terça-feira, 31 de outubro de 2017

O Ser Humano e a Perfeição


    Seria o perfeccionismo apenas um capricho humano? Ou nossa natureza realmente tende para a excelência do ser? Fazendo lembrar nossa origem e filiação divina, Jesus exortou no Sermão da Montanha: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai Celeste é perfeito." Mt 5,48
    Segundo Ele, o ser humano diminui-se e rejeita sua vocação quando se conforma com qualquer condição que não seja o projeto da Criação, como alegou na discussão sobre o divórcio: "Mas não foi assim desde o princípio..." Mt 19,8b
    Devemos, pois, perceber que nada do que Deus fez é para a degradação, mas para a santificação, como ensinou São Paulo a São Timóteo: "Pois tudo que Deus criou é bom e nada há de reprovável, quando se usa com ação de graças. Porque tudo se torna santificado pela Palavra de Deus e pela oração." 1 Tm 4,4-5
    E sobre o comportamento meramente mundano, ele diz aos romanos: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Porque Deus quer fazer-nos participantes de Sua santidade, e assim da eternidade. É o que dizem os seguidores de sua tradição: "Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-os com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para comunicar-nos Sua santidade." Hb 12,9-10
    São Pedro diz mais: que somos chamados a participar da própria natureza divina: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    Sem dúvida, só os autênticos seguidores de Jesus recebem Sua Glória, que Ele mesmo derramou sobre os Apóstolos, pois ela é o sinal de Sua verdadeira Igreja, preservada na Santa Unidade. Ele rezou ao Pai: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Glória que reflete o amor de Cristo e é a distintiva marca de Seus seguidores, que formam Seu Corpo Místico: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Com efeito, na Carta aos Hebreus lê-se que muitos já usufruíram dos dons divinos: "Porque aqueles que uma vez foram iluminados saborearam o dom celestial, participaram dos dons do Espírito Santo..." Hb 6,4
    E Deus chama todos ao Reino da perfeição, como diz São Paulo aos tessalonicenses: "... nós vos temos exortado, estimulado, conjurado a vos comportardes de maneira digna de Deus, que vos chama ao Seu Reino e à Sua Glória." 1 Ts 2,12
    Por isso ele reza para que, pela Sabedoria, alcancemos à perfeição e assim sejamos consolados, enquanto nessa vida, pelas dádivas celestes. Está na Carta aos Colossenses: "... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e percepção espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, confortados em tudo pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Mais: ele exorta-nos a restaurar nossa divina imagem através da intimidade com Deus: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    São Pedro pregava o mesmo: "... crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." 2 Pd 3,18
    Pois o Cristo é nossa medida, nossa perfeita reconciliação com o Pai, como diz o Santo de Tarso aos efésios: "... até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,13
    E ele realmente não pedia pouco: "Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós entregou-Se a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor." Ef 5,1-2
    Vemos este mesmo clamor na Primeira Carta aos Coríntios: "Tornai-vos meus imitadores, como eu o sou de Cristo." 1 Cor 11,1
    Na Carta aos Filipenses: "Irmãos, sede meus imitadores, e olhai atentamente para os que vivem segundo o exemplo que nós vos damos." Fl 3,17
    E ainda na Primeira Carta aos Tessalonicenses: "E vós fizestes-vos imitadores nossos e do Senhor ao receberdes a Palavra, apesar das muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo, de sorte que vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedônia e da Acaia." 1 Ts 1,6-7
    Seus seguidores, sobre esse tema, parecem aludir aos Apóstolos então já martirizados, atestando, a esse despeito, a perenidade da Palavra de Deus: "Lembrai-vos de vossos guias que vos pregaram a Palavra de Deus. Considerai como souberam encerrar a carreira. E imitai-lhes a fé. Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade." Hb 13,7-8
    De fato, Jesus prometeu-nos que, se O tomarmos por mestre, alcançaremos Sua maturidade: "O discípulo não é superior ao Mestre; mas todo perfeito discípulo será como Seu Mestre." Lc 6,40
    Por isso os Apóstolos O anunciaram, para que cheguemos à Sua estatura: "A Ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo." Cl 1,28
    E é pela obediência à Palavra de Deus que chegamos à santidade, como disse São Paulo: "Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça. Por ela, o homem de Deus torna-se perfeito, capacitado para toda boa obra." 2 Tm 3,16-17
    Assim ele assegura-nos participar da própria Onisciência divina: "Tu, portanto, meu filho, procura progredir na Graça de Jesus Cristo. Nenhum soldado pode implicar-se em negócios da vida civil, se quer agradar Àquele que o alistou. Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras. Antes é preciso que o lavrador trabalhe com afinco, se quer boa colheita. Entende bem o que eu quero dizer. O Senhor há de dar-te inteligência em tudo." 2 Tm 2,1.4-7
    Ele escreveu aos coríntios: "Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para nossa glória. É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito tudo penetra, mesmo as profundezas de Deus. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. 'Quem conheceu o pensamento do Senhor, para poder instruí-lo (Is 40,13)?' Nós, porém, temos o pensamento de Cristo." 1 Cor 2,7.9-10.14-16


