homem justo."
    "Um companheiro é apenas outro eu. Por isso, é um argumento de que um homem é ímpio se ele se mantém em companhia dos ímpios."
    "A imunda conversa faz-nos sentir confortáveis com o imundo agir. Mas quem sabe controlar a língua, está preparado para resistir aos ataques da luxúria."

    "Devemos lutar com toda seriedade, sabendo que agora somos chamados para o combate. Vamos correr no estreito caminho, a corrida que é incorruptível. Isto é o que Cristo diz: 'Mantende puros vossos corpos e sem mancha vossas almas, para que recebam a Vida Eterna.'"
    "Não devemos considerar todas as coisas deste mundo como nossas nem desejá-las. Este mundo e o que virá são dois inimigos. Não podemos, portanto, ser amigos de ambos, mas devemos decidir qual abandonaremos e qual aproveitaremos. E pensemos: é melhor odiar as coisas presentes, tão pequenas, de curta duração e corruptíveis, e amar aquelas que estão por vir, que são verdadeiramente boas e incorruptíveis."


    Em 868, suas relíquias foram levadas a Roma pelos irmãos missionários São Cirilo e São Metódio, e entregues ao Papa Adriano II. Foram sepultadas na basílica construída no século III em sua homenagem, nas proximidade do Coliseu, no lugar da antiga propriedade de seu pai, em cuja casa desde o século I funcionou uma igreja na clandestinidade. Anteriormente, aí havia sido um templo pagão, como se vê na cripta ainda preservada.



    São Clemente, rogai por nós!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Santa Cecília


    De família de nobres de Roma, os Metelos, filha de senador, Santa Cecília levava uma vida contemplativa, dedicando-se à música e aos estudos de Filosofia e dos Evangelhos. Tinha abraçado a em Cristo desde a infância, e sentia uma grande alegria indo à Santa Missa celebrada pelo bispo Urbano, ouvindo cânticos religiosos e fazendo caridade aos pobres à porta da Igreja. Ainda muito nova, de um sermão que ouviu, desejou ser esposa de Cristo, e, secretamente, fez voto de virgindade.


    Como seus pais já faziam planos para casá-la, pois era comum àquela época, ela resistiu muito e acabou tendo que revelar seu voto. Mas, achando que aquilo era apenas um devaneio infantil, mesmo contra sua persistência eles ofereceram-na em casamento a Valeriano, um nobre pagão.
    Durante as festas de núpcias, porém, na primeira oportunidade Santa Cecília falou-lhe do voto que havia feito. Disse-lhe ainda que, se se convertesse, ele também poderia ver e conversar com seu Santo Anjo da Guarda, como ela mesma sempre fazia. Jovem de bom coração, impressionado, Valeriano aceitou o voto da esposa, prometeu ajudá-la a guardar a pureza e foi pedir ao sacerdote local para receber o Batismo naquela mesma noite.
    Valeriano tomou muito gosto pelos sermões do bispo Urbano, e logo ajudou a converter seu irmão, Tibúrcio. E um dia, de fato, ao chegar em casa, ele viu seu Anjo da Guarda rezando junto a Santa Cecília.
    Mas ele tinha mais um irmão, Almáquio, que era prefeito de Roma e ficou revoltado ao saber da conversão dos irmãos, pois foram vistos ajudando a sepultar cristãos. Sentindo-se traído, eles citou-os perante o tribunal e, por acusações de testemunhas oculares, acabaram levados a julgamento. Como recusavam-se a prestar cultos aos deuses pagãos, e assim renegar a fé em Cristo, foram condenados à morte por decapitação.
    Sem saber que Santa Cecília era a razão da conversão dos dois, ele intimou-a e inquiriu sobre os bens de seus irmãos, pois haviam-lhe confiado muitos pertences de valor para fazer caridade, mas ela garantiu-lhe que estavam todos muito bem guardados. Era um sofisma, pois já tinha distribuído quase todos entre os pobres. Ao descobrir a verdade, apesar da raiva que teve, Almáquio levou em consideração o respeito que devia ao senador seu pai e à sua família, e apenas obrigou-a a ir ao templo pagão, oferecer sacrifício aos deuses.
    Enquanto era conduzida, cheia do Espírito de Deus, Santa Cecília falava com tanta doçura e convicção sobre Cristo aos guardas que acabou fazendo-lhes assumir a fé que já praticavam. Entre outras tocantes afirmações, pois contava com a presença de seu Anjo da Guarda, ela dizia-lhes: "Eu sou a noiva de Nosso Senhor Jesus Cristo."
    E para maior irritação de Almáquio, eles retornaram e declararam-se incapazes de obrigá-la a cumprir tal mandado porque também eram cristãos. Eram anos de autêntico heroísmo por parte de fiéis de todas as idades, e por isso Roma seria admirada e reconhecida em todo o mundo como berço e sede do Cristianismo. Sem dúvida, sob a égide de Cidade Apostólica pelos martírios de São Pedro e São Paulo, aí amor a Cristo era levado às últimas consequências, como se viu nos testemunhos de vida dados pelos Primeiros Santos Mártires.
    Querendo intimidar qualquer outra pessoa de sua corte que pretendesse seguir Jesus, Almáquio ordenou que os guardas fossem imediatamente decapitados. E realmente ignorando a inspiração e a fé de Santa Cecília, inquiriu-a mais uma vez sobre prestar cultos aos deuses ou morrer, ao que ela respondeu-lhe: "Melhor morrer e ser feliz, do que viver e ser miserável. Você deseja que pronunciemos uma mentira, mas ao falarmos a Verdade infligimos-lhe muito maior e mais cruel tortura que aquelas que você nos faz sofrer."
    Possesso de ódio, ele quis matá-la com requintes de crueldade, fazendo-a agonizar por asfixia com o vapor da água das caldeiras de seu próprio palácio. Mas, por milagre, ela não morreu. Sequer apresentou queimaduras pelo corpo. Determinou então que ela fosse imersa na água fervente, e por mais um espantoso milagre nada lhe aconteceu.
    Assombrado, ele mandou cortar-lhe o pescoço diante de seus olhos e de toda coorte, pois este era sempre o último recurso usado para matar muitos Santos nos primeiros séculos, mas três golpes de espada não foram capazes de separar sua cabeça do corpo. Contudo, vendo-a mortalmente ferida, com um grande corte aberto no pescoço, ordenou que ela restasse ali, deitada ao chão, sofrendo até à morte. Santa Cecília, no entanto, mantinha-se inacreditavelmente calma, e assim resistiu por três dias, sangrando lentamente.
    Quando alguma pessoa se aproximava para limpar o sangue ou ver se já havia morrido, ela serenamente anunciava o amor a Deus e aconselhava-a a não renegar a fé em Jesus nem mesmo sob ameaça de morte. Todos os guardas que não eram cristãos e acompanharam seu martírio, ainda que ocultamente, converteram-se. Ela dizia-lhes: "Levantem-se, soldados de Cristo, joguem fora as obras das trevas e vistam a armadura da Luz."
    Segundo uma antiga tradição, durante seu casamento ela teria cantado: "Senhor, guardai sem mancha meu corpo e minha alma, para que eu não seja confundida." Este verso tornou-se a antífona no ofício de sua festa, e desde o século XV ela é considerada a Padroeira da música sacra e dos músicos.


