quinta-feira, 31 de agosto de 2017

São Raimundo Nonato


    Nonato quer dizer 'não nascido', pois São Raimundo foi tirado do ventre da mãe quando ela já havia falecido. Por esse fato, foi feito patrono das parteiras e dos obstetras.
    Sua família era espanhola, catalã de Portell. Nobre mas sem muitas propriedades, seu pai, logo que percebeu suas inclinações religiosas, quis fazer-lhe administrador. No entanto, o silêncio e a oração só confirmavam sua forte vocação para a .
    À época, um jovem francês, que viria a ser São Pedro Nolasco, mudou-se de sua pequena cidade para Barcelona com a finalidade de fazer frente à heresia divulgada pelos albigenses. Contudo, em 1218 terminou fundando a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, cujo carisma era libertar os cristãos que estavam sendo capturados pelos muçulmanos para serem vendidos como escravos na Argélia. Não por acaso, desde 1203 ele já arrecadava a 'esmola dos cativos' nas igrejas e nos ambientes cristãos, que para eles era a única chance de libertação.
    Diante desta aterradora realidade, e ali mesmo, em terras europeias, se por seu nascimento São Raimundo foi resgatado da morte, vai dedicar sua vida ao resgate da escravidão. Em 1224, aos 24 anos, recebe do próprio São Pedro Nolasco o hábito da Ordem dos Mercedários. Tornou-se sacerdote e, após anos libertando cristãos na Espanha, foi enviado a África, para onde já haviam sido enviados muitos cristãos escravizados. Tamanho era seu ardor e devoção pela Salvação das almas, que, um dia, após exauridos todos os recursos com os quais negociava, nosso Santo ofereceu-se em troca de um escravo cristão.


    Como tal situação de calamidade que não retrocedia, sua esperança era dedicar os anos que lhe restava para alimentar a fé dos escravizados permanecendo em sua companhia, animando-os pela oração e adoração do Santíssimo Sacramento


    Das inspiradas pregações que fazia, e conseguia converter até mesmo os muçulmanos, logo se tornou vítima da raiva dos donos de escravos. Sofreu várias e frequentes torturas, mas, como não parava de pregar pessoa a pessoa ou às ocultas, teve seus lábios perfurados com um ferro em brasa e fechados com um cadeado.


    Nessa condição sofreu 8 meses até ser libertado em 1239, e, realmente muito doente, foi levado de volta a Espanha.
    Ao saber de sua libertação, o Papa Gregório IX nomeou-o cardeal, pois por seus conhecimentos e oratória queria-o como conselheiro em Roma. Em 1240, mesmo de saúde ainda frágil, resolve atender ao chamado do papa, porém, ao iniciar a viagem, morreu tomado por fortes febres ainda em Cardona, bem próximo a Barcelona.
    Seu corpo foi enterrado na capela de São Nicolau, onde havia servido como sacerdote. Em volta dela, entre 1597 e 1625, em sua homenagem foi construído o Monastério de São Raimundo de Portell, conhecido também como o Escorial de Segarra.




    São Raimundo Nonato, rogai por nós!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Revestir-se de Cristo