A CARIDADE

    E a Sabedoria tem mostrado que a perfeição vem pela prática da caridade, seja material seja espiritual: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Por isso, para que ela esteja em nós de modo cada vez mais viva, rezava São Paulo: "Peço, na minha oração, que a vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e torneis-vos puros e irrepreensíveis para o Dia de Cristo..." Fl 1,9-10
    Pois o verdadeiro amor nos faz iguais a Cristo, como afirma São João Evangelista: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Jesus é, assim também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,17
    Amar com sinceridade, portanto, é guardar a Palavra de Jesus, é viver como Ele viveu: "Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que afirma permanecer n'Ele deve também viver como Ele viveu." 1 Jo 2,5-6
    E o pleno amor é o maior sinal da perfeição: "No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,18
    São Paulo, no mesmo sentido, associa a perfeição à presença de Deus de amor em nós: "Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em Paz, e o Deus de amor e Paz estará convosco." 2 Cor 13,11
    Ele pedia essencialmente amor ao próximo com zelo familiar, mas acompanhado profunda serenidade e profícuo trabalho como sinal para o mundo: "A respeito da fraterna caridade não temos necessidade de escrever-vos, porquanto vós mesmos aprendestes de Deus a amar-vos uns aos outros. E é o que estais praticando para com todos os irmãos em toda a Macedônia. Mas ainda vos rogamos, irmãos, que vos aperfeiçoeis mais e mais. Procurai viver com serenidade, ocupando-vos das vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado. É assim que vivereis honrosamente em presença dos de fora e não sereis pesados a ninguém." 2 Ts 4,9-12
    Sim, pois devemos ser sinal de Salvação para o mundo: "Que o Senhor vos faça crescer e avantajar na caridade mútua e para com todos os homens, como é nosso amor para convosco. Que Ele confirme vossos corações, e torne-os irrepreensíveis e santos na presença de Deus, Nosso Pai..." 1 Ts 3,12-13a
    Pois assim como o Cristo, é nas tribulações do mundo que devemos viver nossa fé: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-16
    Ora, essa é nossa condição de batizados e crismados pelo Divino Paráclito, como ele explicava a São Tito: "Ele (Deus) salvou-nos mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, Nosso Salvador, para que a justificação obtida por Sua Graça nos torne, em esperança, herdeiros da Vida Eterna. Certa é esta Doutrina, e quero que a ensines com constância e firmeza, para que os que abraçaram a fé em Deus se esforcem por se aperfeiçoar na prática do bem. Isto é bom e útil aos homens." Tt 3,5b-8


A SANTIDADE

    A conclusão, portanto, é que o projeto de Deus é levar-nos à perfeição que se encontra na santidade, cujo modelo é Jesus: "Deus salvou-nos e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do Seu desígnio, da Graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus..." 2 Tm 1,9
    Aliás, como nos lembrou Jesus ao citar a Criação, o fato de sermos feitos à imagem e semelhança de Deus já subentende que devamos viver a santidade. São Paulo exorta: "Renunciai à vida passada, despojai-vos do velho homem, corrompido pelas enganadoras concupiscências. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,22-24
    Ele faz esse paralelo entre Adão e Jesus: "O primeiro homem, tirado da terra, é terreno; o Segundo veio do Céu. Qual o homem terreno, tais os homens terrenos; e qual o Homem Celestial, tais os homens celestiais. Assim como reproduzimos em nós as feições do homem terreno, precisamos reproduzir as feições do Homem Celestial." 1 Cor 15,47-49
    De fato, como invocou São Pedro, Deus pronunciou-Se sobre nossa vocação para a santidade desde os primórdios: "A exemplo da santidade d'Aquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: 'Sede Santos, porque Eu sou santo' (Lv 11,44)." 1 Pd 1,15-16
    E, por tão expressiva dádiva, só poderíamos estar gratos e manifestar esta gratidão, como reconhecia São Paulo: "Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque Deus vos escolheu desde o princípio para dar-vos a Salvação, pela santificação do Espírito e pela na Verdade." 2 Ts 2,13
    Em defesa da unção do Espírito Santo, porém, ele diz expressamente: "Esta é a vontade de Deus: vossa santificação! Que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir seu corpo santa e honestamente, sem se deixar levar por desregradas paixões como os pagãos que não conhecem a Deus... Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu Seu Espírito Santo." 1 Ts 4,5.7-8
    E pede: "Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o Qual estais selados para o Dia da Redenção." Ef 4,30
    Insiste: "Não extingais o Espírito." 1 Ts 5,19
    Faz, ademais, um grave alerta sobre a condição de santidade, apontando diretamente para os dissimulados e extorquidores que ocupam posições de liderança: "E que, nesta matéria, ninguém oprima nem defraude a seu irmão, porque o Senhor faz justiça de todas estas coisas, como já antes vo-lo temos dito e asseverado." 1 Ts 4,6
    E atesta esta Graça que evocando o testemunho do Pai Celeste, sem a qual não somos capazes de alcançar tão grande benção: "... temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não pelo espírito de sabedoria do mundo, mas pelo socorro da Graça de Deus." 2 Cor 1,12
    Por isso implora Àquele que nos pode concedê-la: "O Deus da Paz conceda-vos perfeita santidade. Que todo vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23
    São Tiago Menor dizia: "Toda boa dádiva e todo perfeito dom vêm de cima: descem do Pai das luzes..." Tg 1,17
    Tal Graça, contudo, não nos seria concedida sem o Sacrifício de Jesus, que nos purifica por Seu Sangue através de Sua Igreja, ao conceder-nos o perdão dos pecados: "Por uma só oblação Ele realizou a definitiva perfeição daqueles que recebem a santificação." Hb 10,14
    Assim, ao entrarmos em Comunhão com a Santíssima Trindade somos efetivamente santificados: "Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em Nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de Nosso Deus." 1 Cor 6,11
    Precisa-se ter presente, entretanto, que os eleitos recebem tal santificação para ainda maior obediência, como ensina São Pedro: "... santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo e receber sua parte da aspersão do Seu Sangue." 1 Pd 1,2
    Ora, como diz São Paulo, "... quem se une ao Senhor, torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Ele explica nestes termos a razão das bençãos que recebemos de Cristo: "... para sermos santos e irrepreensíveis diante de Seus olhos." Ef 1,4b
    Vemos-nos então moralmente compelidos a buscar e preservar a santidade, que nos assegurará a eterna bem-aventurança. Ele diz: "Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a Vida Eterna." Rm 6,22
    Com razão, não podemos mais permitir-nos viver em dissolução. Temos uma meta: "Pois, como pusestes vossos membros a serviço da impureza e do mal para cometer a iniquidade, assim ponde agora vossos membros a serviço da justiça para chegar à santidade." Rm 6,19
    Pois imbuídos da devida prudência, devemos estar cientes que viver a perfeição nesse mundo é um grande privilégio: "Vós, ao contrário, aproximastes-vos da montanha de Sião, da cidade do Deus Vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos Céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição..." Hb 12,22-23
    E a santidade é total domínio das palavras e de si: "... porque todos nós caímos em muitos pontos. Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo seu corpo." Tg 3,2
    É paciência: "Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma." Tg 1,4
    Ela é-nos concedida pela imersão no Evangelho, na Verdade, como rezou Jesus ao Pai: "Santifica-os pela Verdade. Tua Palavra é a Verdade." Jo 17,17
    E sem ela não poderemos contemplar a face eternamente de Deus: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14


