domingo, 30 de abril de 2017

As Preocupações do Mundo


    Na atualidade, um número cada vez maior de pessoas tem problemas espirituais e de saúde por causa de preocupações. Ora, ao recomendar a como vívida certeza da Divina Providência, Jesus mostrava a importância da frequente prática da vigília e da oração, pois tantos os temores como a indolência podem se tornar verdadeiras tentações, das quais o inimigo se aproveita: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação." Mc 14,38a
    Ensinava, no mesmo sentido, a prática do desapego: "E então disse ao povo: 'Guardai-vos escrupulosamente de toda avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas.'" Lc 12,15
    Assim, cumpridas as obrigações, temos que nos entregar confiantemente nas mãos de Deus, abandonar-nos aos Seus cuidados, pois se não podemos viver como preguiçosos, que presunçosamente tudo esperam, também não podemos viver como neuróticos, ciosos do que não podemos controlar. Ele alertava das inerentes aflições de um cristão, que requerem a virtude da fortaleza: "Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta seu mal." Mt 6,34
    Na parábola do semeador, Jesus revela quem somos e o quanto realmente confiamos na Palavra de Deus. E as preocupações aí aparecem como um impedimento à fé. São Marcos registrou assim:

    "O semeador lança a Palavra. Alguns encontram-se à beira do caminho, onde ela é semeada; apenas a ouvem, vem Satanás tirar a Palavra neles semeada.
    Outros recebem a semente em lugares pedregosos; quando a ouvem, recebem-na com alegria. Mas não têm raiz em si mesmos, são inconstantes, e assim que se levanta uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, eles tropeçam.
    Ainda outros recebem a semente entre os espinhos; ouvem a Palavra, mas as mundanas preocupações, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e tornam-na infrutífera.
    Mas aqueles que recebem a semente em boa terra, escutam a Palavra, acolhem-na e dão fruto. Trinta, sessenta e cem por um." Mc 4,14-20

    Por isso, Ele ensina a buscar primeiro o Reino de Deus, o que deve ser feito com empenho e perseverança, e promete que tudo mais se resolverá. E mais uma vez mencionou as preocupações como um empecilho à Comunhão com Deus. Narra São Lucas:

    "Jesus voltou-Se então para Seus discípulos:
    - Portanto, digo-vos: não andeis preocupados com vossa vida, pelo que haveis de comer; nem com vosso corpo, pelo que haveis de vestir. A vida vale mais que o sustento, e o corpo, mais que as vestes. 
    Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro. Entretanto, Deus os sustenta! Quanto mais valeis vós do que eles? Mas qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só minuto à duração de sua vida? Se vós, pois, não podeis fazer nem as mínimas coisas, por que estais preocupados com as outras?
    Considerai os lírios, como crescem. Não fiam, nem tecem. Contudo, digo-vos: nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles! Se Deus, portanto, assim veste a erva que hoje está no campo e amanhã lança-se ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé!
    Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas Vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo." Lc 12,22-31

    Em síntese, Jesus exortava a que, seja no dia de nossa morte ou mesmo no fim do mundo, estejamos sempre preparados, cuidando da alma e da fé, sem nos entregarmos nem a falsos prazeres nem a mundanos cuidados: "Velai sobre vós mesmos para que vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida. Para que aquele Dia não vos apanhe de improviso." Lc 21,34
    A bem da verdade, Ele quis preparar-nos para tarefas muito mais difíceis que meras preocupações. Ao contrário de algumas infundadas expectativas, anunciadas por 'profetas' da prosperidade material, Ele não nos prometeu um mar de rosas aqui na terra: avisou das aflições que passaríamos ao abraçar Seus ensinamentos, e por isso pediu-nos coragem: "Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Do contrário, como entenderíamos a incumbência que Ele deu a um seguidor, num difícil momento da vida, em que aparentemente lhe caberia apenas fazer o funeral do próprio pai? Sem dúvida, somos chamados a maiores missões: "Outra vez um dos Seus discípulos disse-Lhe: 'Senhor, primeiro deixa-me ir enterrar meu pai.' Jesus, porém, respondeu-lhe: 'Segue-Me, e deixa que os mortos enterrem seus mortos.'" Mt 8,21-22
    A própria vida de Jesus, aliás, já demonstrava a condição de auto-abandono em que vivem os servos de Deus: "Nisto d'Ele aproximou-se um escriba e disse-Lhe: 'Mestre, seguir-Te-ei aonde quer que fores.' Respondeu Jesus: 'As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.'" Mt 8,19-20
    Pois só o pleno cumprimento de Sua Missão verdadeiramente Lhe saciava: "Entretanto, os discípulos pediam-Lhe: 'Mestre, come.' Mas Ele disse-lhes: 'Tenho um alimento para comer que vós não conheceis.' Os discípulos perguntavam uns aos outros: 'Alguém Lhe teria trazido de comer?' Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, e cumprir Sua obra.'" Jo 4,31-34
    E assim também Ele determinou aos Apóstolos, modelos de Seus Sacerdotes, na primeira missão: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10
    Afirmativamente, Ele estabeleceu parâmetro e dimensão absolutamente sobrenaturais de amor: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Por isso, acenando para a Ressurreição da carne, Ele dizia: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de Vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós." Mt 10,28-31
    E foi contundente quanto aos apegos da vida terrena, que tornam impossível amar a Deus sobre todas as coisas: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim. Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á." Mt 10,37-39
    Em compensação, à Igreja Ele prometeu Sua Paz: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não é à maneira do mundo que Eu a dou. Não se perturbe, nem se atemorize vosso coração." Jo 14,28
    Deixou-nos Seu Espírito Santo, cuja missão está evidente no nome com que O invocou: "E Eu pedirei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Consolador, que ficará para sempre convosco..." Jo 14,16
    E prometeu a verdadeira alegria: "Perseverai no Meu amor. Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu amor. Disse-vos essas coisas para que Minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja completa." Jo 15,9-11
    Contra todas atribulações, portanto, Ele recomendou tenaz perseverança, e que n'Ele crêssemos como cremos em Deus: "Não se perturbe vosso coração. Credes em Deus, crede também em Mim." Jo 14,1