    Frequentemente São Paulo usa o verbo 'revestir-se' no sentido de renovação espiritual, de mais profunda conversão para quem se põem no caminho da Salvação. De fato, as vestes são uma maneira de representar quem somos, como nas profissões, ou a situação que vivemos, como nas festas e no luto. Assim ele exorta a uma significativa transformação, que seja tão notória às pessoas em volta quanto nossas vestes. E cuidando de livrar-nos de toda pequena influência do Maligno, também alerta: "Abstende-vos de toda aparência do mal." 1 Ts 5,22
    Jesus mesmo recomendou esta imprescindível iniciativa: "Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar, e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta." Mt 5,23-24
    Segundo o Apóstolo de Tarso, os que amam a Cristo devem trazer em si Sua imagem e Sua Glória, pois Deus "... predestinou-os para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou." Rm 8,29-30
    Com efeito, este é um indizível dom que Jesus deu aos Apóstolos, como vemos quando Ele rezou ao Pai a Oração da Unidade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Pois sabemos que a Glória de Cristo é muito maior que a que Moisés conheceu, como disse São Paulo: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito!" 2 Cor 3,7-8
    Essa Glória é a imagem do próprio Pai, é Sua santidade: "... e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,24
    E tomando como modelo Sua imagem, assim devemos nos restaurar: "Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Essa Graça, que precisa ser efetivamente vivenciada, é adquirida desde o Batismo: "Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo." Gl 3,27
    Guardá-la, pois, deve ser nosso combate nesse mundo errante: "... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites." Rm 13,14
    E em todas as circunstâncias: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-16a
    Porque a Graça é nossa defesa contra os verdadeiros inimigos, que são invisíveis: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço." Ef 6,11-12
    Tomando como exemplo as armas de um guerreiro, São Paulo faz uma pertinente comparação com nossas 'armas espirituais': "Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da , com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." Ef 6,13-17
    Inspiradamente, ele chamou-as de 'armas da Luz': "A noite vai adiantada, e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da Luz." Rm 13,12
    Essas 'vestes espirituais' deixam claros sinais em nossa alma, que transparecem fortemente em nosso jeito de agir: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência." Cl 3,12
    Elas fazem-se notar no respeito aos mais velhos, como recomendou São Pedro: "Semelhantemente, vós outros que sois mais jovens, sede submissos aos anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a Sua Graça aos humildes (Pr 3,34)." 1 Pd 5,5
    Assim também às autoridades e instituições, desde que não oponíveis, sejam elas divinas ou humanas como dizia São Paulo: "Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação." Rm 13,1-2
    Pois, em nome da ordem pública, por elas até devemos rezar: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade." 1 Tm 2,1-2
    Devemos portar, enfim, a indefectível marca do amor, sem o qual não nos achegamos ao Cristo: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Porque não se revestir de Cristo será sinônimo de trágico destino, como Ele mesmo explicou na parábola que alude às Núpcias do Cordeiro: "'Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial?' Disse então o Rei aos servos: 'Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 22,12-13
    E mandou essa mensagem, que vale para todos: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito' - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de Mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,17-18
    Ora, Ele denunciava desvios já na hipocrisia dos falsos religiosos, no caso escribas e fariseus, que invariavelmente se materializa desde a aparência: "Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos." Mt 23,5
    Por isso, em oposição a mundanos cuidados, recomendava confiança da Divina Providência, que se reflete através da modéstia: "E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo, que não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,28-30.32-33
    São Pedro dizia o mesmo às mulheres, sempre tão volúveis diante dessas tentações: "Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus." 1 Pd 3,3-4
    De fato, as promessas de Vida Eterna são representadas por outras vestes, mais que especiais, iguais às do próprio Salvador, como Ele mesmo revelou a São João Evangelista no Apocalipse: "Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do Livro da Vida, e o proclamarei diante do Meu Pai e dos Seus anjos." Ap 3,4-5
    Essas já são as vestes dos Anciãos que ele viu nos Céus: "Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça." Ap 4,4
    São as vestes dos Santos Mártires da Igreja, que nos Céus junto a Deus intercedem por justiça: "Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: ‘Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?’ Foi então dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos." Ap 6,9-11
    Aliás, veste de Todos os Santos, que venceram o pecado e já estão perante Deus, louvando diante de Seu trono: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão... Então um dos Anciãos falou comigo e perguntou-me: 'Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes'. E ele me disse: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,9.13-14
    Por fim, essa é a marca da própria Ressurreição da carne, na qual pomos toda nossa esperança. Diz São Paulo: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao Seu Corpo Glorioso..." Fl 3,20-21
    É a própria Vida Eterna: "Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, ou seja, quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a Palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela Vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão' (Os 13,14)?" 1 Cor 15,54-55
    Não por acaso, ainda entre nós, Jesus deu aos mais íntimos Apóstolos um sinal de Sua Glória. Foi na Transfiguração do Monte Tabor: "... Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-Se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,2-3
    

