sexta-feira, 31 de março de 2017

As Tentações


    Antes que meros impulsos humanos, portanto, naturais, São Tiago Menor ensina que somos tentados por nossas próprias propensões para o pecado, ou seja, inequívocos sinais de desregradas paixões. "Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,13-14
    Mas há também a obra do inimigo, aquele que, conhecedor dessas fraquezas, quer arrastar-nos à perdição. São Paulo diz aos tessalonicenses: "... pois receava que o tentador vos tivesse seduzido e resultasse em nada o nosso trabalho." 1 Ts 3,5
    E fala expressamente a São Timóteo dos que caem nos: "... laços do Demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos." 2 Tm 2,26b
    Sabemos, no entanto, que, por força da Graça de Deus, manifesta na proteção de nosso anjo da guarda, a dominação do Maligno não se dá de uma só vez. Foi o que relatou São João Evangelista sobre Judas: "Durante a Ceia, quando o Demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-Lo..." Jo 13,2
    Contudo, como disse São Paulo, ela pode ser total. São João Evangelista registrou ainda durante a Santa Ceia: "Nesse momento, depois do Pão, Satanás entrou em Judas." Jo 13,27

OS TRÊS ESTÁGIOS DA TENTAÇÃO

    São:
    1º - Sugestão - o tentador, conhecedor de nossos pecados, usa de ideias, ou de coisas ou de pessoas que manipula, para sugerir o pecado; (Já lemos de São Tiago: "Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,14)
    2º - Prazer - em resposta, porque desprovido da Graça ou por reincidente fraqueza, o tentado deleita-se tão somente em imaginar o pecado sugerido; (Segundo Jesus, aí o pecado já aconteceu: "... todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou em seu coração." Mt 5,28; No mesmo sentido, São Tiago afirma: "A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado..." Tg 1,15a)
    3º - Assentimento - o pecador, enfim, consente em pecar, e a tentação torna-se um pecado consumado. (Segundo São Tiago, nesse momento abraçamos voluntariamente o caminho da perdição: "... e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,15b)

    Segundo São João Evangelista, a propensão ao pecado age em nós através da exacerbação das necessidades fisiológicas, da cobiça e da vaidade: "Porque tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Porém, para que ninguém se engane atribuindo demasiado poder às tentações, São Paulo avisa: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas, diante da tentação, Ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela." 1 Cor 10,13
    Foi o que Deus disse a Caim, momentos antes de ele matar Abel: "Se precederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te; mas, tu deverás dominá-lo." Gn 4,7b
    Por isso São Tiago elogia e garante: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da Vida que Deus prometeu aos que O amam." Tg 1,12

JESUS FOI TENTADO

    Ao ser tentado, Jesus prontamente tudo rejeitava quando ainda eram sugestões.


    Na primeira tentação, foi-Lhe oferecido comida, pois estava jejuando no deserto. Além de uma necessidade básica, porém, nesse caso a comida representa também os prazeres mundanos, como a gula:
    "Disse-Lhe então o Demônio:
    - Se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão.
    Jesus respondeu:
    - Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra de Deus' (Dt 8,3)." Lc 4,3-4


    Na segunda, o diabo, mentiroso, mesmo sem ser dono de nada, oferece-Lhe riquezas e poder em troca da negação de Deus. Quer dizer, aí estão três das mais sérias e recorrentes ilusões no ideário humano: o ouro, o poder e o ateísmo:
    "O demônio levou-O em seguida a um alto monte e mostrou-Lhe num só momento todos os reinos da terra, e disse-Lhe:
    - Dar-Te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero. Portanto, se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.
    Jesus disse-lhe:
    - Está escrito: 'Adorarás o Senhor Teu Deus, e a Ele só servirás (Dt 6,13).'" Lc 4, 5-8


    Na terceira, usando maliciosamente do conhecimento das Escrituras, o diabo propõe que Jesus teste, de modo suicida, os poderes de Deus. Aqui estão representadas também algumas exigências meramente humanas, que, sem a inspiração do Espírito Santo, ignoram a real natureza da Divina Providência e menosprezam o projeto de Deus:
    "O demônio levou-O ainda a Jerusalém, ao ponto mais alto do Templo, e disse-Lhe:
    - Se és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo; porque está escrito: 'Ordenou aos Seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra' (Sl 90,11s.).
    Jesus disse:
    - Foi dito: 'Não tentarás o Senhor Teu Deus' (Dt 6,16)." Lc 4, 9-12

    Destas passagens bíblicas, fica mais um importante detalhe: o inimigo, que não sabe o que pensamos mas vê o que fazemos, e tem o poder de 'sussurrar' ideias e palavras diretamente à nossa mente, procura ocasiões oportunas para nos tentar. De fato, ainda sobre as tentações de Jesus no deserto, São Lucas relata: "Depois de tê-Lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se d'Ele até outra ocasião." Lc 4,13

