domingo, 30 de abril de 2017

O Espírito de Cristo


    São Pedro disse sobre São Paulo: "Reconhecei que vos é salutar a longa paciência de Nosso Senhor, como vos escreveu também vosso caríssimo irmão Paulo, segundo o dom de Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas, nas quais fala destes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras." 2 Pd 3,15-16

    Extrato da Carta de São Paulo ao Romanos:

    "A lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela Lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito. Os que vivem segundo a carne gostam do que é carnal; os que vivem segundo o espírito apreciam as coisas que são do espírito.
    Ora, a aspiração da carne é a morte, enquanto a aspiração do espírito é a Vida e a Paz. Porque o desejo da carne é hostil a Deus, pois a carne não se submete à Lei de Deus, e nem o pode. Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus.
    Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele. Ora, se Cristo está em vós, o corpo, em verdade, está morto pelo pecado, mas o espírito vive pela justificação. Se o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a Vida aos vossos corpos mortais, pelo Seu Espírito que habita em vós.
    Portanto, irmãos, não somos devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. De fato, se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras da carne, vivereis, pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o Espírito de adoção pelo qual clamamos: 'Aba!', Pai!
    O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, contanto que soframos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.
    Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a Glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia.
    Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo. Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos.
    De toda forma, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos. E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o Qual intercede pelos Santos, segundo Deus. Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os Seus desígnios.
    Que diremos depois disso? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou Seu próprio Filho, mas que O entregou por todos nós, como não nos dará também com Ele todas as coisas? Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus Quem os justifica. Quem os condenará? Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é Quem intercede por nós! Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?
    Está escrito: 'Por amor de Ti somos entregues à morte o dia inteiro; somos tratados como gado destinado ao matadouro (Sl 43,23)'. Mas, em todas essas coisas, somos mais que vencedores pela virtude d'Aquele que nos amou. Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, Nosso Senhor." Rm 8,2-28.31-39


O PENSAMENTO DE CRISTO

     Após ensinar o Pai Nosso, falando sobre a 'força' que nos move tanto para o perdão como para a caridade, Jesus explicou: "Portanto, Eu lhes digo: peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,9-10.13
    Ao acusar o Sinédrio pelo Sacrifício de Cristo, São Pedro esclareceu como se dá a aquisição desse dom: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    E consagrando a importância da obediência sob todos os aspectos, ele explicou também a finalidade desta unção, dizendo que somos "... santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2a
    Inspiradamente, Santo Estevão não acusa do Sinédrio de desobedecer a Deus, mas em específico às moções do Divino Paráclito: "Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam os vossos pais, assim procedeis vós também! A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram os que prediziam a Vinda do Justo, do Qual vós agora tendes sido traidores e homicidas." At 7,51-52
    Como no trecho acima, da carta aos romanos, onde sustenta que só pelo Espírito de Cristo nos é possível vencer o pecado, São Paulo fala nestes termos a São Tito sobre o amor de Deus: "E não por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de Sua Misericórdia, Ele salvou-nos mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, Nosso Salvador. " Tt 3,4.5-6
    São João Batista disse o mesmo sobre esse dom, ao testemunhar a unção de Deus sobre Jesus: "... porque Ele concede o Espírito sem medidas." Jo 3,34
    Pois, como afirma São Lucas, foi através do Divino Paráclito que Jesus instruiu os Apóstolos: "... todas as coisas que Jesus fez e ensinou, desde o início até o dia que foi arrebatado aos Céus, depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera." At 1,1b-2
    São João Evangelista também O tinha como parâmetro a obediência: "Eis o Seu Mandamento: que creiamos no Nome do Seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, como Ele nos mandou. Quem observa os Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,23-24
    Ele dá esses detalhes: "Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo Se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo. Vós, filhinhos, sois de Deus, e os vencestes, porque O que está em vós é maior do que aquele que está no mundo. Eles são do mundo. É por isto que falam segundo o mundo, e o mundo os ouve. Nós, porém, somos de Deus. Quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o Seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos n'Ele e Ele em nós, por Ele nos ter dado o Seu Espírito." 1 Jo 4,2-6.12b-3
    Aos coríntios, São Paulo fala d'Ele como a garantia da Eterna Aliança: "Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é o próprio Deus, que nos deu por penhor o Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança: sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor." 2 Cor 5,4-6
    E discorrendo sobre o Mistério de Cristo aos efésios, fala de Seu Espírito como um selo: "N'Ele também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13-14
    Aliás, como ele havia dito aos próprios coríntios: "Ora, Quem confirma a nós e a vós em Cristo, e nos consagrou, é Deus. Ele marcou-nos com o Seu selo e deu aos nossos corações o penhor do Espírito." 2 Cor 1,21-22
    E só por Ele temos a Comunhão: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    De fato, "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17b
    Falando sobre a Sabedoria, o autor sagrado deu d'Ele este conceito: "Há nela, com efeito, um Espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo, que penetra em todos os espíritos, os inteligentes, os puros, os mais sutis." Sb 7,22-23
    Como inequívoco sinal de Deus para Israel, Ele manifestou-Se em Ezequiel: "'Filho do Homem', dizia-me, 'fica de pé, porque Eu te falo!' Enquanto Ele me falava, entrou o Espírito em mim, e fez-me ficar de pé; então ouvi Aquele que me falava. 'Filho do Homem', dizia-me, 'envio-te aos israelitas, a essa nação de rebeldes, revoltada contra Mim, a qual, do mesmo modo que seus pais, vem pecando contra Mim até este dia. É a esses filhos de testa dura e de coração insensível que te envio, para lhes dizer: 'Oráculo do Senhor Javé!' Quer te ouçam ou não (pois é uma raça indomável), hão de ficar sabendo que há um profeta no meio deles!" Ez 2,2-5
    E Isaías profetizou-O como a marca do Cristo: "Um renovo sairá do tronco de Jessé, e um rebento brotará de suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor." Is 11,1-2


    Extrato da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

    "É como está escrito: 'O que os olhos não viram, os ouvidos ouviram (Is 64,3), e o coração do homem não imaginou (Jr 3,16), isso Deus preparou para aqueles que O amam (Eclo 1,10).'
    Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus. Pois quem conhece as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus, ninguém as conhece senão o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais.
    Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. 'Quem instruiu o Espírito do Senhor ou que conselheiro Lhe deu lições (Is 40,13)?' Nós, porém, temos o pensamento de Cristo." 1 Cor 2,9-16


    "Mandai Vosso Espírito Santo!"

sábado, 29 de abril de 2017

Santa Catarina de Sena


    Filha de religioso tintureiro da Toscana, de vinte e quatro filhos a caçula, aos 7 anos consagrou sua virgindade a Cristo e aos 15 entrou para a ordem terceira dos dominicanos. Ainda aos 6 teve sua primeira visão: no ar, pairando sobre a igreja de São Domingos, Jesus apareceu-lhe com as vestes do Papa, sentado num luminoso trono e ladeado por São Pedro, São Paulo e São João Evangelista. E desde nova começou a fazer penitências, entre elas frequentes votos de silêncio.
    De 1362 a 1374, isto é, entre 15 e 27 anos, praticou rigoroso jejum de pão e água e viveu em clausura, quando se manteve em perfeita 'Comunhão com Deus', segundo suas próprias palavras. Foi contemplada com indizíveis Graças como o 'casamento místico' com Jesus, a 'morte mística', quando conheceu o inferno, o Purgatório e o Céu, e a 'troca mística de Coração' com Jesus, para experimentar Seu amor pela humanidade.
    Só deixou a clausura quando a Europa foi assolada pela peste negra, também chamada bubônica, para desveladamente ajudar centenas de enfermos. Curou de modo miraculoso muitos deles, mas tratou de salvar-lhes principalmente as almas, convertendo-os através de penitências que ela mesma cumpria, convidando-os às orações e exorcizando-lhes maus espíritos.


