quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Santo André Apóstolo


    O irmão de São Pedro é considerado o 'protocletos', que em grego significa 'primeiro convocado'. Religioso e sensível, já era discípulo de São João Batista quando Jesus Se apresentou para ser batizado.
    É também o primeiro a reconhecer e a anunciar Jesus como o Messias, além de convocar um novo discípulo, o próprio São Pedro. São João Evangelista narrou esse episódio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois de seus discípulos. E avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e ficaram com Ele aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Foi Ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).'" Jo 1,35-42
    Por essa frase, vemos que Jesus demonstra conhecer São Pedro e também seu pai, portanto, pai também de Santo André. Um sinal de clarevidência? Como São Filipe, eles eram de Betsaida, nome que significa 'casa da pesca', lugar próximo a Cafarnaum e ao Mar da Galileia: "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Sabemos que, junto ao irmão, Santo André fazia parte de uma colônia de pescadores, mas, após retirar-Se para o deserto por 40 dias, Jesus retornou e convidou-os para que pescassem almas: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo!' Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: 'Vinde após Mim, e vos farei pescadores de homens.' Na mesma hora abandonaram suas redes e seguiram-nO." Mt 4,17-20
    Santo André era solteiro e morava com São Pedro, cuja casa teria sido dote de casamento, pois morava com a sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e sem tardar Lhe falaram a respeito dela. Aproximando-Se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21.29-31
    Na lista dos Apóstolos, Santo André aparece em segundo lugar nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, atrás apenas do irmão, o Príncipe dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,12-16
    Ou na quarta posição em São Marcos e nos Atos dos Apóstolos, dando lugar a São Tiago Maior e São João, os três mais íntimos de Jesus, ou seja, sempre entre os quatro do primeiro dos três grupos: "Designou Doze dentre eles para ficar em Sua companhia. Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios. Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelador; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 2,14-19
    No dia em que multiplicou pães e peixes, Jesus provocou São Filipe, mas foi Santo André quem dispôs do que os Apóstolos tinham para que o milagre da 'partilha' acontecesse: "Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com Ele e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Um dos Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 'Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente?'" Jo 6,3-9
    E é através de Santo André que São Filipe leva um recado a Jesus, quando Nosso Salvador percebe que Seu Nome já havia chegado a países vizinhos, e por isso anuncia a chegada de Sua hora: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade digo-vos: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por essas passagens e pela seguinte, notamos que Santo André fazia parte de um grupo mais íntimo de Cristo, ainda que não tão íntimo como eram São Pedro, São Tiago Maior e São João: "Saindo Jesus do Templo, disse-Lhe um dos Seus discípulos: 'Mestre, olha que pedras e que construções!' Jesus replicou-lhe: 'Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.' E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por qual sinal se saberá que tudo isso vai realizar-se?' Jesus pôs-Se então a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.'" Mc 13,1-7.32
    No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo André só é mencionado na lista dos Onze, e nos dias que antecede ao Pentecostes, o que indica sua intensa atividade fora de Jerusalém desde os primeiros anos da Igreja, como sustenta a Sagrada Tradição: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago." Ap 1,13
    Segundo Santo Hipólito, após a Ascensão de Jesus, Santo André pregou na Trácia, hoje uma região da Bulgária. O livro apócrifo 'Atos de André' aponta-o como o fundador da igreja de Bizâncio, que no século IV iria ser chamada de Constantinopla. Este fato teria acontecido no ano de 38. Estácio teria sido ordenado bispo por ele, e substituiu-o após sua partida em peregrinação. Ainda hoje ele é reconhecido como o Padroeiro de Istambul, atual nome da cidade, a mais importante da Turquia.
    Baseando-se em Orígenes, Eusébio de Cesareia diz que Santo André teria pregado na Ásia Menor, atual Turquia, especificamente na região da Cítia, que fica na costa do Mar Negro, peregrinado por algumas cidades ao longo do Rio Volga, e por isso é também o Padroeiro da Rússia, além de evangelizado Kiev, na atual Ucrânia. É Padroeiro igualmente da Romênia, onde também exerceu seu apostolado. Parece mesmo ter tomado todo o entorno do Mar Negro como área de atuação.
    De volta a Grécia, radicou-se em Patras, na região da Acaia, terras do sudeste, onde fundou a igreja local que viria a ser modelo para todas as demais. Por sua incendiária fama, pois realizava milagres e convertia a muitos, o governador e juiz romano Egéas quis impor-lhe sua autoridade, mas nosso Apóstolo recusou-a e recomendou-lhe que ele é deveria submeter-se à autoridade de Cristo. E disse-lhe ainda que, pela patente impostura de muitos sacerdotes e pelos maus costumes do povo, os deuses pagãos tronaram-se anteparos de demônios, que seduziam, enganavam e molestavam a todos.
    Foi a gota d'água. Enfurecido, Egéas ordenou que ele fosse crucificado. Porém, todos ficaram espantados quando ele recebeu sua condenação com insuspeita alegria. Numa atitude que vai lembrar a de São Pedro, embora tenha sido crucificado antes dele, Santo André pediu-lhe apenas que fosse crucificado numa cruz diferente da de Jesus, porque não era digno de morrer como Seu Mestre.


    Por dois dias ficou dependurado numa cruz em forma de X, e antes de morrer, por não ser assistidos por nenhum cristão, indicou onde estavam e doou todos seus pertences aos carrascos, que estavam visivelmente constrangidos em cumprir aquela ordem. Sua santidade, assim como seu especial carisma, de expressiva amabilidade, já eram amplamente reconhecidos. Não demonstrava vacilação alguma quanto à Divina Providência ou à Vida Eterna.
    Seus restos mortais ficaram em Patras até 357, quando Constantino os levou a Constantinopla. Na Quarta Cruzada, no início do século XII, os cruzados levaram-nos a Roma, por temerem as profanações dos invasores turcos, seguidores do islamismo.
    Conforme a Tradição, ao serem levadas a Europa pelos cruzados, suas relíquias estiveram primeiro na Escócia, onde ficou por bom tempo numa cidade que passou a levar seu nome, Saint Andrews, e por isso a bandeira deste país traz sua cruz.