    Também temos como exemplo a clássica passagem de Santa Marta, símbolo das mulheres que, antes que uma verdadeira conversão, vivem demasiadamente entregues aos trabalhos, ao ativismo, e descuidam da oração, da reflexão, da contemplação e dos assuntos espirituais. É quando Jesus ensina que só uma coisa é realmente importante: a Salvação da alma. Conta São Lucas:

    "Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-Lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse:
    - Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.
    Respondeu-lhe o Senhor:
    - Marta, Marta, andas muito inquieta e preocupas-te com muitas coisas. No entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada." Lc 10,38-42

    Falando sobre a verdadeira esperança, São Paulo foi bem incisivo: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    Ele reconhece as dificuldades por vezes ingentes: "Pois sabemos que toda a Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a Redenção do nosso corpo." Rm 8,22-23
    Mas exorta à esperança e lembra os indizíveis auxílios do Divino Paráclito: "Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém. Mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos." Rm 8,24-26
    Ele dá esta certeza: "Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios." Rm 8,28
    E quase replica as palavras de Jesus: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Ele está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra." Cl 1,1-2
    Jesus, de fato, garantiu: "E Eu digo-vos: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe, todo aquele que procura, acha; e ao que bater, abrir-se-lhe-á. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,9-10.13
    Por isso, São Pedro admoesta à confiante resignação: "Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-Lhe todas vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós." 1 Pd 5,6-7
    Verdadeiramente inspirado, ele recomenda uma redentora ascese: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua Virtude. Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade." 2 Pd 1,3.5-7
    O livro da Sabedoria, enfim, alerta para o peso dos pecados e para a falta de vida espiritual: "... o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados." Sb 9,15

    "Fazei de nós uma perfeita oferenda!"

sábado, 29 de abril de 2017

Santa Catarina de Sena


    Filha de religioso tintureiro da Toscana, de vinte e quatro filhos a caçula, aos 7 anos consagrou sua virgindade a Cristo e aos 15 entrou para a ordem terceira dos dominicanos. Ainda aos 6 teve sua primeira visão: no ar, pairando sobre a igreja de São Domingos, Jesus apareceu-lhe com as vestes do Papa, sentado num luminoso trono e ladeado por São Pedro, São Paulo e São João Evangelista. E desde nova começou a fazer penitências, entre elas frequentes votos de silêncio.
    De 1362 a 1374, isto é, entre 15 e 27 anos, praticou rigoroso jejum de pão e água e viveu em clausura, quando se manteve em perfeita 'Comunhão com Deus', segundo suas próprias palavras. Foi contemplada com indizíveis Graças como o 'casamento místico' com Jesus, a 'morte mística', quando conheceu o inferno, o Purgatório e o Céu, e a 'troca mística de Coração' com Jesus, para experimentar Seu amor pela humanidade.
    Só deixou a clausura quando a Europa foi assolada pela peste negra, também chamada bubônica, para desveladamente ajudar centenas de enfermos. Curou de modo miraculoso muitos deles, mas tratou de salvar-lhes principalmente as almas, convertendo-os através de penitências que ela mesma cumpria, convidando-os às orações e exorcizando-lhes maus espíritos.


