segunda-feira, 31 de julho de 2017

Santo Inácio de Loyola


    Um orgulhoso soldado levou toda sua determinação para a vida religiosa, e fundou a maior congregação católica do mundo, a Companhia de Jesus, atualmente com 30 mil membros, 500 universidades e 200 mil alunos anuais. A seu tempo, as companhias eram destacamentos militares que levavam o nome de seu capitão, e essa foi a inspiração de Santo Inácio.
    Nascido em 1491, de família nobre, era o mais novo de 13 filhos e foi pajem no palácio do tesoureiro dos reis da Espanha. Por mera vaidade, gostava dos exercícios de guerra e era hábil em montaria e várias armas. Para demonstrar bravura a seus irmãos, vitoriosos numa batalha em Nápoles, alistou-se para a batalha de Pamplona em 1521, contra os franceses, que eram superiores em força. Mas, após alguns combates, um tiro de bombarda feriu-lhe gravemente as pernas.
    Transportado numa liteira, seus ossos começaram a calcificar-se em posições erradas e ao chegar em casa teve que quebrá-los mais uma vez, o que causou-lhe torturantes dores. Teve que passar por um longo período de convalescença, quase 1 ano, porém foi quando verdadeiramente descobriu Deus. Lendo para ocupar o tempo, veio-lhe às mãos 'Vita Christi', de Rodolfo da Saxônia, e a 'Legenda Áurea', de Jacopo de Varazze, que conta a vida dos Santos. Achou então o sentido que sua vida ainda não tinha. Percebendo fortemente a presença de Deus, decidiu-se viajar à Terra Santa para converter os infiéis.
    É nesse período que começa a elaborar seus 'Exercícios Espirituais', uma obra que vai marcar a vida de toda a cristandade. Fugiu da casa de seus pais e foi ao Mosteiro Beneditino de Monte Serrado, em Barcelona, onde se entregou a três dias de Confissão. Era 1522, e ele doou todas suas vestes de nobre a um mendigo, depositou suas armas diante de uma imagem de Nossa Senhora, vestiu-se de saco e foi viver numa caverna próxima ao mosteiro de Manresa, como um mendicante. Fazia severas penitências, participava da Santa Missa todos os dias e rezava o Ofício das Horas. Foi quando teve suas primeiras visões. A caverna, mais tarde, tornou-se lugar de peregrinação e oração.



    Em 1523 partiu finalmente à Terra Santa com seu projeto de salvar almas. Peregrinou pelos lugares sagrados, foi recebido pelos franciscanos em Jerusalém, contudo, dadas as tensões e os conflitos armados da época, não lhe consentiram permanecer lá. Voltando em 1524, foi morar em Barcelona onde estudou latim, prestava assistência espiritual aos carentes e trabalhou na reforma do Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos.
    Foi a Alcalá cursar universidade, mas aí, por causa de suas pregações, foi tido como suspeito de ser um dos 'alumbrados', seita mística e herética que tinha similaridades com o protestantismo, e assim teve que passar pela Inquisição. Chegou a ser preso por um mês e meio, porém foi liberado sob condição de voltar a usar roupas 'descentes'. Três companheiros já lhe seguiam desde Barcelona, e com eles foi ao bispo para explicar-se, encontro que lhes rendeu oportunidade de estudar na Universidade de Salamanca.
    Lá Santo Inácio tornou-se famoso como pregador, mas durante uma confissão num mosteiro dominicano foi tido mais uma vez como suspeito, pois sabia demais sobre Deus sem ter formação reconhecida. Presos, nosso Santo foi visitado pelo vigário do bispo e professor da Universidade, que pediu-lhe o livro 'Exercícios Espirituais' para examinar o conteúdo. Liberados, foram proibidos de pregar até que terminassem os estudos. Era um duro golpe para Santo Inácio, que preferiu ir estudar na França e deixou seus companheiros.