    Após a união entre a Escócia e a Inglaterra, cuja bandeira já ostentava a Cruz de Cristo, a do Reino Unido incorporou a cruz de Santo André.


    Em 1964, o Papa Beato Paulo VI devolveu suas relíquias a Patras, quando já eram apenas os ossos de um dedo, parte do crânio e pedaços de sua cruz.


    Santo André, rogai por nós!

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Entre o Céu e a Terra


    Por causa do pecado, vacilar na é característico da natureza humana, mas é igualmente característico que ao longo da vida cresçamos em maturidade espiritual e fidelidade a Deus.
    Seguidores muito próximos de Jesus, mesmo vendo Seus milagres e presenciando o cumprimento das profecias, também vacilaram. Uma clássica constatação deste fato está no episódio dos discípulos que abandonaram os Apóstolos e partiram para Emaús, no Domingo da Ressurreição, mesmo após três anos e meio de convivência com Nosso Salvador: "Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto conversavam e discorriam entre si, o próprio Jesus aproximou-Se e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não O reconheceram. Perguntou-lhes, então: 'De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?' Um deles, chamado Cléofas, respondeu-Lhe: 'És Tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias?' Perguntou-lhes Ele: 'Que foi?' Disseram: 'A respeito de Jesus de Nazaré... Era um poderoso Profeta em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Nossos sumos sacerdotes e nossos magistrados entregaram-nO para ser condenado à morte e crucificaram-nO. Nós esperávamos que fosse Ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. É verdade que algumas mulheres dentre nós nos surpreenderam. Elas foram ao Sepulcro, antes do nascer do sol; e não tendo achado o Seu Corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que Ele está vivo. Alguns dos nossos foram ao Sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a Ele mesmo não viram.' Disse-lhes Jesus: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os Profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?' E começando por Moisés, percorrendo todos os Profetas, explicava-lhes o que d'Ele se achava dito em todas as Escrituras." Lc 24,13-27
    Por hesitação Jesus repreendeu também a São Pedro, justamente a quem iria prometer a chave do Reino dos Céus. Foi quando o pescador pediu para andar com o Senhor sobre as águas: "Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles caminhando sobre o mar. Quando os discípulos O perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo: 'É um fantasma!' disseram eles, soltando gritos de terror. Mas Jesus logo lhes disse: 'Tranquilizai-vos, sou Eu. Não tenhais medo!' Pedro tomou a palavra e falou: 'Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!' Ele disse-lhe: 'Vem!' Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: 'Senhor, salva-me!' No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: 'Homem de pouca fé, por que duvidaste?'" Mt 14,25-31
    A verdade é que o materialismo e racionalismo, nos quais facilmente nos deixamos enredar, são uma grande fábrica de céticos aos sinais de Deus. E esses cacoetes da percepção não são nada recentes: assim como os discípulos de Emaús, os demais Apóstolos, à exceção de São Pedro que já O havia visto, também duvidaram mesmo tendo diante de si o Cristo ressuscitado: "Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: 'A Paz esteja convosco!' Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas Ele lhes disse: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede Minhas mãos e Meus pés, sou Eu mesmo! Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho!' E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas vacilando eles ainda, e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então ofereceram-Lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,36-43
    São Marcos relata a mesma cena da primeira aparição conjunta aos Apóstolos, ressaltando a repreensão que Ele lhes faz por não terem acreditado em Santa Maria Madalena, em São Pedro e nos discípulos que estavam a caminho de Emaús: "Por fim apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem nos que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    São Mateus descreve idêntica hesitação entre alguns dos demais seguidores, mais de 500 segundo São Paulo (cf. 1 Cor 15,6), quando guiados pelos Apóstolos viram a aparição que se deu numa montanha da Galileia. Aí Jesus desfez-lhes as dúvidas proclamando Seu absoluto poder: "Os Onze discípulos foram para a Galileia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. Quando O viram, adoraram-nO; entretanto, alguns ainda hesitavam. Mas Jesus, aproximando-Se, disse-lhes: 'Toda autoridade foi-Me dada no Céu e na terra.'" Mt 28,16-18
    Também São Tomé, que não estava presente na primeira aparição aos 10 Apóstolos, quando ainda estavam em Jerusalém, recebeu a devida correção por sua impertinente teimosia: "Oito dias depois, estavam Seus discípulos outra vez no mesmo lugar e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!' Depois disse a Tomé: 'Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão no Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé.' Respondeu-Lhe Tomé: 'Meu Senhor e Meu Deus!' Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!'" Jo 20,26-27
    Todas essas situações, exceto a de São Pedro, longe de apenas demonstrar as incertezas dos Apóstolos, discípulos e seguidores, revelam quão verdadeiros foram os fatos acerca da Ressurreição. Eles vivenciaram, sem dúvida, uma realidade absolutamente desconcertante, a qual reagiram do modo ordinário, porém natural e espontâneo. Não fosse a mais pura Verdade, eles não a relatariam, pois em essência denuncia suas fraquezas, atesta contra suas condutas de fiéis seguidores. Ou seja, a incredulidade que não tiveram vergonha de registrar é um forte testemunho a favor da veracidade da Ressurreição de Cristo. É isso que São João Evangelista tenta comunicar, usando palavras que ele bem sabe que não comportam o que quer expressar: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida - porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou -, o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais Comunhão conosco." 1 Jo 1,1-3
    Como grande mestre, São Paulo, que inicialmente também não acreditou no Cristo e até combateu a Igreja, reconhece nossas inconstâncias na caminhada até Deus. Ele escreveu ao romanos: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que queria, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na Lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a Lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?..." Rm 7,18-24
    Mas também lembra que nossos esforços contam com os prestimosos auxílios do Espírito de Deus: "Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis." Rm 8,25-26
    Por isso, ao invés de alardear virtudes, ele preferia confessar suas faltas, pois já sabia que na verdadeira humildade é que encontramos fortaleza: "Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,7-10