JESUS, A VERDADEIRA PERFEIÇÃO

    O jovem rico que se julgava perfeito, aliás, numa arrogância característica da juventude, foi convidado por Jesus à verdadeira perfeição: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Mt 19,21
    E a todos jovens, quase sempre tão exigentes, São Pedro dedica algumas esclarecedoras palavras: "Semelhantemente, vós outros que sois mais jovens, sede submissos aos Anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá Sua Graça aos humildes (Pr 3,34). Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-Lhe todas vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua Eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará." 1 Pd 5,5-10
    Sem dúvida, São Paulo, apesar de todas as graças por ele alcançadas, ainda dizia: "Não pretendo dizer que já alcancei esta meta e que cheguei à perfeição. Não. Mas empenho-me em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste ao qual Deus nos chama em Jesus Cristo. Nós, mais aperfeiçoados que somos, ponhamos nisto o nosso afeto; e se tendes outro sentir, sobre isto Deus há de esclarecer-vos. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos, o que importa é prosseguir decididamente." Fl 3,12-16
    Na verdade, dada sua luminosa inspiração, ele estava apenas sendo sensato. Com efeito, a própria vida em Cristo ensina: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,7-10
    E assim ele rezava pelos efésios: "Por isso vos rogo que não esmoreçais nas minhas tribulações que sofro por vós: elas são vossa glória. Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra, para que vos conceda, segundo Seu glorioso tesouro, que sejais poderosamente robustecidos pelo Seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem interior." Ef 3,13-16
    Pois mesmo os antigos Profetas não puderam chegar à perfeição antes da manifestação do Cristo: "E, no entanto, todos estes mártires da fé não conheceram a realização das promessas! Porque Deus, que tinha para nós uma sorte melhor, não quis que eles chegassem sem nós à perfeição." Hb 11,39-40
    Pois só em Cristo teríamos o Sacerdote da Eternidade, que nos traria a Eterna Aliança: "Se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico (porque é sobre este que se funda a legislação dada ao povo), que necessidade havia ainda de que surgisse outro Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a ordem de Aarão? Pois transferido o sacerdócio, forçoso é que se faça também a mudança da Lei. De fato, Aquele ao Qual se aplicam estas palavras é de outra tribo, da qual ninguém foi encarregado do serviço do altar. E é notório que Nosso Senhor nasceu da tribo de Judá, tribo à qual Moisés nada encarregou ao falar do sacerdócio. Isto se torna ainda mais evidente se se tem em conta que Este outro Sacerdote, que surge à semelhança de Melquisedec, foi constituído não por prescrição de uma lei humana, mas pela Sua imortalidade. Porque está escrito: 'Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec.' Com isso, está abolida a antiga legislação, por causa de sua ineficácia e inutilidade. Pois a Lei nada levou à perfeição. Apenas foi portadora de uma esperança melhor que nos leva a Deus." Hb 7,11-19
    São Pedro assim explicava o ápice da Revelação, que se deu na Cruz do Calvário: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir." 1 Pd 1,10-11
    O próprio Jesus declarou: "Agora é o Juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim." Jo 12,31-32
    São Paulo discorre: "Porque aprouve a Deus fazer n'Ele habitar toda a plenitude e por Seu intermédio, ao preço do próprio Sangue na Cruz, Consigo reconciliar todas as criaturas, restabelecendo a Paz a tudo quanto existe na terra e nos Céus. Sendo vós alheios a Deus e inimigos pelos vossos pensamentos e más obras, há bem pouco tempo, eis que agora Ele vos reconciliou pela morte de Seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai." Cl 1,19-22
    O Príncipe dos Apóstolos, no entanto, questiona nossa santidade para resistir às turbulências até o fim dos tempos: "Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade..." 2 Pd 3,11
    Pois essa espera deve ser marcada por um sincero esforço no Caminho da Redenção: "Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por Ele achados sem mácula e irrepreensíveis na Paz." 2 Pd 3,14
    Mas São João Evangelista garante: "Todo o que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino nele reside; e não pode pecar, porque nasceu de Deus. ... o que é gerado de Deus acautela-se, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,9;5,18b
    E como diz São Paulo, essa é nossa verdadeira condição como criaturas de Deus: "Porque é gratuitamente que fostes salvos, mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra Sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos." Ef 2,8-10
    Ele garante, com estas palavras, o correto proceder daqueles realmente obedientes "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Seus seguidores usam de idêntico argumento: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    Ora, o próprio Jesus explicou esse constante aperfeiçoamento conduzido por Deus, na parábola da videira e dos ramos: "... e todo ramo que dá fruto, Ele limpa-o, para que dê ainda mais frutos." Jo 15,2b
    O Apóstolo dos Gentios, portanto, estimula-nos a persistir e resistir, confiante no conhecimento que nos é dado pelo Pai: "Estou pessoalmente convencido, meus irmãos, de que estais cheios de bondade, cheios de um perfeito conhecimento, capazes de admoestar-vos uns aos outros." Rm 15,14
    E dizia-o visando que viéssemos a fazer parte da Comunhão dos Santos, como lhe disse Jesus ao enviá-lo em missão entre os pagãos: "... para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à Luz, e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam o perdão dos pecados e a herança entre aqueles que foram santificados." At 26,18