    No mesmo ano, 1528, aos 37 anos, entrou na Universidade de Paris, onde estudou literatura e teologia, e tornou-se mestre em artes. Mas seu principal projeto continuava sendo cativar colegas para abraçar a vida religiosa e praticar seus 'Exercícios Espirituais'. Aí encontrou seis novos companheiros, entre eles São Francisco Xavier, que iria tornar-se o Padroeiro dos Missionários e seria reconhecido como o 'Apóstolo do Oriente'. Com eles, em 1534 nascia a Companhia de Jesus, na igreja de Santa Maria, em Montmartre, e o plano, mais uma vez, era ir a Jerusalém para converter e salvar almas.
    Foram ao Papa Paulo III, em 1537, pedir autorização para viajar e também para serem ordenados sacerdotes, o que aconteceu em Veneza, pelas mãos do Bispo de Arbe. A viagem à Terra Santa, porém, teve que ser esquecida, ao menos temporariamente, porque a guerra entre as cidades italianas e os turcos otomanos havia recrudescido. Enquanto esperavam, por aí trabalhavam ativamente fazendo caridade, socorrendo enfermos e trabalhando em hospitais, além de catequizar.
    Em 1538, percebendo que autoridades de vários países adotavam o protestantismo para minar o poder da Igreja, Santo Inácio foi oferecer seus serviços ao Papa e, no caminho, na Capela La Storta, teve uma revelação: a Companhia de Jesus deveria fixar-se em Roma. O Catolicismo sofria uma forte oposição e a Igreja perdia acesso aos fiéis não apenas na Alemanha, mas também na Áustria, na Polônia, nos Países Baixos, na Escandinávia, na França e até mesmo na Itália.
    Quando eles aí se fixaram e começaram a pregar, tamanho era o desprendimento e a influência que exerciam sobre as classes mais instruídas, que outra vez foram suspeitos de contrariar a Fé Católica. Diziam até que Santo Inácio seria 'fugitivo da Inquisição Espanhola'. Ele mesmo, no entanto, foi ao Papa e pediu-lhe para ser julgado em um novo processo, mas que desta vez fosse tão a fundo que os eximisse em definitivo de qualquer suspeição. O processo foi aberto e todos foram inocentados.
    O Papa Paulo III, percebendo como era muito produtivo o trabalho dos jesuítas, resolveu pedir a Santo Inácio que escrevesse a constituição de sua nova ordem e assim pudesse admitir mais candidatos. Feito isso, em 1540 eles receberam a aprovação papal e, em 1543, após verificada sua eficácia, a congregação foi liberada do limite inicial de apenas 60 membros.
    E logo a Companhia de Jesus começou a trazer de volta para a Igreja os fiéis desviados pelas doutrinas meramente humanas. Na Alemanha, além dos trabalhos marcantes do Beato Pedro Fabro, Cláudio Le Jay e Bobadilha, destacou-se São Pedro Canísio, que recebeu a alcunha de 'martelo dos hereges'. No Concílio de Trento, um dos três mais importantes da Igreja e o mais longo da História, que durou de 1545 a 1563, dois jesuítas, Laynes e Salmeron, sobressaíam-se com brilhantismo.
    Santo Inácio escreveu: "Demos graças a Deus por sua inefável misericórdia e piedade, tão copiosamente derramada em nós por Seu Glorioso Nome. Porque muitas vezes me comovo quando ouço e em parte vejo o que me dizem de vós e de outros chamados à nossa Companhia em Cristo Jesus."


    Com a descoberta das Américas, novos desafios surgiam e para cá eram mandados também os jesuítas. Ao Brasil chegaram, só para lembrar alguns, o Padre Manoel da Nóbrega, o 'irmão Anchieta', que aqui seria ordenado e se tornaria Santo, e mais tarde o célebre Padre Antonio Vieira.
    Para as terras da Índia, China e Japão foi enviado São Francisco Xavier, que vez em quando dizia a seus amigos: "O Padre Inácio é um grande santo." São Francisco de Borja, mais um santo jesuíta cativado por Santo Inácio, também o venerava ainda em vida.
    Em Roma eles catequizavam crianças, esforçavam-se para converter judeus e fundaram a conhecida casa de Santa Marta, onde acolhiam prostitutas, jovens e órfãos. Em 1551 criaram o Colégio Romano, onde ensinavam de graça e tempos depos viria a ser a Pontifícia Universidade Gregoriana, pelo apoio especial que teriam do Papa Gregório XIII.
    Considerando os riscos de administrar uma congregação tão grande, em 1554 Santo Inácio escreve as Constituições Jesuítas, que reforçaram sua hierarquia e o compromisso absoluto de obediência ao Papa. O lema da Companhia de Jesus passou a ser: Ad Majorem Dei Gloriam (Para Maior Glória de Deus).
    O próprio Santo Inácio, por esses anos, nada mais fazia pensando em si. Era puro servo de Deus. Dormia 4 horas e trabalhava todos os dias, o dia todo. Por severos jejuns, sofria muitas dores gástricas, mas delas não fazia caso. Morreu em 1556, aos 65 anos, quando os jesuítas já tinham 35 colégios, 110 casas, 13 províncias e aproximadamente 1000 religiosos.
    Foi sepultado na Igreja de Jesus, em Roma, onde lhe consagraram uma bela Capela.
    Em 1929, o Papa Pio XI estabeleceu um retiro anual para a prática dos 'Exercícios Espirituais' de Santo Inácio, a serem ministrados ao próprio Papa e à Cúria Romana, que raras vezes deixou de acontecer. Mais tarde, o Papa Paulo VI mudou o período desses retiros, do Advento para a Quaresma.
    Santo Inácio teve o grande dom de fazer com que os cristãos compreendessem melhor o Catolicismo.