    Ainda 1374, ao comungar, recebeu os estigmas de Cristo: suas mãos, pés e o lado foram perfurados por raios que saíam do crucifixo da igreja de Santa Cristina, em Pisa. Jesus escolheu-a para trabalhar pela Igreja e pela Paz, e mostraria que "uma fraca mulher pode envergonhar o orgulho dos fortes." As dores eram tão intensas, porém, que muitas vezes ela preferia ficar sem comer e sem falar, recebendo apenas a Comunhão Eucarística. E em preces não pedia a Jesus que lhe tirasse os estigmas, mas que eles não fossem visíveis, para não causar mais intrigas com os religiosos que já lhe faziam grande oposição.
    Em várias ocasiões, enquanto rezava, foi vista levitando. E um dia, ao preparar-se para comungar, o padre viu a Hóstia Consagrada transformar-se em Carne, agitar-Se em sua mão e saltar-lhe dos dedos para a boca de Santa Catarina.
    Desde de 1309 o Papa estava vivendo no sul da França, na cidade de Avignon, por questões de segurança, dadas as guerras entre cidades italianas que também se insurgiam contra seu poder. Aí ele contava com a proteção da armada do rei francês. Em 1376, no entanto, houve um novo levante contra a autoridade da Igreja nas cidades italianas de Perúgia, Florença, Pisa e na região da Toscana. Foi quando Santa Catarina ditou várias cartas ao Sumo Pontífice, exortando-o a voltar a Roma para tratar pessoalmente do assunto e pacificar o rebanho de Cristo, como Santa Brígida da Suécia já lhe havia tentado convencer.
    Vendo infrutífero esse esforço, pôs-se a caminho de Avignon. Poucos dias após chegar, e inteirar-se de tudo que ali se passava, tratou de denunciar a impenitência de cardeais e bispos, assim como vícios burgueses que adquiriram e as interferências políticas do rei e dos nobres nos assuntos da Igreja. Tanto impressionou a todos por sua lucidez, coragem e conhecimento da vontade de Deus, que foi convidada pelo próprio Papa para pronunciar-se no Consistório dos Cardeais.
    Conseguiu, enfim, convencer o Papa a voltar a Roma. Mesmo contra a vontade do rei e de alguns dos membros da Cúria, em 1377 Gregório XI iniciou a viagem de volta, chegou a hesitar durante o trajeto, mas acabou completando-a sob as exortações de Santa Catarina, que o acompanhava.
    Aí, porém, o Pontífice não teve dias fáceis. A república de Florença rebelou-se outra vez contra sua presença, chegando a obter apoio de muitas cidades italianas e até organizar uma milícia para combatê-lo. Ele, contudo, após resistir como pôde através de vários interditos, acolheu os apelos de Santa Catarina, que pedia paciência para com seus "rebeldes filhos". Mesmo sabendo da grande rejeição que enfrentaria, ela assumiu a frente das negociações e visitou várias dessas cidades, dialogando habilmente com as autoridades. Em Florença, quase foi martirizada.


    No ano seguinte, debilitado e envelhecido, Gregório XI veio a falecer. Eleito Urbano VI, desde o início teve a oposição de três intransigentes cardeias, que terminaram retornando a Avignon e aí elegeram dentre si um anti-papa. Era o Grande Cisma do Ocidente. Santa Catarina engajou-se ativamente na defesa do Papa, viajando por todas as partes defendo a unidade da Igreja e a obediência ao Sumo Pontífice. Sobre esse e vários outros assuntos, religiosos e sociais, acabou sendo adotada como conselheira por nobres, príncipes, rainhas e reis, além de muitos bispos e do próprio Papa.
    Falou duramente à rainha de Nápoles e ao tirano de Milão. Perante o rei da França, recriminou-o pela guerra contra irmãos cristãos, enquanto tentava estimulá-lo às cruzadas, que era um anseio antigo, um clamor popular e um sonho de muitos jovens da época, religiosos ou não, em todos os países cristãos. Essa sim seria um guerra justa, para o bem da cristandade, dos monumentos, dos lugares e da memória sagrada. Abominava, no entanto, os mercenários contratados pelos reis para seus exércitos, que conflagravam a Europa.
    Dadas as modestas condições de sua família, e tão severas foram suas práticas espirituais desde o início da idade adulta, não foi alfabetizada e assim se manteve até os 30 anos, quando por milagre aprendeu sozinha a ler italiano e latim e a escrever. Numa de suas cartas de próprio punho, relata ter recebido lições sobre os assuntos da Igreja diretamente de São João Evangelista e São Tomás de Aquino.
    Em algumas ocasiões, enquanto entrava em êxtase, pedia que anotassem suas palavras. Elas tornaram-se o livro 'Diálogo sobre a Divina Providência', obra que é considerada uma das maiores do misticismo cristão, onde se lê as revelações que recebia, as concepções teológicas e os argumentos sobre seu modelo de espiritualidade.
    Foi uma pacificadora da Igreja e da Itália em tempos muito difíceis, exatamente no início do decaimento da cristandade na Europa, solapado pelo 'humanismo' irresponsavelmente acalentado por supostos católicos e que se revelaria mera porta de perdição, levando ao protestantismo e, pouco mais tarde, ao próprio ateísmo.
    É a única leiga das quatro mulheres que receberam o título de Doutora da Igreja.