REVESTIR-SE DO ESPÍRITO SANTO

    Mas o poder de Suas vestes não se encerravam em Luz. Ao tocá-las, a mulher que tinha hemorragia havia doze anos foi instantaneamente curada: "Jesus percebeu imediatamente que saíra d'Ele uma força e, voltando-Se para o povo, perguntou: 'Quem tocou Minhas vestes?'" Mc 5,30
    E ela não foi a única: "Onde quer que Ele entrasse, fosse nas aldeias ou nos povoados, ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de Suas vestes. E todos aqueles que tocavam em Jesus ficavam sãos." Mc 6,56
    Até Seus inimigos quiseram um pedaço de Suas veste e da túnica, embora não soubessem o inestimável valor que elas têm: "Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram Suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: 'Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de quem será.' Assim se cumpria a Escritura: 'Repartiram entre si Minhas vestes e deitaram sorte sobre Minha túnica.' (Sl 21,19)" Jo 19,23-24
    Tal poder faz-se representar pela autoridade que Jesus deu à Igreja, desde a fundação no dia de Pentecostes, quando derramou o Espírito Santo sobre os Apóstolos: "Eu vos mandarei o Prometido de Meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Pois a Igreja é feita de novas criaturas, que vivem uma condição além da carne como viveu o próprio Cristo. São Paulo atestou: "De fato, Cristo morreu por todos para que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim, doravante, não conhecemos ninguém conforme a natureza humana. E se uma vez conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não O conhecemos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo." 2 Cor 5,15-17
    Significativamente, a transfiguração também foi o sinal dado por Deus na pessoa de Nossa Mãe Celestial, desde sua chegada aos Céus: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    Fulgurante, ademais, eram as vestes do anjo que apareceu a Santa Maria Madalena, no Domingo da Ressurreição: "E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve." Mt 28,2-3
    Foi em idêntica condição que o anjo apareceu a Cornélio, fato que culminou no 'Pentecostes dos não judeus': "Faz hoje quatro dias que estava eu a orar em minha casa, à hora nona, quando se pôs diante de mim um homem com vestes resplandecentes..." At 10,30
    Essa, entretanto, é a promessa que Jesus faz a todos que guardam Seus Mandamentos: "Então, no Reino de Seu Pai, os justos resplandecerão como o sol." Mt 13,43
    Pois como a Glória que Ele deu aos Apóstolos, essa é a própria Glória de Deus Pai, que estará estampada em Seus filhos: "Quando Cristo, Vossa Vida, aparecer em Seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele, revestidos de Glória." Cl 3,4
    É igualmente assim a roupa do Cordeiro, à espera de Suas Núpcias: "Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque se aproximam as Núpcias do Cordeiro. Foi-Lhe dado revestir-Se de linho puríssimo e resplandecente. Porque o linho são as boas obras dos Santos." Ap 19,8
    É assim a aparência da Nova Jerusalém: "... a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus." Ap 21,10-11
    Aliás, tal e qual havia sido prescrito pelo Profeta Baruc: "Tira, Jerusalém, a veste de luto e de miséria; reveste, para sempre, os adornos da Divina Glória. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus, e coloca sobre a cabeça o diadema da Glória do Eterno. Deus vai mostrar à terra, e sob todos os Céus, teu esplendor." Br 5,1-3
    Por fim, o próprio Jesus, Deus de Deus, promete que a Eterna Felicidade será daqueles que usufruirão plenamente desta Jerusalém Celestial: "Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da Vida e poder entrar na Cidade pelas portas." Ap 22,14
    De sua luminosa inspiração, São Paulo deixou-nos alguns detalhes da definitiva transfiguração: "Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna no Céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos da nossa habitação celeste, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor o Seu Espírito. Por isso estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, esforçamo-nos por agradar-Lhe. Porque teremos de comparecer diante do Tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." 2 Cor 5,1-10

    "Confirmai na caridade o Vosso povo!"