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A Coroa da Vida


    Desde o Profeta Isaías, foi revelado que Deus tem uma especial coroa para oferecer-nos na eternidade: "Eles chegarão a Sião com cânticos de triunfo, e uma eterna alegria coroará suas cabeças; a alegria e o gozo possuí-los-ão..." Is 35,10
    O livro da Sabedoria, ao referir-se a essa grande dádiva, fala de uma coroa de rei, numa alusão ao poder que ela confere: "Mas os justos viverão eternamente; sua recompensa está no Senhor, e o Altíssimo cuidará deles. Por isso receberão a régia coroa de Glória..." Sb 5,15-16
    O livro dos Provérbios, porém, menciona uma coroa que se faz perceber já nessa vida, que é concedida pela divina Sabedoria: "... adquire a Sabedoria. ... ela colocará sobre tua fronte uma graciosa coroa..." Pr 4,7.9
    O Eclesiástico diz igualmente de uma coroa que se alcança pela Sabedoria, cujos frutos são a Paz e a Salvação: "O temor do Senhor é a coroa da sabedoria: dá uma plenitude de Paz e de frutos de Salvação." Eclo 1,22
    E, em outro momento, os Provérbios falam propriamente da Glória que também já se experimenta já nessa vida: "Os cabelos brancos são uma coroa de glória para quem se encontra no caminho da justiça." Pr 16,31
    Para o livro da Sabedoria, de fato, tal coroa é a Glória de que os Santos usufruem nesse mundo: "Moisés foi amado por Deus e pelos homens: sua memória é abençoada. O Senhor deu-lhe uma glória semelhante à dos santos... Sobre sua tiara colocou uma coroa de ouro, onde estava gravado o cunho da santidade, da Glória e da honra..." Sb 45,1-2.14
    Pois a Divina Glória é a marca da união da verdadeira Igreja de Cristo, que espelha a Comunhão da Santíssima Trindade, além de prova de Sua passagem entre nós e do amor de Deus. Jesus rezou ao Pai pelos Apóstolos: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Essa mesma Glória é oferecida a todos nós, segundo São Paulo: "Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos Santos na Luz." Cl 1,12
    Pois por Jesus somos convidados a assumir a herança da santidade, como afirmam os seguidores de sua tradição: "Portanto, santos irmãos, participantes da vocação que vos destina à herança do Céu, considerai o Mensageiro e Pontífice da que professamos, Jesus." Hb 3,1
    São Paulo via essa Glória nos irmãos que ajudou a evangelizar: "De fato, quem, senão vós, será nossa esperança, nossa alegria e nossa coroa diante de Nosso Senhor Jesus, no Dia da Sua vinda? Sim, nossa Glória e alegria sois vós!" 1 Ts 2,19-20
    E para que ela se concretize na eternidade, ele pede nossa perseverança: "Assim, meus queridos e saudosos irmãos, minha alegria e minha coroa, continuai firmes no Senhor, ó amados." Fl 4,1
    Mas tal Glória não nos vem facilmente. Jesus bem avisou aos Apóstolos do Seu e do nosso 'Batismo', ou seja, nossa Cruz, nosso sacrifício: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    De fato, a glorificação de Jesus deu-se por Sua Crucificação, como Ele mesmo afirmou logo após a Santa Ceia: "Logo que Judas saiu, Jesus disse: 'Agora é glorificado o Filho do Homem, e Deus é glorificado n'Ele.'" Lc 13,31
    Apesar de todos os contratempos, porém, o amor a Deus será regiamente recompensado. Disse São Tiago Menor: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da Vida que Deus prometeu àqueles que O amam." Tg 1,12
    Contudo tal coroa não significa de ostentação. Muito pelo contrário, trata-se de outra glória, a Glória da eternidade: "Os atletas abstêm-se de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, para ganharmos uma coroa imperecível." 1 Cor 9,25
    Por isso Jesus questionou os religiosos de Sua época: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    E se essa coroa nos é tão cara, no entanto, São Paulo reafirma que ela representa a própria Glória de Deus: "... nós temos-vos exortado, estimulado, conjurado a comportardes de maneira digna de Deus, que vos chama ao Seu Reino e à Sua Glória." 1 Ts 2,12


    Por isso São Pedro só faz menção à Glória da Vida Eterna, e cobra dos presbíteros total responsabilidade sobre o rebanho: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós; porque sou Ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e serei participante com eles daquela Glória que se há de manifestar. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. E, quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a imperecível coroa de Glória." 1 Pd 5,1-2.4
    Pelo mesmo motivo, portanto, São Paulo ressalta a importância da total obediência a Cristo nessa vida: "Nenhum atleta será coroado, se não tiver lutado segundo as regras." 2 Ts 2,5
    E sentindo aproximar-se o fim de sua vida terrena, ele suspira: "Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, dar-me-á naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor Sua Aparição" 2 Tm 4,8