    Santo Inácio de Loyola, rogai por nós!

domingo, 30 de julho de 2017

São Pedro Crisólogo


    Foi um dos maiores pregadores da Igreja, amado tanto pelo povo como pela imperatriz romana e seus filhos, entre eles o futuro imperador Valentiniano III. Crisólogo significa 'palavra de ouro', dada sua facilidade de comunicar o Catecismo e conforto às almas que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Escreveu 176 sermões, onde explica de modo simples os assuntos mais complicados da Doutrina da Igreja.
    Nasceu em Imola, província de Ravena, Itália, em 380. Seus pais eram fervorosos católicos e ainda jovem ele foi ordenado diácono. Esteve sob os cuidados de Cornélio, Bispo de Imola, a quem chamava de pai. Em 424, embora não fosse necessário, a imperatriz, que já o tinha como conselheiro pessoal, empenhou-se pessoalmente para que ele fosse indicado ao cargo de Arcediácono de Ravena, que nesta época era a capital do Império Romano.
    Em 433, Valentiniano III também usou de sua influência para ele fosse indicado Arcebispo de Ravena, mas isso já era um clamor popular e ele acabou consagrado pessoalmente pelo Papa Sisto III. Pudera, ninguém menos que São Pedro havia aparecido em sonho ao Papa, exclusivamente para indicar São Pedro Crisólogo para o arcebispado.
    Eram tempos difíceis para o Império Romano: godos, vândalos e hunos sitiavam cidades italianas e promoviam grandes flagelos. E após três séculos de resistência e martírios para estabelecer-se contra as perseguições do próprio Império Romano, a Igreja via-se mais uma vez ameaçada. Não bastasse o perigo das guerras, impiedosos 'cristãos' atiravam-se na aventura das mais insanas teorias, burlando a Doutrina e desrespeitando a inspiração do Espírito Santo, que sempre se fez perceber tanto pela comunhão espiritual vivida pela Igreja como pelo voto da maioria nas decisões dos Concílios.
    Precisamente por esses anos, fantasiosos teólogos inventavam tresloucadas heresias a respeito da natureza de Jesus. O Primeiro Concílio de Éfeso, em 431, onde brilhou a notavelmente inspirada Sabedoria de São Cirilo, Patriarca de Alexandria, já havia aceito por ampla maioria que Jesus tinha misteriosamente duas naturezas: humana e divina. Acolhendo as manifestações de Deus exatamente como elas se deram, ao mesmo tempo que refutando grosseiras simplificações e reduções, o Concílio reconheceu que não havia mais iluminada conclusão para a compreensão do Cristo: Ele é totalmente Deus e, ao mesmo tempo, totalmente humano.


    Pouco tempo antes caíra por terra a heresia de Nestório, que dizia que as duas naturezas de Jesus só vagamente relacionavam-se. Mas Eutiques, um alto sacerdote de Constantinopla, após vários acertos e acordos entre os bispos daquela região, imprudentemente insurgiu com a heresia de que as duas naturezas de Jesus haviam se fundido numa só. E começou a divulgá-la, mesmo depois de ter recebido uma belíssima carta do Papa São Leão Magno, na qual lhe explicou magistralmente a Encarnação do Verbo. É de São Pedro Crisólogo a célebre frase: "Pedro fala por Leão", referindo-se a São Pedro Apóstolo e ao Papa Leão Magno. E de fato, as decisões do Concílio da Calcedônia, em 451, mais uma vez vão confirmar os entendimentos reconhecidos pelo Concílio de Éfeso de 431.
    Sabendo da inteligência e da importância de São Pedro Crisólogo para a Igreja, Eutiques escreveu-lhe uma carta, tentando convencê-lo de sua heresia. Recebeu, no entanto, uma inspirada resposta, a qual, se tivesse bom senso, teria acolhido e posto de lado suas mal fadadas ideias. Escreveu-lhe o Prelado de Ravena: "Li tristemente tua triste carta, e percorri com grande aflição teus torturantes escritos. Porque, como a paz das igrejas, a concórdia dos sacerdotes e a tranquilidade do povo nos enchem de satisfação, duma alegria toda celeste, assim a divisão dos irmãos nos aflige e nos deprime, sobretudo quando com semelhantes causas... disputa-se temerariamente sobre a geração do Cristo, que a divina lei nos propôs como inexplicável. Tu não ignoras a que desvairamentos foi atirado Orígenes procurando os princípios, e Nestório disputando naturezas... Nós te exortamos, irmão honorável, a que te submetas ao que foi escrito pelo bem-aventurado Papa de Roma: porque São Pedro, que vive e preside na Cátedra, dá a verdade de fé aos que a procuram. Quanto a nós, afeiçoados que somos pela paz e pela , não podemos interpretar as causas da fé sem o consentimento do Bispo de Roma."