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Martírio de São João Batista


    A exemplo da Crucificação de Jesus, o cruel destino que teve São João Batista também ficou para sempre gravado na memória da humanidade: a história do Profeta do Altíssimo, mártir defensor do Sacramento do Matrimônio. Ele ousou levantar a voz para denunciar o adultério do rei, que se dizia hebreu, e ironicamente acabou assassinado não por sua vontade, pois o temia, mas por astúcia de sua côrte, lugar costumeiramente frequentado e assediado por pessoas da pior espécie. A 'nobreza', muitas vezes, representa o que um povo tem de pior.
    Levita como São Mateus, Profeta de primeiríssima grandeza, ele foi o arauto da Vinda do Salvador, como anunciou seu pai, o sacerdote Zacarias, no dia em que nasceu: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Isso havia sido previsto pelo anjo do Senhor, que o descreveu com um reorientador dos pais para o bem das famílias, um dissuasor de vãs rebeldias e o preparador do povo para o encontro com o Messias: "... irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto." Lc 1,17
    São João Batista, pois, não 'conseguia' calar-se, não se permitia deixar de proclamar as Verdades de Deus. E não alimentava projetos de permanecer por muito tempo nesse mundo; vivia 'outra' realidade, ou melhor, a verdadeira realidade: o Reino dos Céus, como anunciava Jesus: "Mas se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o Reino de Deus." Lc 11,20
    Como escolheu o deserto, e o povo é que ia até ele, à sua volta a Verdade tinha que prevalecer, a qualquer custo. Não por acaso, Jesus vai questionar aqueles que por ele foram batizados: "Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: 'Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos Eu, mais que um profeta. É dele que está escrito: 'Eis que Eu envio Meu mensageiro diante de Ti para Te preparar o Caminho' (Ml 3,1). E, se quereis compreender, ele é o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos, ouça." Mt 11,7-10.14-15
    Sua missão custou-lhe a vida, mas, podemos ter certeza, ele faria tudo de novo, pois sua missão estava em perfeita sintonia com a Boa Nova anunciada por Jesus, que pregou: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Ele não se arrependeria, portanto, de ter condenado nem a devassidão do rei nem a corrupção dos costumes, que imperava na côrte e na sociedade judaica à época, inclusive entre religiosos. Sua pregação pois, era tão contundente quanto clara: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. Não digais dentro de vós: 'Nós temos a Abraão por pai!' Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão.'" Mt 3,7-9
    Ora, o próprio São João Batista era ele mesmo um penitente: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    Assim, silêncio ou desfaçatez perante a crescente degeneração moral eram-lhe uma grande ofensa a Deus, porque viviam-se os tempos da espera do Messias. Por isso sua 'rebeldia' era santa; sua profunda indignação impedia-lhe de viver na indiferença. 'Aqueles tempos' eram por demais sérios. Jesus mesmo arguia: "Dizia ainda ao povo: 'Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: Aí vem chuva. E assim sucede. Quando vedes soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor. E assim acontece. Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente?'" Lc 12,54-56
    E acusou: "Porque se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de Mim e das Minhas palavras, também o Filho do homem Se envergonhará dele, quando vier na Glória de Seu Pai com os Seus santos anjos." Mc 8,38
    As classes mais altas e as autoridades religiosas judaicas, de fato, curvavam-se não só a 'sabedoria' de estrangeiros como também à indecência, aos desmandos e às profanações perpetradas pela corte romana. O bacanal de Herodes era só um exemplo. Muitos judeus tomavam parte ativa nos seus 'cultos', pois para eles Herodes seria o próprio Messias, e, de tão pervertidos, até conspirariam contra Jesus: "Saindo os fariseus dali, deliberaram logo com os herodianos como O haviam de matar. " Mc 3,6
    Por isso Jesus vai exigir de todos esses falsos religiosos que devolvessem o povo a Deus: "Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas Suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que Lhe disseram: 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o Caminho de Deus em toda a Verdade, sem Te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que Te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?' Jesus, percebendo sua malícia, respondeu: 'Por que Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!' Apresentaram-Lhe um denário. Perguntou Jesus: 'De quem é esta imagem e esta inscrição?' 'De César', responderam-Lhe. Disse-lhes então Jesus: 'Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.'" Mt 22,16-21
    Mas tudo isso era demais, inaceitável para São João Batista. Cioso das maiores responsabilidades, após anunciar o Cristo, não lhe restava outra coisa senão continuar vivendo o que pregava: negar-se a si mesmo: "Importa que Ele cresça e que eu diminua." Jo 3,30
    Para que entendamos o que ele queria dizer com essa frase, um misto de dever cumprido e resignação quanto à vontade de Deus, basta lembrar o que disse o próprio Jesus: "Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho Eu a desejar se ele já está aceso?" Lc 12,49
    Significativamente, para alguém que veio batizar, o brutal martírio de nosso Santo foi também um batismo, tal e qual Jesus havia previsto para Si, para os Apóstolos e para tantos outros Seus seguidores: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39