CRESCER NO CONHECIMENTO DE DEUS

    O Príncipe dos Apóstolos, que arrebatadamente amadureceu para a santidade, é bem específico ao dizer como recebemos as divinas unções: "... Graça e Paz sejam-vos dadas em abundância por um profundo conhecimento de Deus e de Jesus, Nosso Senhor!" 2 Pd 1,2
    Fidelíssimo pastor, ele não deixa de advertir a respeito dos deturpadores das Escrituras, que acintosamente pervertem a Sã Doutrina, pois seu desejo é que também cheguemos ao verdadeiro conhecimento de Cristo: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes ímpios homens. Mas crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele a Glória agora e eternamente." 2 Pd 3,17-18
    São Tiago Menor, por sua vez, diz que a vitória frente às tentações se dá pela paciência embasada na Sabedoria, mas desde que nos proponhamos tenazmente a resistir ao Mal: "Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações, sabendo que a prova da vossa fé produz a paciência. Mas é preciso que a paciência efetue a sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma. Se alguém de vós necessita de Sabedoria, peça-a a Deus - que a todos dá liberalmente, com simplicidade e sem recriminação - e ser-lhe-á dada. Mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação, porque o homem que vacila assemelha-se à onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro. Não pense, portanto, tal homem que alcançará alguma coisa do Senhor, pois é um homem irresoluto, inconstante em todo seu proceder." Tg 1,2-8
    Diante da Revelação de Deus, portanto, o sensato ser humano só poderia reagir buscando conhecê-la. Por isso São Paulo enfrentava qualquer dificuldade pensando na promoção do crescimento espiritual do fiéis, que devem ter o Cristo como modelo. Ele escreveu aos efésios: "Por isso rogo-vos que não desfaleçais nas minhas tribulações que sofro por vós: elas são vossa Glória. Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra, para que vos conceda, segundo Seu glorioso tesouro, que sejais poderosamente robustecidos pelo Seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus." Ef 3,13-19
    Pedia empenho aos romanos, e compreensão como os mais fracos na fé: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito. Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior do que convém, mas um conceito razoavelmente modesto, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,2-3
    Cabe a nós, então, demonstrando verdadeiro amor a Deus, vencer a incredulidade adquirindo maior conhecimento de Cristo. Ele diz aos colossenses: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    E falando da esperança, da herança e do poder de Deus, através dos quais somos capacitados para afastar qualquer hesitação, ele rezava: "Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, que vos dê um espírito de Sabedoria que vos revele o conhecimento d'Ele; que ilumine os olhos do vosso coração para que compreendais a que esperança fostes chamados, quão rica e gloriosa é a herança que Ele reserva aos Santos, e qual a suprema grandeza de Seu poder para conosco, que abraçamos a fé." Ef 1,17-19
    Pois é o aperfeiçoamento do ser humano, demonstrado por Jesus através da solidez da fé e da efetiva caridade, que promove a construção da Igreja, que é Seu Corpo Místico: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas, pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos os sentidos naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando sua plena edificação na caridade." Ef 4,11-16
    Ora, São Paulo dizia aos filipenses que conhecer a Cristo é tudo que realmente importa: "Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor. Por Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo..." Fl 3,8
    Ele demonstra humildade, apesar das grandiosas Graças que recebeu, e prega perseverança: "Anseio pelo conhecimento de Cristo, pelo conhecimento do poder da Sua Ressurreição através da participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei esta meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo rumo ao prêmio celeste ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisto nosso afeto; e se tendes outro sentir, sobre isto Deus há de esclarecer-vos. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir decididamente." Fl 3,10-16
    De fato, não buscava nenhum médio estágio, como exorta os tessalonicenses: "No mais, irmãos, aprendestes de nós a maneira como deveis proceder para agradar a Deus - e já o fazeis. Rogamo-vos, pois, e exortamos-vos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é a vontade de Deus: vossa santificação..." 1 Ts 4,1-3b
    Foi o que determinou o próprio Jesus, durante o Sermão da Montanha: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    E São Paulo só poderia desejar o mesmo conhecimento aos colossenses: "Por isso, também nós... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita sabedoria e profundidade espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus." Cl 1,9-10
    Plenamente inspirado, ele vê no conhecimento do Cristo a restauração da imagem de Deus que a humanidade perdeu: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Foi também o que disse a São Timóteo, pois a Deus só agradamos quando vivemos a verdadeira piedade: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,1-4
    E mais uma vez, em outra carta, ele voltou a falar no conhecimento da Verdade: "É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade..." 2 Tm 2,25
    Os seguidores de sua tradição, porém, lamentavam-se de gente de dentro da própria Igreja: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada a vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus. E vos tornastes tais, que precisais de leite em vez de alimento sólido! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma doutrina profunda, porque é ainda criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    Aliás, esse era um argumento do próprio São Paulo, denunciando invejas e intrigas: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3

OS QUE RENEGAM A FÉ

    Porém, entre vacilar ocasionalmente na fé e buscar com empenho o conhecimento de Deus, pedindo-Lhe fé e Sabedoria, há muitos que optam por renegar a Deus. Mas pela simples contemplação da natureza, segundo São Paulo, eles não têm desculpa: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, o Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência por Suas obras; de modo que não se podem escusar." Rm 1,19-20
    E os que abraçam a depravação, ainda segundo sua carta aos romanos, já estão pagando por sua má vontade: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos depravados sentimentos, e daí seu procedimento indigno." Rm 1,28
    Por fim, ele acusa também e diretamente o Maligno, sedutor dos incrédulos: "Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    No entanto, deixa bem claro qual o poder da Palavra de Deus: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-o à obediência a Cristo." 2 Cor 10,4-5
    Pelo poder de Seu Magistério, a Igreja ensina no Catecismo: "A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas, mas "a certeza dada pela Divina Luz é maior que a que é dada pela luz da razão natural." [São Tomás de Aquino] CIC 157
    Diz ainda: "O primeiro mandamento manda-nos alimentar e guardar com prudência e vigilância nossa fé e rejeitar tudo o que se lhe opõe. Há diversas maneiras de pecar contra a fé:
    A dúvida voluntária sobre a fé negligencia ou recusa ter como verdadeiro o que Deus revelou, e que a Igreja propõe para crer. A dúvida involuntária designa a hesitação em crer, a dificuldade de superar as objeções ligadas à fé ou, ainda, a ansiedade suscitada pela obscuridade da fé. Se for deliberadamente cultivada, a dúvida pode levar à cegueira do espírito.
    A incredulidade é a negligência da verdade revelada ou a recusa voluntária de lhe dar o próprio assentimento. 'Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dessa verdade; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.'" CIC 2088-2089

    "A todos dai a Luz que não se apaga!"