    Ainda 1374, ao comungar, recebeu os estigmas de Cristo: suas mãos, pés e o lado foram perfurados por raios que saíam do crucifixo da igreja de Santa Cristina, em Pisa. Jesus escolheu-a para trabalhar pela Igreja e pela Paz, e mostraria que "uma fraca mulher pode envergonhar o orgulho dos fortes." As dores eram tão intensas, porém, que muitas vezes ela preferia ficar sem comer e sem falar, recebendo apenas a Comunhão Eucarística. E em preces não pedia a Jesus que lhe tirasse os estigmas, mas que eles não fossem visíveis, para não causar mais intrigas com os religiosos que já lhe faziam grande oposição.
    Em várias ocasiões, enquanto rezava, foi vista levitando. E um dia, ao preparar-se para comungar, o padre viu a Hóstia Consagrada transformar-se em Carne, agitar-Se em sua mão e saltar-lhe dos dedos para a boca de Santa Catarina.
    Desde de 1309 o Papa estava vivendo no sul da França, na cidade de Avignon, por questões de segurança, dadas as guerras entre cidades italianas que também se insurgiam contra seu poder. Aí ele contava com a proteção da armada do rei francês. Em 1376, no entanto, houve um novo levante contra a autoridade da Igreja nas cidades italianas de Perúgia, Florença, Pisa e na região da Toscana. Foi quando Santa Catarina ditou várias cartas ao Sumo Pontífice, exortando-o a voltar a Roma para tratar pessoalmente do assunto e pacificar o rebanho de Cristo, como Santa Brígida da Suécia já lhe havia tentado convencer.
    Vendo infrutífero esse esforço, pôs-se a caminho de Avignon. Poucos dias após chegar, e inteirar-se de tudo que ali se passava, tratou de denunciar a impenitência de cardeais e bispos, assim como vícios burgueses que adquiriram e as interferências políticas do rei e dos nobres nos assuntos da Igreja. Tanto impressionou a todos por sua lucidez, coragem e conhecimento da vontade de Deus, que foi convidada pelo próprio Papa para pronunciar-se no Consistório dos Cardeais.
    Conseguiu, enfim, convencer o Papa a voltar a Roma. Mesmo contra a vontade do rei e de alguns dos membros da Cúria, em 1377 Gregório XI iniciou a viagem de volta, chegou a hesitar durante o trajeto, mas acabou completando-a sob as exortações de Santa Catarina, que o acompanhava.
    Aí, porém, o Pontífice não teve dias fáceis. A república de Florença rebelou-se outra vez contra sua presença, chegando a obter apoio de muitas cidades italianas e até organizar uma milícia para combatê-lo. Ele, contudo, após resistir como pôde através de vários interditos, acolheu os apelos de Santa Catarina, que pedia paciência para com seus "rebeldes filhos". Mesmo sabendo da grande rejeição que enfrentaria, ela assumiu a frente das negociações e visitou várias dessas cidades, dialogando habilmente com as autoridades. Em Florença, quase foi martirizada.


    No ano seguinte, debilitado e envelhecido, Gregório XI veio a falecer. Eleito Urbano VI, desde o início teve a oposição de três intransigentes cardeias, que terminaram retornando a Avignon e aí elegeram dentre si um anti-papa. Era o Grande Cisma do Ocidente. Santa Catarina engajou-se ativamente na defesa do Papa, viajando por todas as partes defendo a unidade da Igreja e a obediência ao Sumo Pontífice. Sobre esse e vários outros assuntos, religiosos e sociais, acabou sendo adotada como conselheira por nobres, príncipes, rainhas e reis, além de muitos bispos e do próprio Papa.
    Falou duramente à rainha de Nápoles e ao tirano de Milão. Perante o rei da França, recriminou-o pela guerra contra irmãos cristãos, enquanto tentava estimulá-lo às cruzadas, que era um anseio antigo, um clamor popular e um sonho de muitos jovens da época, religiosos ou não, em todos os países cristãos. Essa sim seria um guerra justa, para o bem da cristandade, dos monumentos, dos lugares e da memória sagrada. Abominava, no entanto, os mercenários contratados pelos reis para seus exércitos, que conflagravam a Europa.
    Dadas as modestas condições de sua família, e tão severas foram suas práticas espirituais desde o início da idade adulta, não foi alfabetizada e assim se manteve até os 30 anos, quando por milagre aprendeu sozinha a ler italiano e latim e a escrever. Numa de suas cartas de próprio punho, relata ter recebido lições sobre os assuntos da Igreja diretamente de São João Evangelista e São Tomás de Aquino.
    Em algumas ocasiões, enquanto entrava em êxtase, pedia que anotassem suas palavras. Elas tornaram-se o livro 'Diálogo sobre a Divina Providência', obra que é considerada uma das maiores do misticismo cristão, onde se lê as revelações que recebia, as concepções teológicas e os argumentos sobre seu modelo de espiritualidade.
    Foi uma pacificadora da Igreja e da Itália em tempos muito difíceis, exatamente no início do decaimento da cristandade na Europa, solapado pelo 'humanismo' irresponsavelmente acalentado por supostos católicos e que se revelaria mera porta de perdição, levando ao protestantismo e, pouco mais tarde, ao próprio ateísmo.
    É a única leiga das quatro mulheres que receberam o título de Doutora da Igreja.