CONSELHOS E PROTEÇÃO DE DEUS

    No Pai Nosso, que, mais que diária, deve ser uma frequente oração, Jesus ensinou-nos a pedir: "... e não nos deixeis cair em tentação..." Mt 6,13
    Contudo, caso caiamos, na mesma oração Ele também ensinou a pedir a Pai que nos livrasse do completo domínio das garras do Maligno: "... mas (caso isso aconteça) livrai-nos do Mal." Idem
    De fato, Jesus descreveu-o como muito perigoso: "Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    Referindo-Se a seu modo dissimulado, mas igualmente perverso, disse mais: "O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir." Jo 10,10a
    E descreveu assim como ele tem minado o projeto da Criação: "Jesus propôs-lhes outra parábola: 'O Reino dos Céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu.'" Mt 13,24-25
    Sabendo que ele tentaria destruir Sua Igreja, inicialmente representada pelos Apóstolos, Jesus avisou a São Pedro: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo..." Lc 22,31
    Avisou também a todos nós: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    Mas garantiu que a Igreja seria nosso indestrutível refúgio: "E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    E estabeleceu uma sucinta, porém marcante distinção: "Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    Não deixou de explicar, no entanto, como o inimigo age e distrai os mal-ouvidos: "Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem; mas depois vem o demônio e lhes tira a Palavra do coração, para que não creiam nem se salvem." Lc 8,12
    São João Evangelista, da mesma forma, percebia os que realmente creem em Deus pelo comportamento: "Aquele que diz conhecê-Lo e não guarda os Seus Mandamentos é mentiroso e a Verdade não está nele. Aquele, porém, que guarda a Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que afirma permanecer n'Ele deve também viver como Ele viveu." 1 Jo 2,4-6
    Com a chegada de Jesus ao Céu, por fim, junto ao Pai temos nosso vitorioso defensor, pois o diabo, o acusador, foi precipitado à Terra: "Eu ouvi no Céu uma voz forte que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do Nosso Deus.'" Ap 12,10
    Uma vez aqui na Terra, desde então ele tem perseguido os filhos de Nossa Mãe Celeste, ou seja, a Igreja: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de seus filhos, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Por isso São Pedro nos exorta a resistir, lembrando que Deus nos concede o dom da fortaleza: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o Demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na . Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará." 1 Pd 5,8-10
    Denunciando a cobiça e suas consequentes aflições, São Paulo recomenda a prática de virtudes a São Timóteo: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,11
    Condena também as ilusões e os vãos debates, aconselhando as boas companhias dos verdadeiros religiosos: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração. Rejeita as discussões tolas e absurdas, visto que geram contendas." 2 Tm 2,22-23
    São Tiago Menor, tal e qual São João Evangelista, aponta como definitiva solução a perfeita obediência aos Mandamentos de Deus: "Sede submissos a Deus. Resisti ao demônio, e ele fugirá para longe de vós." Tg 4,7
    De fato, São Pedro afirma que só pela obediência a Deus é dado receber o Santo Espírito: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Ora, São João Evangelista só atestou a santidade através da Unção do Espírito Santo, a Quem chama de 'germe de Deus', que nos é concedida pela Graça dos Sacramentos e manifesta-se na virtude da temperança: "Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino reside nele... ... o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,9a;5,18b
    Pois segundo São Paulo, os que vivem os Mandamentos sufocaram até mesmo as propensões ao pecado: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito." Gl 5,24-25
    Essa, contudo, não será a tendência dos tempos finais segundo São Pedro: "Sabei antes de tudo o seguinte: nos últimos tempos virão escarnecedores cheios de zombaria, que viverão segundo as suas próprias concupiscências." 2 Pd 3,3
    Cientes de nossa falibilidade, portanto, e da difícil luta contra os pecados, é consolador sabermos que em Jesus temos uma nova chance. São João Evangelista disse em sua Primeira Epístola: "No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo." 1 Jo 2,1

    "Santificai e reuni o Vosso povo!"

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Mal do Dinheiro


    Falando sobre a sandice por bens materiais, Jesus faz recordar o único sentido de nossas vidas: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro." Mt 6,24
    Cuidando de prover também materialmente a humanidade, portanto, Deus vê no mundo apenas dois grandes grupos de pessoas: os necessitados e Seus possíveis colaboradores. E em função de caridade material e espiritual Jesus explicou o Juízo: "Então o Rei dirá aos que estão à direita: 'Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e Me destes de comer; tive sede e Me destes de beber; era peregrino e Me acolhestes; nu e Me vestistes; enfermo e Me visitastes; estava na prisão e viestes a Mim.' Responderá o Rei: 'Em verdade Eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes Meus irmãos mais pequeninos, foi a Mim mesmo que o fizestes." Mt 25,34-36.40
    Por isso, como havia dito o profeta Isaías, a Missão de Jesus, enquanto consolador, era bem específica: "... anunciar a Boa Nova aos pobres..." Is 61,1
    De fato, Ele advertia àqueles que acreditam encontrar satisfação em bens materiais: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes a vossa consolação!" Lc 6,24
    Até contou uma ruidosa parábola: "Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico... Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado. E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro no seu seio. Gritou, então: 'Pai Abraão, compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta de seu dedo, a fim de refrescar-me a língua, pois sou cruelmente atormentado nestas chamas.' Abraão, porém, replicou: 'Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida, mas Lázaro, males; por isso ele agora aqui é consolado, mas tu estás em tormento.'" Lc 16,19-25
    A Verdade é que muitos perdem a compaixão pelo próximo, e assim se afastavam dos Mandamentos de Deus, por conta de débeis apegos materiais e ambições: "Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence." Ex 20,17
    Caem mesmo nos mais óbvios pecados: "Não furtarás." Ex 20,15
    E maculam outros nem um pouco menos danosos: "Honra teu pai e tua mãe, para que teus dias se prolonguem sobre a terra que te dá o Senhor, Teu Deus." Ex 20,12
    É nesse fértil terreno, justamente por seu evidente potencial, que Jesus mais lamenta a semente desperdiçada: "O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a Palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas sufocam-na e tornam-na infrutuosa." Mt 13,22
    Pois contra qualquer impressão, Ele deixou bem claro que a vida humana se encontra tão somente à disposição da vontade de Deus: "Guardai-vos escrupulosamente de toda a avareza, porque a vida de um homem, ainda que ele esteja na abundância, não depende de suas riquezas." Lc 12,15
    E aos que gostam de acumular bens, Ele contou uma parábola: "Havia um homem rico cujos campos produziam muito. E ele refletia consigo: 'Que farei? Porque não tenho onde recolher a minha colheita.' Disse então ele: 'Farei o seguinte: derrubarei os meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda a minha colheita e os meus bens. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te.' Deus, porém, lhe disse: 'Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?' Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus." Lc 12,16-21
    Suas recomendações eram patentes: nesse mundo ferido por injustiças e ganância, as riquezas mundanas tornam-se verdadeiras desgraças se não usadas para diminuir o sofrimento: "Eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos." Lc 16,9
    Porque, quanto aos comportamentos contrários à logica da partilha, Jesus era taxativo: "Filhinhos, quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que põem a sua confiança nas riquezas!" Mc 10,24
    E para desfazer a cultura de então, que acreditava que a riqueza era uma dádiva de Deus, Ele enfatizou: "Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus." Mt 19,24
    E ensinava: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no Céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração." Mt 6,19-21
    Mesmo ao falar sobre festas e grandes celebrações, os ensinamentos de Jesus era exclusivamente caritativos: "... quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas ser-te-á retribuído na Ressurreição dos justos." Lc 14,13-14
    E até a caridade deve ser praticada sem vanglória: "Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e Teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á." Mt 6,3-4
    Por isso Ele fez questão de elogiar àqueles que realmente confiam na Divina Providência, e tudo fazem na certeza de que Deus não lhes faltará: "... esta pobre viúva deitou mais do que todos os que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância; esta, porém, de sua pobreza, pôs tudo o que tinha para o seu sustento." Mc 12,43-44
    Pois àqueles que estão verdadeiramente prontos para a Vida Eterna, e assim verdadeiramente testemunhar Jesus, não mais cabe ater-se às coisas desses mundos: "Dai antes em esmola o que possuís, e todas as coisas vos serão limpas." Lc 11,41
    Com efeito, ao enviar os Apóstolos à primeira missão, Suas recomendações não podiam ser diferentes. Eles também tinham que entregar-se totalmente nas mãos de Deus: "Ordenou-lhes que não levassem coisa alguma para o caminho, senão somente um bordão; nem pão, nem mochila, nem dinheiro no cinto..." Mc 6,8
    Ele dizia: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas Vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso. Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo." Lc 12,29-31
    E no próprio Pai Nosso, embora referindo-Se principalmente ao Pão do Céu, Jesus exortou-nos, ainda como exemplo de comedimento quanto aos alimentos, a pedir ao Pai tão somente conforme nossas necessidades diárias: "O Pão Nosso de cada dia nos dai hoje..." Mt 6,11
    A pobreza evangélica, portanto, é nosso maior exemplo: o caminho dos Santos, da perfeição. E embora Ele não a exija de todos, como não a exigiu de Zaqueu, foi o que Ele recomendou ao jovem rico que se achava correto demais: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Mt 19,21
    E deixou uma grave advertência aos que dizem servir a Deus: "Ora, ouviam tudo isto os fariseus, que eram avarentos, e zombavam d'Ele. Jesus disse-lhes: 'Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens, mas Deus vos conhece os corações; pois o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus.'" Lc 16,14-15
    Os verdadeiros sacerdotes da Igreja, portanto, após a devida preparação, devem abandonar-se por completo nas mãos da Divina Providência: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo." Lc 14,33
    E tudo devem fazer em nome da mais absoluta gratuidade, como Ele mesmo ensinou: "Dai de graça o que de graça recebestes!" Mt 10,8
    De fato, como disse São Pedro a um charlatão, o comércio das coisas divinas é pura maldição: "Maldito seja o teu dinheiro e tu também, se julgas poder comprar o dom de Deus com dinheiro!" At 8,20