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um Retrato de São Paulo


    Foi na carta escrita à comunidade de Filipos, que ficava na Grécia mas à época sob domínio dos macedônios, a primeira cidade da Europa a receber o Evangelho, que São Paulo nos deixou um belo retrato de sua santidade. Não se sabe ai certo onde estava quando a escreveu: pode ter sido em Éfeso ou em Roma. E por isso não se pode afirmar se vivia seus últimos dias antes do martírio. Mas é bem provável que sim, e portanto estaria em Roma, pois além de exalar avançada espiritualidade ele menciona o que é considerado o primeiro registro da hierarquia da Igreja, já se consolidando após as primeiras décadas. Ele diz na saudação: "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Jesus Cristo, que se acham em Filipos, juntamente com os epíscopos e diáconos..." Fl l,1
    Outra frase, ao final da carta, também leva a essa hipótese: "Todos os santos vos saúdam, especialmente os da casa de César." Fl 4,22
    Ou ainda por citar o pretório, que era o tribunal romano, deixando claro que ele estava preso: "Em todo o pretório e por toda parte tornou-se conhecido que é por causa de Cristo que estou preso." Fl 1,13
    Mas o que mais chama atenção é que nosso Santo não está triste nem contrariado. Pelo contrário, esta é a carta em que mais fala em alegria. Mais vezes até que na Segunda aos Coríntios, que, aliás, é bem mais extensa. Ainda nos primeiros versículos, ele inscreve: "Em todas as minhas orações, rezo sempre com alegria por todos vós, recordando-me da cooperação que haveis dado na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora." Fl 1,4-5
    No último capítulo, tornar a exortar com insistência: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!" Fl 4,4
    E, estejamos certos, ele não falava de alegria por vão entusiasmo, pois já estamos diante de um Paulo preparado, que profetiza o próprio martírio: "Meu ardente desejo e minha esperança são que em nada serei confundido, mas que, hoje como sempre, Cristo será glorificado no meu corpo (tenho toda a certeza disto), quer pela minha vida quer pela minha morte. Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro." Fl 1,20-21
    Mostra-se, no entanto, preocupado com o projeto da Salvação: "Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor; mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,23-24
    Pede então pela união entre os discípulos e pela unidade da Igreja, pois sabia que esse era o mais brilhante sinal que os seguidores do Nazareno poderiam dar: "Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela do Evangelho..." Fl 1,27
    Na verdade, ele tão somente lembrava uma condição que Jesus havia fixado: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    E em tocante modéstia, implorava por essa unidade em nome da Comunhão que com eles teria, como uma consolação pelas tribulações que passava: "Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos." Fl 2,1-3
    Alertava-os, ademais, do caminho da Cruz: "... porque a vós vos é dado não somente crer em Cristo, mas ainda por Ele sofrer." Fl 1,29
    E assim pedia: "Sustentais o mesmo combate que me tendes visto travar, e no qual sabeis que eu continuo agora." Fl 1,30
    Por ter entendido perfeitamente, e na própria carne, a mensagem de Jesus, ele aproveita para pregar humildade e obediência. Eis uma parte do conhecido 'Hino Cristológico': "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    E conclui: "E toda língua confesse, para a Glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor." Fl 2,11
    Havendo-se entregue por completo nas mãos de Deus, não tinha nenhuma dúvida de como se dava a Graça da santificação: "Estou persuadido de que Aquele, que em vós iniciou esta excelente obra, dar-lhe-á o acabamento até o Dia de Jesus Cristo. Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem em vós realiza o querer e o executar." Fl 1,6;2,13
    Por isso recomendava: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-15
    Prometia-lhes seu mais íntimo colaborador: "Espero no Senhor Jesus enviar-vos dentro em breve Timóteo, para que me traga notícias vossas e eu me sinta reconfortado. Pois não há ninguém como ele, tão unido em sentimento comigo, que com tão sincera afeição se interesse por vós." Fl 2,19-20
    Atesta o imprescindível feito do Pentecostes para a Salvação: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    De expressiva maturidade, era um Paulo que de nada se orgulhava, mas com grande amor guardava o maior tesouro que Deus já concedeu a humanidade: a Revelação do Mistério de Cristo: "Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, Meu Senhor." Fl 3,8
    E apenas nesse sentido perseverava: "Anseio pelo conhecimento de Cristo, e pelo poder da Sua Ressurreição através da participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Pois apesar de todas as Graças que alcançou, e não foram poucas, ele ainda não se considerava digno da Vida Eterna: "Não pretendo dizer que já alcancei a Ressurreição, e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la..." Fl 3,12
    Voltou a falar do corpo incorruptível, quando menciona a verdadeira família que se forma em torno do Pai, em oposição aos inimigos da Cruz: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao Seu corpo glorioso..." Fl 3,20-21
    Tinha plena certeza dos auxílios de Deus: "Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças." Fl 4,6
    Demonstra conhecer plenamente a Paz que Jesus nos deixou: "E a Paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,7
    E docemente sustenta o desapego material e a resignação: "Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas as vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade." Fl 4,12