NOS CÉUS, A GLÓRIA DOS SANTOS

    A coroa é um sinal de poder, assim como o trono e o reino. E é isso que Deus nos promete, porém na forma de sacerdócio, ou seja, de ofício sagrado, que é plenamente vivido em nome das coisas santas por aqueles que alcançaram a santidade. É o que foi revelado através das visões de São João Evangelista, relatadas no livro do Apocalipse: "Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus... Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,4-6
    Nessas visões, Jesus avisa de uma Grande Tribulação a tentar-nos à toda prova. Contudo, Ele segue prometendo a coroa da Vida, pois Ele é o Senhor da Vida! O maior presente, portanto, sinal de Seu amor, só poderia ser o total poder sobre a própria vida, ou seja, a Vida Plena, a eternidade, como Ele a vive: "Nada temas ante o que hás de sofrer. Por estes dias o demônio vai lançar alguns de vós na prisão, para pôr-vos à prova. Tereis tribulações durante dez dias. Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da Vida." Ap 2,10
    Outra Graça que Ele nos promete, e também é sinal de Seu amor, é que comeremos da árvore da Vida, que havia sido desautorizado a Adão e Eva. Desse fruto, porém, sabemos pouco, mas é certamente outro grande dom: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no paraíso de Deus.'" Ap 2,7
    Ele promete ainda que o Juízo Final não trará nenhuma ameaça aos Seus legítimos fiéis, pois a santificação já terá sido alcançada: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'O vencedor não sofrerá dano algum da segunda morte.'" Ap 2,11
    E aquele que perseverar no 'bom combate', como dizia São Paulo, comerá de mais um especial manjar, do qual sabemos apenas que existe, e receberá uma nova identidade, plenamente espiritual e divina: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei o maná escondido e entregar-lhe-ei uma pedra branca, na qual está escrito um novo nome que ninguém conhece, senão aquele que o receber.'" Ap 2,17
    Os Santos de Deus receberão então um poder que lhes farão visivelmente superior, ainda nesse mundo, e que será perceptível mesmo àqueles que não acreditam: "Então ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder sobre as nações pagãs." Ap 2,26
    Também ser-lhes-á concedido vestir-se de branco, como Jesus, e acompanhá-Lo aonde quer que Ele vá: "Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes; andarão Comigo vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei seu nome do livro da Vida, e proclamar-lo-ei diante do Meu Pai e dos Seus anjos." Ap 3,4-5
    Ele promete-nos, ademais, Sua proteção durante as tribulações aqui na Terra. E assim como São Pedro já o era em vida, o vencedor tornar-se-á também coluna na Sua Igreja: "Porque guardaste a Palavra de Minha paciência, também Eu te guardarei da hora da provação, que está para sobrevir ao mundo inteiro, para provar os habitantes da terra. Venho em breve. Conserva o que tens, para que ninguém tome tua coroa. Farei do vencedor uma coluna no Templo de Meu Deus, de onde jamais sairá..." Ap 3,10-12
    E assegura que nos sentaremos até mesmo em Seu trono, gesto que significa uma inimaginável intimidade com Deus: "Ao vencedor concederei assentar-se Comigo no Meu trono, assim como Eu venci e assentei-Me com Meu Pai no Seu trono." Ap 3,21
    Os vinte e quatro Anciãos, aliás, que representam o Reino de Sacerdotes, são-nos apresentados já coroados: "Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça." Ap 4,4
    Por fim, Jesus garante manter-nos protegidos dos eternos castigos: "Vi também como que um mar transparente, irisado de fogo, e os vencedores, que haviam escapado à Fera, à sua imagem e ao número do seu nome, conservavam-se de pé sobre esse mar com as cítaras de Deus." Ap 15,2
    Todas estas promessas são inquestionavelmente belas. Todavia, Ele faz-nos outra ainda mais encantadora: "O vencedor herdará tudo isso; e Eu serei Seu Deus, e ele será Meu filho." Ap 21,7
    E São João Evangelista, para deixar tudo ainda mais claro, pergunta-se: "Quem é o vencedor do mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" 1 Jo 5,5
    Temos um vencedor, portanto, ao Qual devemos imitar. É Jesus, que havia dito aos Apóstolos: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    De fato: nos Céus, a São João Evangelista Ele já aparece coroado: "Eu vi ainda uma nuvem branca, sobre a qual Se sentava como que um Filho do Homem, com a cabeça cingida de coroa de ouro..." Ap 14,14
    Coroa essa bem diferente da que lhe demos aqui na Terra: "Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-Lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio: 'Salve, Rei dos judeus!'" Mt 27,29
    Maria, Nossa Mãe, também foi coroada. E de forma tão especial que os ministérios dos Apóstolos, que representam as 12 tribos de Israel, são apenas estrelas em Sua coroa. No Novo Testamento, Ela é a primeira e única pessoa humana que foi nomeadamente coroada por Deus. N'Ela, portanto. cumpriu-se esta promessa feita havia vários séculos: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1

    "Concedei-nos o convívio dos eleitos!"