    Quando seu esposo foi martirizado, e enquanto não chegava sua hora de testemunhar com a própria vida, ela garantia às pessoas ao seu redor: "Nenhuma mão profana pode tocar-me, porque um anjo me protege."
    E ensinava:
    "Morrer por Cristo não é sacrificar a juventude, mas renová-la."
    "Só Cristo pode salvar da morte, e mandar os verdadeiramente culpados ao fogo eterno."
    "Estou muito feliz de sofrer todos os tipos de tormentos por confessar fé em Jesus Cristo."
    "A morte e o inferno combinam-se para distrair o homem com mil faces inúteis, e envolver seus pensamentos com uma multidão de desejos imaginários."
    "O poder do homem é como uma bexiga inflada com o vento. Mas deixe uma agulha perfurar a bexiga: ela murchará imediatamente."

    Seu martírio aconteceu entre os anos de 176 e 180. A seu pedido, sua casa tornou-se uma igreja, mesmo funcionando na clandestinidade. Seu corpo foi sepultado nas Catacumbas da Via Ápia, que mais tarde ficariam conhecidas como as Catacumbas de São Calisto.


    Por grande devoção popular em todo o Império, seu caixão foi posteriormente levado à cripta dedicada ao Papa Urbano I, e o bispo Urbano, seu grande amigo e diretor espiritual, acabou confundido com ele. Por isso, por séculos a história de Santa Cecília foi cronologicamente posicionada algumas décadas mais tarde. E quando o cristianismo veio a ser tolerado no Império Romano, no início do século IV, por causa das invasões dos bárbaros seus restos foram escondidos numa igreja em Roma, e assim sua locação acabou ignorada, enfraquecendo a devoção que lhe tinham.
    Mas no início do século IX Santa Cecília apareceu ao Papa Pascoal I, seu admirador e devoto, e revelou onde estava o caixão de cipreste com seus restos mortais. Ao abri-lo, viram seu corpo totalmente intacto e na mesma posição em que estava quando ela morreu. Fizeram-lhe então uma urna de mármore e depositaram-no sob o altar da Basílica de Santa Cecília, erguida onde fora sua casa.
    Em 1599, o Cardeal Sfondrati ordenou que a urna fosse aberta, quando mais uma vez encontraram seu corpo em estado incorrupto e na mesma posição descrita pelo Papa Pascoal I. Como tinham a intenção de mantê-lo na urna sob o altar, foi feita uma escultura em mármore para ficar exposta à visitação, pois o povo não cessava de ir à igreja para venerá-la.
    Em seu último sinal, já silencioso, Santa Cecília indicou com os dedos que as três Pessoas da Santíssima Trindade são um só Deus, ajudando a elucidar um dos grandes debates de seu tempo e testemunhando contra várias heresias.