    Usou realmente de larga afeição para com os filipenses: "Portanto, meus muito amados e saudosos irmãos, alegria e coroa minha, continuai assim firmes no Senhor, caríssimos." Fl 4,1
    Deixou uma frase que, como afirmação da , é repetida em todo o mundo: "Tudo posso n'Aquele que me fortalece." Fl 4,13
    E se eles seriam um povo especial para São Paulo, o Apóstolo dos não judeus, é bom lembrar que ele não foi a essa cidade por acaso, mas chamado por Deus, numa visão que teve do príncipe daquele nação como narrou São Lucas, que nessa ocasião foi seu companheiro e colaborador: "De noite, Paulo teve uma visão: um macedônio, em pé, diante dele, rogava-lhe: 'Passa à Macedônia, e vem em nosso auxílio!' Assim que teve essa visão, procuramos partir para a Macedônia, certos de que Deus nos chamava a pregar-lhes o Evangelho. Embarcados em Trôade, fomos diretamente à Samotrácia e no outro dia a Neápolis; e dali a Filipos, que é a cidade principal daquele distrito da Macedônia, uma colônia romana." At 16,9-12a
    À sua chegada, aí sequer havia uma sinagoga: "No sábado, saímos fora da porta para junto do rio, onde pensávamos haver lugar de oração. Aí nos assentamos e falávamos às mulheres que se haviam reunido." Ap 16,13
    Isso se deu pouco depois do Concílio de Jerusalém, e ele já se fazia acompanhar de outro ilustre cristão: São Timóteo: "Chegou a Derbe e depois a Listra. Havia ali um discípulo, chamado Timóteo, filho de uma judia cristã, mas de pai grego, que gozava de ótima reputação junto dos irmãos de Listra e de Icônio. Paulo quis que ele fosse em sua companhia." At 16,1-3
    E ao lado de São Silvano exorcizou uma vidente local, quando acabaram acoitados e presos: "Certo dia, quando íamos à oração, eis que nos veio ao encontro uma moça escrava que tinha o espírito de Pitão, a qual com suas adivinhações dava muito lucro a seus senhores. Pondo-se a seguir a Paulo e a nós, gritava: 'Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da Salvação.' Repetiu isto por muitos dias. Por fim, Paulo enfadou-se. Voltou-se para ela e disse ao espírito: 'Ordeno-te em Nome de Jesus Cristo que saias dela.' E na mesma hora ele saiu. Vendo seus amos que se lhes esvaecera a esperança do lucro, pegaram Paulo e Silas e levaram-nos ao foro, à presença das autoridades. Em seguida, apresentaram-nos aos magistrados, acusando: 'Estes homens são judeus; amotinam nossa cidade. E pregam um modo de vida que nós, romanos, não podemos admitir nem seguir.' O povo insurgiu-se contra eles. Os magistrados mandaram arrancar-lhes as vestes para açoitá-los com varas. Depois de terem-lhes feito muitas chagas, meteram-nos na prisão, mandando ao carcereiro que os guardasse com segurança." Ap 16,16-23
    São Paulo bem recorda estes tempos, agradecendo pelas ofertas feitas em nome de sua missão: "Vós que sois de Filipos, bem sabeis como, no início do meu ministério evangélico, quando parti da Macedônia, nenhuma comunidade abriu comigo contas de dar e receber, senão vós somente. Já em Tessalônica, por duas vezes mandastes o que me era necessário. Recebi tudo, e em abundância. Estou bem provido depois que recebi de Epafrodito a vossa oferta: foi um suave perfume, um sacrifício que Deus aceita com agrado." Fl 4,15-16.18

    São Paulo, rogai por nós!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A Aparição de Paris


    Em Paris, uma noviça da Companhia Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, foi despertada na noite da festa deste Santo, em 19 de Julho de 1830, por uma voz infantil que lhe chamava à capela do convento, pois lá Nossa Senhora estava à sua espera. A princípio, ela teve medo de desobedecer as regras de sua congregação, mas a voz garantiu-lhe que estavam todas dormindo.
    Ela acreditou porque, enquanto comemoravam o dia de São Vicente, havia poucas horas, a Madre Superiora pregou sobre sua vida e distribuiu a cada uma delas um pequeno pedaço do sobrepeliz que ele usava. Santa Catarina Labouré recebeu seu fragmento com muita devoção e logo pediu a intercessão deste Santo para que pudesse ver Nossa Senhora, pois esta sempre foi a maior vontade de toda sua vida. E ao fazer essa oração teve a nítida sensação de que seu desejo se realizaria naquela noite.
    Embalada por essa mesma sensação, ela foi à capela, que inexplicavelmente encontrou aberta e iluminada. Ao ajoelhar-se junto ao Altar, viu Nossa Senhora envolta em Luz, sentada na cadeira da Madre Superiora. Uma voz disse-lhe: "A Santíssima Maria deseja falar-te." Ela aproximou-se, ajoelhou-se aos seus pés e colocou as mãos em seu colo. Disse-lhe então a Mãe do Céu: "Deus deseja encarregar-te de uma missão. Tu encontrarás oposição, mas não temas: terás a Graça de poder fazer todo o necessário. Conta tudo a teu confessor. Os tempos estão difíceis para a França e para o mundo. Vai ao pé do Altar. Graças serão derramadas sobre todos, grandes e pequenos, e especialmente sobre os que as buscarem. Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos estarão sempre sobre ti. Haverá muitas perseguições, a Cruz será tratada com desprezo, será derrubada e o sangue correrá."
    Santa Catarina não comentou com ninguém sobre essa aparição até o dia 27 de novembro do mesmo ano, quando foi à capela para as orações de vésperas e mais uma vez viu Nossa Senhora sobre o Altar, tal qual a imagem acima, tendo num arco sobre si a luminosa frase: "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós." Foi quando ela lhe deu essas instruções: "Faz cunhar uma medalha onde apareça minha imagem como a vês agora. Todos os que a usarem receberão grandes Graças." Depois, voltando-lhe as costas, fez com que ela visse como seria o desenho no verso da medalha, hoje mundialmente conhecida.