O EXEMPLO DE MARIA E DOS APÓSTOLOS

    Quando concebeu do Espírito Santo, apesar de muito jovem, Maria já sabia muito bem como Deus distribuía Suas Graças: "Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos." Lc 1,53
    E São Paulo, escrevendo a São Timóteo, apontava o Maligno por trás da conduta da ganância: "Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição." 1 Tm 6,7-9
    Ele explicava: "Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10
    Por isso dava essa diretriz de catequese: "Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança nas riquezas volúveis, mas em Deus, que nos dá abundantemente todas as coisas para delas fruirmos. Que pratiquem o bem, enriqueçam-se de boas obras, sejam generosos, comunicativos, ajuntem um tesouro sólido e excelente para seu futuro, a fim de conquistarem a verdadeira Vida." 1 Tm 6,17-19
    Quanto aos membros da Igreja, ele cobrava retidão e exemplo: "Do mesmo modo, os diáconos sejam honestos, não de duas atitudes nem propensos ao excesso da bebida e ao espírito de lucro..." 1 Tm 3,8
    Ora, ele sabia muito bem o que acontecia na alma dos que se desviam da Sã Doutrina. Trata-se de um evidente abandono das práticas da religiosidade: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por questões ociosas e contendas de palavras. Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, os vãos conflitos entre homens de coração corrompido e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro." 1 Tm 6,3-5
    Cuidando de instituir bispos, à medida que os Apóstolos eram martirizados, São Paulo combatia as heresias que surgiam e apontava a mesma razão a São Tito: "Porquanto é mister que o bispo seja irrepreensível, como administrador que é posto por Deus. Não arrogante, nem colérico, nem intemperante, nem violento, nem cobiçoso. Ao contrário, seja hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente, firmemente apegado à Doutrina da Fé tal como foi ensinada, para poder exortar segundo a Sã Doutrina e rebater os que a contradizem.Com efeito, há muitos insubmissos, charlatães e sedutores, principalmente entre os da circuncisão. É necessário tapar-lhes a boca, porque transtornam famílias inteiras, ensinando o que não convém, e isso por vil espírito de lucro." Tt 1,7-11
    E seus seguidores elogiavam o despojamento dos autênticos cristãos diante dos que sofrem: "Não só vos compadecestes dos encarcerados, mas aceitastes com alegria o confisco dos vossos bens, pela certeza de possuirdes riquezas muito melhores e imperecíveis." Hb 10,34
    Na verdade, São Paulo jamais esqueceu a principal diretriz pastoral que lhe deram São Tiago, São Pedro e São João, as 'colunas da Igreja': "Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção." Gl 2,10
    E apontava também a importância de tudo fazer com amor: "Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!" 1 Cor 13,3
    Falando das Santas Missas, São Tiago denunciou os tratamentos cheios de interesses feitos aos ricos dentro da Igreja: "Suponde que entre na vossa reunião um homem com anel de ouro e ricos trajes, e entre também um pobre com trajes gastos; se atenderdes ao que está magnificamente trajado, e lhe disserdes: 'Senta-te aqui, neste lugar de honra', e disserdes ao pobre: 'Fica ali de pé', ou: 'Senta-te aqui junto ao estrado dos meus pés', não é verdade que fazeis distinção entre vós, e que sois juízes de pensamentos iníquos? Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que O amam? Mas vós desprezastes o pobre! Não são porventura os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais?" Tg 2,2-6
    Ele fez essa comparação: "Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: 'Ide em Paz, aquecei-vos e fartai-vos', mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma." Tg 2,15-17
    E aos insensíveis, dizia com contundência: "Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão." Tg 5,1
    No livro do Apocalipse, Jesus até já antecipava Sua visão da verdadeira condição espiritual das pessoas da igreja de Esmirna: "Eu conheço a tua angústia e a tua pobreza - ainda que sejas rico..." Ap 2,9a
    E dirigiu essa palavra aos ricos de Laodiceia: "Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito', e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de Mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,15-18