    Sua inspiração é evidente. Mistura-se perfeitamente com as locuções internas que tinha:
    "É obrigação de todos edificar os demais com uma vida boa, santa e honesta."
    "Não obrigues outras pessoas a viver como tu vives."
    "Ninguém deve desejar satisfações e visões espirituais, aspire somente a Virtude."
    "Oh quão doce e gloriosa é esta virtude da obediência! Nela estão todas as outras virtudes, porque concebia e gerada pela caridade. Nela está fundada a pedra da santíssima fé. É rainha tal que quem a desposa, nenhum mal padece, mas tem Paz e tranquilidade. As ondas do tempestuoso mar não a podem prejudicar e não a ofende tempestade alguma."
    "O caminho para atingir o verdadeiro conhecimento e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o auto-conhecimento."
    "A humildade brota do auto-conhecimento."
    "Conhecendo-te, tu te humilharás ao perceber que, por ti mesma, nada és."
    "O orgulho é a raiz de todos os vícios."
    "Querendo progredir é preciso que tenhais sede."
    "A Divina Providência jamais falta ao homem, sob a condição de que ele a aceite."
    "Nesta vida ninguém vive sem Cruz."
    "Os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende."
    "Devemos tudo suportar, porque o sofrimento é pequeno e a recompensa é grande."
    "A pessoa que sofre compartilha mais as dores dos outros do que aqueles que nada padecem."
    "Nada mais desejo que a vossa santificação."
    "Tudo quanto quero ou permito tem uma finalidade: que atinjas a meta para a qual vos criei."
    "Recompenso quem trabalha por Minha Glória. Sou alegre e faço feliz quem cumpre a Minha vontade."
    "Ao querer dar um homem um grande tesouro, associo-lhe o peso de muitas dificuldades."
    "Quero que sejais Santos. Tudo o que vos acontece tem essa finalidade."
    "O demônio é fraco e nada pode além daquilo que Eu lhe permita."
    "É na adversidade que se prova ter paciência e amor."
    "Que motivo vos fez constituir o homem em dignidade tão grande? O amor inestimável pelo qual enxergastes em Vós mesmo Vossa criatura, e Vos apaixonastes por ela! Pois foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes um ser capaz de degustar Vosso Eterno Bem."
    "Por amor Deus vos criou, sem amor não podeis viver."
    "Só tu és o Amor, somente digno de ser amado!"
    "O amor por Mim e pelo próximo são uma só coisa."
    "Toda virtude se realiza em relação ao próximo, bem como todo pecado."
    "Considero feito a Mim o que fazeis para os homens."
    "Ao optar pelo Meu amor, o homem faz opção também de sofrer por Minha causa, qualquer que seja a modalidade da dor."
    "Pelo amor, o homem torna-se outro Cristo. É pelo amor que o homem se une a Deus."
    "Todo mal é ausência de amor."
    "Deus não deu todas as qualidades nem deixou ninguém sem nenhuma qualidade. Por isso precisamos um dos outros."
    "Jovens, se fores aquilo que Deus quer, colocareis fogo no mundo."
    "A amizade cuja fonte é Deus, nunca se esgota."
    "Foi na dispensa da hierarquia eclesiástica que Eu guardei o Corpo e o Sangue do Meu Filho."
    "Foi no seio da Igreja hierárquica que o Senhor depositou Seu mais precioso tesouro."
    "A Eucaristia é o meio mais apto para a união do homem com Deus e maior conhecimento da Verdade."
    "Tenham a certeza de que quando eu morrer, a única causa de minha morte será meu amor pela Igreja."
    "Oh meu padre, se o senhor tivesse visto a beleza de uma só alma em estado de Graça, estaria pronto a morrer mil mortes por uma só!"
    "Oh Maria, Templo da Santíssima Trindade! Oh Maria portadora do fogo e da Misericórdia… Oh Maria, co-redentora do gênero humano porque, tendo vós fornecido vossa carne ao Verbo, foi resgatado o mundo. Resgatou-o Cristo com Sua Paixão; e vós, com vossa dor do corpo e da alma, com vossa compaixão."
    "Pai Eterno, porque elevastes o homem a tanta dignidade? Foi o amor inefável com que vistes, em Vós mesmo, Vossa criatura e enamorastes-Vos dela. Por isso a criastes por amor e lhe destes o ser, para que ela experimentasse Vosso Sumo e Eterno Bem."
    "Somos Vossa imagem e Vós, a Nossa, pela união que realizastes no homem, velando a divindade com a miserável nuvem e massa corrompida de Adão. Quem foi a causa? O amor. Vós, ó Deus, fizestes-Vos homem e o homem tornou-se Deus."
    "Vós, Eterna Trindade, sois Meu Criador e eu, Vossa criatura. De novo criastes-Me no Sangue de Vosso Filho. Nesta nova criação conheci que Vos enamorastes da beleza de Vossa criatura."
    "Oh Eterna Trindade, foco e abismo de caridade, dissolvei já, a nuvem deste corpo meu! O conhecimento que me destes de Vós, em Vossa Verdade, impele-me ao desejo de livrar-me do peso deste meu corpo e dar a vida pela Glória e louvor de Vosso Nome! Pois saboreei e vi, com a luz do intelecto, na Vossa Luz, Vosso abismo, Eterna Trindade, e a beleza de Vossa criatura."
    "Ó abismo, ó Eterna Divindade, ó mar profundo! E que mais poderíeis dar-me que vos dar a mim? Sois fogo que sempre arde e não consome. Sois fogo que consome todo amor-próprio da alma. Sois fogo que destrói toda frieza."
    "Oh Eterno e Infinito Bem, oh louco de amor! Será que necessitais de Vossa criatura? Parece-me que sim, pois agis como se sem ela não pudésseis viver, embora sejais Vós a Vida, pois todos os seres recebem a vida de vós, e sem Vós ninguém vive… Vós enamorastes-Vos de Vossa criatura, nela pusestes Vossa complacência, como ébrio de sua Salvação! Foge de Vós, e andais a sua procura! De Vós se afasta, e dela aproximais-Vos!"
    "Disse-me o Senhor: ‘Assim que uma alma entra no Céu, todos os eleitos participam de sua glória e assim também ela participa da felicidade de todos. Meus eleitos viverão na alegria, é a felicidade proporcionada pela visão de Minha Divindade e a companhia de Jesus, Cordeiro Imolado. É uma Paz, uma perfeita alegria, uma Luz sem sombras, uma felicidade soberana, infinita, sem limites."

    Morreu em 1380, no dia 29 de abril, aos 33 anos, mas em 1430, ao ser exumado, seu corpo ainda estava incorrupto. Além do livro citado, deixou 381 cartas e 26 orações da mais pura inspiração.
    É co-Padroeira do continente europeu junto a Santa Edith Stein e Santa Brígida da Suécia, além de co-Padroeira da Itália, junto a São Francisco de Assis, e padroeira dos consultores.
    Suas relíquias encontram-se sob o altar principal da Basílica de Santa Maria sopra Minerva, no centro de Roma, uma construção do século XIV, a única igreja em estilo gótico da Cidade Eterna. Seu rosto, exposto numa capela em sua homenagem, ainda não se decompôs por completo.