domingo, 29 de outubro de 2017

O Amor de Deus


    Por que Deus quer ser amado por nós? Quem somos nós para corresponder-Lhe com nosso errante amor? No entanto, Ele determina em Seu primeiro Mandamento: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Dt 6,5
    Poderíamos ser obrigados a amar? Como pode Jesus exigir maior amor a Ele que às pessoas que nos são mais próximas? Ele sentenciou: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    A rigidez dessa sentença, porém, esconde uma didática. Apesar da estranheza que causa em primeira mão, ao amadurecermos no amor, vemos que assim Ele imprime Sua Palavra em nossa memória, para mais tarde ser plenamente compreendida. De fato, não podemos verdadeiramente amar os nossos sem conhecermos, com a devida profundidade, o amor que Deus nos tem. São João Evangelista explica assim a origem e o sentido do amor: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. Mas amamos porque Deus nos amou primeiro." 1 Jo 4,16.19
    Sobre a questão do amor pelas pessoas mais próximas, ele partia do inverso: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê. Temos de Deus este Mandamento: aquele que amar a Deus, ame também a seu irmão." 1 Jo 4,20-21
    E a despeito dos insondáveis desígnios de Deus, é-nos dada alguma luz sobre essa didática quando lemos essa passagem dos Provérbios: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Pr 3,11-12
    Tudo isso nos inspira a imagem de um pai cheio de precauções, às vezes agindo de modo enérgico em função de riscos futuros, e é sensato supor que seja mesmo assim. Os seguidores da tradição de São Paulo argumentam: "Estais sendo provados para vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, olhamo-os com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros educaram-nos para pouco tempo, segundo sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para comunicar-nos Sua Santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de Paz." Hb 12,7.9-11
    São Tiago Menor justifica: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou imaginais que em vão diz a Escritura: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que habita em vós?'" Tg 4,4b-5
    Ora, nas revelações feitas a São João Evangelista, o próprio Jesus vai dizer aos que se iludem com alguma forma de poder: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima teu zelo, pois, e arrepende-te." Ap 3,19
    Também é frequente ver na Bíblia a expressão 'temor a Deus'. E fica a pergunta: Afinal, Ele quer ser amado ou temido? A Verdade é que, assim como amadurecer, a compreensão de Sua Revelação requer tempo. No estágio de civilização que vivemos, é fácil perceber, ao menos teoricamente, que o amor sempre produz um relacionamento melhor e mais verdadeiro que o puro temor. Mas não há dúvida: visceralmente necessário, e negá-lo é mera puerilidade, o temor foi e ainda é largamente usado. A hierarquia é vital nas organizações humanas! Entretanto, porque não são necessariamente excludentes, também já é antiga a didática do amor, e ele pode chegar à perfeição como afirmou São João: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele (Deus) é, assim também nós o somos neste mundo. No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,17-18
    Ele chegou a apontar o caminho para essa perfeição: "Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12b
    De fato, é assim o Mandamento de Cristo, Deus de amor, e como Ele descreve Sua Igreja: "Dou-vos um Novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,34-35
    O Profeta Isaías, a propósito, já se tinha dado conta de nossa verdadeira relação com Deus: de filiação: "E, no entanto, Senhor, Vós sois Nosso Pai; nós somos a argila da qual sois o oleiro: todos nós fomos modelados por Vossas mãos." Is 64,8
    Por isso a Ele clamava: "Olhai do alto do Céu e vede de Vossa santa e gloriosa morada: Que foi feito de Vosso ciumento amor e de vosso poder, e da emoção de Vosso coração? Dai livre expansão à Vossa ternura, porque sois Nosso Pai." Is 63,15-16a
    E se somos vez e outra castigados, se bem observarmos os acontecimentos, também é fácil atestar Sua infinita afabilidade. Ele mesmo disse: "Num acesso de cólera volvi de ti Minha face. Mas no Meu eterno amor, tenho compaixão de ti." Is 54,8
    O livro da Sabedoria, em especial, vai mais longe ao justificar Seu amor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos os seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    E como o autor dos Provérbios, ele conclui: "É por isso que com brandura castigais aqueles que caem, e advertis-os mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em Vós, Senhor." Sb 12,2
    Não seria, porém, o amor, e tão simplesmente o amor, ainda hoje, a mais difícil lição que Jesus tenta ensinar-nos? Será que nós compreendemos, ao menos um pouco, a dimensão do Seu amor? Concebemos, ao menos episodicamente, que podemos amar como Ele nos ama? Enfaticamente, Ele estabeleceu esse parâmetro: "Este é o Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    E a pergunta é: Que amor é esse que O levou a morrer por nós? Percebemos realmente o exemplo de tantos Santos e mártires? Chegaríamos também nós, por amor, a essas consequências? No entanto, essa é a meta por Ele estabelecida e demonstrada por Sua Paixão: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Como entender esse sacrifício ao qual Deus Pai submeteu Seu próprio Filho? Ele não teria sido violento demais? "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu Seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Por certo a razão de ser dessa didática de Deus é nossa futilidade, nossa desatenção, nossa inconstância, nossa insensibilidade. Pois se Sua própria morte, brutal como foi, não nos faz despertar para o amor, o que teria acontecido se Ele tivesse apenas Se elevado aos Céus? Se toda Jerusalém não tivesse presenciado Sua Paixão e morte? Por isso São Paulo recomenda a São Timóteo que afaste o povo de todas as fábulas e fúteis conhecimentos, em nome de um verdadeiro amadurecimento espiritual: "Essa recomendação visava promover o amor que nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma sincera ." 1 Tm 1,5
    Pois só assim ele garante as benesses celestiais: "É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam." 1 Cor 2,9
    Pois o verdadeiro amor a Deus, para minimamente corresponder ao que Ele tem por nós, manifesta-se, como demonstraram os Santos, por uma atitude de constante reconhecimento de nossos pecados e pela determinação em não tornarmos a errar. É o que ensinava o Eclesiástico: "Aquele que ama a Deus, roga-Lhe pelo perdão de seus pecados e acautela-se para não cometê-los no porvir." Eclo 3,4
    É o que faz o salmista, ao pedir perdão em nome de Seu amor: "Ó Deus, tem piedade de mim, conforme a Tua Misericórdia; no Teu grande amor cancela o meu pecado." Sl 51,3
    Ele reconhece: "Eu dar-Te-ei graças, Senhor, Meu Deus, de todo o coração e darei glória a Teu Nome sempre, porque é grande para comigo Teu amor..." Sl 86,12-13
    E afere-lhe o justo valor: "Porque Vosso amor me é mais precioso do que a vida..." Sl 63,4
    Agradecido pela Divina Misericórdia, por fim, ele registra: "... Deus de piedade, compassivo, lento para irar-Se mas rico de amor e de fidelidade..." Sl 86,15