    Santa Cecília, rogai por nós!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Nossa Senhora da Apresentação


    Conta o Proto-Evangelho de São Tiago, um livro apócrifo, ou seja, não reconhecido pela Igreja como totalmente inspirado pelo Espírito Santo, que aos 3 anos de idade Nossa Senhora foi apresentada no Templo de Jerusalém por São Joaquim e Santa Ana. Está escrito assim:

    "Os meses foram passando para a menina e quando ela completou dois anos, Joaquim disse a Ana:
    - Vamos levá-la ao Templo do Senhor para cumprirmos a promessa que fizemos, para que o Senhor não reclame e nossa oferenda não se torne inaceitável a Seus olhos.
    Ana respondeu:
    - Vamos esperar que ela complete três anos, para que não venha sentir saudade de nós.
    E Joaquim respondeu:
    - Vamos aguardar.
    Quando completou três anos, Joaquim disse:
    - Chame as meninas hebreias, virgens, e que, duas a duas, tomem uma lâmpada acesa para que a menina [Maria] não olhe para trás e Seu coração não se prenda por algo fora do Templo de Deus.
    E assim foi feito e subiram ao Templo do Senhor. Então o sacerdote a recebeu, beijou-a e abençoou-a. E disse [a Maria]:
    - O Senhor engrandeceu teu nome diante de todas as gerações. No final dos tempos, manifestará em ti Sua Redenção aos filhos de Israel.
    Então fez [Maria] sentar-se no terceiro degrau do altar e o Senhor derramou Sua Graça sobre ela. Ela dançou e cativou toda a casa de Israel.
    Então seus pais foram embora cheios de admiração e louvaram ao Senhor porque a menina não olhou para trás. E Maria passou a ficar no Templo como uma pequena pomba, recebendo seu sustento das mãos de um anjo."


    Segundo esse mesmo apócrifo, Maria teria vivido no Templo até os 12 anos de idade.
    Embora tenhamos essas informações de um livro não totalmente inspirado, vê-se nessas linhas a preparação de Nossa Senhora, já desde sua Imaculada Conceição, para ser a Mãe do Salvador. Tão Santa, ela não poderia ter sido criada em outro lugar, senão na Casa do Senhor.


    E reza a Liturgia das Horas: "Neste dia, em que se lembra a dedicação da Igreja de Santa Maria, a Nova, construída próximo do Templo de Jerusalém no ano 543, comemoramos junto aos cristãos da Igreja oriental a 'dedicação' que Maria fez de si mesma a Deus desde a infância, motivada pelo Espírito Santo, de Cuja Graça estava repleta desde sua Imaculada Concepção."
    A Igreja, portanto, celebra a Apresentação de Nossa Senhora no Templo de Jerusalém desde o século VIII. Em 1372, o Papa Gregório XI estabeleceu essa comemoração na corte papal, em Avignon, e em 1585, por fim, Sixto V decretou que ela fosse celebrada por toda a Igreja.

    Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

São Gelásio


    Foi eleito sucessor de São Pedro aos 82 anos, o que nos dá uma ideia de seu vigor espiritual e de sua importância para a Igreja. Conduziu a 'Barca de Pedro' por apenas 4 anos, entre 492 e 496, mas os cardeais, plenamente iluminados pelo Espírito de Deus, sabiam muito bem o que estavam fazendo, pois em tão pouco tempo ele realizou grandes obras que ainda hoje vigoram na Liturgia, no Direito Canônico e na hierarquia da Igreja.
    Na Epístola 'Duo sunt' (Há dois), endereçada ao imperador Anastácio I, que estava queixoso por sua eleição não lhe ter sido comunicada, nosso Santo declarou a autonomia da Igreja diante de todo e qualquer poder terreno ou autoridade política: "Há dois poderes, augusto Imperador, através dos quais se governa o mundo: a autoridade sagrada dos Pontífices e o poder real. Destes dois, é mais grave o peso dos sacerdotes, pois estes deverão prestar contas por ocasião do divino julgamento, inclusive pelos próprios reis da humanidade. Na verdade, tu sabes, filho clementíssimo, que em razão de tua dignidade, és o primeiro de todos os homens e o Imperador do mundo; todavia sê submisso aos representantes da religião e suplica-lhes o que é indispensável para tua Salvação."
    Ele defendeu que os bispos são autoridades superiores aos poderes temporais, e que a autoridade espiritual do Papa é absoluta na Terra, a ponte entre Deus e os seres humanos, entre o Céu e a Terra, e suas atitudes, portanto, não podem ser julgadas por ninguém. Tal afirmação foi a primeira a oficializar a autoridade do Bispo de Roma, sucessor da Sé de São Pedro, sobre toda a Igreja, o que de fato já era praticado desde os tempos do Príncipe dos Apóstolos. Mas não deixou de afirmar também a postura de absoluta humildade do Papa, como era bem a seu modo, dizendo que o papel do Sumo Pontífice 'era antes ouvir que de julgar'.
    Através daquele que ficou conhecido como o Decretum Gelasianum, ratificou oficialmente quais eram os livros canônicos e quais os apócrifos, como bem antes de Santo Irineu, que viveu no século II, já era de uso da Igreja. Sábio e resoluto, combateu com seus escritos as heresias de seu tempo. Foram elas: o monofisismo e o arianismo, que negavam as duas naturezas de Cristo, humana e divina; o pelagianismo, que negava o pecado original e a corrupção da natureza humana; e o maniqueísmo, que dividia todas as coisas entre o bem e o mal, e via todo o mundo material como essencialmente mau.