    Santa Catarina de Sena, rogai por nós!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

São Luís Maria Montfort


    No fim do século XVII, quando em todo mundo se pregava abertamente a abolição da escravatura, um sacerdote francês convidava todos à escravidão à Nossa Senhora, através de uma das maiores obras da Mariologia na atualidade, da qual é um dos precursores: 'O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria'.
    Nasceu no ano de 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha francesa. Sua mãe era fervorosa católica e aos 12 anos enviou-o ao Colégio Jesuíta São Thomas Becket, em Rennes, cidade mais próxima. Desde então nosso Santo já sentia o chamado à vida sacerdotal, e aí mesmo começou a estudar Teologia e Filosofia. Conheceu o padre local, que vivia como missionário itinerante, e percebeu que seu coração haveria de ser entregue a serviço dos mais pobres. E ao ouvir sobre o trabalho dos missionários da Companhia dos Padres de São Sulpício, que evangelizavam no Canadá, quis oferecer-se.
    Com esse intuito, em 1693 foi enviado a Paris, para o Seminário de São Sulpício, uma escola de referência para a espiritualidade francesa. Mas o dinheiro dado por seu benfeitor não era suficiente, e por dois anos ele contentou-se em viver entre os mais pobres e mendigos, enquanto frequentava as palestras de Teologia na Universidade de Sorbonne.
    Sem os devidos cuidados, adoeceu gravemente, mas foi internado e, apesar de algumas sequelas, convalesceu. Alguém do Seminário de São Sulpício soube de sua história e deu-lhe um emprego de bibliotecário, de modo a custear seus estudos, e durante as horas de trabalho ele dedicou-se a conhecer em profundidade as principais obras do Catolicismo, dando especial atenção aos assuntos referentes à Virgem Mãe do Céu.
    Em 1700 foi ordenado e enviado a Nantes, porém queira mesmo era pregar aos pobres, dos quais, desde a chegada a Paris, não mais se havia afastado. E para maior contrariedade, deu-se conta que toda a comunidade sacerdotal local era adepta do jansenismo, heresia de um bispo holandês, para quem, na prática, o ser humano é um mero objeto: já nasce predestinado ao inferno ou à Salvação. Seus seguidores recusavam-se a absolver os pecados de quem confessasse reincidência, e, com tamanha exigência de contrição, a 'comunhão espiritual' seria para eles mais importante que a própria Comunhão Eucarística.
    Sua perfeita instrução doutrinária, claro, não sucumbiu a esses absurdos. E por opôr-se frontalmente a esses desvios, vai ser perseguido por toda a vida. Como uma das consequências, foi enviado a Poitiers, na condição de capelão do hospital, e, para servir aos mais pobres enfermos, começou a trabalhar com a Beata Marie Louise Trichet, de apenas 17 anos, com quem em 1715 fundaria a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Contudo, não desistiu de pregar e tanto quanto pôde viveu em missão por toda a região da Bretanha, entre cidades e aldeias, levando ao povo mais humilde o mais puro Catecismo Católico. Seu amor à Nossa Senhora era encantador, tocava o coração de toda a gente. Aí começou a ser conhecido como o 'bom padre de Montfort'. Em Pontchateau chegou a reunir milhares de pessoas para construir uma grande Via Sacra, mas terminou sendo expulso pelo bispo não só do hospital como também da diocese de Nantes.
    Tristemente compungido, vai a pé até Roma, aconselhar-se com o Papa, pedir-lhe para ser enviado ao Canadá, como era seu antigo sonho. Porém será enviado pelo Santo Padre de volta a França justamente para fazer frente ao jansenismo, e agora com o título de Missionário Apostólico. Continuará, entretanto, sendo violentamente combatido em paróquias e dioceses. Tentaram matá-lo por envenenamento, o que agravou ainda mais seus problemas de saúde.
    Mas ele não retrocedia. Vai escrever o 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria', 'O Segredo de Maria' e 'O Segredo do Rosário', assim como as regras para a Companhia de Maria, que fundaria em 1712, e para a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Nas proximidades de Montfort, na gruta Mervent, em São Lázaro, ele vai recolher-se por várias vezes, por muitos meses, quatro anos ao todo durante sua vida, revigorando sua vida espiritual e contemplativa.
    A Marie Louse Trichet, vai escrever de Paris: "Sou-vos infinitamente grato. Estou sentindo o efeito de vossas orações, já que, hoje mais do que nunca, vejo-me empobrecido, crucificado, humilhado. Homens e demônios desta grande cidade de Paris movem-me uma guerra que me é amável e suave. Que me caluniem, que me ridicularizem, que destruam minha reputação, que cheguem até a prender-me. Que preciosos dons! Que manjares deliciosos! Que grandezas encantadoras! São o séquito e a companhia indispensáveis que a divina Sabedoria envia à casa daqueles onde deseja habitar. Quando me será dado possuir essa amável e desconhecida Sabedoria?"
    Foi muito criticado por sua 'falta de prudência', mas uma vez respondeu em carta a um amigo: "Dais-me como exemplo pessoas muito prudentes e de grande virtude a quem ninguém pensa em censurar. Mas há duas espécies de prudência: a própria dos cristãos que vivem em sociedade, e outra que vai melhor aos missionários e homens apostólicos. Os primeiros, para proceder prudentemente, só têm que observar as regras e costumes de uma casa santa; os outros veem-se frequentemente obrigados a desprezar a própria glória para buscar a de Deus, e, para isso, têm que lançar-se em mais de uma empresa que choca e até escandaliza. Não é de estranhar que se deixe em paz aos primeiros e se ataque os segundos. Quando os homens de ação são bem acolhidos pelo mundo é sinal de que o inferno não os teme. Se a prudência consistisse simplesmente em não dar que falar, os Apóstolos não precisariam ter saído de Jerusalém, nem São Paulo teria sido obrigado a fazer tantas viagens, nem São Pedro porque fincar a cruz no Capitólio. Com uma prudência assim não se teria sobressaltado a sinagoga, mas também não se teria conquistado o mundo."
    Para ele, a Sabedoria está na loucura da Cruz: "Se fizermos qualquer coisa para não correr riscos por Deus, nunca iremos fazer algo de grande por Ele."
    Seus escritos sobre Mariologia vieram a influenciar fortemente a devoção de quatro Papas, em especial, que a ela fizeram várias menções em suas encíclicas. São eles Papa Leão XIII, Papa São Pio X, Papa Pio XII e o Papa São João Paulo II.


    Devoção à Nossa Senhora, ele justifica por dois princípios:
    1 - Deus quis servir-se de Maria para a Encarnação do Cristo; e,
    2 - Deus quer servir-se de Maria para a santificação das almas.
    Essa devoção tem cinco características:
    1 - Ela é interior, ou seja, vem do espírito e do coração, fundamentando-se numa ideia adequada do enorme papel representado por Maria no plano da Redenção, e num amor coerente com essa ideia;
    2 - Ela é terna, gerando na alma uma grande confiança, que faz recorrer a Maria em todas as suas necessidades, como uma criança recorre a sua mãe;
    3 - Ela é Santa, isto é, faz com que se evite todo o pecado e se imitem as virtudes da Santíssima Virgem;
    4 - Ela é constante, consolidando a alma no bem e fazendo com que não abandone facilmente o caminho iniciado; e,
    5 - Ela é desinteressada, inspirando a alma a buscar mais a Glória de Deus que suas próprias vantagens.

    Em 1716, durante uma missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre, nas imediações de Nantes, com apenas 43 anos e a saúde bastante fragilizada, nosso Santo deixou esse mundo. Milhares de fieis acorreram ao seu funeral aí mesmo, e logo surgiram relatos de milagres junto a seu sepulcro.
    Em 1892, sobre uma igreja de São Lourenço do século XI, nesta pequena cidade foi concluída uma Basílica toda em granito para a devoção a ele, que é visitada por milhares de peregrinos todos os anos. Nela há também uma estátua de seu último gesto, quando a gente do lugar, ao saber do frágil estado de saúde, acorreu para pedir-lhe uma última benção. E num esforço que lhe era característico, ele abençoou-os com o crucifixo.