DEUS DOS POBRES

    Aos que acham que podem prestar algum culto a Deus esquecendo-se dos pobres, Jesus também deixou um recado: "Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a Mim nem sempre Me tereis." Jo 12,8
    Quis dizer que, se não cuidarmos dos mais necessitados, o caminho até Ele não estará eternamente acessível. E só em Comunhão com os pobres é que poderemos contemplar a face de Deus. Ora, ao ver o sucesso dos Apóstolos na primeira missão, enquanto itinerantes e mendicantes, Ele rezou ao Pai por essa dádiva: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da terra, eu Te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi do Teu agrado.'" Lc 10,21
    O salmista já indicava: "Ó vós, humildes, olhai e alegrai-vos; vós que buscais a Deus, reanime-se o vosso coração, porque o Senhor ouve os necessitados..." Sl 68,33-34a
    Também o Eclesiástico: "A oração do humilde penetra as nuvens." Eclo 35,21a
    Ele testemunha: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, no entanto é pelos humildes que Ele é glorificado." Eclo 3,20b-21
    Porque, como os ricos estão tão iludidos e até enauseados com de tantos falsos prazeres, o convite ao Reino de Deus foi direcionado àqueles que sofrem, como contou Jesus na parábola da grande ceia: "Sai, sem demora, pelas praças e pelas ruas da cidade e introduz aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Pois vos digo: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a Minha Ceia." Lc 14,21.24

CONSEQUÊNCIAS DO MAL

    Seja nessa vida ou na Vida futura, portanto, a consequência do amor ao dinheiro não pode ser boa coisa. Judas Iscariotes, como disse São João Evangelista, era ladrão, roubava do dinheiro doado pelo povo a Jesus e aos Apóstolos. Por isso incomodou-se tanto com o caro perfume com que Maria, irmã de São Lázaro, ungiu Jesus: "Mas Judas Iscariotes, um dos Seus discípulos, aquele que O havia de trair, disse: 'Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?' Dizia isso não porque ele se interessasse pelos pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam." Jo 12,4-6
    E ele arrependeu-se tão amargamente de ter entregue Jesus por dinheiro que acabou se enforcando, como contou São Mateus:

    "Judas, o traidor, vendo-O então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes:
    - Pequei, entregando o Sangue de um justo.
    Responderam-lhe:
    - Que nos importa? Isto é lá contigo!
    Ele jogou então no Templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se." Mt 27,3-5

    Para muito além das aparências, tão trágico foi esse fim, que o próprio Jesus dele havia dito: "O Filho do Homem vai, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" Mt 26,24

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"

quarta-feira, 29 de março de 2017

O Exorcismo


    Tanto o generalizado decaimento da quanto a intensa atividade de Satanás e seus anjos nos tempos atuais já eram profetizadas por São Paulo. À época, ele dizia que o inimigo estava momentaneamente detido por 'alguém', talvez referindo-se ao Arcanjo Rafael: "Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Agora, sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém." 2 Ts 2,3b-4.6-7
    No livro do Apocalipse, referindo-se a um período simbólico e designado por Deus, São João Evangelista também falou dessa temporária prisão do inimigo: "Depois de se completarem mil anos, Satanás será solto da prisão. Sairá dela para seduzir as nações dos quatro cantos da terra..." Ap 20,7-8
    Esse afastamento do inimigo, ou seja, sua prisão, foi decretada por ainda Jesus: "Agora é o Juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo." Jo 12,31
    Ele até a descreveu: "... o fogo eterno destinado ao Demônio e aos seus anjos." Mt 25,41
    São Pedro também fez menção a ela: "Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento..." 2 Pd 2,4
    Mas essa prisão nem sempre é representada de modo sobrenatural. De fato, não é um lugar físico, de delimitação espacial. Antes é um estado de cobiça e luxúria, por exemplo, como São João aponta nesta passagem para a sede de um império: "Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos..." Ap 18,2
    Ou a cidade de Pérgamo, de ruínas na atual Turquia, onde o próprio Jesus aponta como sede de grandes heresias, sabidamente a idolatria e o paganismo: "Ao anjo da igreja de Pérgamo, escreve: 'Eis o que diz Aquele que tem a espada afiada de dois gumes. Sei onde habitas: aí se acha o trono de Satanás.'" Ap 2,12-13a
    Ou ainda o próprio Israel, como a seu tempo denunciou o profeta Oseias: "Conheço Efraim, e Israel não me é oculto. Ora, Efraim transviou-se e Israel maculou-se; seu proceder não lhes permite voltar ao Seu Deus, porque um espírito de prostituição os possui; eles desconhecem o Senhor." Os 5,3-4
    São Rafael Arcanjo, porém, disse a Tobias que algo especificamente mal acontece aos adúlteros: "Ouve-me, e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como um cavalo e um burro, que não têm entendimento; sobre estes o demônio tem poder." Tb 6,16-17
    Aos próprios Apóstolos, no entanto, Jesus já creditava algumas derrotas impostas ao inimigo: "Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: 'Senhor, até os demônios se nos submetem em Teu Nome!' Jesus disse-lhes: 'Vi Satanás cair do céu como um raio. Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo.'" Lc 10,17-19
    No entanto, Ele imediatamente advertiu-os da vã glória: "Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos Céus." Lc 10,20
    E foi Nosso Salvador, através do anúncio do Evangelho e da Vinda do Espírito Santo, que declarou o fim do império de Satanás, ainda no início de Sua vida pública: "Apresentaram-Lhe, depois, um possesso cego e mudo. Jesus curou-o de tal modo que de pronto ele falava e via. A multidão, admirada, dizia: 'Não será este o Filho de Davi?' Mas, ouvindo isto, os fariseus responderam: 'É por Beelzebul, chefe dos demônios, que Ele os expulsa.' Jesus, porém, penetrando nos seus pensamentos, disse: 'Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir. Se Satanás expele Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, pois, subsistirá o seu reino? E se Eu expulso os demônios por Beelzebul, por quem é que vossos filhos os expulsam? Por isso, eles mesmos serão vossos juízes. Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus.'" Mt 12,22-28
    E esta não foi a única vez que O acusaram de possessão. Deu-se também no Templo de Jerusalém, quando Ele pronunciou-Se maior que Abraão: "Responderam então os judeus: 'Não dizemos com razão que és samaritano, e que estás possesso de um demônio?'" Jo 8,48
    O inimigo, no entanto, com a vitória de Jesus sobre o mundo e Sua chegada ao Céus, foi definitivamente expulso da presença de Deus. São João atestou em suas visões: "Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do Nosso Deus. Por isso alegrai-vos, ó Céus, e todos que aí habitais. Mas, ó terra e mar, cuidado! Porque o Demônio desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta." Ap 12,10-12
    Após essa expulsão, na terra ele voltou-se primeiro contra Nossa Senhora, mas, impotente contra Ela, que obteve de Deus uma condição angelical, voltou-se contra Seus filhos, ou seja, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. A Serpente vomitou contra a Mulher um rio de água, para fazê-la submergir. A terra, porém, acudiu à Mulher, abrindo a boca para engolir o rio que o Dragão vomitara. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-17
    Contudo, mesmo em sua fragilidade, a Igreja já tinha recebido de Jesus garantia de proteção: "E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Enquanto houver verdadeira fidelidade à Igreja, portanto, estaremos sob o escudo de Sua Graça, como Ele mesmo prometeu: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,19-20