    Nascido em Roma, era de origem africana, filho de um ferreiro. Destacou-se com brilhantismo nos estudos e na . Por sua extrema humildade, só em idade bastante avançada, mais de 73 anos, foi convidado para ser conselheiro do Papa Félix III, que àquele tempo redobrava seus esforços para evitar o afastamento da igreja do Oriente, que tinha como base a cidade de Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente. Tomava lugar uma questão que ficou conhecida como o Cisma de Acácio, o patriarca de Constantinopla que levantava teses monofisistas e acabou excomungado por Félix III.
    Com a morte deste papa, a eleição de São Gelásio foi uma aclamação natural. O Cisma em curso, porém, mostrou-se ainda mais complicado com a oposição à Igreja feita por Anastácio I, que comandava o Império a partir de Constantinopla. Mesmo usando de muita compreensão e paciência, nosso Santo não conseguiu sanar essas diferenças através das tratativas que estabeleceu com o patriarca Eufêmio, sucessor de Acácio, e elas terminaram perdurando por 34 anos até as Aclamações de Constantinopla, em 519. Entretanto, por sua grande habilidade e sinceras demonstrações de amor à Igreja Universal, mesmo relutante Eufêmio fez algumas concessões, e terminou sendo deposto pelo imperador.
    São Gelásio convocou e presidiu o Sínodo de 494, quando foi aprovada uma grande renovação litúrgica. Aí foi instituído um código, depois conhecido como o Sacramentário Gelasiano, que uniformizou os ritos e as funções realizadas nas igrejas de todo o mundo. Ele contém 50 prefácios de Liturgia e uma coletânea de orações para serem usadas na Santa Missa.
    São Gelásio viveu uma vida de frequentes e intensas orações, e sempre insistia com todo o clero para que fizesse o mesmo. O diácono e historiador grego Dionísio, o pequeno, que viveu no século seguinte, registrou que São Gelásio mais servia que dominava, e que, não obstante tenha sido Papa, viveu e morreu em tocante humildade. Fazia caridade com extrema facilidade, dizia Dionísio, e reconhecidamente viveu para 'enriquecer' os mais carentes.
    Deram-lhe a alcunha de 'o Papa dos pobres'!


    São Gelásio, rogai por nós!

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Tateando em Busca de Deus


    Na Encíclica 'Humani Generis', o Venerável Pio XII argumenta com singular lucidez sobre a dificuldade de conhecer a Deus usando apenas das faculdades da razão: "Pois, embora a razão humana, absolutamente falando, possa chegar com suas naturais forças e lume ao verdadeiro e certo conhecimento do Deus pessoal, que governa e protege o mundo com Sua Providência, bem como chegar ao conhecimento da lei natural impressa pelo Criador em nossas almas, de fato, muitos são os obstáculos que impedem a mesma razão de eficazmente e com resultado usar desta sua natural capacidade.
    As verdades que se referem a Deus, e às relações entre os homens e Deus, são verdades que transcendem completamente a ordem das coisas sensíveis; e quando estas verdades atingem a vida prática e a regem, requerem sacrifício e abnegação. A inteligência humana, na aquisição destas verdades, encontra dificuldades tanto por parte dos sentidos e da imaginação como por parte das más inclinações, provenientes do pecado original. Donde vemos que os homens, em tais questões, facilmente procuram persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que não desejam que seja verdadeiro."
    Em conformidade com essa percepção, o Profeta Isaías já havia observado: "Não, não é a mão do Senhor que é incapaz de salvar, nem Seu ouvido demasiado surdo para ouvir. São vossos pecados que colocaram uma barreira entre vós e Vosso Deus. Eis porque o direito permanece afastado de nós, e a justiça não vem a nós. ... andamos na escuridão. Vamos como cegos apalpando o muro, caminhamos às apalpadelas como aqueles que perderam a vista. Em pleno dia tropeçamos como ao crepúsculo, mergulhamos nas trevas como os mortos." Is 59,1-2.9-10
    Ora, também Jesus apontou o renitente pecado como o grande obstáculo para nosso encontro com Deus: "... a Luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a Luz, pois as suas obras eram más." Jo 3,19
    Em tudo que criou, porém, segundo São Paulo, Deus deixou sinais que nos conduzem de volta a Ele. E apesar do pecado, tendo-se boa vontade, gradualmente é-nos concedido encontrar o Caminho: "Fixou aos povos os tempos e os limites da sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo como que às apalpadelas, pois na verdade Ele não está longe de cada um de nós. Porque é n'Ele que temos a Vida, o movimento e o ser..." At 17,26b-28a
    Pois, por Sua infinita Misericórdia, através de Isaías Ele havia prometido livrar-nos da cegueira espiritual que acomete o mundo: "Aos cegos farei seguir um caminho desconhecido, por atalhos desconhecidos Eu os encaminharei; mudarei diante deles a escuridão em Luz, e as veredas pedregosas em estradas planas. Todas essas maravilhas, Eu as realizarei, não deixarei de executá-las." Is 42,16
    Tal feito certamente se deu com a passagem do Salvador, embora Ele também tenha apontado um contraponto. Seus milagres foram um divisor de águas, como quando curou um cego de nascença: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.' Alguns dos fariseus, que estavam com Ele, ouviram-nO e perguntaram-Lhe: 'Também nós somos, acaso, cegos?...' Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis pecado, mas agora pretendeis ver, e vosso pecado permanece.'" Jo 9,39-41
    E, como O vimos dizer, Ele é a Luz prometida pelo Pai: "Eu sou a Luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12
    Depois d'Ele, portanto, o mundo está patentemente dividido entre a Salvação e a perdição: "Não são doze as horas do dia? Quem caminha de dia não tropeça, porque vê a Luz deste mundo. Mas quem anda de noite tropeça, porque lhe falta a Luz." Jo 11,9