    Vemos então que o Batista não poderia simplesmente passar por esse mundo, como muitos de nós pretendemos. E seu destino, que não nos enganemos, não foi a desgraça de uma morte horrível, mas a Eterna Glória. Não lhe importava a violência ou a humilhação desse batismo, mas seu compromisso com a Verdade, com Deus. É Jesus Quem faz a melhor síntese de sua missão, ao falar aos religiosos da época: "Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da Verdade." Jo 5,33
    Essa era questão muito cara a Jesus, a essência de Sua própria Missão. Ele disse diante de Pilatos: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve a Minha voz." Jo 18,37b
    E tão horrendo destino foi também o do Cristo, como Ele disse ao aproximar-se o momento de Seu Martírio: "Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Presentemente, a Minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-Me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora.'" Jo 12,23.27
    Aliás, em certo sentido, é o que Ele determinou a todos nós: "Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    De fato, São João Batista cumpriu muito bem sua missão. Primeiro, pregando o arrependimento dos pecados, e assim preparar o povo de Israel para encontrar-se com Deus Jesus: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Em seguida, tomando Confissões e batizando, para purificar-lhes os pecados: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    Com efeito, esse era o sentido do seu batismo, como vai dizer São Lucas: "Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,3
    Por fim, ao encontrar Jesus, identificou n'Ele o Redentor: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29
    E deu esse testemunho: "É Este de Quem eu disse: 'Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim.' Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele Se torne conhecido em Israel. (João havia declarado: 'Vi o Espírito descer do Céu em forma de uma pomba e repousar sobre Ele.) Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: 'Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, Este é Quem batiza no Espírito Santo.'" Jo 1,30-33
    Em seu louvor, Jesus declarou que o Batista era o maior dentre os homens. Contudo, antes de Sua Ressurreição, ele era inferior às criaturas celestiais: "Pois vos digo: entre os nascidos de mulher não há maior que João. Entretanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele." Lc 7,28
    De fato, o autor da Carta aos Hebreus vai invocar esse interlóquio entre o salmista e Deus: "Alguém em certa passagem afirmou: 'Que é o homem para que dele Te lembres, ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste-o, por pouco, menor que os anjos... (Sl 8,5-6a)." Hb 2,6-7a
    Por sua grandeza, portanto, embora haja evidências em contrário, ele poderia muito bem ser um dos Santos que ressurgiram logo após a Ressurreição de Jesus, como registrou São Mateus: "Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,52-53
    E falando sobre Jesus, São João Batista disse uma frase que ainda hoje ecoa nos ventos e em nossos ouvidos: "... no meio de vós está Alguém que vós não conheceis." Jo 1,26
    Assim, pelo exemplo desse eremita, um legítimo essênio, devemos ser mais conscientes de nosso compromisso com a Verdade, isto é, a obrigação de testemunhar o Cristo. Não podemos simplesmente admirar sua coragem: seria muito pouco! Foi o que disse Jesus: "João era uma lâmpada que ardia e iluminava; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz." Jo 5,35
    Jesus está no meio de nós, como disse o Batista. Não desprezemos esse anúncio que lhe custou tão caro. Não nos alegremos com a luz do último grande profeta só por uma hora. Seu martírio é um sinal da força do Espírito Santo que o movia, assim como da Glória que lhe esperava. E apesar de destemido, ele tudo fez na mais perfeita humildade: "Eu batizo-vos com água, em sinal de penitência, mas Aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar Seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo." Mt 3,11
    Isso bem explica sua reação ao ver Jesus: "Da Galileia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. João recusava-se: 'Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?'" Mt 3,13-14
    De fato, diferentemente dos grandes profetas que lhe antecederam, o Batista não realizou nenhuma maravilha sequer. O próprio povo testemunhou sobre ele: "João não fez milagre algum... " Jo 10,41
    Sua autoridade vinha tão somente da realidade que ele francamente vivia: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito; e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    E por isso tinha autoridade para pregar: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?' Ele respondia: 'Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo.'" Lc 3,10-11
    Deixou, enfim, uma ruidosa recomendação que vale para todos funcionários públicos, especificamente no que concerne ao salário: "Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: 'E nós, que devemos fazer?' Respondeu-lhes: 'Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo.'" Lc 3,14