    Seus ensinamentos sobre a vida piedosa valem não apenas para a gente humilde, a quem ele se dedicava na maior parte do tempo, mas certamente a todos que perderam as referências de uma vida verdadeiramente espiritual: "A oração é uma das três coisas que sustentam a fé. As outras duas são o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum obtém e a misericórdia recebe. Unidos, a oração, o jejum e a misericórdia, tudo podem. O jejum é a alma da oração, e a misericórdia a vida do jejum. Não os separeis jamais. Quem um não tiver, nenhum dos três terá; donde se segue que quem ora deve jejuar, e quem jejua deve exercer obras de misericórdia."
    Um dos mais ilustres bispos de seu tempo, São Germano de Auxerre, que havia percebido a vocação de Santa Genoveva e apadrinhado São Patrício, foi visitar-lhe em Ravena no ano de 448, para desfrutar um pouco de sua santidade. Mas aí se deu outra vontade de Deus: carinhosamente acolhido por São Pedro Crisólogo, este grande santo foi acometido de uma enfermidade e morreu docemente sob seus cuidados.
    O Sermão 30 é uma de suas obras mais conhecidas:
    "'Ele come com publicanos e pecadores!'
    Deus é acusado de vergar-se ao homem, de sentar-se perto do pecador, de ter fome da sua conversão e sede do seu regresso, de tomar o alimento da misericórdia e o cálice da benevolência.
    Mas Cristo, meus irmãos, veio a esta refeição; a Vida veio ao seio de seus convidados para que, condenados à morte, vivam com a Vida; a Ressurreição prostrou-se para que aqueles que jaziam se levantem de seus túmulos; a Bondade baixou-se para elevar os pecadores até ao perdão; Deus veio ao homem para que o homem chegue até Deus; o Juiz veio à refeição dos culpados para desviar a humanidade da sentença de condenação; o Médico veio aos doentes para restabelecê-los comendo com eles; o Bom Pastor inclinou o ombro para trazer a ovelha perdida ao aprisco da salvação.
    'Ele come com publicanos e pecadores!'
    Mas quem é pecador, senão aquele que recusa ver-se como tal? Não será afundar-se em seu pecado e, a bem dizer, identificar-se com ele, o deixar de reconhecer-se pecador? E quem é injusto, senão aquele que se acha justo?…
    Vamos, fariseu, confessa teu pecado, e poderás vir à mesa de Cristo; Cristo, por ti, far-Se-á pão, esse pão que será partido para o perdão de teus pecados; Cristo tornar-Se-á, por ti, no cálice, esse cálice que será derramado para a remissão de tuas faltas.
    Vamos, fariseu, compartilha da refeição dos pecadores, e Cristo compartilhará de tua refeição; reconhece-te pecador, e Cristo comerá contigo; entra com os pecadores no festim do Teu Senhor, e poderás deixar de ser pecador; entra com o perdão de Cristo na casa da misericórdia."

    É do trabalho de São Pedro Crisólogo a construção do Mosteiro de Classe, uma pequena cidade próxima à sua diocese. Em Ravena, propriamente, ele construiu uma igreja em homenagem a Santo André, e outra a São Pedro, a quem tinha como padrinho.
    Em 451, sentindo que chegava sua hora, pediu dispensa do bispado e retornou a Imola, onde havia iniciado sua vida sacerdotal. No dia seguinte á sua chegada, rezou a Santa Missa pela manhã na igreja de São Cassiano, e aos fiéis pediu para ser enterrado ali, perto do altar. Ao meio-dia, morreu serenamente.
    São Pedro Crisólogo foi reconhecido como Doutor da Igreja.


    São Pedro Crisólogo, rogai por nós!

sábado, 29 de julho de 2017

Santa Marta


    "Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-Lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse:
    - Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.
    Respondeu-lhe o Senhor:
    - Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que não lhe será tirada." Lc 10,38

    Nesta cena São Lucas retrata o lado ativista de Santa Marta, que se apega demasiadamente ao trabalho e esquece a vida espiritual. Mas foi o generoso coração dessa mulher que viu em Jesus uma pessoa a ser acolhida em casa e na alma. Ela abriu-Lhe a porta porque O havia visto pregando, e foi tocada por Sua Palavra. Tal acolhimento será digno de afortunada recompensa, como disse Jesus: "Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de justo, receberá uma recompensa de justo." Mt 10,41
    E Ele mesmo prometeu às igrejas através de São João Evangelista: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a Minha voz e Me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20
    Não resta dúvida, pois, que nossa Santa quis dar uma boa refeição a Jesus e Seus Apóstolos. E, de fato, não era pouco trabalho: eram ao menos 13 pessoas. Sua irmã Maria, entretanto, não queria parar de ouvi-Lo. Estava encantada, e com toda razão. Disse São João Evangelista: "... a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    Disse também o soldado romano: "Respondeu o centurião: 'Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.'" Mt 8,8
    Disseram ainda os guardas do sumo sacerdote, que foram enviados para aprender Jesus mas voltaram sem Ele: "Ninguém jamais falou como este homem!..." Jo 7,46
    Assim como São Pedro: "Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as Palavras da Vida Eterna.'" Jo 6,68