O IMPRESCINDÍVEL AUXÍLIO DA

    O Catecismo da Igreja, no mesmo sentido, explica que sozinha a razão não é bastante para conhecer a Deus em Sua plenitude, e que só através de Jesus e do Seu Espírito o Pai revela-Se inteiramente: "Mediante a razão natural, o homem com certeza pode conhecer a Deus a partir de Suas obras. Mas existe outra ordem de conhecimento que o homem de modo algum pode atingir por suas próprias forças: a da Divina Revelação. Por uma decisão totalmente livre, Deus revela-Se e doa-Se ao homem. Fá-lo revelando Seu mistério, Seu benevolente projeto, que concebeu desde toda a eternidade em Cristo em prol de todos os homens. Revela plenamente Seu projeto enviando Seu bem-amado Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo." CIC 50
    Foi exatamente isso que disse o próprio Jesus: "... ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Mt 11,27
    Disse-o ainda mais categoricamente com estas palavras: "... ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6b
    Portanto, se alguém bem conhece a Deus, é certo que isso se deu por obra e Graça do próprio Cristo, e assim pela Comunhão da Santíssima Trindade. Diz São João Evangelista: "Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi Quem O revelou." Jo 1,18
    Jesus, ademais, deixou esse testemunho sobre a eternidade, que é a realidade última de todas as coisas, e necessariamente passa pela íntima experiência com Deus e Consigo: "Ora, a Vida Eterna consiste em que conheçam a Ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste." Jo 17,3
    Ele pediu aos Apóstolos na Última Ceia: "Vós credes em Deus... Crede também em Mim!" Jo 14,1b
    E anunciou também o indefectível testemunho do Santo Paráclito: "Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    Pois é d'Ele o arremate da Revelação: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão. Ele Me glorificará, porque receberá do que é Meu, e vo-lo anunciará." Jo 16,12-14
    O Livro da Sabedoria já mencionava o socorro do Divino Paráclito para que pudéssemos assimilar os desígnios do Pai: "E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus Vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo?" Sb 9,17
    Por isso, os seguidores da tradição de São Paulo tratavam-nO com a devida deferência: "... o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10,29
    Por outras palavras, e designando por Deus a Santíssima Trindade, São Paulo reafirma que o discernimento espiritual só pode ser concedido por Ele mesmo: "... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e percepção espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus." Cl 1,9-10
    Ele assegurava: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17b
    Jesus, aliás, já havia falado dessa natureza divina: "Deus é Espírito..." Jo 4,24a
    Com efeito, em sua segunda carta, São Pedro diz que a fé foi disseminada não só para que conhecêssemos o suficiente sobre Deus, mas que também participássemos de Sua natureza Divina: "Simão Pedro, servo e Apóstolo de Jesus Cristo, àqueles que, pela justiça do Nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram por partilha uma fé tão preciosa como a nossa, Graça e Paz vos sejam dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor! O divino poder deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,1-3

OS QUE RELUTAM EM PECAR

     Mas São Paulo também alerta, em contrapartida, sobre a reação de Deus para com aqueles que teimam em reconhecer Sua Graça, e assim se negam a entregar-Lhe o coração: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí o seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." 1 Rm 28-32
    E fala da escravidão que lhes impõe o inimigo: "Ele usará de todas seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar." Ts 2,10
    Com toda propriedade, há muitos séculos o Livro de Jó refere-se aos que se perdem como a cegos totalmente desprovidos de orientação, pois Deus "... frustra os projetos dos maus, cujas mãos não podem executar os planos; apanha os jeitosos em suas próprias manhas, e os projetos dos astutos se tornam prematuros; em pleno dia encontram as trevas, e andam às apalpadelas ao meio-dia como se fosse noite." Jó 5,12-14
    São Paulo sustenta, porém, que o poder do Evangelho é absolutamente eficaz contra tudo que nos afasta do Pai: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    E São João Evangelista, com pertinaz sutileza, lembra-nos do caminho do amor: "Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor." 1 Jo 4,8