    São Luís Maria Montfort, rogai por nós!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Igreja: Reino de Sacerdotes


    Desde Sua manifestação a Moisés na sarça ardente, quando lhe entregou o Decálogo, Deus prometeu que faria de Seu povo um Reino de Sacerdotes: "Agora, pois, se obedecerdes à Minha voz, e guardardes Minha Aliança, sereis o Meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é Minha, mas vós Me sereis um Reino de Sacerdotes e uma nação consagrada. Tais são as palavras que dirás aos israelitas." Ex 19,5-6
    profeta Isaías previu-o como consequência da manifestação do Cristo: "... a vós chamar-vos-ão sacerdotes do Senhor, de ministros de Nosso Deus sereis qualificados." Is 61,6a
    Daniel viu Sua investidura ainda no Céu, feita por Deus Pai: "Olhando sempre a visão noturna, vi um ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno; nunca cessará e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14
    E cumpriu-se com a Vitória de Jesus, como se vê na reverência feita por São João Evangelista: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5a-6
    Pois ele é uma consequência da instauração do Reino de Deus, e Jesus declarou aos fariseus: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demônios, então chegou a vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Como condição elementar deste sacerdócio, Ele determinou aos Apóstolos que se entregassem confiantemente nas mãos da Divina Providência: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, em mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece o seu sustento." Mt 10,9-10
    Que tudo abandonassem: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo." Lc 14,33
    Inclusive os parentes mais próximos: "Jesus respondeu: 'Em verdade vos declaro: ninguém há que tenha abandonado, por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais ou seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a Vida Eterna.'" Lc 18,29
    Ele exigia, de fato, a concreta prática do amor a Deus sobre todas as coisas: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    A prática da total gratuidade: "Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!" Mt 10,8
    Assim como a guarda do celibato: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!' Respondeu Ele: 'Nem todos são capazes de compreender o sentido desta Palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.'" Mt 19,10-12
    São Paulo, um convicto celibatário, explicou aos coríntios: "Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa." 1 Cor 7,32-33
    Mas Jesus advertia até dos menores desvios da Sã Doutrina: "Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da Lei. Aquele que violar um destes Mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos Céus." Mt 5,18-19a
    Ele criticava duramente as invencionices de fariseus e escribas: "Hipócritas! É bem de vós que fala o profeta Isaías: 'Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens (Is 29,13).' Toda planta que Meu Pai Celeste não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os. São cegos e guias de cegos. Ora, se um cego conduz a outro, tombarão ambos na mesma vala." Mt 15,7-9.13b-14
    E quanto aos erros mais graves... "Mas, se alguém fizer cair em pecado um destes pequenos que creem em Mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço a mó de um moinho e o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!" Mt 18,6-7
    O caso de Judas Iscariotes, um de Seus escolhidos, foi emblemático. Ele disse: "O Filho do homem vai, segundo o que d'Ele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem for traído! Melhor lhe seria que nunca tivesse nascido..." Mc 14,21
    Por isso, providencialmente São Pedro pediu sua substituição: "Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério. Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles torne-se conosco testemunha de Sua Ressurreição. Deitaram sorte e caiu a sorte em Matias, que foi incorporado aos Onze Apóstolos." At 1,16-17.21-22.26
    Logo em seguida, ao colégio dos Apóstolos foram incorporados os Anciãos, 'Presbíteros' em grego, então um cargo de dignidade, como um título, a quem São Pedro se dirigiu em carta: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós; porque sou Ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e serei participante com eles daquela Glória que há de manifestar-se. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho." 1 Pd 5,1-3
    O respeito aos Anciãos era uma antiquíssima tradição dos judeus: "Moisés saiu e referiu ao povo as palavras do Senhor. Reuniu setenta homens dos Anciãos do povo e colocou-os em volta da Tenda. O Senhor desceu na nuvem e falou a Moisés; tomou uma parte do Espírito que o animava e a pôs sobre os setenta Anciãos. Apenas repousara o Espírito sobre eles, começaram a profetizar, mas não continuaram." Nm 11,24-25
    Eles já estavam com os Apóstolos em Jerusalém, quando das questões que motivaram o Primeiro Concílio da Igreja: "Originou-se então grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns outros irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e os Anciãos em Jerusalém." At 15,2
    Decisões essas, aliás, que sempre foram fielmente obedecidas, como vemos nas missões de São Paulo e São Barnabé, o que fazia a Igreja crescer na Unidade: "Nas cidades pelas quais passavam, ensinavam que observassem as decisões que haviam sido tomadas pelos Apóstolos e Anciãos em Jerusalém. Assim as igrejas eram confirmadas na , e cresciam em número dia a dia." At 16,4-5