JESUS, PROVA MAIOR DO AMOR DE DEUS

    Jesus bem conhece o coração das pessoas, e de perto acompanha os religiosos. Por dizia que de nada vale o pagamento do dízimo quando se sonega o mais importante: "Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de diversas ervas e desprezais a justiça e o amor de Deus." Lc 11,42
    E em discussão com os líderes da fé judaica, Ele foi ainda mais incisivo: "Não espero Minha Glória dos homens. Mas conheço-vos: sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em Nome de Meu Pai, por isso não Me recebeis. Se outro vier em seu próprio nome, haveis de recebê-lo." Jo 5,41-43
    São Paulo diz uma coisa muito simples, mas cheia de Sabedoria: Deus tem com o filho que O ama muito especial relação: "... se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele." 1 Cor 8,3
    Por isso, ressaltando o valor da perseverança para que vençamos a insensibilidade, a inconstância e a faltosa consciência, Jesus recomendou-nos vigilância: "Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu amor." Jo 15,10
    Não por acaso, São João Evangelista atestou esse amor e essa perseverança até Seus últimos momentos: "Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado Sua hora, a hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim." Jo 13,1
    Contudo, ciente de nossas fraquezas, Ele rezou ao Pai para que Seu amor, que é amor de Salvação, permanecesse em nós pela força de Sua manifestação: "Manifestei-lhes Teu Nome, e ainda hei de manifestá-Lo, para que o amor com que Me amaste esteja neles..." Jo 17,26
    Mas também havia deixado patente que não podemos ser amados por Deus se não O amarmos: "Pois o mesmo Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,27
    Pois, ainda segundo Ele, não podemos honrar a Deus se não O honrarmos: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    E São Paulo bem sabe Quem é o imprescindível intermediário para que alcancemos verdadeiramente o mais puro amor: "... o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo..." Rm 5,5
    Ele sabe Quem nos anima: "... ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    E reza: "... que sejais poderosamente robustecidos pelo Seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados no amor, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer o amor de Cristo, que desafia todo o conhecimento..." Ef 3,16-19
    Demonstrava mesmo ter alcançado esse amor, como escreve aos coríntios: "Não vos serei oneroso, porque não busco vossos bens, mas sim a vós mesmos. Com efeito, não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos. De muito boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos mais, seja menos amado por vós." 2 Cor 12,14b-15
    Devemos, portanto, retribuir o amor de Deus com grandeza de espírito: "Pois Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação." Tm 1,7
    Mas se errarmos, sabemos que há esperança. Pois firmando a Nova Aliança, Deus disse por Isaías ao povo de Israel: "'Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais Meu amor te abandonará e jamais Meu pacto de Paz vacilará,' diz o Senhor, que Se compadeceu de ti." Is 54,9-10
    E para tanto Jesus deixou-nos a Igreja, que deve ser nossa Casa, onde somos purificados de nossas faltas. São João Evangelista rende graças: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Pois, de fato, Deus é movido por Seu amor, como afirma São Paulo: "... Deus, que é rico em Misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou..." Ef 2,4
    E São João Evangelista, falando pelos cristãos de então, atesta que Seu amor é verdadeiro: "E nós, que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco." 1 Jo 4,16
    Ele explica tal amor, assim como nossa Redenção, com essas palavras: "Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou Seu Filho único ao mundo, para que tenhamos a Vida por meio d'Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o Seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros." 1 Jo 4,9-11
    Pela mesma inspiração do Espírito Santo, São Paulo diz algo muito parecido: "Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida." Rm 5,8-10
    Por isso, deseja-nos as maiores bençãos: "Que o Senhor dirija vossos corações para Seu amor e a paciência de Cristo." 2 Ts 3,5
    E São Judas Tadeu, de olhos na eternidade, recomenda que perseveremos neste que é o maior dos dons divinos: "Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a Misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Vida Eterna." Jd 1,21
    Mas cabe a pergunta: como poderíamos perseverar no amor de Deus? São João dá-nos uma sugestão bem simples: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, nele não está o amor do Pai." 1 Jo 2,15
    Diz também: "Quem possuir bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    Ora, como reinvocaria Jesus, Deus, em nome de Seu amor, desde os Levíticos já nos havia recomendado: "Amarás teu próximo como a ti mesmo." Lv 19,18
    Portanto há muito temos da parte de Deus essa determinação. E é pela obediência que perceberemos as benesses de Seu amor em nossas vidas, como diz São João: "Aquele, porém, que guarda Sua Palavra, n'Ele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito." 1 Jo 2,5
    Por fim, numa síntese ainda mais concisa, ele registra: "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3
    E enternecido, exclama: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus! E de fato nós o somos. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não O conheceu." 1 Jo 3,1
    É pela beleza e profundidade de frases como essas que uma exortação de São Paulo tornou-se a saudação de acolhida na Santa Missa: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    E por isso o Eclesiástico recomenda com pertinência: "... ama a Deus durante toda a tua vida, e invoca-O para tua Salvação." Eclo 13,18

    "Por amor nos enviastes Vosso Filho!"

sábado, 28 de outubro de 2017

São Judas Tadeu, Apóstolo


    Foi um dos mais reservados Apóstolos, de quem ficaram poucos registros, mas nem por isso se pode deduzir que tenha sido menos ativo. As várias regiões que teria visitado depois da Ascensão de Jesus, assim como suas frequentes viagens, desfazem a impressão de mero contemplativo, que alguns inferem tão somente pelas poucas citações bíblicas de seu nome.
    De fato, não é muito mencionado. Aparece nas listas dos Apóstolos nos Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas:
    - "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    - "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o zelota; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    - "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16
    Ele é citado como um dos 'irmãos' de Jesus nos Evangelhos de São Mateus e São Marcos:
    - "Não é este o Filho do carpinteiro? Não é Maria Sua mãe? Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?" Mt 13,55
    - "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?" Mc 6,3
    É São Judas que questiona Jesus, no Evangelho de São João, quanto à Sua maneira de manifestar-Se pessoa a pessoa, pois gostaria de vê-Lo manifestando-Se o quanto antes ao mundo todo, de forma gloriosa e em definitivo. Nessa passagem fica evidente o respeito com que ele trata Jesus, chamando-O de Senhor, detalhe que também desmistifica a ideia de 'irmandade' entre eles, como pretendem alguns, e simplesmente pela absoluta falta de intimidade: "Pergunta-Lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?' Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,22-23