OS QUE BUSCAM A DEUS

    Por tão inefável Graça, portanto, o Profeta Oseias exortava o povo a abrir o coração a Deus, e criou um bela analogia para explicar a Missão do Salvador: "Apliquemo-nos a conhecer o Senhor; Sua Vinda é certa como a da aurora; Ele virá a nós como a chuva, como a chuva da primavera que irriga a terra." Os 6,3
    E ainda através dele, Deus diz enfaticamente que Sua Comunhão é mais valiosa que qualquer oferenda: "... Eu quero o amor mais que os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos." Os 6,6
    O salmista, em grande inspiração, desejoso de servir à obra de Deus, clama pelos auxílios do Espírito Santo: "Ensinai-me a fazer Vossa vontade, pois sois Meu Deus. Que Vosso Espírito de bondade me conduza pelo reto caminho." Sl 142,10
    E ciente da grande dádiva que se alcança no Céu, que é a Visão Beatífica, quando veremos a Deus face à face, ele roga: "Fala-Vos meu coração, minha face Vos busca! Vossa face, ó Senhor, eu a procuro. Não escondais de mim Vosso semblante, não afasteis com ira Vosso servo." Sl 26,8-9a
    Pedia-o com insistência: "Ó Senhor, não me afasteis de Vossa face..." Sl 50,13a
    Já Isaías, homem santo, buscava diuturnamente no próprio Deus sua Consolação: "Minha alma deseja-Vos durante a noite e meu espírito procura-Vos desde a manhã." Is 26,9
    E recomendava: "Buscai o Senhor, já que Ele Se deixa encontrar. Invocai-O, já que está perto." Is 55,6
    Em outras palavras, Jesus sugeriu o mesmo: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,33
    Mas Ele recomendava perseverança: "Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á." Mt 7,7-8
    E assegurou: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    São Pedro, porém, lembrava a suma importância da obediência: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    E recomendava esta ascese como exercício espiritual, que contém dons essenciais: "Por estes motivos, esforçai-vos o quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Pd 1,5-8
    Da mesma forma, São Paulo exortava os colossenses: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento. Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a Paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único Corpo. E sede agradecidos. A Palavra de Cristo permaneça entre vós em toda sua riqueza, de sorte que com toda Sabedoria possais mutuamente instruir-vos e exortar-vos. Sob a inspiração da Graça cantai a Deus de todo coração salmos, hinos e cânticos espirituais. Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em Nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai." Cl 3,1-2.9b-10.12-17
    E, de modo exemplar, afirma aos filipenses o verdadeiro seguimento o Cristo: "Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da Sua Ressurreição, pela participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte..." Fl 3,10
    Dizia: "O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja." Cl 1,24b
    Ora, mesmo diante da diáspora e da apostasia previstas por Moisés no Deuteronômio, este mesmo profeta garantia: "Então procurarás o Senhor, Teu Deus, e O encontrarás, contanto que O busques de todo teu coração e de toda tua alma." Dt 4,29

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

domingo, 19 de novembro de 2017

O Mistério de Cristo


    Antes da Ressurreição e da Ascensão ao Céu, o mais grandioso fenômeno realizado por Jesus diante dos Apóstolos certamente foi a Transfiguração, quando lhes manifestou plenamente Sua condição divina. Por isso pediu que os Apóstolos aguardassem o devido tempo para começar a divulgá-la.
    São Mateus narra-o assim:
    "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.
    Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias, conversando com Ele. Pedro tomou então a palavra e disse-Lhe:
    - Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias.
    Falava ainda, quando veio uma luminosa nuvem e envolveu-os. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia:
    - Eis Meu Filho muito amado, em Quem pus toda Minha afeição; ouvi-O.
    Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo:
    - Levantai-vos e não temais.
    Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus.
    E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição:
    - Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos." Mt 17,2-3.9


A REVELAÇÃO PESSOAL

    Mas, mesmo tendo esperado o oportuno momento, não foi fácil divulgar tão desconcertante Revelação. Num suspiro, São Paulo falou dos esforços que fazia para anunciar a Encarnação do Cristo, sem dúvida, o maior mistério de Deus: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    E sabendo que tinha em mãos uma tarefa que ia muito além de suas capacidades, humildemente pedia por orações: "Orai também por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa palavra, para que possamos anunciar o mistério de Cristo." Cl 4,3
    Ele até admite uma errônea visão que tiveram de Sua Encarnação, e do próprio ser humano: "Por isso, nós daqui em diante a ninguém conhecemos de um modo humano. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim. Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura." 2 Cor 5,16-17a
    Assim, tanto quanto o próprio Cristo, o Evangelho é uma manifestação de divinos mistérios: "E orai também por mim, para que me seja dado anunciar corajosamente o mistério do Evangelho..." Ef 6,19
    É obra do próprio Santo Paráclito, segundo São Pedro: "... estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu." 1 Pd 1,12b
    Jesus mesmo havia dito que só revelaria o Pai a quem Ele quisesse, de onde se entende que Ele O revela de pessoa em pessoa: "Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar." Lc 10,22
    Em igual sentido, São Paulo diz que só se pode dar conta de que Jesus é Deus com o auxílio da terceira Pessoa da Santíssima Trindade: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Por isso, ao constatar a incredulidade de tantos, mesmo diante de tão grandiosos milagres, Jesus apontou na revelação pessoal e seletiva um desígnio do Pai: "Eu Te bendigo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos." Mt 11,25
    Ora, até parentes próximos de Jesus, não sem algum despeito, d'Ele exigiam que Se revelasse de uma vez ao mundo todo: "Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também os Teus discípulos vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-Te ao mundo." Jo 7,3-4
    Ele, no entanto, prometia manifestar-Se de um em um aos que O amam, falando em particular a cada coração: "Aquele que tem Meus mandamentos e guarda-os, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu o amarei e Me manifestarei a ele." Jo 14,21
    Nessa ocasião, movido por sincera curiosidade, São Judas Tadeu perguntou o porquê de Suas manifestações pessoais: "Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?'" Jo 14,22
    Mas Ele tão somente respondeu garantindo vir com o Pai morar no coração de quem O Ama, ou seja, revelando-Se pessoalmente, sem fazer menção, nessa resposta, à Sua última manifestação, que será a Parusia, Sua Definitiva Volta: "Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará a Minha Palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,23
    Sem dúvida, foi isso que Ele atestou quando rezou ao Pai pela Unidade da Igreja: "Manifestei Teu Nome aos homens que do mundo Me deste. Agora eles reconheceram que todas as coisas que Me deste procedem de Ti." Jo 17,6a.7
    E já havia dito: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44a
    Profeta Jeremias havia previsto que as revelações de Deus seriam pessoais, àqueles que O invocam com sinceridade e persistência: "Eis o que diz o Senhor que criou a terra, que a modelou e consolidou e Cujo Nome é Javé: 'Invoca-Me, e te responderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras.'" Jr 33,2-3
    E o religioso Simeão, que inspiradamente foi ao Templo assistir a Apresentação do Menino Jesus por Nossa Senhora e São José, previu apenas que, por Sua Pessoa, iniciava-se um período em que a humanidade se revelaria perante o Salvador, e não desde logo a manifestação final de Deus: "Eis que este Menino está destinado a ser causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35