    Mas por influência da língua grega, falada pelos primeiros cristãos de origem judaica, ao Ancião logo se atribuiu a palavra 'Epíscopo', que em grego quer dizer 'supervisor' e equivale ao termo Bispo, embora as funções ainda não fossem as da tradição cristã, pois inicialmente, como os diáconos, eles exerceriam encargos executivos. São Paulo indica a presença deles na Carta aos Filipenses, primeira comunidade em terras da Europa: "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Jesus Cristo, que se acham em Filipos, juntamente com os bispos e diáconos." Fl 1,1
    Quanto ao diaconato, foi instituído pelos próprios Onze mais São Matias, logo que se avolumaram as atividades dos Apóstolos: "Naqueles dias, como crescesse o número dos discípulos, houve queixas dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas teriam sido negligenciadas na distribuição diária. Por isso, os Doze convocaram uma reunião dos discípulos e disseram: 'Não é razoável que abandonemos a Palavra de Deus, para administrar. Portanto, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de Sabedoria, aos quais encarregaremos este ofício. Nós atenderemos sem cessar à oração e ao Ministério da Palavra.' Apresentaram-nos aos Apóstolos, e estes, orando, impuseram-lhes as mãos." At 6,1-4.6
    E quando este grau de sacerdócio, além de administrativo, já incluía também o Ministério da Palavra, São Paulo atribuiu a São Tito a missão de instituí-los, deixam muito claro que as condições de ordenação eram bem restritas, embora á época ainda pudessem ser casados: "Eu deixei-te em Creta para acabares de organizar tudo e estabeleceres Anciãos em cada cidade, de acordo com as normas que te tracei. Devem ser escolhidos entre quem seja irrepreensível, casado uma só vez, tenha filhos fiéis e não acusados de má conduta ou insubordinação. Porquanto é mister que o bispo seja irrepreensível, como administrador que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem intemperante, nem violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à Doutrina da fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a Sã Doutrina e rebater os que a contradizem." Tt 1,5-9
    Ele dará instruções parecidas a São Timóteo, e estenderá recomendações sobre os diáconos: "Eis uma coisa certa: quem aspira ao episcopado, saiba que está desejando uma função sublime. Porque o bispo tem o dever de ser irrepreensível, casado uma só vez, sóbrio, prudente, regrado no seu proceder, hospitaleiro, capaz de ensinar. Não deve ser dado a bebidas, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; deve saber governar bem a sua casa, educar os seus filhos na obediência e na castidade. Pois quem não sabe governar a sua própria casa, como terá cuidado da Igreja de Deus? Não pode ser um recém-convertido, para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o demônio. Importa, outrossim, que goze de boa consideração por parte dos de fora, para que não se exponha ao desprezo e caia assim nas ciladas diabólicas. Do mesmo modo, os diáconos sejam honestos, não de duas atitudes nem propensos ao excesso da bebida e ao espírito de lucro; que guardem o mistério da fé numa consciência pura. Antes de poderem exercer o seu ministério, sejam provados para que se tenha certeza de que são irrepreensíveis. Os diáconos não sejam casados senão uma vez, e saibam governar os filhos e a casa. E os que desempenharem bem este ministério, alcançarão honrosa posição e grande confiança na fé, em Jesus Cristo." 1 Tm 3,1-10.12-13
    O episcopado, portanto, assim como o diaconato, era designação divina, e os Anciãos passariam naturalmente a sucessores dos Apóstolos. São Paulo vai dizer aos de Éfeso, a quarta mais importante cidade do Império Romano: "Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o Seu próprio Sangue." At 20,28
    É a eles, em despedida, que o Santo de Tarso vai exortar para que enfrentassem corajosamente as provações: "Mas de Mileto mandou a Éfeso chamar os Anciãos da igreja. Quando chegaram, e estando todos reunidos, disse-lhes: 'Vós sabeis de que modo sempre me tenho comportado para convosco, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia. Servi ao Senhor com toda a humildade, com lágrimas e no meio das provações que me sobrevieram pelas ciladas dos judeus. Vós sabeis como não tenho negligenciado, como não tenho ocultado coisa alguma que vos podia ser útil. Preguei e instruí-vos publicamente e dentro de vossas casas. Preguei aos judeus e aos gentios a conversão a Deus e a fé em Nosso Senhor Jesus.'" At 20,17-21
    Quanto aos antigos Profetas, cuja tradição segundo Jesus se encerrou com São João Batista (Mt 11,13), passariam a ser Sacerdotes: "Empenhai-vos em procurar a caridade. Aspirai igualmente aos dons espirituais, mas sobretudo ao de profecia. Aquele que fala em línguas não fala aos homens, senão a Deus: ninguém o entende, pois fala coisas misteriosas, sob a ação do Espírito. Aquele, porém, que profetiza fala aos homens, para edificá-los, exortá-los e consolá-los. Aquele que fala em línguas edifica-se a si mesmo; mas o que profetiza, edifica a assembléia." 1 Cor 14,1-4
    E em hierarquia, conforme São Paulo, eles só ficaram atrás dos próprios Apóstolos: "Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos Seus membros. Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os Apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas. São todos Apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a Graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos?" 1 Cor 12,27-30
    Àquele tempo eram admitidos até três 'profetas' por reunião, que eram os rudimentos da Santa Missa, mas nunca lhes foi permitidos transes ou arrebatamentos, senão total fidelidade à Doutrina: "Quanto aos profetas, falem dois ou três, e os outros julguem. Se for feita uma revelação a algum dos assistentes, cale-se o primeiro. Todos, um após outro, podeis profetizar, para todos aprenderem e serem todos exortados. O espírito dos profetas deve estar-lhes submisso, porquanto Deus não é Deus de confusão, mas de Paz." 1 Cor 14,29-33