    E é Santa Marta, como consta do quarto Evangelho, que vai fazer uma declaração de suma importância para o perfeito reconhecimento da Divindade de Jesus. De fato, tal e qual ela declarou, prova de sua inspiração divina, só São Pedro havia afirmado: '... Tu és o Cristo...' Mt 16,16

    "Ora, havia um doente, Lázaro, de Betânia, povoado de Marta e de Maria, sua irmã. Suas irmãs mandaram, pois, dizer a Jesus:
    - Senhor, aquele que Tu amas está enfermo.
    A estas palavras, disse-lhes Jesus:
    - Esta enfermidade não causará a morte, mas tem por finalidade a Glória de Deus. Por ela será glorificado o Filho de Deus.
    Ora, Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro. Mas, embora tivesse ouvido que ele estava enfermo, demorou-Se ainda dois dias no mesmo lugar. À chegada de Jesus, já havia quatro dias que Lázaro estava no sepulcro. Mal soube Marta da vinda de Jesus, saiu-Lhe ao encontro. Maria, porém, estava sentada em casa. Marta disse a Jesus:
    - Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá.
    Disse-lhe Jesus:
    - Teu irmão ressurgirá.
    Respondeu-Lhe Marta:
    - Sei que há de ressurgir na Ressurreição no Último Dia.
    Disse-lhe Jesus:
    - Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim, jamais morrerá. Crês nisto?
    Respondeu ela:
    - Sim, Senhor. Eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, Aquele que devia vir ao mundo.
    - Onde o pusestes?
    Responderam-Lhe:
    - Senhor, vinde ver.
    Jesus pôs-Se a chorar. Observaram então os judeus:
    - Vede como Ele o amava!
    Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra. Jesus ordenou:
    - Tirai a pedra.
    Disse-Lhe Marta, irmã do morto:
    - Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí...
    Respondeu-lhe Jesus:
    - Não te disse Eu: Se creres, verás a Glória de Deus?
    Tiraram, pois, a pedra. Levantando Jesus os olhos ao alto, disse:
    - Pai, rendo-Te graças, porque Me ouviste. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas assim falo por causa do povo que está em roda, para que creiam que Tu Me enviaste.
    Depois destas palavras, exclamou em alta voz:
    - Lázaro, vem para fora!
    E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou então Jesus:
    - Desligai-o e deixai-o ir.
    Muitos dos judeus, que tinham vindo a Marta e Maria e viram o que Jesus fizera, creram n'Ele." Jo 11,1.3-6.17.20-27.34-36.38-45


    São João Evangelista conta mais uma importante visita de Jesus à casa de Marta. É quando Santa Maria de Betânia, sua irmã, vai lavar os pés do Salvador com um caro perfume e enxuga-os com os cabelos. E lá está Santa Marta mais uma vez ocupada em servi-Lo. Desta vez, porém, certamente sem deixar de ouvi-Lo:

    "Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus a Betânia, onde vivia Lázaro, que Ele ressuscitara. Deram ali uma ceia em Sua honra. Marta servia e Lázaro era um dos convivas. Tomando Maria uma libra de bálsamo de nardo puro, de grande preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-os com seus cabelos. A casa encheu-se do perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos Seus discípulos, aquele que O havia de trair, disse:
    - Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?
    Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam. Jesus disse:
    - Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia do Meu sepultamento. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a Mim nem sempre Me tereis." Jo 12,1-8

    Uma tradição muito antiga relata que Santa Marta, Santa Maria e São Lázaro teriam deixado Israel, fugindo dos judeus de Jerusalém, e instalaram-se na França. De fato, São João Evangelista mesmo relata: "Mas os príncipes dos sacerdotes resolveram tirar a vida também a Lázaro, porque muitos judeus, por causa dele, afastavam-se e acreditavam em Jesus." Jo 12,10-11
    Na comuna de Tarascon, no sudeste da França, próximo a Avignon e à fronteira com a Itália, mesma região onde refugiou-se Santa Maria Madalena, no lugar de um antigo edifício que protegia a sepultura de Santa Marta foi construída uma igreja no século XI em sua homenagem, em cuja cripta depuseram seus restos mortais. Ela é venerada pela Igreja como a padroeira das cozinheiras e das donas de casa.



    Santa Marta, rogai por nós!