JESUS, PLENITUDE DE DEUS

    Os Apóstolos, porém, estavam incumbidos de testemunhar Sua absoluta divindade. São João Evangelista, por exemplo, assegura que através de Jesus nos foi dado suficiente entendimento para conhecermos a Deus, e sabermos que Ele é Sua verdadeira manifestação: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20
    Jesus, de fato, afirmou o privilégio que era conhecê-Lo pessoalmente, como foi concedido aos Apóstolos, às pessoas que O seguiam e de Seu tempo: "Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram." Lc 10,22-23
    E atestou abertamente Sua divindade no Templo de Jerusalém, dizendo que só não O reconhecia aqueles que permanecem no pecado: "Ele disse-lhes: 'Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que EU SOU, morrereis no vosso pecado.'" Jo 8,23-24
    Por isso São Paulo dizia que na Encarnação de Jesus estava a plenitude de Deus: "Pois n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." Cl 2,9
    Não há como negar, entretanto, que mesmo com tudo que foi revelado, estamos diante de um mistério que vai muito além de nossa capacidade de compreensão. Isso já estava escrito no livro de Jó, quando seu amigo lhe diz: "Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir Seus lábios para responder-te, revelar-te os mistérios da Sabedoria que são ambíguos para o espírito... Saberias então que Deus esquece uma parte de tua iniquidade. Pretendes sondar as profundezas divinas, atingir a perfeição do Todo-poderoso? Ela é mais alta do que o céu: que farás? É mais profunda que os infernos: como a conhecerás? É mais longa que a terra, mais larga que o mar." Jó 11,5-9
    Quem também deixou entrever que nem tudo sobre Deus pode ser conhecido foi São Paulo. Ele diz dos pagãos na Carta aos Romanos: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência." Rm 1,19
    Contudo, apesar de ciente da nossa limitação, São Pedro afirma que nos foi concedido tudo de que precisamos para bem conhecer a Jesus, e pelas práticas de fé alcançar a Vida eterna: "O divino poder deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E São Paulo não vê dificuldade alguma em conviver com os mistérios. Ao contrário, regojiza-se com eles: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja. Dela fui constituído ministro, em virtude da missão que Deus me conferiu de anunciar em vosso favor a realização da Palavra de Deus, mistério este que desde a origem esteve escondido às gerações passadas, mas que agora foi manifestado aos Seus Santos. A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e Glória deste mistério entre os gentios: Cristo em vós, esperança da Glória! A Ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo. Eis a finalidade do meu trabalho, a razão porque luto auxiliado por Sua força que poderosamente atua em mim." Cl 1,24-29
    Ele diz desta força: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    O Eclesiástico, por sinal, já reconhecia que mesmo os esforços de um sábio dependem da vontade de Deus para que se possa conhecer a Verdade que nos cerca. E afirma que só Ele nos pode permitir meditar sobre Seus mistérios, só Ele nos pode ensinar Sua própria Doutrina: "O sábio procura cuidadosamente a sabedoria de todos os antigos, e aplica-se ao estudo dos Profetas. Guarda no coração as narrativas dos célebres homens, e penetra ao mesmo tempo nos mistérios das máximas. Penetra nos segredos dos provérbios, e vive com o sentido oculto das parábolas. Exerce seu cargo no meio dos poderosos, e comparece perante aqueles que governam. Viaja pela terra de povos estrangeiros, para reconhecer o que há do bem e do mal entre os homens. Desde o alvorecer aplica o coração à vigília para unir-se ao Senhor que o criou, e ora na presença do Altíssimo. Abre sua boca para orar, e pede perdão de seus pecados, pois se for da vontade do Senhor que é grande, Ele o cumulará do espírito de inteligência. O Senhor orientará seus conselhos e seus ensinamentos, e ele meditará nos divinos mistérios. Ensinará Ele próprio o conhecimento de Sua Doutrina. E ele porá sua glória na Lei da aliança do Senhor." Eclo 39,1-8.10-11
    No Apocalipse, enfim, temos mais uma reveladora imagem do Salvador, na qual a mística segue sendo a tônica, mas Ele próprio deixa bem claro que detém total poder sobre a Igreja: "Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no Reino e na perseverança em Jesus, fui levado à ilha de Patmos, por causa da Palavra de Deus e do testemunho que eu dava de Jesus. No Dia do Senhor, fui arrebatado pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma forte voz, como de trombeta. Então voltei-me para ver quem estava falando; e ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro. No meio dos candelabros havia alguém semelhante a um Filho do Homem, vestido com uma túnica comprida e com uma faixa de ouro em volta do peito. Tinha Ele cabeça e cabelos brancos como lã cor de neve. Seus olhos eram como chamas de fogo. Seus pés pareciam-se ao bronze fino incandescido na fornalha. Sua voz era como o ruído de muitas águas. Segurava na Mão direita sete estrelas. De Sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes. O Seu rosto assemelhava-se ao sol, quando brilha com toda a força. Ao vê-lo, caí como morto a Seus pés, mas Ele colocou sobre mim Sua Mão direita e disse: 'Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, Aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos. Escreve, pois, o que viste, tanto as coisas atuais como as futuras. Eis o simbolismo das sete estrelas que viste na Minha Mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas.'" Ap 1,9-10.12-20
    E nesse mesmo livro foi-nos revelado a aparência, igualmente transcendental, que Jesus terá no Últimos Dia: "Vi ainda o Céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu Cavaleiro chama-Se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que Ele julga e guerreia. Tem flamejantes olhos. Há em Sua cabeça muitos diademas e traz escrito um Nome que ninguém conhece, senão Ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e Seu Nome é Verbo de Deus. Seguiam-nO em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de fino linho e de uma imaculada brancura. De Sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque Ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!" Ap 19,11-16