    Sua inspiração é evidente. Mistura-se perfeitamente com as locuções internas que tinha:
    "É obrigação de todos edificar os demais com uma vida boa, santa e honesta."
    "Não obrigues outras pessoas a viver como tu vives."
    "Ninguém deve desejar satisfações e visões espirituais, aspire somente a Virtude."
    "Oh quão doce e gloriosa é esta virtude da obediência! Nela estão todas as outras virtudes, porque concebia e gerada pela caridade. Nela está fundada a pedra da santíssima fé. É rainha tal que quem a desposa, nenhum mal padece, mas tem Paz e tranquilidade. As ondas do tempestuoso mar não a podem prejudicar e não a ofende tempestade alguma."
    "O caminho para atingir o verdadeiro conhecimento e a experiência de Deus é este: nunca abandonar o auto-conhecimento."
    "A humildade brota do auto-conhecimento."
    "Conhecendo-te, tu te humilharás ao perceber que, por ti mesma, nada és."
    "O orgulho é a raiz de todos os vícios."
    "Querendo progredir é preciso que tenhais sede."
    "A Divina Providência jamais falta ao homem, sob a condição de que ele a aceite."
    "Nesta vida ninguém vive sem Cruz."
    "Os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende."
    "Devemos tudo suportar, porque o sofrimento é pequeno e a recompensa é grande."
    "A pessoa que sofre compartilha mais as dores dos outros do que aqueles que nada padecem."
    "Nada mais desejo que a vossa santificação."
    "Tudo quanto quero ou permito tem uma finalidade: que atinjas a meta para a qual vos criei."
    "Recompenso quem trabalha por Minha Glória. Sou alegre e faço feliz quem cumpre a Minha vontade."
    "Ao querer dar um homem um grande tesouro, associo-lhe o peso de muitas dificuldades."
    "Quero que sejais Santos. Tudo o que vos acontece tem essa finalidade."
    "O demônio é fraco e nada pode além daquilo que Eu lhe permita."
    "É na adversidade que se prova ter paciência e amor."
    "Que motivo vos fez constituir o homem em dignidade tão grande? O amor inestimável pelo qual enxergastes em Vós mesmo Vossa criatura, e Vos apaixonastes por ela! Pois foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes um ser capaz de degustar Vosso Eterno Bem."
    "Por amor Deus vos criou, sem amor não podeis viver."
    "Só tu és o Amor, somente digno de ser amado!"
    "O amor por Mim e pelo próximo são uma só coisa."
    "Toda virtude se realiza em relação ao próximo, bem como todo pecado."
    "Considero feito a Mim o que fazeis para os homens."
    "Ao optar pelo Meu amor, o homem faz opção também de sofrer por Minha causa, qualquer que seja a modalidade da dor."
    "Pelo amor, o homem torna-se outro Cristo. É pelo amor que o homem se une a Deus."
    "Todo mal é ausência de amor."
    "Deus não deu todas as qualidades nem deixou ninguém sem nenhuma qualidade. Por isso precisamos um dos outros."
    "Jovens, se fores aquilo que Deus quer, colocareis fogo no mundo."
    "A amizade cuja fonte é Deus, nunca se esgota."
    "Foi na dispensa da hierarquia eclesiástica que Eu guardei o Corpo e o Sangue do Meu Filho."
    "Foi no seio da Igreja hierárquica que o Senhor depositou Seu mais precioso tesouro."
    "A Eucaristia é o meio mais apto para a união do homem com Deus e maior conhecimento da Verdade."
    "Tenham a certeza de que quando eu morrer, a única causa de minha morte será meu amor pela Igreja."
    "Oh meu padre, se o senhor tivesse visto a beleza de uma só alma em estado de Graça, estaria pronto a morrer mil mortes por uma só!"
    "Oh Maria, Templo da Santíssima Trindade! Oh Maria portadora do fogo e da Misericórdia… Oh Maria, co-redentora do gênero humano porque, tendo vós fornecido vossa carne ao Verbo, foi resgatado o mundo. Resgatou-o Cristo com Sua Paixão; e vós, com vossa dor do corpo e da alma, com vossa compaixão."
    "Pai Eterno, porque elevastes o homem a tanta dignidade? Foi o amor inefável com que vistes, em Vós mesmo, Vossa criatura e enamorastes-Vos dela. Por isso a criastes por amor e lhe destes o ser, para que ela experimentasse Vosso Sumo e Eterno Bem."
    "Somos Vossa imagem e Vós, a Nossa, pela união que realizastes no homem, velando a divindade com a miserável nuvem e massa corrompida de Adão. Quem foi a causa? O amor. Vós, ó Deus, fizestes-Vos homem e o homem tornou-se Deus."
    "Vós, Eterna Trindade, sois Meu Criador e eu, Vossa criatura. De novo criastes-Me no Sangue de Vosso Filho. Nesta nova criação conheci que Vos enamorastes da beleza de Vossa criatura."
    "Oh Eterna Trindade, foco e abismo de caridade, dissolvei já, a nuvem deste corpo meu! O conhecimento que me destes de Vós, em Vossa Verdade, impele-me ao desejo de livrar-me do peso deste meu corpo e dar a vida pela Glória e louvor de Vosso Nome! Pois saboreei e vi, com a luz do intelecto, na Vossa Luz, Vosso abismo, Eterna Trindade, e a beleza de Vossa criatura."
    "Ó abismo, ó Eterna Divindade, ó mar profundo! E que mais poderíeis dar-me que vos dar a mim? Sois fogo que sempre arde e não consome. Sois fogo que consome todo amor-próprio da alma. Sois fogo que destrói toda frieza."
    "Oh Eterno e Infinito Bem, oh louco de amor! Será que necessitais de Vossa criatura? Parece-me que sim, pois agis como se sem ela não pudésseis viver, embora sejais Vós a Vida, pois todos os seres recebem a vida de vós, e sem Vós ninguém vive… Vós enamorastes-Vos de Vossa criatura, nela pusestes Vossa complacência, como ébrio de sua Salvação! Foge de Vós, e andais a sua procura! De Vós se afasta, e dela aproximais-Vos!"
    "Disse-me o Senhor: ‘Assim que uma alma entra no Céu, todos os eleitos participam de sua glória e assim também ela participa da felicidade de todos. Meus eleitos viverão na alegria, é a felicidade proporcionada pela visão de Minha Divindade e a companhia de Jesus, Cordeiro Imolado. É uma Paz, uma perfeita alegria, uma Luz sem sombras, uma felicidade soberana, infinita, sem limites."