JESUS EXORCIZOU

    Mas, enquanto se espera o Juízo Final e por causa da abjeta desobediência humana, aos demônios foi dada a liberdade de atormentar a vida mundana: "O quinto anjo tocou a trombeta. Vi então uma estrela cair do céu na terra, e foi-lhe dada a chave do poço do abismo; ela abriu-o e saiu do poço uma fumaça como a de uma grande fornalha. Da fumaça saíram gafanhotos pela terra, e foi-lhes dado poder semelhante ao dos escorpiões da terra. Mas foi-lhes dito que não causassem dano à erva, verdura, ou árvore alguma, mas somente aos homens que não têm o selo de Deus na fronte. Foi-lhes ordenado que não os matassem, mas os afligissem por cinco meses. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a conseguirão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles." Ap 9,1-2.4-6
    E como uma das formas de afligir, os demônios apossam-se de seres humanos, como explicou Jesus: "Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei para a casa donde saí.' E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Vai, então, buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e se estabelecem aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro. Tal será a sorte desta geração perversa." Mt 12,43-45
    Em carta a São Timóteo, São Paulo também apontou os que caem nos: "... laços do Demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos." 2 Tm 2,26b
    Por isso, boa parte do ministério de Cristo consistia em exorcizar endemoniados: "Sua fama espalhou-se por toda a Síria: traziam-Lhe os doentes e os enfermos, os possessos, os lunáticos, os paralíticos. E Ele curava a todos." Mt 4,24
    E foi o que Ele fez, logo nos primeiros dias de Sua vida pública em Cafarnaum, diante da casa de São Pedro: "Pela tarde, apresentaram-Lhe muitos possessos de demônios. Com uma Palavra expulsou Ele os espíritos e curou todos os enfermos." Mt 8,16
    Mas não só aí: "Ele retirou-Se dali, pregando em todas as sinagogas e por toda a Galileia, e expulsando os demônios." Mc 1,39
    Ora, enquanto esteve no deserto, o próprio Jesus foi tentado, pois Satanás dominava os poderosos da terra: "O Demônio levou-O em seguida a um alto monte e mostrou-Lhe num só momento todos os reinos da terra, e disse-Lhe: 'Dar-Te-ei todo este poder e a glória desses reinos, porque me foram dados, e dou-os a quem quero.'" Lc 4,6
    De fato, é comum que os maus espíritos seduzam a humanidade, prometendo e concedendo riquezas como narrou São Lucas neste episódio na cidade de Filipos: "Certo dia, quando íamos à oração, eis que nos veio ao encontro uma moça escrava que tinha o espírito de Pitão, a qual com as suas adivinhações dava muito lucro a seus senhores. Pondo-se a seguir a Paulo e a nós, gritava: 'Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos anunciam o caminho da Salvação.' Repetiu isto por muitos dias. Por fim, Paulo enfadou-se. Voltou-se para ela e disse ao espírito: 'Ordeno-te em Nome de Jesus Cristo que saias dela.' E na mesma hora ele saiu." At 16,16-18
    Do mesmo modo, e contrariando os planos de Jesus de manter-Se em anonimato, desde o início os demônios faziam por onde identificá-Lo, para atrair contra Ele a ira dos judeus e dos que vivem em pecado: "Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo, que gritou: 'Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei Quem és: o Santo de Deus!' Mas Jesus intimou-o, dizendo: 'Cala-te, sai deste homem!' O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: 'Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, Ele manda até nos espíritos imundos e Lhe obedecem!'" Mc 1,23-28
    E isso continuou acontecendo durante todo o início de Seu ministério: "Quando os espíritos imundos O viam, prostravam-se diante d'Ele e gritavam: 'Tu és o Filho de Deus!' Ele proibia-os severamente que O dessem a conhecer." Mc 3,11-12
    São Lucas também registra esse fato: "De muitos saíam os demônios, aos gritos, dizendo: 'Tu és o Filho de Deus.' Mas Ele repreendia-os severamente, não lhes permitindo falar, porque sabiam que Ele era o Cristo." Lc 4,41
    Havia, porém, gravíssimos casos de possessão: "Mal saltou em terra, veio-Lhe ao encontro um homem dessa região, possuído de muitos demônios; há muito tempo não se vestia nem parava em casa, mas habitava no cemitério. Ao ver Jesus, prostrou-se diante d'Ele e gritou em alta voz: 'Por que Te ocupas de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-Te, não me atormentes!' Porque Jesus ordenara ao espírito imundo que saísse do homem. Pois há muito tempo que se apoderara dele, e guardavam-no preso em cadeias e com grilhões nos pés, mas ele rompia as cadeias e era impelido pelo demônio para os desertos. Jesus perguntou-lhe: 'Qual é o teu nome?' Ele respondeu: 'Legião!' (Porque eram muitos os demônios que nele se ocultavam.) E pediam-Lhe que não os mandasse ir para o abismo. Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-Lhe os demônios que lhes permitisse entrar neles. Ele permitiu. Saíram, pois, os demônios do homem e entraram nos porcos; e a manada de porcos precipitou-se, pelo despenhadeiro, impetuosamente no lago e afogou-se." Lc 8,27-33
    Com efeito, como não ver nos pecados capitais uma forma de possessão demoníaca, 'um verme' que não morre e arrasta as almas para o inferno? Sobre os lugares por onde andamos, Jesus afirmou: "Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na vida eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,45-46
    E nem sempre Ele Se dispunha, senão comprovando verdadeira fé, a resolver todos os casos: "Jesus partiu dali e retirou-Se para os arredores de Tiro e Sidônia. E eis que uma cananeia, originária daquela terra, gritava: 'Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio.' Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Seus discípulos vieram a Ele e Lhe disseram com insistência: 'Despede-a, ela nos persegue com seus gritos.' Jesus respondeu-lhes: 'Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.' Mas aquela mulher veio prostrar-se diante d'Ele, dizendo: 'Senhor, ajuda-me!' Jesus respondeu-lhe: 'Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos.' 'Certamente, Senhor', replicou-Lhe ela; 'mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...' Disse-lhe, então, Jesus: 'Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas.' E na mesma hora sua filha ficou curada."Mt 15,21-28
    Os assédios e possessões, com efeito, quase sempre são acompanhadas de doenças que resultam do pecado: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados.' Ouvindo isto, alguns escribas murmuraram entre si: 'Este homem blasfema.' Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações? Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados: Levanta-te - disse ele ao paralítico -, toma a tua maca e volta para tua casa.'" Mt 9,2-6
    Há casos, porém, em que ocorre o inverso: a possessão se dá por conta da enfermidade: "Logo que se foram, apresentaram-Lhe um mudo, possuído do demônio. O demônio foi expulso, o mudo falou e a multidão exclamava com admiração: 'Jamais se viu algo semelhante em Israel.'" Mt 9,32-33
    Contudo, vale notar, na casa do centurião São Pedro falou tão somente em cura de endemoniados, ou seja, não deu azo a nenhum caso de enfermidade meramente física: "Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como Ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com Ele." At 10,38
    E o próprio Jesus apontou, ao menos uma vez, uma enfermidade como ação direta de Satanás: "Havia ali uma mulher que, havia dezoito anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e não podia absolutamente erguer-se. Ao vê-la, Jesus chamou-a e disse-lhe: 'Estás livre da tua doença.' Impôs-lhe as mãos e no mesmo instante ela endireitou-se, glorificando a Deus. 'Esta filha de Abraão, que Satanás paralisava há dezoito anos, não devia ser livre desta prisão, em dia de sábado?'" Lc 13,11-13.16
    Mesmo gente que viria a ser santa caiu refém de maus espíritos: "Os Doze estavam com Ele, como também algumas mulheres que tinham sido livradas de espíritos malignos e curadas de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios..." Lc 8,2
    Por isso, após alguns tempos de vida pública, Jesus já não mais ocultava nem Sua missão nem Seu tempo aqui na terra: "... eis que expulso demônios e faço curas hoje e amanhã..." Lc 13,32
    A escolha dos Apóstolos, no mesmo sentido, havia sido acompanhada de uma dotação de poderes bem específicos, que auxiliavam Jesus na edificação de Sua Igreja: "Reunindo Jesus os doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades." Lc 9,1
    São Marcos relatou a instituição dos Doze explícita e sinteticamente assim: "Ele os enviaria a pregar, com o poder de expulsar os demônios." Mc 3,15
    Segundo São Mateus, essas foram Suas Palavras: "Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!" Mt 10,8
    E, de fato, eles tiveram muito trabalho: "Expeliam numerosos demônios, ungiam com óleo a muitos enfermos e curavam-nos." Mc 6,13
    Mas nem sempre eles o conseguiam, como Jesus teve que ensinar: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20
    Aliás, até mesmo um de Seus Apóstolos tornou-se vítima do próprio inimigo: "Em seguida, Jesus molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele." Jo 13,26-27
    E nem todos que dizem realizar exorcismos estão servindo a Jesus, como Ele mesmo sentenciou: "Muitos Me dirão naquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu lhes direi: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, operários maus!'" Mt 7,22-23
    E alguns que se dizem capacitados passam por verdadeiros maus momentos, como conta São Lucas este passagem em Éfeso: "Alguns judeus exorcistas que percorriam vários lugares inventaram invocar o Nome do Senhor Jesus sobre os que se achavam possessos dos espíritos malignos, com as palavras: 'Esconjuro-vos por Jesus, a Quem Paulo prega.' Assim procediam os sete filhos de um judeu chamado Cevas, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno replicou-lhes: 'Conheço Jesus e sei quem é Paulo. Mas vós, quem sois?' Nisto o homem possuído do espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois deles e subjugou-os de tal maneira, que tiveram que fugir daquela casa feridos e com as roupas estraçalhadas." At 19,13-16
    Ao passo que os que realmente receberam esse dom, são verdadeiros seguidores do Cristo: "João disse-Lhe: 'Mestre, vimos alguém, que não nos segue, expulsar demônios em Teu Nome, e lho proibimos.' Jesus, porém, disse-lhe: 'Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em Meu Nome e em seguida possa falar mal de Mim. Pois quem não é contra nós, é a Nosso favor." Mc 9,38-40


PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO

    Como visto, é pela ostensiva manifestação do Espírito Santo que Jesus anuncia o Reino de Deus e exorciza. Deus-se assim o início do Reino dos Céus entre nós: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    De fato, Ele declarou-o desde Seu discurso inaugural, quando proclamou abertamente a libertação dos cativos, segundo a profecia de Isaías: "O Espírito do Senhor repousa sobre Mim, porque o Senhor consagrou-Me pela unção; enviou-Me a levar a Boa Nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a Redenção, e aos prisioneiros a liberdade..." Is 61,1
    O Cristo, portanto, trazia em Si a plenitude dos dons do Divino Paráclito: "Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor." Is 11,2
    Esse foi o poder dado por Jesus aos Apóstolos, e assim à Igreja, quando os ungiu com o Divino Paráclito para reconciliar o povo com Deus através do Sacramento da Confissão: "'Como o Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21-23
    E numa maravilhosa 'surpresa', o Espírito de Deus faria até mais: viria sobre todos os cristãos, como aconteceu no Pentecostes profetizado por Joel: "Depois disso, acontecerá que derramarei o Meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões." Jl 3,1
    Os fieis, no entanto, d'Ele não receberam poder para expulsar maus espíritos, como Jesus instituiu os Apóstolos e assim foi transmitido aos Seus sacerdotes. Receberam, na verdade, o Espírito Santo para obedecer à Sã Doutrina, como diz São Pedro logo no início do sua primeira carta: "... eleitos segundo a presciência de Deus Pai, e santificados pelo Espírito para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2a
    A despeito de casos que representem alguma urgência, nos quais se recomenda a intensa leitura dos primeiros Salmos e a evocação da proteção da Santíssima Virgem, o Catecismo da Igreja ensina: "Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em Nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou, é dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante a celebração do Batismo. O exorcismo solene, chamado "grande exorcismo", só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, verificar antes de celebrar o exorcismo se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença." CIC § 1673