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Jesus Submisso


    É comum ver pessoas formulando ideias sobre Jesus. Na verdade, são muitas especulações e a imaginação vai longe. Mas é preciso ater-se a uma base confiável, e os únicos registros realmente sérios de que se dispõe são os Evangelhos. Apócrifos existem vários, e muito mais são as interpretações que dão aos fatos. Por isso a Igreja, desde os primórdios, guiada pelo Espírito Santo e representada pelos Apóstolos e seus Bispos, tudo estudou e decidiu-se em favor do que havia de mais fiel e plausível. E o que ficou foram os 4 livros que conhecemos, como bem relatou Santo Irineu que viveu no século II, ou, ainda antes dele, atestam os escritos de São Policarpo, que foi discípulo de São João Evangelista.
    Ora, o próprio São Lucas registrou em suas primeiras palavras essa variedade de escritos dos que tentaram apossar-se da História: "Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós..." Lc 1,1
    Com isso, entre interpretações fantasiosas e os livros realmente inspirados, muitos detalhes de suma importância foram e são perniciosamente deturpados. A imagem de um Jesus dado a liberalidades espirituais e revolucionário sob aspectos sociológicos, por exemplo, não passa de vão devaneio, pois o que de fato se tem é que Ele foi fidelíssimo à religião judaica até o último suspiro. Conforme o registro de São Mateus, Ele mesmo afirmou: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição." Mt 5,17
    Isso claramente mostra que Ele não era um radical reformador, mas o aperfeiçoador por excelência. Numa palavra, Ele é o Salvador anunciado nas Escrituras, que veio decisivamente cumprir as profecias, como disse aos religiosos de Jerusalém: "Vós perscrutais as Escrituras julgando nelas encontrar a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Disse mais, referindo-Se ao grande líder do judaísmo: "Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito." Jo 5,46
    Ou ainda sobre o grande patriarca dos judeus: "Respondeu Jesus: 'Se glorifico a Mim mesmo, Minha glória não é nada; Meu Pai é Quem Me glorifica, Aquele que dizeis ser Vosso Deus e, no entanto, não O conheceis. Eu, porém, conheço-O e, se dissesse que não O conheço, seria mentiroso como vós. Mas conheço-O e guardo Sua Palavra. Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver Meu Dia. Viu-o e ficou cheio de alegria." Jo 8,54-56


VIDA HUMILDE

    Por tão expressivo vínculo, enquanto mero ser humano Jesus viveu a total submissão aos desígnios de Deus, e entre eles, claro, os preceitos do próprio Antigo Testamento. São Paulo diz o motivo: "... a fim de que Ele seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29b
    E assim desde o Nascimento, que se deu na mais humilde pobreza como afirma São Lucas: "E deu à luz Seu filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O numa manjedoura; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,7
    Na Carta aos Gálatas, São Paulo anotou Sua estrita condição de judeu: "... Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei..." Gl 4,4
    E São José e Nossa Senhora, não obstante a perseguição perpetrada por Herodes, cumpriram com Ele todas as obrigações da Lei, desde a circuncisão: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno." Lc 2,21
    São Lucas também narrou a purificação de Nossa Mãe Santíssima e a Apresentação do Menino Jesus no Templo, tudo feito conforme a Lei: "Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor..." Lc 2,22
    E a julgar pela da Santíssima Virgem, muito bem expressa no Magnificat, podemos imaginar a criação que Santa Ana, sua mãe, havia-lhe dado. Apesar de muito jovem, com perfeito conhecimento da Graça e inspirada pelo Divino Paráclito, ela canta a Deus proclamando Sua justiça para com os humildes, que se curvam à Sua vontade: "Manifestou o poder do Seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos." Lc 1,51-53
    Ela mesma havia dado mostra de submissão a Deus, quando respondeu ao Arcanjo Gabriel no dia da Anunciação: "Então disse Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.'" Lc 1,38a
    A Sagrada Família, portanto, era perfeitamente religiosa e fiel cumpridora dos preceitos judaicos, como a Páscoa: "Tendo Ele atingido 12 anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa." Lc 2,42
    Nesse episódio, porém, quando Jesus foi reencontrado no Templo em Jerusalém, Ele já sinalizava desde a adolescência para uma obediência que iria muito além da maternidade de Santa Maria e da paternidade legal de São José: "Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?" Lc 2,49
    Mas retornou com eles, e obedecia-lhes em tudo: "Em seguida, desceu com eles a Nazaré e era-Lhes submisso." Lc 2,51
    Algumas correntes de pensamento aventam-se a atribuir outras histórias aos chamados 'anos ocultos da vida de Jesus'. Mas isso é tão somente malícia, ranço de mentirosos. Com efeito, ainda no início de Sua vida pública, o próprio povo de Nazaré reconhece-O e revela com transparente clareza qual era Sua ocupação, ou seja, a vida que Ele sempre levou. São Marcos registrou: "Não é Ele o carpinteiro?" Mc 6,3
    De fato, Maria, que enviuvou cedo, não tinha quem a sustentasse senão Jesus, pois não tinha outros filhos. E Ele, Filho amoroso e obediente à Lei judaica, assumiu o trabalho na carpintaria logo após a morte de São José, pois assim manda o quarto Mandamento da Lei de Deus: "Honra teu pai e tua mãe..." Ex 20,12
    E as relações de Jesus com Seu pai terreno também eram permeadas de amor e respeito. Tanto que, ao começar a pregar, Ele foi amplamente reconhecido pelo povo da Galileia por Sua intimidade com São José: "Não é este o filho do carpinteiro?" Mt 13,55
    Aliás, foi assim que os primeiros Apóstolos O identificaram, logo após ser batizado por São João Batista: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José." Jo 1,45