    Morreu em 1380, no dia 29 de abril, aos 33 anos, mas em 1430, ao ser exumado, seu corpo ainda estava incorrupto. Além do livro citado, deixou 381 cartas e 26 orações da mais pura inspiração.
    É co-Padroeira do continente europeu junto a Santa Edith Stein e Santa Brígida da Suécia, além de co-Padroeira da Itália, junto a São Francisco de Assis, e padroeira dos consultores.
    Suas relíquias encontram-se sob o altar principal da Basílica de Santa Maria sopra Minerva, no centro de Roma, uma construção do século XIV, a única igreja em estilo gótico da Cidade Eterna. Seu rosto, exposto numa capela em sua homenagem, ainda não se decompôs por completo.



    Santa Catarina de Sena, rogai por nós!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

São Luís Maria Montfort


    No fim do século XVII, quando em todo mundo se pregava abertamente a abolição da escravatura, um sacerdote francês convidava todos à escravidão à Nossa Senhora, através de uma das maiores obras da Mariologia na atualidade, da qual é um dos precursores: 'O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria'.
    Nasceu no ano de 1673, em Montfort-sur-Meu, na Bretanha francesa. Sua mãe era fervorosa católica e aos 12 anos enviou-o ao Colégio Jesuíta São Thomas Becket, em Rennes, cidade mais próxima. Desde então nosso Santo já sentia o chamado à vida sacerdotal, e aí mesmo começou a estudar Teologia e Filosofia. Conheceu o padre local, que vivia como missionário itinerante, e percebeu que seu coração haveria de ser entregue a serviço dos mais pobres. E ao ouvir sobre o trabalho dos missionários da Companhia dos Padres de São Sulpício, que evangelizavam no Canadá, quis oferecer-se.
    Com esse intuito, em 1693 foi enviado a Paris, para o Seminário de São Sulpício, uma escola de referência para a espiritualidade francesa. Mas o dinheiro dado por seu benfeitor não era suficiente, e por dois anos ele contentou-se em viver entre os mais pobres e mendigos, enquanto frequentava as palestras de Teologia na Universidade de Sorbonne.
    Sem os devidos cuidados, adoeceu gravemente, mas foi internado e, apesar de algumas sequelas, convalesceu. Alguém do Seminário de São Sulpício soube de sua história e deu-lhe um emprego de bibliotecário, de modo a custear seus estudos, e durante as horas de trabalho ele dedicou-se a conhecer em profundidade as principais obras do Catolicismo, dando especial atenção aos assuntos referentes à Virgem Mãe do Céu.
    Em 1700 foi ordenado e enviado a Nantes, porém queira mesmo era pregar aos pobres, dos quais, desde a chegada a Paris, não mais se havia afastado. E para maior contrariedade, deu-se conta que toda a comunidade sacerdotal local era adepta do jansenismo, heresia de um bispo holandês, para quem, na prática, o ser humano é um mero objeto: já nasce predestinado ao inferno ou à Salvação. Seus seguidores recusavam-se a absolver os pecados de quem confessasse reincidência, e, com tamanha exigência de contrição, a 'comunhão espiritual' seria para eles mais importante que a própria Comunhão Eucarística.
    Sua perfeita instrução doutrinária, claro, não sucumbiu a esses absurdos. E por opôr-se frontalmente a esses desvios, vai ser perseguido por toda a vida. Como uma das consequências, foi enviado a Poitiers, na condição de capelão do hospital, e, para servir aos mais pobres enfermos, começou a trabalhar com a Beata Marie Louise Trichet, de apenas 17 anos, com quem em 1715 fundaria a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Contudo, não desistiu de pregar e tanto quanto pôde viveu em missão por toda a região da Bretanha, entre cidades e aldeias, levando ao povo mais humilde o mais puro Catecismo Católico. Seu amor à Nossa Senhora era encantador, tocava o coração de toda a gente. Aí começou a ser conhecido como o 'bom padre de Montfort'. Em Pontchateau chegou a reunir milhares de pessoas para construir uma grande Via Sacra, mas terminou sendo expulso pelo bispo não só do hospital como também da diocese de Nantes.
    Tristemente compungido, vai a pé até Roma, aconselhar-se com o Papa, pedir-lhe para ser enviado ao Canadá, como era seu antigo sonho. Porém será enviado pelo Santo Padre de volta a França justamente para fazer frente ao jansenismo, e agora com o título de Missionário Apostólico. Continuará, entretanto, sendo violentamente combatido em paróquias e dioceses. Tentaram matá-lo por envenenamento, o que agravou ainda mais seus problemas de saúde.
    Mas ele não retrocedia. Vai escrever o 'Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria', 'O Segredo de Maria' e 'O Segredo do Rosário', assim como as regras para a Companhia de Maria, que fundaria em 1712, e para a Congregação das Filhas da Sabedoria.