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

terça-feira, 28 de março de 2017

A Vida Espiritual


    Mesmo entre as pessoas mais superficialistas, é simplesmente injustificável o desprezo para com os ensinamentos de Jesus, e assim para com a Revelação. A Verdade é que fingem não perceber a profundidade de Suas Palavras, e não é por falta contundência. Ele reclamava de Nicodemos, um dos principais dos judeus: "Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,12
    E acusou os religiosos de Jerusalém: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    O ponto central dessa dificuldade é que a realidade anunciada por Jesus deve ser experimentada no íntimo da alma: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    E tal realidade não é nem um pouco vulgar. Ele exortava: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,48
    Ele também havia apontado a razão dessa incapacidade: falta ao mundo o Espírito da Promessa, que foi derramado sobre a Igreja: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    De peculiar inspiração, São Paulo entendeu muito bem o grande diferencial que é o Pentecostes: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,12-14
    Ele ensina: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo... O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela Lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Vós, porém, não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito, se realmente o Espírito de Deus habita em vós. Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,2a.3-4.9
    Respondendo aos Seus parentes, que O provocavam a 'manifestar-Se' na Judeia, onde já corria risco de ser assassinado pelos religiosos, Jesus explicou: "O mundo não vos pode odiar, mas odeia-Me, porque Eu testemunho contra ele que as suas obras são más." Jo 7,7
    E referindo-Se à missão dos Apóstolos, e assim da Igreja, Ele rezou ao Pai: "Dei-lhes a Tua Palavra, mas o mundo odeia-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo." Jo 17,14
    Contudo, ainda que antes do Pentecostes, Ele também reclamou dos discípulos, dois deles, que partiram de Jerusalém para Emaús no Domingo da Ressurreição: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    Aliás, por vezes teve que reclamar dos próprios Apóstolos, quando, por exemplo, de Sua Ressurreição: "Por fim apareceu aos Onze, quando estavam sentados à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e dureza de coração, por não acreditarem nos que O tinham visto ressuscitado." Mc 16,14
    Os seguidores de São Paulo, no mesmo sentido, reclamavam dos próprios cristãos: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada a vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e vos tornastes tais, que precisais de leite em vez de alimento sólido! Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-12.14
    E assim também procedeu o próprio Santo de Tarso na Primeira Carta aos Coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3
    Sem dúvida, a visão que ele tinha da humanidade era absolutamente singular: "Por isso, nós daqui em diante a ninguém conhecemos de um modo humano. Muito embora tenhamos considerado Cristo dessa maneira, agora já não O julgamos assim. Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!" 2 Cor 5,16-17
    Ele bem conhecia a fonte das Sagradas Escrituras: "É, porventura, o favor dos homens que eu procuro, ou o de Deus? Por acaso tenho interesse em agradar aos homens? Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo. Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo." Gl 1,10-12
    Mas também tinha a exata medida das condições em que se dava a transmissão da Sã Doutrina: "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,7
    De toda forma, não se permitia acomodar: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Ele exortava: "Vivei como filhos da Luz. E o fruto da Luz chama-se: bondade, justiça, Verdade. Discerni o que agrada ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente." Ef 5,8b-11
    Para ele, o sentido da vida era bem claro: "Deus fez a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós. Porque é n'Ele que temos a vida, o movimento e o ser..." At 17,26-28a
    Em sua profunda Comunhão com Deus, dizia-se pronto para deixar essa vida: "Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Mas, se o viver no corpo é útil para o meu trabalho, não sei então o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo - o que seria imensamente melhor; mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Ef 1,21-24
    Ele afirmava: "Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    De fato, fazia a devida distinção: "Porque não miramos as coisas que se veem, mas sim as que não se veem. Pois as coisas que se veem são temporais e as que não se veem são eternas." 2 Cor 4,17b
    Tinha plena ciência da efemeridade desta vida: "Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor o Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,4-7
    Explicou assim em que consistia a realidade espiritual vivida pelos Apóstolos, por ele mesmo e pelos reais seguidores do Messias: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as más paixões e concupiscências." Gl 5,24
    E o que representa a Santa Missa: "Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual. Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,1.11
    É também o que diz São Pedro, ao descrever o único modo de ser Igreja: "Achegai-vos a Ele, Pedra Viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus; e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo." 1 Pd 2,4-5
    Não por acaso, São Paulo dizia com todas as letras contra quem se travavam as verdadeiras e decisivas batalhas: "Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares." Ef 6,12
    Batalhas essas que duram por toda vida: "Irmãos, para que a extraordinária grandeza das revelações não me envaidecesse, foi espetado na minha carne um espinho, que é como um anjo de Satanás a esbofetear-me, a fim de que eu não me exalte demais. A esse propósito, roguei três vezes ao Senhor que o afastasse de mim. Mas Ele disse-me: 'Basta-te a Minha Graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta.' Por isso, de bom grado, eu me gloriarei das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis porque eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor a Cristo. Pois quando eu me sinto fraco, é então que sou forte." 2 Cor 12.7-10
    E dava detalhes de como armar-se, defender-se e lutar: "Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da , com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos." Ef 6,13-18
    Valendo-se de seu próprio exemplo, ele recomendava: "Sustentais o mesmo combate que me tendes visto travar e no qual sabeis que eu continuo agora." Fl 1,3
    E o fazia com frequência: "Desejo realmente que estejais informados do árduo combate que sustento por amor de vós e dos de Laodiceia, assim como de todos os que ainda não me viram pessoalmente!" Cl 2,1
    Ensinava o mesmo às pessoas mais próximas: "Eis aqui uma recomendação que te dou, meu filho Timóteo, de acordo com aquelas profecias que foram feitas a teu respeito: amparado nelas, sustenta o bom combate, com fidelidade e boa consciência, que alguns desprezaram e naufragaram na fé." 1 Tm 1,18-19
    Pois o projeto de Deus vai muito além das criaturas visíveis: "N'Ele (Cristo) foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, dominações, principados, potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele." Cl 1,16
    Seus seguidores, no entanto, iriam ainda mais longe ao falar em resistência, acenando para o próprio Sacrifício de Cristo: "Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    Nada era, porém, que Jesus mesmo não houvesse ensinado, garantindo que tudo está efetivamente sob pleno o controle de Deus: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de Vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós. Portanto, quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus." Mt 10,28-32 
    Acaso poderíamos esconder nossos talentos? Jesus ensinou: "Veio, por fim, o que recebeu só um talento: 'Senhor', disse-Lhe, 'sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder Teu talento na terra. Eis aqui, toma o que Te pertence.' Respondeu-lhe Seu Senhor: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar Meu dinheiro ao banco e, à Minha volta, Eu receberia com os juros o que é Meu. Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 25,24-30
    Poderia, sem estes talentos, prosperar a Igreja? São Paulo foi taxativo: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    Em nome de um claro sacrifício pela Salvação do próximo, nosso dever é renegar toda e qualquer realização exclusivamente pessoal: "Em seguida, Jesus disse a Seus discípulos: 'Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me.'" Mt 16,24
    Esse é o maior exemplo do próprio Cristo: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Por isso São João Evangelista replicava: "Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu Sua vida por nós. Também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos." 1 Jo 3,16
    E dizia: "No amor não há medo. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o medo, pois o medo implica castigo, e aquele que tem medo não chegou à perfeição do amor." 1 Jo 4,18