    Antes de iniciar Sua Missão, ademais, Jesus também Se submeteu ao Batismo feito pelo último Profeta do Antigo Testamento, como Ele mesmo vai atestar: "A Lei e os Profetas duraram até João." Lc 16,16
    Tanto que São João Batista estranhou Seu gesto, mas logo o acatou porque Jesus alegou que assim se estava cumprindo a justiça, ou seja, a Lei: "João recusava-se: 'Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim!' Mas Jesus lhe respondeu: 'Deixa por agora, pois convém que cumpramos a justiça completa.' Então João cedeu." Mt 3,14-15
    Sem dúvida, o sacerdote Zacarias havia profetizado nestes termos a missão de seu filho, São João Batista: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    E foi exatamente isso que fez o Batista, tomando Confissão e pregando a penitência: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus'. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. E confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,1-2.5-6
    Aliás, foi o que fez o próprio Cristo desde o início de Sua vida pública: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    E enquanto fazia Suas pregações, os Apóstolos também ministravam o batismo instituído por São João Batista, isto é, demandando prévia confissão de pecados: "Em seguida, foi Jesus com os Seus discípulos para os campos da Judeia, e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Assim também ordenou os Apóstolos, após instituí-los: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois, e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos. Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E depois de ressuscitar, explicou-lhes o sentido de Sua Missão, pedindo que eles seguissem com essa prática depois de Sua Ascensão aos Céus: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém." Lc 24,46-47
    Em Seu Batismo, no entanto, Jesus não demonstrou apenas reverência à vocação de São João Batista, mas principalmente condescendência com a condição humana de todo povo, juntando-Se a reconhecidos pecadores que iam até ele. E foi essa humildade que Ele cobrou dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos: "João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para nele crerdes." Mt 21,32
    Com efeito, o Profeta Isaías havia previsto a humildade com que o Salvador Se manifestaria: "Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas." Is 42,1
    E Jesus mesmo o confirmou: "Pois desci do Céu não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 6,38
    Ele tinha como nada Sua condição humana: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em verdade, em verdade vos digo: o Filho de Si mesmo não pode fazer coisa alguma; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as Suas próprias obras.'"Jo 5,19a;14,10b
    Ensinou-nos a agir assim: "E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica o Senhor devendo-lhe alguma obrigação? Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 17,9-10
    Pregava abertamente: "Em seguida, dirigiu-se a todos: 'Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua Cruz e siga-Me. Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor a Mim, salvá-la-á.'" Lc 9,23-24
    Por isso instou-nos a pedir no Pai Nosso: "... seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no Céu." Mt 6,10b
    Pois como São Paulo escreve aos romanos, nós sequer sabemos pedir: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis." Rm 8,26
    E era exatamente por obedecer à Lei com absoluta fidelidade que Jesus era respeitado pelo povo: "Maravilhavam-se da Sua Doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas." Mc 1,22
    Atento às práticas religiosas, Ele frequentava as casas de oração desde criança e manteve esse hábito durante Suas pregações enquanto pôde, a começar por Seu lugar de origem: "Dirigiu-se a Nazaré, onde Se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o Seu costume, e levantou-Se para ler." Lc 4,16
    São Mateus também anota Sua preferência pelos lugares apropriados para o culto desde Sua região natal: "Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas..." Mt 4,23
    E assim também se deu em todo Israel: "Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade." Mt 9,35
    Como vimos, desde a infância em companhia de Sua família, Jesus ia anualmente ao Templo de Jerusalém. E Ele mesmo deu testemunho dessa prática religiosa diante de Pilatos: "Jesus respondeu-lhe: 'Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no Templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.'" Jo 18,20
    Ora, Ele respeitava e atendia aos pedidos dos chefes das sinagogas, como no caso da ressurreição da filha de Jairo: "Chegando à casa do chefe da sinagoga, viu Jesus os tocadores de flauta e uma multidão alvoroçada." Mt 9,23
    E guardava os Sábados: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar." Mc 1,21
    