    Nas proximidades de Montfort, na gruta Mervent, em São Lázaro, ele vai recolher-se por várias vezes, por muitos meses, quatro anos ao todo durante sua vida, revigorando sua vida espiritual e contemplativa.
    A Marie Louse Trichet, vai escrever de Paris: "Sou-vos infinitamente grato. Estou sentindo o efeito de vossas orações, já que, hoje mais do que nunca, vejo-me empobrecido, crucificado, humilhado. Homens e demônios desta grande cidade de Paris movem-me uma guerra que me é amável e suave. Que me caluniem, que me ridicularizem, que destruam minha reputação, que cheguem até a prender-me. Que preciosos dons! Que manjares deliciosos! Que grandezas encantadoras! São o séquito e a companhia indispensáveis que a divina Sabedoria envia à casa daqueles onde deseja habitar. Quando me será dado possuir essa amável e desconhecida Sabedoria?"
    Foi muito criticado por sua 'falta de prudência', mas uma vez respondeu em carta a um amigo: "Dais-me como exemplo pessoas muito prudentes e de grande virtude a quem ninguém pensa em censurar. Mas há duas espécies de prudência: a própria dos cristãos que vivem em sociedade, e outra que vai melhor aos missionários e homens apostólicos. Os primeiros, para proceder prudentemente, só têm que observar as regras e costumes de uma casa santa; os outros veem-se frequentemente obrigados a desprezar a própria glória para buscar a de Deus, e, para isso, têm que lançar-se em mais de uma empresa que choca e até escandaliza. Não é de estranhar que se deixe em paz aos primeiros e se ataque os segundos. Quando os homens de ação são bem acolhidos pelo mundo é sinal de que o inferno não os teme. Se a prudência consistisse simplesmente em não dar que falar, os Apóstolos não precisariam ter saído de Jerusalém, nem São Paulo teria sido obrigado a fazer tantas viagens, nem São Pedro porque fincar a cruz no Capitólio. Com uma prudência assim não se teria sobressaltado a sinagoga, mas também não se teria conquistado o mundo."
    Para ele, a Sabedoria está na loucura da Cruz: "Se fizermos qualquer coisa para não correr riscos por Deus, nunca iremos fazer algo de grande por Ele."
    Seus escritos sobre Mariologia vieram a influenciar fortemente a devoção de quatro Papas, em especial, que a ela fizeram várias menções em suas encíclicas. São eles Papa Leão XIII, Papa São Pio X, Papa Pio XII e o Papa São João Paulo II.


    Devoção à Nossa Senhora, ele justifica por dois princípios:
    1 - Deus quis servir-se de Maria para a Encarnação do Cristo; e,
    2 - Deus quer servir-se de Maria para a santificação das almas.
    Essa devoção tem cinco características:
    1 - Ela é interior, ou seja, vem do espírito e do coração, fundamentando-se numa ideia adequada do enorme papel representado por Maria no plano da Redenção, e num amor coerente com essa ideia;
    2 - Ela é terna, gerando na alma uma grande confiança, que faz recorrer a Maria em todas as suas necessidades, como uma criança recorre a sua mãe;
    3 - Ela é Santa, isto é, faz com que se evite todo o pecado e se imitem as virtudes da Santíssima Virgem;
    4 - Ela é constante, consolidando a alma no bem e fazendo com que não abandone facilmente o caminho iniciado; e,
    5 - Ela é desinteressada, inspirando a alma a buscar mais a Glória de Deus que suas próprias vantagens.

    Em 1716, durante uma missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre, nas imediações de Nantes, com apenas 43 anos e a saúde bastante fragilizada, nosso Santo deixou esse mundo. Milhares de fieis acorreram ao seu funeral aí mesmo, e logo surgiram relatos de milagres junto a seu sepulcro.
    Em 1892, sobre uma igreja de São Lourenço do século XI, nesta pequena cidade foi concluída uma Basílica toda em granito para a devoção a ele, que é visitada por milhares de peregrinos todos os anos. Nela há também uma estátua de seu último gesto, quando a gente do lugar, ao saber do frágil estado de saúde, acorreu para pedir-lhe uma última benção. E num esforço que lhe era característico, ele abençoou-os com o crucifixo.



    São Luís Maria Montfort, rogai por nós!