O SUMO PONTÍFICE

    Tal e qual os Anciãos, Deus havia instituído um sumo sacerdote entre os israelitas desde os tempos de Moisés, posto que coube primeiro a seu irmão mais velho, Aarão, e cuja tradição foi por eles mantida até a destruição de Jerusalém, no ano 70 da nossa era. A ele cabia fazer a oferta do sacrifício no Altar: "Este será um direito perpétuo devido a Aarão e seus filhos pelos israelitas; esta é uma oferta reservada – aquela que os israelitas terão de tomar de seus sacrifícios pacíficos –, uma reserva que devem ao Senhor. Os ornamentos sagrados de Aarão servirão para seus filhos depois dele, que os vestirão quando se lhes der a unção e forem empossados. Aquele dentre os seus filhos que for sumo sacerdote em seu lugar, e que penetrar na Tenda de Reunião para o serviço do santuário, os levará durante sete dias." Ex 29,28-30
    E como prescrito por Deus, a primazia do sumo sacerdote, da qual temos nosso Papa, é perfeitamente clara: "O sumo sacerdote, superior a seus irmãos, sobre cuja cabeça se derramou o óleo de unção, e que foi estabelecido para revestir as vestes sagradas, não descobrirá a sua cabeça, e não rasgará as suas vestes." Lv 21,10
    Por isso, de cordeiros a ovelhas, Jesus entregou todo Seu rebanho a São Pedro: "Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?' Respondeu ele: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os Meus cordeiros'. Perguntou-lhe outra vez: 'Simão, filho de João, amas-Me?' Respondeu-Lhe: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta os Meus cordeiros.' Perguntou-lhe pela terceira vez: 'Simão, filho de João, amas-Me?' Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: 'Amas-Me?', e respondeu-Lhe: 'Senhor, sabes tudo, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta as Minhas ovelhas.'" Jo 21,15-17
    Isso fica evidente na parábola do administrador fiel, quando Jesus prometeu-lhe entregar todo Seu tesouro: "Disse-Lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o administrador sábio e fiel que o Senhor estabelecerá sobre os Seus operários para dar-lhes a seu tempo a sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor achar procedendo assim, quando vier! Em verdade vos digo: confiar-lhe-á todos os Seus bens.'" Lc 12,41-44
    Quanto ao sacerdócio da Antiga Aliança, Deus havia separado a tribo de Levi dentre as doze de Israel: "O Senhor havia dito, com efeito, a Moisés: 'Não farás o recenseamento da tribo de Levi, nem porás a soma deles com os filhos de Israel. Confia-lhes o cuidado do Tabernáculo do Testemunho, de todos os seus utensílios e de tudo o que lhe pertence. Levarão o Tabernáculo e todos os seus utensílios, farão o seu serviço e acamparão em volta do Tabernáculo. Quando se tiver de partir, os levitas desmontarão o Tabernáculo e o levantarão quando se tiver de acampar. O estrangeiro que se aproximar dele será punido de morte. Os israelitas acamparão cada um em seu respectivo acampamento e cada um perto de sua bandeira, segundo suas turmas. Quanto aos levitas, porém, acamparão em torno do Tabernáculo do Testemunho, para que não suceda explodir a Minha cólera contra a assembléia dos israelitas; ademais, os levitas terão a guarda do Tabernáculo do Testemunho.'" Nm 1,48-53
    Segundo o profeta Malaquias, esta era uma delicada obra de Deus: "Sentar-Se-á para fundir e purificar a prata; purificará os filhos de Levi e os refinará, como se refinam o ouro e a prata; então eles serão para o Senhor aqueles que apresentarão as ofertas como convêm. E a oblação de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias antigos, como nos anos de outrora." Ml 3,3-4
    Assim os levitas cumpriram o sacerdócio através dos séculos: "'Então sabereis que fui Eu que vos dei esta ordem para que subsista o Meu pacto com Levi' - diz o Senhor dos Exércitos. 'A Minha Aliança com Levi foi um pacto de Vida e prosperidade e também de temor, a fim de que ele temesse o Meu Nome; e ele temeu-Me e sempre teve reverência por Meu Nome; sua boca ensinou a Verdade, e não se encontrou perversidade nos seus lábios. Andou Comigo na paz e na retidão, e afastou do mal grande número de homens. Porque os lábios do sacerdote guardam a ciência e é de sua boca que se espera a Doutrina, pois ele é o mensageiro do Senhor dos exércitos." Ml 2,4-7
    A eles não coube nenhuma terra na partilha de Israel, apenas o dízimo do que era produzido nos campos: "O Senhor disse a Aarão: 'Não possuirás nada na terra deles, e não terás parte alguma entre eles. Eu sou a tua parte e a tua herança no meio dos israelitas. Quanto aos levitas, dou-lhes como patrimônio todos os dízimos de Israel pelo serviço que prestam na Tenda da Reunião.'" Nm 18,20-21
    Todos esses ofícios, portanto, são dons divinos e exclusivamente guiados por inspiração do Divino Paráclito. Nada têm de mera instrução humana ou simplesmente literal da Bíblia, principalmente após o Pentecostes, como afirma São Paulo: "Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    E uma vez ordenados, esses dons são eternos: "Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 11,29
    Por isso, com razão, ele questionava os romanos: "Quem poderia acusar os escolhidos de Deus? É Deus Quem os justifica." Rm 8,33
    Quanto à vocação para o sacerdócio, seus seguidores não tinham dúvida: "Ninguém se apropria desta honra, senão somente aquele que é chamado por Deus, como Aarão." Hb 5,4
    Com efeito, em garantia da missão dos Apóstolos, Jesus disse-lhes: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça." Jo 15,16
    Ele sentenciou: "Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16
    E foi terminativo: "Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano." Mt 18,15-17
    Por isso São João Evangelista reconhecia essa força que move a Igreja: "Aceitamos o testemunho dos homens." 1 Jo 5,9a
    Assim, e desde então, o Sacramento da Ordenação é dado sempre pelo mesmo ritual, pela imposição de mãos. Foi o que São Paulo ordenou São Timóteo: "Por esse motivo, eu te exorto a reavivar a chama do dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos. Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de amor e de Sabedoria. Não te envergonhes, portanto, do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, Seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho, fortificado pelo poder de Deus." 2 Tm 1,6-7
    Mas ele vai exigir: "Não negligencies o carisma que está em ti e que te foi dado por profecia, quando a assembléia dos Anciãos te impôs as mãos. Põe nisto toda a diligência e empenho, de tal modo que se torne manifesto a todos o teu aproveitamento." 1 Tm 4,14-15
    E diante de um povo ainda questionador e vacilante, os seguidores da tradição do último Apóstolo vão comentar: "Não queremos agora insistir nas noções fundamentais da conversão, da renúncia ao pecado, da fé em Deus, a doutrina dos vários batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do Julgamento Eterno." Hb 6,1b-2
    Disto, os atuais Sacerdotes são exclusivamente aqueles que vêm sendo instituídos pela mesma e Sagrada Tradição desde o tempo dos Apóstolos, como São Paulo instruiu a São Timóteo: "O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros." 2 Tm 2,2
    Escrevendo aos tessalonicenses, ele indicou de Quem realmente vem essa vocação e esse dom: "Não cessamos de rezar por vós, para que o Nosso Deus vos faça dignos da Sua vocação. Que Ele, por Seu poder, realize todo o bem que desejais e torne ativa a vossa fé." 2 Ts 1,11
    Por isso ele rezava: "Irmãos, que todo o mundo nos considere como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. A este respeito, o que se exige dos administradores é que sejam fiéis." 1 Cor 4,1-2
    No entanto, contava com o virtuoso auxílio dos fieis para a instrução da Palavra, como pediu aos colossenses: "A Palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a Sabedoria possais instruir-vos e exortar mutuamente." Cl 3,16a
    Pois tinha plena consciência da fragilidade humana, seja de fiéis ou Sacerdotes: "Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,3-4.7
    Ele atestava aos tessalonicenses: "O nosso Evangelho vos foi pregado não somente por Palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    Não abria mão, no entanto, de sua autoridade: "Peço-vos que, quando eu estiver presente, não me veja obrigado a usar de minha autoridade de que pretendo realmente usar com certas pessoas que imaginam que nós procedemos com intenções humanas. Porque, ainda que vivamos na carne, não militamos segundo a carne. Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo. Estamos prontos também para castigar todos os desobedientes, assim que for perfeita a vossa obediência." 2 Cor 10,2-6
    Ciente desta batalha espiritual, ele seguia firme na missão como exemplo para as comunidades: "Compenetrados do temor do Senhor, procuramos persuadir os homens. Estamos a descoberto aos olhos de Deus, e espero que o estejamos também ante as vossas consciências. Não estamos a gabar-nos ante os vossos olhos, mas damo-vos ocasião de vos gloriardes por nossa causa. Tereis assim o que responder àqueles que se prevalecem das aparências e não do que há no coração." 2 Cor 5,11-12
    Não deixava, porém, de pedir pelos Sacerdotes da Igreja: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e admoestar-vos. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Seus seguidores pediam especificamente submissão e obediência a eles: "Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta). Assim, eles o farão com alegria, e não a gemer, que isto vos seria funesto." Hb 13,17
    E quanto aos que se pretendem mestres, São Tiago Menor deu um sério conselho: "Meus irmãos, não haja muitos entre vós a se arvorar em mestres; sabeis que seremos julgados mais severamente..." Tg 3,1
    De fato, Jesus avisava da distância entre pregar, ou mesmo operar maravilhas, e viver com sinceridade os Mandamentos: "Nem todo aquele que Me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão naquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu lhes direi: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, operários maus!'" Mt 7,21-23