    Era o M de Maria, a Cruz sobre o Monte Calvário, 12 estrelas que simbolizam as tribos de Israel e os Apóstolos, o Sagrado Coração de Jesus cercado de espinhos, por cuja devoção o Senhor prometeu a Graça da Vida Eterna a Santa Margarida Maria Alacoque em 1675, e, ao lado, o Imaculado Coração de Maria traspassado pela espada como havia previsto o profeta Simeão no Templo de Jerusalém, quando da Apresentação do Menino Jesus.
    Sem saber como poderia realizar tal tarefa, Santa Catarina questionou Nossa Senhora, que simplesmente mandou procurar seu confessor, o padre Jean Marie Aladel. De fato, ele escutou com carinho todos esses relatos, mas pediu que Santa Catarina guardasse tudo em silêncio.
    Só dois anos depois, após examinar com cuidado o comportamento daquela humilde freira, ele foi ao Arcebispo de Paris, Dom Quelen, que autorizou a cunhagem inicial de 2 mil medalhas, realizada em 20 de junho de 1832. Em paralelo, este bispo instaurou um inquérito para acompanhar os resultados obtidos pelos fiéis que a usavam, e sua conclusão foi essa: "A rápida propagação, o grande número de medalhas cunhadas e distribuídas, os admiráveis benefícios e singulares Graças obtidos parecem sinais do Céu que confirmam a realidade das aparições, a verdade das narrativas da vidente e a difusão da Medalha."
    Os dizeres na medalha, '... concebida sem pecado...', confirmavam uma devoção que já existia havia muito tempo. Com efeito, desde 1476, o Papa Sisto IV tinha declarado o dia 8 de dezembro como festa universal da Imaculada Conceição. Entretanto, só na mesma data no ano de 1854, ou seja, mais de 20 anos depois da aparição a Santa Catarina, o Papa Pio IX declarou solenemente esse Dogma de , em sua bula 'Ineffabilis Deus'.
    A origem dessa fé, no entanto, remonta os tempos da tradição registrada no Evangelho de São Lucas, que atesta a saudação do Arcanjo São Gabriel à Nossa Senhora: "Ave, agraciada..." Lc 1,28
    O livro de Jó, meditando sobre a concepção do ser humano, deu-nos uma pista sobre a gestação de Jesus, que não poderia nascer de uma mulher impura: "O homem nascido da mulher vive pouco tempo e é cheio de muitas misérias; é como uma flor que germina e logo fenece, uma sombra que foge sem parar. E é sobre ele que abres os olhos, e chama-lo a Juízo Contigo. Quem fará sair o puro do impuro?" Jó 14,1-4
    Isso apenas corrobora o valor que Deus dá à castidade, da qual nasceu Seu Filho segundo uma profecia: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e O chamará Deus Conosco." Is 7,14
    Diz respeito também a Palavra de Deus, no Antigo Testamento, quando Ele disse à Serpente: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela." Gn 3,15
    Realmente, o inimigo vai perseguir Nossa Senhora. Mas tal qual um anjo, que como disse Jesus "não se casarão nem se darão em casamento" (cf. Mc 12,25), ela voou para seu retiro em Éfeso. É quando o maligno passa a perseguir seus filhos, 'sua descendência', vale dizer, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17
    A Sagrada Devoção ao Imaculado Coração de Maria foi confirmada pela própria Santíssima Virgem, na Aparição de Lourdes, em 1858, quando ela se apresentou como a 'Imaculada Conceição' a uma jovem e humilde camponesa, Santa Bernadete de Lourdes, que sequer conhecia esse Dogma. Também na Aparição de Fátima, em 1917, aliás, em conformidade com a Aparição de Quito no remoto ano de 1594, ela prometeu que, após grandes heresias e tribulações, seu Imaculado Coração triunfaria. Por fim, na Aparição de Cimbres ela apresentou-se com o singelo nome de 'a Graça', inequívoca referência ao título de Nossa Senhora da Graça, no singular, como é chamada em Portugal.
    Santa Catarina Labouré faleceu em 1876, aos 70 anos. Em 1933, quando exumado, seu corpo estava intacto como se vê até hoje. Como as relíquias de Santa Luísa de Marilac, que está ao lado esquerdo, ele está exposto ao lado direito do Altar da capela do convento onde se deu a aparição da Santíssima Virgem, que passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.


    Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!