SEU MARTÍRIO, SEGUNDO SÃO MARCOS

    "Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes:
    - Não te é permitido ter a mulher de teu irmão.
    Por isso Herodíades odiava-o e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente ouvia-o.
    Chegou, no entanto, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galileia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça:
    - Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
    E jurou-lhe:
    - Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino.
    Ela saiu e perguntou à sua mãe:
    - Que hei de pedir?
    E a mãe respondeu:
    - A cabeça de João Batista.
    Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo:
    - Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista.
    O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta entregou-a à sua mãe.
    Ouvindo isto, seus discípulos foram tomar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro." Mc 6,17-29

    São Mateus complementa: "Depois foram dar a notícia a Jesus." Mt 14,12

    "São João Batista, rogai por nós!"

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Santo Agostinho


    O Bispo de Hipona foi o primeiro grande sintetizador da Doutrina Cristã, e o último dos Padres Latinos, aqueles que conceberam a Filosofia Cristã, também chamada Patrística. De singular inteligência, enquanto importante professor do Império Romano defendeu uma herética corrente de pensamento, o maniqueísmo, e, passando a grande admirador de Plotino, tornou-se, ainda antes de vir a ser cristão, neoplatônico.
    Desde jovem rejeitava veementemente os convites às práticas religiosas que lhe fazia sua mãe, Santa Mônica, mas em 387, aos 33 anos, foi a Milão conhecer a Sabedoria de Santo Ambrósio e rendeu-se em definitivo à Verdade, abraçando o Catolicismo. Deixou a vida que levava com uma concubina e vendeu todos os seus bens, retendo apenas sua casa em Hipona, na atual Argélia, que, inspirado pela vida de Santo Antão, transformou num monastério para si e para alguns amigos. Era o ano de 388 e ali nascia a Ordem de Santo Agostinho, também chamada de 'agostinianos'.
    Já era renomado professor de Gramática e Retórica, porém sentia que precisava começar tudo de novo: entregou-se à oração, à pobreza e ao serviço aos mais carentes. Tamanha era sua devoção que em 391 foi ordenado sacerdote de Hipona pelo próprio povo, e em 396, também pela vontade popular, foi apresentado como bispo coadjutor, ou bispo sucessor, da mesma cidade. Morreu em 430, aos 76 anos, quando os vândalos invadiram a África através de Gibraltar. Passou seus últimos dias sitiado, entre penitências, orações e recitações de Salmos.
    Deixou o 'Regulamento' para os sacerdotes de seu mosteiro, e por essa obra foi reconhecido como Padroeiro do Clero Regular. Foi canonizado também por aclamação popular e logo reconhecido como Doutor da Igreja.
    Bastante ativo, comia muito pouco, cuidava da igreja local, de questões de justiça entre o povo e dedicava muito especial atenção aos órfãos e pobres. Sua rotina diária inalteradamente incluía celebrar a Santa Missa, catequizar, fazer pregações, servir aos carentes e escrever. Deixou obras belíssimas como 'Confissões', na qual conta sua vida, e 'A Cidade de Deus', em que exalta a grande dádiva divina que é a Igreja.
    Deixou-nos ainda conceitos e explanações fundamentais para a compreensão do projeto de Deus, em obras como 'O Pecado Original', 'O Livre Arbítrio', 'O Problema do Mal', 'O Tempo como parte da Criação', 'A Fé como a restauração da Razão', 'O Resgate do Platonismo', 'A Ética' etc. É reconhecido também como Doutor da Graça, por sua enorme contribuição sobre esse assunto.
    Era natural de Tagaste, antiga cidade argelina. Foi professor em Cartago e em Roma, mas, mesmo entre as pessoas mais importantes e nos mais luxuosos ambientes, nunca encontrava satisfação para sua alma. Na Igreja viveu seus melhores, mais produtivos e mais felizes anos. Referindo-se a essa obra de Cristo, dizia: "Fora da Igreja não há Salvação."