SACERDOTES ORDENADOS E LEIGOS

    A todos, contudo, São Pedro recomendava compromisso e seriedade, seja Sacerdote ordenado ou leigo: "Como bons dispensadores das diversas Graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu: a Palavra, para anunciar as mensagens de Deus; um ministério, para exercê-lo com uma força divina, a fim de que em todas as coisas Deus seja glorificado por Jesus Cristo." 1 Pd 4,10-11
    Convocava todos os cristãos às divinas virtudes: "Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes d'Aquele que vos chamou das trevas à Sua maravilhosa Luz." 1 Pd 2,9
    São Paulo dizia aos coríntios: "Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações." 2 Cor 3,3
    Sobre os Sacerdotes ordenados, especificamente, os seguidores de sua tradição pregavam: "Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados; sabe compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque também ele está cercado de fraqueza. Por isso, ele deve oferecer sacrifícios tanto pelos próprios pecados quanto pelos pecados do povo." Hb 5,1-3
    Jesus ensinou: "E se o servo tiver feito tudo que lhe fora mandado, acaso fica-lhe o Senhor devendo alguma obrigação? Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 1,9-10
    Pois não foi honrarias, mas serviço que Ele determinou aos Apóstolos: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25b-28
    Por isso advertia: "Mas vós não vos façais chamar rabi, porque um só é o Vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. Nem vos façais chamar de guia, porque só tendes um Guia, o Cristo." Mt 23,8.10
    Porém prometeu: "Se alguém Me quer servir, siga-Me; e, onde Eu estiver, estará ali também o Meu servo. Se alguém Me serve, Meu Pai o honrará." Jo 12,26
    São João Batista, arauto do Salvador e modelo de Sacerdote, dava este testemunho de mero coadjuvante: "Aquele que tem a esposa é o Esposo. O amigo do Esposo, porém, que está presente e O ouve, regozija-se sobremodo com a voz do Esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa. Importa que Ele cresça e que eu diminua." Jo 3,29-30
    Os verdadeiros Sacerdotes, portanto, são aqueles que por testemunho de vida nos levam à Comunhão, como dizia São João Evangelista: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida - porque a Vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a Vida Eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou -, o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais Comunhão conosco. Ora, a nossa Comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,1-3
    Afirmativamente, São Paulo bem sabia Quem agia através dele e dos Sacerdotes: "Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em Nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    Pois a Igreja recebeu de Jesus o ministério da nossa reconciliação com o Pai: "Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo! Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou Consigo, por Cristo, e nos confiou o ministério desta reconciliação." 2 Cor 5,17-18
    Sem dúvida, Ele atribuiu-lhes esse dom já em Sua primeira aparição ao colégio dos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    São Pedro nomeia especificamente o Espírito Santo na obra da evangelização: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu." 1 Pd 1,10.12
    Por isso, em nome da obra da Salvação, São Paulo pedia a São Timóteo absoluta fidelidade ao Evangelho: "Empenha-te em te apresentares diante de Deus como homem digno de aprovação, operário que não tem de que se envergonhar, íntegro distribuidor da Palavra da Verdade. Procura esquivar-te das conversas frívolas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena. Quem, portanto, conservar-se puro e isento dessas doutrinas, será um utensílio nobre, santificado, útil ao Seu Possuidor, preparado para todo uso benéfico." 2 Tm 2,15-17a.21
    Ele exortava: "Recomenda esta Doutrina aos irmãos, e serás bom ministro de Jesus Cristo, alimentado com as palavras da fé e da Sã Doutrina que até agora seguiste com exatidão. Quanto às fábulas profanas, esses contos extravagantes de comadres, rejeita-as." 1 Tm 4,6-7
    E aí centrava sua atenção: "Vigia a ti e a Doutrina. E persevera nestas coisas. Se isto fizeres, salvar-te-ás a ti mesmo e aos que te ouvirem." 1 Tm 4,16
    Os seguidores de sua tradição argumentam: "Como, então, escaparemos nós se agora desprezarmos a mensagem da Salvação, tão sublime, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram...?" Hb 2,3
    Eles reclamavam: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada a vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e vos tornastes tais, que precisais de leite em vez de alimento sólido! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma doutrina profunda, porque é ainda criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    E São Paulo explica assim a importância da instituição da Igreja, da hierarquia e da preservação da Palavra: "Aquele que desceu é também o que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à Unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando a sua plena edificação na caridade. Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à prática apaixonada de toda espécie de impureza. Vós, porém, não foi para isto que vos tornastes discípulos de Cristo, se é que O ouvistes e d'Ele aprendestes, como convém à Verdade em Jesus. Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade. Por isso, renunciai à mentira. Fale cada um a seu próximo a Verdade, pois somos membros uns dos outros. Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento. Não deis lugar ao demônio. Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem. Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o Qual estais selados para o Dia da Redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou, em Cristo." Ef 4,10-27.29-32
    Porque todos os dons devem colaborar durante a Santa Missa: para a edificação da Igreja: "Em suma, que dizer, irmãos? Quando vos reunis, quem dentre vós tem um cântico, um ensinamento, uma revelação, um discurso em línguas, uma interpretação a fazer - que isto se faça de modo a edificar." 1 Cor 14,26
    Ele foi bem claro: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    São Pedro, pedra fundamental da Igreja, humildemente propõe a todos a Comunhão: "Achegai-vos a Ele, pedra viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus; e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo." 1 Pd 2,4-5
    Em respeito aos Sacerdotes de Seu tempo, Jesus invocava seus ofícios como mandava a Lei: "Ao entrar numa aldeia, vieram-Lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando: 'Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!' Jesus viu-os e disse-lhes: 'Ide, mostrai-vos ao sacerdote.' E quando eles iam andando, ficaram curados." Lc 17,12-14
    E São Paulo invocou o testemunho deles, quando foi preso em Jerusalém: "O sumo sacerdote e todo o conselho dos Anciãos são-me testemunhas." At 22,5a
    Muitos deles converteram-se ao cristianismo logo após a instituição do diaconato pelos Apóstolos: "Divulgou-se sempre mais a Palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à fé." At 6,7
    Como já havia acontecido, enquanto Jesus pregava em Jerusalém no Domingo de Ramos: "Não obstante, também muitos dos chefes creram n'Ele, mas por causa dos fariseus não o manifestavam, para não serem expulsos da sinagoga." Jo 12,42
    Aliás, desde Sua primeira Páscoa em vida pública: "Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: 'Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele.'" Jo 3,1-2
    Entre outras ocasiões: "Jesus então lhes disse: 'Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis Quem sou e que nada faço de Mim mesmo, mas falo do modo como o Pai Me ensinou.' Tendo proferido essas palavras, muitos creram n'Ele." Jo 8,28.30
    Principalmente após a ressurreição de São Lázaro: "Alguns deles, porém, foram aos fariseus e lhes contaram o que Jesus realizara. Os pontífices e os fariseus convocaram o Conselho e disseram: 'Que faremos? Esse homem multiplica os milagres. Se O deixarmos proceder assim, todos crerão n'Ele, e os romanos virão e arruinarão a nossa cidade e toda a nação.'" Jo 11,46-48
    Eles tinham alguma noção do que estava acontecendo: "Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes: 'Vós não entendeis nada! Nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça toda a nação.' E ele não disse isso por si mesmo, mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos." Jo 11,49-52
    E assim, através do Sacrifício Pascal foi instituída a Santa Missa, como atestaram as visões de São João Evangelista. É o que professam os quatro Animais e os vinte e quatro Anciãos, prostrando-se diante do Cordeiro: "Cantavam um cântico novo, dizendo: 'Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça; e deles fizeste para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a terra.'" Ap 5,9-10
    E uma vez nos Céus, Sacerdotes ordenados e leigos tornam-se nossos Santos: "Feliz e Santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,6

    "Conservai a Vossa Igreja sempre unida!"