DE SEU SAGRADO CORAÇÃO PARA NOSSA ALMA

    Era por corresponder piamente aos preceitos do Pai, portanto, que Jesus Se apresentava como exemplo a ser seguido: "De Mim mesmo não posso fazer coisa alguma. Julgo como ouço; e o Meu julgamento é justo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou. Em verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo Me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar. A Palavra que tendes ouvido não é Minha, mas sim do Pai que Me enviou." Jo 5,30;12,49;14,24b
    E Deus Pai mesmo atestou Sua fidelidade, como registrou São Mateus no dia de Sua Transfiguração: "E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: 'Eis Meu Filho muito amado, em Quem pus toda Minha afeição; ouvi-O.'" Mt 17,5b
    Por isso Jesus vai dizer: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas." Mt 11,29
    Pois mesmo sendo o Messias, Ele entrou em Jerusalém montado num jumentinho: "Conduziram a Jesus o jumentinho, cobriram-no com seus mantos, e Jesus montou nele. Muitos estendiam seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão. Tanto os que precediam como os que iam atrás clamavam: 'Hosana! Bendito o que vem em Nome do Senhor!'" Mc 11,7-9
    E assim Ele pregava a Apóstolos, que iriam liderar a Igreja, o estado de total servidão: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua Vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25-28
    Deixou, por fim, um exemplo de prática de caridade: "Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei vossos pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros." Jo 13,14
    Como exemplo de prática de piedade, Jesus sempre rezava intensa e frequentemente: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus." Lc 6,12
    E chegando a hora de Sua Paixão, Ele rezou também por nós. Para que, através de Sua Palavra confiada aos Apóstolos, nós abraçássemos com igual humildade, sem dissoluções nem intrigas, a Unidade da Igreja, que é o sustentáculo da Verdade: "Santifico-Me por eles para que também eles sejam santificados pela Verdade. Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,19-21
    Rezou ainda mais uma vez pouco antes de ser preso, pedindo ao Pai que Lhe afastasse tamanho sofrimento. Mas já Se mostrava resignado, sempre Se submetendo, não importando quão difíceis, aos projetos do Pai: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, a Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    Essa disposição em abraçar a Cruz havia sido predita pelo Profeta Isaías: "... porque Ele próprio deu Sua vida, e deixou-Se colocar entre os criminosos, tomando sobre Si os pecados de muitos homens e intercedendo pelos culpados." Is 53,12
    Enfim, além de perfeitamente obediente, Jesus não fez nada às ocultas como pretendem alguns fantasiosos. Ele havia escolhido 12 Apóstolos e deixou-Se seguir por muitos discípulos justamente para que eles fossem testemunhas de Suas palavras e obras, como afirmou pouco antes de Sua Ascensão: "Vós sois as testemunhas de tudo isso." Lc 24,48
    Ele nada ocultou de Sua Doutrina, nem mesmos os assuntos mais difíceis, que explicava primeiro aos Apóstolos: "O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados!" Mt 10,27
    E assim, pedindo pela integridade da Boa Nova e garantindo Sua divina assistência, Ele ordenou aos Apóstolos que retransmitissem Seus ensinamentos. Estas foram Sua últimas, segundo São mateus: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,19-20
    Foi precisamente isso o que registrou São Lucas em seu Evangelho: "... contei toda a sequência das ações e dos ensinamentos de Jesus..." At 1,1
    Aliás, também São João Evangelista: "... o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais Comunhão conosco. Ora, a nossa Comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    E falando sobre humildade, Jesus antecipou-nos o critério que usará no Seu Dia: "Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado." Mt 23,12
    Por isso, para São Tiago Menor não restava dúvida: "Sede submissos a Deus. Resisti ao demônio, e ele fugirá para longe de vós. Aproximai-vos de Deus, e Ele Se aproximará de vós." Tg 4,7-8a
    E pedia o constante exercício da Confissão: "Confessai os vossos pecados uns aos outros..." Tg 5,16a
    São Paulo dizia algo parecido: "Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo." Ef 5,21
    Ele advertia da necessária prática religiosa: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    Aliás, foi um colaborador seu, Epafras, que deu mostras da mais pura fé, como ele fez constar na Carta aos Colossenses: "Ele não cessa de lutar por vós em suas orações, para que, numa perfeita e plena convicção, permaneçais plenamente submissos à vontade divina." Cl 4,12b
    Regulando os cultos de então, rudimentos da nossa Santa Missa, o Santo de Tarso pedia absoluta sobriedade aos sacerdotes, através da estrita observância da Doutrina: "Todos, um após outro, podeis profetizar, para todos aprenderem e serem todos exortados. O espírito dos Profetas deve estar-lhes submisso, porquanto Deus não é Deus de confusão, mas de Paz." 1 Cor 14,31-33
    E faz lembrar: "Se, no entanto, alguém quiser contestar, nós não temos tal costume e nem as igrejas de Deus." 1 Cor 11,16
    Lamentava-se pelos judeus, seu povo, por não acolherem Jesus: "Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento. Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque a finalidade da Lei é Cristo, para a justificação de todo aquele que crê." Rm 10,2-4
    Lembrando a humildade do Salvador, ele recomenda: "Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus. Fazei como eu: em todas as circunstâncias procuro agradar a todos. Não busco os meus interesses próprios, mas os interesses dos outros, para que todos sejam salvos. Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo." 1 Cor 10,32-33;11,1
    E prega: "Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros. Dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Cristo Jesus. Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz. Por isso Deus exaltou-O soberanamente e outorgou-Lhe o Nome que está acima de todos os nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no Céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a Glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor." Fl 2,3-11
    Ficam, portanto, as palavras de São João Batista: "Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,8

    "Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo! Como era no princípio, agora e sempre. Amém!"