    Escreveu em belíssimas linhas o que representou sua conversão: "Tarde Te amei... Trinta anos estive longe de Deus. Mas durante esse tempo algo se movia dentro do meu coração... Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava... Mas Tu compadeceste-Te de mim e tudo mudou porque Tu me deixaste conhecer-Te... Tu estavas dentro de mim e eu fora..."
    Sua inspiração era realmente ímpar:
    "Quem me dera descansar em Ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o embriagasses, para que eu esqueça minhas maldades e me abrace Contigo, meu único bem! Que és para mim? Tem misericórdia de mim, para que eu possa falar. E que sou eu para Ti, para que me ordenes amar-Te e, se não o fizer, irar-Te contra mim, ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não Te amar? Ai de mim! Dize-me por Tuas misericórdias, Meu Senhor e Meu Deus, que és para mim? Dize a minha alma: 'Eu sou a tua Salvação.' Que eu ouça e siga essa voz e Te alcance. Não queiras esconder-me Teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo, para não morrer eternamente."
    "Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por Ti dilatada. Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o Teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a Ti? Livra-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a Teu servo os alheios! Creio, e por isso falo. Tu o sabes, Senhor. Acaso não confessei diante de Ti meus delitos contra mim, ó Meu Deus? E não me perdoaste a impiedade de meu coração? Não quero contender em juízos Contigo, que és a Verdade, e não quero enganar-me a mim mesmo, para que não se engane a si mesma minha iniquidade. Não quero contender em juízos Contigo, por que, se dás atenção às iniquidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?"
    "Que deseja a alma com mais veemência do que a Verdade?"
    "À Minha mesa convido-vos. Nela ninguém morre, nela está a Vida verdadeiramente feliz, nela o Alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba.
    Eis para onde vos convido: para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a Eterna Ceia, para a fraternidade Comigo; enfim, a Mim mesmo, à Minha Vida Eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a Minha Vida? Retende, pois, como penhor a Minha Morte."
    "Foi o orgulho que transformou anjos em demônios, mas é a humildade que faz de homens anjos."
    "... conhece-se melhor a Deus na ignorância."
    "Aquele que nos criou sem a nossa ajuda, não nos salvará sem nosso consentimento."
    "Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos."
    "Com o amor do próximo, o pobre é rico; sem o amor do próximo, o rico é pobre."
    "Nada estará perdido enquanto estivermos em busca."
    "Se tu crês somente naquilo que gostas no Evangelho, e rejeitas o que não gostas, não é no Evangelho que crês, mas sim em ti mesmo."
    "A fé e a razão caminham juntas, mas a fé vai mais longe."
    "Tão cegos são os homens, que chegam a vangloriar-se da própria cegueira!"
    "Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um torpe negócio; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade."
    "Aquele que tem caridade no coração, tem sempre alguma coisa para dar."
    "Não é de admirar que a soberba gere a separação, e a caridade, a unidade."
    "O coração delicado sofre menos das feridas que recebe do que das que faz."
    "pecado é amor a si mesmo até o desprezo de Deus."
    "O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo de tua alegria."
    "O que Deus mais odeia depois do pecado é a tristeza, porque nos predispõe ao pecado."
    "O viver em plena felicidade não é próprio desta vida mortal. Só o será quando aparecer a imortalidade... Sem a imortalidade não existe felicidade."
    "Para alcançarmos esta vida feliz, a verdadeira Vida ensinou-nos a orar."
    "Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que disse o Apóstolo: 'Orai sem cessar (1 Ts 5,17)'. Ainda que faças qualquer coisa, se desejas aquele repouso do Eterno Sábado, não cesses de orar. E se não queres cessar de orar, não cesses de desejar."
    "Não há lugar para a Sabedoria onde não há paciência."
    "A Esperança tem duas lindas filhas, a indignação e a coragem; a indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."
    "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."
    "Com a corrupção morre o corpo, com a impiedade morre a alma."