    Ele tem seu nome ainda nas listas dos Onze presentes no Cenáculo, pouco antes da vinda do Espírito Santo por ocasião do Pentecostes, conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, onde mais uma vez São Lucas exclusivamente o indica como irmão de São Tiago Menor, não de Jesus: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago." At 1,13
    Por fim, ele assina uma epístola na qual providencialmente se identifica com irmão de São Tiago Menor. Essa passagem deixa ainda mais claro que ele não era irmão de Jesus, nem filho de Nossa Senhora ou sequer de São José. Como ele mesmo faz questão de apresentar-se, talvez justamente para esclarecer esse assunto, diz-se irmão de Tiago, filho de Maria, esposa de Cleófas, ou Alfeu, seu equivalente hebraico, e parenta próxima de Maria Santíssima. Ele não se identifica como irmão de Jesus, como seguramente faria se o fosse, mas como Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1,1
    Os chamados 'irmãos de Jesus', na verdade apenas parentes, e assim designados pela inexistência da palavra 'primo' na língua aramaica, aparecem ainda mais claramente como filhos de Maria de Cleófas nos Evangelhos de São Mateus, de São Marcos e de São Lucas:
    - "Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,56
    - "Estavam ali também algumas mulheres olhando de longe; entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé." Mc 15,40
    - "Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele era colocado." Mc 15,47
    - "Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar o corpo de Jesus." Mc 16,1
    - "Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago." Lc 24,10
    Sabemos que essa Maria era a esposa de Cleófas, e parenta de Nossa Senhora, porque essas cenas narram precisamente a Crucificação e o Sepultamento de Jesus, e São João Evangelista, que também as descreveu, deixou-nos o nome de seu esposo: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe e a irmã de Sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    A Carta de São Judas também não é extensa. Ele justifica tê-la escrito apenas para corroborar o que 'os Apóstolos' ensinavam, como se não fosse um deles, para deixar seu testemunho sobre o Cristo e para já alertar das correntes heresias, exortando os fiéis a não desanimarem com o escárnio que sofriam. Aí deixa inscrito que a Revelação já foi totalmente entregue: "Caríssimos, estando eu muito preocupado em vos escrever a respeito da nossa comum Salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a pelejar pela , confiada de uma vez para sempre aos Santos. Pois certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este Julgamento. Eles transformam em dissolução a Graça de Nosso Deus e negam Jesus Cristo, Nosso único Mestre e Senhor. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões; homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito Santo.'" Jd 1,3-4.17-19
    Nela, demonstrando o mesmo respeito que se viu no Evangelho de São João, por seis vezes ele menciona o Nome de Jesus, e em todas elas chama-O de Cristo. E, como visto, chama-O também de 'Nosso único Mestre e Senhor', ou seja, nenhum resquício de familiar intimidade, muito menos de fraternidade sanguínea.
    A confusão com Judas Iscariotes teria dificultado bastante a divulgação de seu nome, de sua história e a devoção que certamente lhe é devida. Isso explica porque, desde o início, São Marcos e São Mateus já o apresentavam com o nome de Tadeu, que talvez fosse um apelido íntimo, mas afirmativamente com a clara intenção de diferenciá-lo do infame traidor.


    Ele começou a evangelizar em sua própria terra, na Galileia, para onde foram alguns Apóstolos após a perseguição iniciada com o apedrejamento de Santo Estevão. Depois esteve por algum tempo na Samaria, de onde partiu para a Síria, Idumeia (atual Jordânia), Líbia Antiga, Armênia e Pérsia, e aí lhe teria vindo ao encontro São Simão, o zelota.
    Em sua companhia, percorreram as 12 províncias do Império Persa fazendo muitos milagres e convertendo muita gente, mas, por despertarem ciúmes dos poderosos sacerdotes pagãos, foram brutalmente assassinados num mesmo dia. Segundo a Tradição e apócrifos, São Judas Tadeu foi morto a golpes de machado na cabeça, e São Simão, serrado ao meio.
    Após séculos de isolamento, que foi agravado pelo surgimento do Islamismo, a devoção a ele só voltou a crescer, e dessa vez a partir da Europa, graças à aparição de Jesus a Santa Gertrudes, no século XIII, recomendando os socorros de São Judas para as causas impossíveis, como ela deixou escrito em sua biografia. É a partir desse momento que se passa a empregar com frequência a alcunha de São Judas Tadeu, juntando os nomes atribuídos a ele nos diferentes Evangelhos.
    Nosso Santo é retratado também como aquele que levou o Cristianismo a Armênia, quando ainda viajava em companhia de São Bartolomeu. De fato, atendendo a um chamado do rei, levou-lhe a famosa 'imagem de Edessa', a pintura mais antiga de Cristo de que se tem notícia. Relatos dão conta que esse rei teria enviado uma carta a Jesus, ainda nos tempos de Sua vida pública, convidando-O à sua corte, mas Ele respondeu dizendo que no futuro um de Seus Apóstolos iria ter com ele.


    Ainda hoje estes mártires da fé são cultuados como Santos Padroeiros da Igreja Apostólica Armênia, pois a São Judas Tadeu foi dedicado um mosteiro no norte do Irã, e outro a São Bartolomeu, no sul da Turquia, quando essas duas regiões ainda formavam a Armênia, uma antiga província do Império Romano.
    Há notícias de que ele esteve no Primeiro Concílio, de Jerusalém, e exerceu sua missão também em Beirute e em Edessa, no norte da Mesopotâmia, hoje terras da Turquia, onde teria confeccionado a pintura que levou ao rei da Armênia.
    Seus restos mortais foram guardados no Oriente Médio por vários séculos, depois foram levados a França e posteriormente a Roma, onde foram sepultados sob o Altar de São José, na Basílica de São Pedro.


    São Judas Tadeu, rogai por nós!