IGREJA: SINAL DA REVELAÇÃO E DO MISTÉRIO

    Na Primeira Carta de São Pedro, vemos que os Profetas tentavam entender como se daria a Salvação, através da manifestação do Messias, mas isso não lhes foi concedido. Até mesmo os anjos tiveram que aguardar Sua Revelação para compreendê-La: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu. Revelações estas, que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,10-12
    São Paulo, na Carta aos Efésios, vai reafirmar que as 'riquezas de Cristo' estão muito além dos nossos conhecimentos, e diz que os anjos precisam contemplar Sua principal obra, a Igreja, para melhor entender os planos de Deus: "A mim, o mais insignificante dentre todos os Santos, coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o salvador desígnio de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou. Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da Divina Sabedoria, de acordo com o eterno desígnio que Deus realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,8-11
    Sustenta ainda que só podemos fazer parte do Corpo Místico de Cristo, ou seja, da Igreja, se conduzidos pelo Espírito Santo, pois só a ela foi revelada, e também pelo Espírito, a Doutrina da Salvação: "É em Cristo que também vós entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus. Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus Santos Apóstolos e Profetas." Ef 2,22; 3,3-5
    E arremata: "Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,32


AMOR, PAZ E CONSOLAÇÃO QUE EXCEDEM TODO ENTENDIMENTO

    Na Carta aos Romanos, ele assentou que, se estivermos dispostos a cumprir Seu projeto, Cristo já pode ser conhecido, embora, como visto acima, conforme seja de Seus desígnios revelar-Se: "Àquele que é poderoso para confirmar-vos, segundo meu Evangelho, na pregação de Jesus Cristo - conforme a revelação do mistério guardado em segredo durante séculos, mas agora manifestado por ordem do Eterno Deus e, por meio proféticas das Escrituras, dado a conhecer a todas as nações, a fim de levá-las à obediência da ..." Rm 16,25-26
    Isso significa que continuamos carentes dos auxílios de Seu Espírito para perceber sempre mais a Revelação, como ele ensina aos coríntios: "Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Ele predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito tudo penetra, mesmo as profundezas de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou, e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,7.10.13-14
    Pois só o conhecimento de Cristo nos leva à plena reconciliação entre os Céus e a Terra, e assim nosso mais imediato retorno ao Paraíso: "Ele manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade, que em Sua benevolência formara desde sempre, para realizá-lo na plenitude dos tempos - desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra." Ef 1,9-10
    Desde a manifestação de Jesus, portanto, sabemos que, pela presença de Seu Espírito, Deus jamais nos abandona: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    E que, pelos ensinamentos de Seu Filho, temos a certeza do Caminho da Salvação: "Porque n'Ele se revela a justiça de Deus..." Rm 1,17
    Jesus mesmo assegurou a integridade do Evangelho aos Apóstolos: "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz Seu Senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." Jo 15,15
    Foi mais longe: "A Palavra que tendes ouvido não é Minha, mas sim do Pai que Me enviou." Jo 14,24b
    Como Verbo de Deus, Ele explicou: "Em verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo Me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar." Jo 12,49
    Eis porque dizia São João Evangelista: "E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós, e vimos Sua Glória, a Glória que o único Filho recebe do Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,14
    E no amor ao Pai é-nos dado trabalhar na construção do Reino dos Céus: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus..." Rm 8,28a
    Tal constatação vem da Paz que Jesus nos concede, que é radicalmente diferente da paz que se pode obter pelas coisas do mundo. Ele disse: "Deixo-vos a Paz, dou-vos a Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    E essa Paz, que sabemos ser indizível, também é um mistério: "E a Paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,17
    Assim, ao contemplar o Cristo crucificado temos a certeza de estar diante do amor maior, muito além de tudo o que podemos conhecer. São Paulo diz: "O amor de Cristo constrange-nos..." 2 Cor 5,1a
    E acaba por exaltar "... a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento..." Ef 3,19
    N'Ele temos uma inquebrantável consolação: "Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, Nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação..." 2 Ts 2,16
    Pois, diante das injustiças, é Ele mesmo que nos conforta: "... Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações..." 2 Cor 1,3-4
    Por isso, São Paulo alegra-se e exulta com o triunfante projeto de Deus na Pessoa de Jesus: "Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,16
    Santa Teresinha do Menino Jesus, Doutora da Igreja, dizia sobre a Boa Nova de Cristo: "É acima de tudo o Evangelho que me ocupa durante minhas orações; nele encontro tudo o que é necessário para minha pobre alma. Descubro nele sempre novas luzes, sentidos escondidos e misteriosos."

    "Anunciamos, Senhor, a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!"