domingo, 26 de novembro de 2017

Cristo Rei


    O Reinado de Cristo já está em vigor e sempre foi uma certeza, embora muitos teimem em não aceitar. De fato, ao ser inquirido por Pilatos, Jesus disse a Verdade: "'Meu Reino não é deste mundo. Se Meu Reino fosse deste mundo, Meus súditos certamente teriam pelejado para que Eu não fosse entregue aos judeus.' Perguntou-Lhe então Pilatos: 'És, portanto, Rei?' Respondeu Jesus: 'Sim, Eu sou Rei. É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve a Minha voz.'" Jo 18,36-37
    E o Arcanjo Gabriel, falando sobre Jesus, havia revelado a Nossa Senhora: "Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus dar-Lhe-á o trono de Seu pai Davi. Reinará eternamente na Casa de Jacó, e Seu Reino não terá fim." Lc 1,32-33
    Esse foi o reconhecimento feito por São Bartolomeu Apóstolo, ao atestar o poder de clarividência de Jesus, logo no primeiro instante em que O encontrou: "Falou-Lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.'" Jo 1,49
    Sua instituição, no entanto, já se havia dado no próprio Céu, feita por Deus Pai, como viu o Profeta Daniel: "Olhando sempre a visão noturna, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14
    O próprio Jesus, aliás, afirmou esta invencibilidade através da Igreja, que é a primeira representação de Seu Reino: "... as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18b
    Pois para absoluta fortaleza de sua coesão, ela está investida da Glória de Deus, da unidade da Santíssima Trindade como Ele rezou ao Pai: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Davi, que também era Profeta, redigiu um Salmo no qual registra essas palavras de Deus, ditas ao Seu Filho amado: "O Senhor disse a Meu Senhor: 'Senta-Te à Minha direita até que Eu ponha Teus inimigos como um banquinho para Teus pés.'" Sl 109,1
    E como portentoso sinal cósmico, sábios reis de nações pagãs, mas igualmente inspirados pelo Espírito Santo, viram e seguiram a Estrela que anunciava a vinda do 'Rei dos judeus': "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: 'Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos Sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo.'" Mt 2,1-2
    Com efeito, a despeito das características imprecisões das profecias, o salmista havia indicado: "Os reis de Társis e das ilhas trá-Lo-ão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-Lhe-ão seus dons. Assim Ele viverá e o ouro da Arábia sê-Lo-á ofertado; por Ele hão de sempre rezar, e perpetuamente bendi-Lo-ão." Sl 71,10.15
    E tal reconhecimento espalhou-se pelo mundo nas pessoas de muitos reis cristãos, vários deles Santos e Santas, como São Luis, Santa Isabel da Hungria, Santa Margarida da Escócia, Santa Isabel de Portugal, o que justifica plenamente Seu título de Rei dos reis: "Todos os reis hão de adorá-Lo, hão de servi-Lo todas as nações." Sl 71,11
    Durante toda a vida pública de Jesus, pois, a figura do Reino de Deus sempre esteve presente em Suas exortações e sermões. Quando Ele começou a pregar, por exemplo, Suas primeiras palavras foram um convite à purificação para que pudéssemos entrar em Seu Reino: "Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus." Mt 3,2
    Mas essa penitência, também chamada de Sacramento de Reconciliação, deve precedida pelo Batismo, para que depois se obtenha a Comunhão e, mais tarde, a Crisma. Sacramentos, aliás, ministrados exclusivamente por Sua Igreja, como Jesus ensinou a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus." Jo 3,5
    E em se tratando de penitência, coerentemente Seu Reino é oferecido aos verdadeiramente humildes: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Assim, como Jesus mesmo nos instou, buscar Seu Reino deve ser nossa meta: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,33
    Porque por Seus milagres Ele deu-nos grandiosas provas do início de Seu Reinado: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Mas não permitiu que as pessoas o confundissem com os reinos desse mundo, como aconteceu após a multiplicação dos pães e peixes: "Jesus, percebendo que queriam arrebatá-Lo e fazê-Lo rei, tornou a retirar-Se sozinho para o monte." Jo 6,15
    E determinou como deve ser a hierarquia da Igreja, parte visível de Seu Reino: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,26-28


IGREJA, O REINO DE SACERDOTES

    Como, no entanto, esse projeto deve ser levado a cabo também pelo ser humano, pois a ele foi prometido, Jesus confiou as chaves a São Pedro: "Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    E por reconhecer nestes sacerdotes a condução do Espírito de Deus, São João Evangelista registrou: "Aceitamos o testemunho dos homens." 1 Jo 5,9a
    Por isso Jesus pede pureza e inocência de criança a todos nós: "Em verdade, declaro-vos: se não vos transformardes e não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança, será maior no Reino dos Céus." Mt 18,3-4
    Os Seus sacerdotes, portanto, devem viver a castidade, como Ele mesmo viveu: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12
    E tal condição é apenas mais um testemunho de fé, antecipando nesse mundo o que haverá de ser nos Céus, como Jesus corrigiu os saduceus: "Respondeu-lhes Jesus: 'Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no Céu.'" Mt 22,29-30
    Não por acaso, Ele criticou severamente a impenitência dos religiosos de Sua época, avisando-os de um mais longo período no Purgatório: "Em verdade, digo-vos: os cobradores de impostos e as meretrizes precedem-vos no Reino de Deus! João veio a vós no Caminho da justiça e não crestes nele. Os cobradores de impostos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele." Mt 21,31-32
    De tão sutil, porém, Seu Reino parece mesmo nem existir. Mas Nosso Senhor assegurou que sua ostensiva instauração será grandiosa: "A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até fazer-se uma grande planta e as aves do céu vieram fazer ninhos nos seus ramos." Mt 13,18-19
    Pela boa vontade de muitos em acolher Sua Palavra, no entanto, Ele também garantiu que Seu Reino faz-se sensivelmente presente entre nós. E quanto à Sua definitiva Volta, deixou claro que será inconfundível: "Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: 'O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.' Mais tarde Ele explicou aos discípulos: 'Virão dias em que desejareis ver um só dia o Filho do Homem, e não O vereis. Então vos dirão: Ei-lo aqui; e: Ei-lo ali. Não deveis sair nem os seguir. Pois como o relâmpago, que reluzindo numa extremidade do céu brilha até a outra, assim será com o Filho do Homem no Seu Dia.'" Lc 17,20-24
    Disse ainda que Seus Apóstolos reinariam com Ele: "Em verdade, declaro-vos: no Dia da Renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no Trono da Glória, vós, que Me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel." Mt 19,28
    E em mais uma bela e cativante imagem, garantiu-nos que Seu Reino é como um grande e festivo banquete: "E vós tendes permanecido comigo nas Minhas provações. Eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como Meu Pai o dispôs a Meu favor, para que comais e bebais à Minha mesa no Meu Reino e senteis-vos em tronos..." Lc 22,28-30
    De fato, foi isso que São João Apóstolo atestou já em avançada idade, rendendo-Lhe graças: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Jesus igualmente prometeu que a Divina Justiça seria feita, e que o Mal seria definitivamente banido: "Quando o Filho do Homem voltar na Sua Glória e todos os anjos com Ele, sentar-Se-á no Seu glorioso trono. Todas as nações reunir-se-ão diante d'Ele e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E estes irão para o eterno castigo, e os justos, para a Vida Eterna." Mt 25,31-32.46
    E se o eterno castigo parece demais violento, lembremos o que Ele havia dito noutra parábola, também sobre o Último Dia: "Quanto aos que Me odeiam, e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os na Minha presença." Lc 19,27
    A subida de Jesus a Jerusalém, por fim, em Sua última Páscoa, aconteceu como previsto pelo Profeta Zacarias, e o povo recebeu-O como um rei: "Trouxeram então o jumentinho até Jesus, puseram seus mantos em cima e Ele montou. Muitos estenderam seus mantos no caminho, enquanto outros espalharam ramos apanhados no campo. Os que iam à frente e os que vinham atrás clamavam: “Hosana! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Bendito o Reino que vai começar, o Reino de Davi, nosso pai! Hosana no mais alto dos Céus!" Mt 11,7-10
    Mas, como sabemos, o ciúme dos sacerdotes judeus levou-O à farsesco julgamento e à Cruz. Antes, porém, Seus executores espancaram-nO e debocharam de Sua Majestade: "Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-nO com todo o pelotão. Arrancaram-Lhe as vestes e colocaram-Lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-Lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio: 'Salve, Rei dos judeus!' Cuspiam-Lhe no rosto e, tomando da vara, davam-Lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem d'Ele, tiraram-Lhe o manto e entregaram-Lhe as vestes. Em seguida, levaram-nO para crucificá-Lo." Mt 27,27-31
    E mesmo detestando a ocupação romana, os religiosos judeus disseram apoiar César, só para crucificá-Lo: "Pilatos disse aos judeus: 'Eis Vosso Rei!' Mas eles clamavam: 'Fora com Ele! Fora com Ele! Crucifica-O!' Pilatos perguntou-lhes: 'Hei de crucificar Vosso Rei?' Os sumos sacerdotes responderam: 'Não temos outro rei senão César!'" Jo 19,14b-15
    