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Sagrado


    Teríamos todos nós o senso do sagrado? Ele não precisaria ser estimulado? Todo ser humano é capaz de ativá-lo por si mesmo? Mesmo sendo sim as respostas a essas perguntas, com algumas ligeiras ressalvas, claro, olhando para o mundo a sensação que se tem é justamente o contrário: estaríamos perdendo-o cada vez mais. Pudera: diante de tanto relativismo, materialismo e consumismo, não haveria como ser diferente.
    De toda forma, há vários registros bíblicos de que as coisas nem sempre estiveram bem. 700 anos antes de Cristo, Deus Pai já Se queixava de Seu povo através do profeta Isaías: "Eu criei filhos e os eduquei; eles, porém, se revoltaram contra Mim. O boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e Meu povo não tem entendimento." Is 1,3
    E o próprio Isaías atestava: "Abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, e Lhe voltaram as costas." Is 1,4
    Contudo, não é de um todo absurdo que vejamos em cada ser humano a capacidade de reconhecer o sagrado. E temos a certeza que um dia ela será plena, como Deus mesmo prometeu através de Jeremias: "Mas esta é a Aliança que estabelecerei com a casa de Israel depois daqueles dias: imprimirei as Minhas leis no seu espírito e as gravarei no seu coração. Eu serei Seu Deus, e eles serão Meu povo. Ninguém mais terá que ensinar a seu concidadão, ninguém a seu irmão, dizendo: 'Conhece o Senhor', porque todos Me conhecerão, desde o menor até o maior." Jr 31,33-34
    Nossa atitude, no entanto, não pode ser nem de acomodação nem de presunção. Pelo contrário, São Paulo exorta que cresçamos espiritualmente: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Ora, mesmo garantindo os auxílios da Divina Graça para não nos iludirmos com vaidades, as quais sempre nos afastam de Deus, instantemente Jesus recomendou a vigília e a oração: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    E o nosso crescimento espiritual é a principal função da Santa Madre Igreja, através da qual Jesus edifica pessoalmente cada um de nós, tal e qual prometeu a São Pedro: "... tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja..." Mt 16,18
    Ele explicitou a intensa atividade do Pai neste projeto: "Eu sou a verdadeira videira, e Meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em Mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto." Jo 15,1-2
    E também que Ele mesmo é essencial: "Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto; porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5
    Porque é através da unidade da fé, isto é, da Comunhão do Espírito Santo, e tão somente por ela, que podemos alcançar a maturidade do Cristo. São Paulo explicou: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores." Ef 4,11-14
    De fato, a Comunhão é a razão de ser da Igreja de Cristo, como Ele mesmo sentenciou: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    E só há verdadeira purificação de pecados e Comunhão se buscarmos a Luz do Mundo. Só assim se dissipam as trevas, corrigindo-nos uns pelo outros como ensinava São João Evangelista: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão recíproca uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    Essa seria uma constante pregação de São Paulo. Ele escreve aos efésios: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a Unidade do Espírito no vínculo da Paz. Sede um só Corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança." Ef 4,1-4
    Escreveu também aos colossenses: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós." Cl 3,12-13
    Pois a multiforme Sabedoria de Deus expressa-se abundantemente pela Escritura: "A Palavra de Cristo permaneça entre vós em toda a sua riqueza, de sorte que com toda a Sabedoria vos possais instruir e exortar mutuamente." Cl 3,16
    Sem dúvida, não nos foi dada a opção de abraçar a Cristo sem abraçar Sua Igreja. São Paulo testemunhou: "Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja."Ef 5,32
    Pois tal maturidade, que deve ser efetivamente cultuada pelos seus membros, equivale a um renascimento: "Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!" 2 Cor 5,17
    Jesus dizia: "Se guardardes a Minha Palavra, sereis de fato Meus discípulos; conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará." Jo 8,31-32
    Porque, fora Jesus, não há outro caminho para nos achegarmos a Deus. Ele disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim." Jo 14,6
    Mas a quantos de nós ainda falta a humildade para reconhecer o valor e o poder da Palavra de Jesus? Para nosso exemplo, disse-Lhe o oficial romano: "Senhor, não Te incomodes, pois eu não sou digno de que entres em minha casa; nem sequer me atrevi a ir pessoalmente ao Teu encontro. Mas diz uma palavra e o meu empregado ficará curado." Lc 7,6-7
    Conforme as palavras de São Paulo, ainda estaríamos raciocinando demasiadamente sob aspectos materiais: "... o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém." 1 Cor 2,14-15
    Na verdade, existem sutis detalhes a serem observados, como apontou Jesus: "Entrai pela porta estreita, porque é larga a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela!" Mt 7,13
    Pois o motivo do embrutecimento dos sentidos, Ele avisa, tem nome e ronda a todos: "Todo aquele que ouve a Palavra do Reino e não a compreende é como a semente que caiu à beira do caminho: vem o Maligno e rouba o que foi semeado no seu coração." Mt 13,19
    E o final de muitas histórias é simplesmente a insensatez: "... quem ouve estas Minhas palavras e não as põe em prática é como o homem sem juízo..." Mt 7,26
    Ele alertou: "Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus conhece vossos corações..." Lc 16,15
    Esbravejou contra a malícia de alguns religiosos, que se portam como os donos da Revelação: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o Reino dos Céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar." Mt 23,13
    Até admitia que pecassem contra Ele, por conta de Sua paradoxal condição humana, mas disse que o pecado contra o Espírito Santo, sem o devido arrependimento, não terá o perdão automático de Deus: "Por isso, eu vos digo: todo pecado e toda blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não lhes será perdoada. Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro." Mt 12,31-32
    De fato, os religiosos faziam a Jesus as mais absurdas acusações: "Responderam então os judeus: 'Não dizemos com razão que és samaritano, e que estás possesso de um demônio?'" Jo 8,48
    Acusaram-nO de ser o próprio inimigo, como Ele mesmo atestou aos Apóstolos: "Se chamaram de Beelzebul ao Pai de família, quanto mais o farão às pessoas de Sua Casa!" Mt 10,25b
    Ele, no entanto, desafiava-os: "Quem de vós Me acusará de pecado?" Jo 8,46a
    Usou de todos os artifícios para convencê-los de Sua manifestação como o Messias: "Se eu não faço as obras de Meu Pai, não Me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede nas Minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,37-38
    Mas Seus milagres e prodígios não ficariam em vão: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem recusado arrepender-se: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso vos digo: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso te digo: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!'" Mt 11,20-24
    Disse também aos fariseus de Jerusalém, sobre o testemunho da cura do cego de nascença: "Respondeu-lhes Jesus: 'Se fôsseis cegos, não teríeis pecado, mas agora pretendeis ver, e o vosso pecado subsiste.'" Jo 9,41
    Quanto à mera insensibilidade religiosa, típica de embrutecidos e que leva à exploração da fé alheia, Seu remédio foi até mais simples: improvisando um chicote, Ele adotou a força bruta contra os vendilhões do Templo: "Não está porventura escrito: 'A Minha Casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações (Is 56,7)?' 'Mas vós fizestes dela um covil de ladrões (Jr 7,11).' Mc 11,17