    No século VIII, por força das invasões muçulmanas, seus restos mortais foram levados para Pávia, no norte da Itália, e foram sepultados na Basílica de San Pietro in Ciel d’Oro. Aí, no século XIV, foi-lhes construído um esplendoroso mausoléu.


    Santo Agostinho, rogai por nós!

domingo, 27 de agosto de 2017

Santa Mônica


    Se Santo Agostinho colaborou sobremaneira para a formulação da Teologia, muito se deve à sua Santa mãe.
    Casada com um pagão que se revelou rude, e por vezes agressivo, ela não fazia nenhum mau comentário a seu respeito nem permitia que alguém o fizesse; simplesmente rezava por sua conversão.
    Logo as vizinhas perceberam sua santidade. Como era possível viver em tamanha serenidade diante da embriaguez, violência e declarada infidelidade do marido? Assim se tornou conselheira e referência espiritual em sua comunidade. E tão humilde e tolerante, terminou por tocar profundamente o coração do marido, que abandonou a vida mundana e converteu-se. Tal Graça, porém, destinava-se especificamente a salvar-lhe a alma, pois pouco depois a saúde viria a faltar-lhe, vindo a falecer.
    Uma amargura ainda maior, porém, já lhe apertava o coração. Apesar de sua notória inteligência, Santo Agostinho, então estudante de Retórica e Artes em Cartago, embora não fosse violento tinha tomado o mesmo caminho de vícios e promiscuidade do pai. Teve um filho de união fortuita, tornou-se maniqueísta, a grande heresia de seu tempo, uma seita filosófico-religiosa, e nessa condição voltou à sua terra natal, Tagaste, como professor de Gramática.
    Inicialmente Santa Monica renegou-se a aceitá-lo em casa, mas, tempos depois, voltou atrás. De fato, ela tinha mais um filho e uma filha para educar; não podia pactuar com sua cínica devassidão. E mais uma prova da verdadeira e contagiante devoção dessa senhora foi a opção religiosa que fez a filha, Perpétua, desde cedo. Foi das primeira mulheres a ir viver num mosteiro feminino.
    Contudo, do mesmo modo como agiu com o esposo, Santa Mônica não desistiu de Santo Agostinho. Ao pedir por preces para o filho desencaminhado, ouviu do bispo uma alentadora resposta: "Vá e continue a rezar: é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas."
    Em paralelo, o brilhante professor tornava-se cada vez mais importante entre os estudiosos do Império Romano. Estabeleceu-se em Roma como catedrático em Retórica, e de lá foi a Milão, atraído pela Sabedoria de Santo Ambrósio. Homem de singular inspiração, com absoluta naturalidade este bispo mostrou-lhe o Caminho da Verdade, e Santo Agostinho pediu-lhe o Batismo. Santa Mônica, ao saber de tão esperada Graça, foi o mais rápido a Milão.
    Alguns meses depois, em 387, Santo Agostinho resolve voltar à sua terra, mas, na viagem de volta, aos 56 anos, Santa Mônica morre em Ostia, uma cidade costeira que funcionava como porto de Roma, e foi sepultada na Basílica de Santa Áurea.


     Suas últimas palavras, segundo o próprio Santo Agostinho, foram: "Uma única coisa fazia-me desejar viver ainda um pouco: ver-te cristão antes de morrer."
    Numa das mais belas obras do Catolicismo, o livro 'Confissões', Santo Agostinho faz um belo registro da cristandade de sua Santa mãe, que nos faz lembrar, pelo segundo feito, exatamente o papel de Nossa Mãe Celestial, com a ligeira ressalva de que Maria nos gera para Deus em seu ventre espiritual. Ele diz: "Ela gerou-me; seja na sua carne para que eu viesse à luz do tempo, seja com o seu coração para que eu nascesse à luz da eternidade."
    É a padroeira das mulheres casadas, além de modelo de mulher e viúva cristã.


    Em 1430, seu corpo foi reencontrado e transferido para a Basílica de Santo Agostinho em Roma, construída em homenagem ao seu filho.


    Santa Mônica, rogai por nós!