O REINO DOS CÉUS

    E naquela zombaria continuaram os soldados depois de tê-Lo crucificado. Contudo, não foram os únicos, pois todos nós que não buscamos Seu Reino fazemos pouco de Sua Paixão e Sacrifício: "Do mesmo modo zombavam d'Ele os soldados. Aproximavam-se d'Ele, ofereciam-Lhe vinagre e diziam: 'Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo!'" Lc 23,36-37
    Para concluir o espetáculo de crueldades, o governador da Judeia fez-Lhe mais essa humilhação: "Pilatos redigiu também uma inscrição e fixou-a por cima da Cruz. Nela estava escrito: 'Jesus de Nazaré, Rei dos judeus.'" Jo 19,19
    Mas até Seu último suspiro houve gente humilde à Sua volta. Dimas, mesmo sendo um ladrão e passando por momentos de grande dor e agonia, soube perceber a injustiça que estava acontecendo. Tocado pelo Espírito Santo, sensível e arrependido ele reconheceu em Jesus o Salvador: "Jesus, lembra-Te de mim, quando tiveres entrado no Teu Reino!" Lc 23,42
    E seu pedido foi imediatamente concedido: "Em verdade te digo: hoje estarás Comigo no Paraíso." Lc 23,43
    Após Sua Ressurreição, e pouco antes de subir definitivamente aos Céus, os Apóstolos quiseram saber quando Ele iria instaurar materialmente Seu Reino. Mas Jesus ainda teria que enviar o Espírito Santo para que nós assumíssemos a construção Igreja: "'Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino de Israel?' Respondeu-lhes Ele: 'Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em Seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e dar-vos-á força; e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo.'" At 1,6-8
    Os sacerdotes de Cristo, portanto, já estão reinando, pelo serviço de Salvação que nos prestam: "Quando recebeu o livro, os quatro seres e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um uma cítara e taças de ouro cheias de perfume, que são as orações dos Santos. Cantavam um cântico novo, dizendo: 'Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça; e deles fizeste para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a terra.'" Ap 5,8-10
    E os Santos, cujas almas já estão nos Céus, já vivem a Nova Vida e estão reinando com Cristo. São sacerdotes da eternidade, aguardando a Ressurreição da carne como atestou São João Evangelista: "Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles voltaram à vida e reinaram com Cristo por mil anos. Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,6
    São Paulo e São Barnabé, no entanto, bem sabiam que, a exemplo da Cruz, alcançar o Reino da Justiça é uma dolorosa tarefa, dada a oposição do Maligno que a Igreja cotidianamente enfrenta no mundo. Mas, pelo Sacramento da Crisma, recomendavam a todos os fiéis que resistissem: "Confirmavam as almas dos discípulos e exortavam-nos a perseverar na , dizendo que é necessário entrarmos no Reino de Deus por meio de muitas tribulações." At 14,22
    O Apóstolo dos Gentios, portanto, pede-nos um testemunho de vida, que damos através de nossas atitudes: "Porque o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos." 1 Cor 4,20
    E afirma que após o Juízo Final, na Criação do novo Céu e nova Terra, o Reino de Jesus será repassado a Deus Pai: "Depois, virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. E quando tudo Lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem Àquele que Lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,24.28
    Das visões que teve, no Livro do Apocalipse São João Evangelista descreveu assim o trono e o Reino de Deus, que se perfaz na Santíssima Trindade:

    "Imediatamente, fui arrebatado em espírito. No Céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser. E Quem estava sentado assemelhava-Se pelo aspecto a uma pedra de jaspe e de sardônica. Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono.
    Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça. Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete espíritos de Deus.
    Havia ainda diante do trono um mar, límpido como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro seres vivos cheios de olhos na frente e atrás. O primeiro Ser vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo.
    Estes seres tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. Não cessavam de clamar dia e noite:
    - Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, O que é, O que era e O que deve voltar.
    E cada vez que aqueles seres rendiam Glória, honra e ação de Graças Àquele que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro Anciãos inclinavam-se profundamente diante d'Aquele que estava no trono e prostravam-se diante d'Aquele que vive pelos séculos dos séculos, e depunham suas coroas diante do trono, dizendo:
    - Tu és digno Senhor, Nosso Deus, de receber a honra, a Glória e a Majestade, porque criaste todas as coisas, e por Tua vontade é que existem e foram criadas.
    Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos seres e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz:
    - Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.
    Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão... o Cordeiro... é Senhor dos senhores e Rei dos reis.
    Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia:
    - Eis aqui o Tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o Seu povo, e Deus mesmo estará com eles.
    Então Aquele que está assentado no trono disse:
    - Eis que Eu renovo todas as coisas."
                        Ap 4,2-11;5,11-12;7,9;17,14;21,3.5

    "Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre!"