'CRESCEI NA GRAÇA'

    Afirmativamente, Jesus pedia conversão sincera: "...os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é Espírito, e os Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    E estimulava o culto às coisas sagradas, praticado em absoluta confiança na Divina Providência: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,33
    Isso representa aplicar todas nossas capacidades para conhecer a Deus cada vez mais. Nosso Salvador fez questão de reafirmar o amor a Deus expresso no primeiro Mandamento: "Jesus respondeu-lhe: 'O primeiro de todos os Mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor Nosso Deus é o único Senhor. Amarás ao Senhor Teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças.'" Mc 12,29-30
    Ele sabia, porém, que essa seria uma tarefa do Espírito Santo: "Entretanto, digo-vos a Verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, vo-Lo enviarei. E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque Eu Me vou para junto do Meu Pai e vós já não Me vereis; Ele o convencerá a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,7-11
    Mas, se há mistérios não revelados, como argumentou São Paulo, a Revelação da qual somos testemunhas é divina e amplamente suficiente para alcançarmos a Salvação: "Pois aquilo que é possível conhecer de Deus, foi manifestado aos homens; e foi o próprio Deus Quem o manifestou." Rm 1,19
    São João Evangelista, oportunamente, foi enfático ao confirmar a Divina Manifestação de Jesus: "Sabemos que o Filho de Deus veio e que Ele nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro." 1 Jo 5,20
    Não por acaso, ao citar as sutilezas da RevelaçãoSão Paulo escreveu: "Por meio do Sangue de Cristo é que fomos libertos, e n'Ele as nossas faltas foram perdoadas, conforme a riqueza da Sua Graça. Deus a derramou sobre nós, abrindo-nos para toda a Sabedoria e inteligência. Ele fez-nos conhecer o mistério da Sua vontade..." Ef 1,7-9
    E como ensinou São Pedro, através de Jesus podemos contar com os extraordinários auxílios que nos levam, não só ao senso do sagrado, mas propriamente à Sua Glória, a participar de Sua natureza divina: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    Assim, para que realmente comunguemos do sagrado devemos buscar Deus na Eucaristia, o Perfeito Sacrifício oferecido por Jesus: "Quem come a Minha Carne e bebe o Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Por ela teremos a Salvação: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é a Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    Mas como insistiu São Paulo, falando repetidamente sobre a unidade da Igreja, só há uma Comunhão: "Uma vez que há um único Pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só Corpo, porque todos nós comungamos do mesmo Pão." 1 Cor 10,17
    Ou seja, só há um Pão e Vinho sagrados. O Apóstolo dos Gentios corrigia: "Não podeis beber ao mesmo tempo o cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." 1 Cor 10,21
    Tal entendimento, no entanto, requer oração, sinceridade e perseverança, como disse o próprio Jesus: "Como o Pai Me ama, assim também Eu vos amo. Perseverai no Meu amor." Jo 15,9
    E verdadeira , conforme ensina o Santo de Tarso: "A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se veem." Rm 11,1
    De sua profunda inspiração, este Apóstolo usou de todos os recursos para fazer com que os povos chegassem ao conhecimento de Deus, como diante dos gregos ao falar do 'Deus desconhecido': "Pois bem, esse Deus que adorais sem conhecer, é exatamente Aquele que eu vos anuncio." At 17,23 
    Antes, portanto, de nos deixar levar pela presunção de conhecermos suficientemente o sagrado, ouçamos o que diz o próprio São Pedro, que tanto amou Jesus: "... crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." 2 Pd 3,18
    Como alguém que realmente chegou à intimidade com Deus, ele deixou um valoroso método, uma sequência de valores que precisamos cultuar para que cheguemos a um verdadeiro amadurecimento espiritual: "... esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem em vós abundantemente, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Pd 1,5-8


    "Conservai a Vossa Igreja sempre unida!"