ORAÇÕES E PENITÊNCIAS

    Sob vários aspectos a vida de Jesus era muito restritiva. Logo no início de Sua vida pública, após o Batismo por São João, deram-se as tentações do deserto: "Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome." Mt 4,1-2
    Sua fonte de vida, contudo, era sobrenatural: "Entretanto, os discípulos pediam-Lhe: 'Mestre, come.' Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e cumprir a Sua obra.'" Jo 4,31.34
    Suas orações eram muito intensas, como vimos na noite que antecedeu a escolha dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus." Lc 6,12
    Ou na noite em que foi entregue por Judas, no Horto das Oliveiras: "Ele entrou em agonia e orava ainda com mais instância, e Seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra." Lc 22,44
    Por isso recomendava constante vigilância: "Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mt 26,41
    E usou de vários modos para demonstrá-lo: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo." Lc 18,1
    Em muitos momentos, Sua vida lembrava mesmo a de um eterno penitente: "Respondeu Jesus: 'As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.'" Mt 8,20
    Embora, entre tantas adversidades, Ele e os Apóstolos não pudessem conduzir-se sempre de modo tão extremo: "Ora, os discípulos de João e os fariseus jejuavam. Por isso, foram-Lhe perguntar: 'Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, mas os Teus discípulos não jejuam?' Jesus respondeu-lhes: 'Podem porventura jejuar os convidados das núpcias, enquanto está com eles o Esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não lhes é -possível jejuar. Dias virão, porém, em que o Esposo lhes será tirado, e então jejuarão." Mc 2,18-20
    De toda forma, não viviam de banquetes, como demonstra a situação em que estavam quando Jesus foi informado da morte de São João Batista: "Ele disse-lhes: 'Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco.' Porque eram muitos os que iam e vinham e nem tinham tempo para comer.'" Mc 6,31
    E assim foi desde o princípio: "Atravessava Jesus os campos de trigo num dia de sábado. Seus discípulos, tendo fome, começaram a arrancar as espigas para comê-las." Mt 12,1
    O Batista, sim, o último dos profetas, era um absoluto penitente: "João andava vestido de pelo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mc 1,6
    Aliás, desde a infância: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    Entre outros dons, tal condição conferia-lhe grande autoridade, obrigando toda a gente à confissão e às penitências: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão. Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência.'" Mt 3,5-8
    Jesus atestou sua santidade: "João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os coletores, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele." Mt 21,32
    Há outros exemplos de absoluta ascese nos Evangelhos, como a viúva do Templo de Jerusalém, vista no dia da Apresentação de Jesus: "Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de idade avançada. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    Vivia também assim a pobre viúva observada por Jesus, que se abandonava por completo à Divina Providência: "Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam as suas ofertas no cofre do Templo. Viu também uma viúva pobrezinha deitar duas pequeninas moedas, e disse: 'Em verdade vos digo: esta pobre viúva pôs mais do que os outros. Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra; esta, porém, deu, da sua indigência, tudo o que lhe restava para o sustento.'" Lc 21,1-4
    Grande penitente, porém, e do qual pouco lembramos, era o próprio São Paulo. Seus registros são de grande contundência: "O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja." Cl 1,24
    E explicava: "... porque a vós vos é dado não somente crer em Cristo, mas ainda por Ele sofrer." Fl 1,29
    Essa prática ele trazia do judaísmo, e usou-a logo após a aparição de Jesus, quando de sua conversão: "Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber." At 9,8-9
    Ele ensinava: "Mortificai, pois, os vossos membros no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    E declarou: "Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus." Cl 3,1-3
    De fato, Jesus garantia: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber; e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas Vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso. Buscai antes o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo." Lc 12,29-31
    Em que consistiria ser cristão, pois, senão em participar de Seu Sacrifício, como nos oferecemos na Santa Missa? São Paulo rezava: "Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da Sua Ressurreição, pela participação em Seus sofrimentos, tornando-me semelhante a Ele na morte, com a esperança de conseguir a Ressurreição dentre os mortos." Fl 3,10-11
    Dessas agruras ele tratou em quase todas suas cartas: "Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a Vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a Vida de Jesus apareça em nossa carne mortal." 2 Cor 4,10-11
    Viveu situações realmente difíceis, de grandes flagelações físicas: "Fomos maltratados ali desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sair com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte, para que aprendêssemos a pôr a nossa confiança não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos." 2 Cor 1,8b-9
    O profeta Sofonias era ainda mais rigoroso, pois nem na pobreza garantia a completa indulgência da parte de Deus: "Procurai Javé, todos os pobres da terra; vós que obedeceis aos Seus Mandamentos, procurai a justiça, procurai a pobreza. Talvez, assim, acheis refúgio no Dia da ira de Javé." Sf 2,3
    Foi essa condição, no entanto, que Jesus propôs ao jovem rico, que se julgava Santo: "Respondeu Jesus: 'Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!'" Mt 19,21
    E os vocacionados a seguir Jesus não tinham direito sequer às pequenas obras de fé, ou a apegos afetivos familiares: "A outro disse: 'Segue-Me.' Mas ele pediu: 'Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.' Mas Jesus disse-lhe: 'Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.'" Lc 9,59-60
    Resolutamente, o Mestre não deixava dúvidas: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    Proclamando-Se Deus, ainda que indiretamente, nestes termos Ele apenas exigia o cumprimento do primeiro Mandamento, que fala de amor a Deus sobre todas as coisas: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com todo o teu entendimento..." Mt 22,37
    Tal desapego, porém, não ficaria sem a devida recompensa espiritual. Ele assegurou: "E todo aquele que por Minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a Vida Eterna." Mt 19,29


PERTO DE DEUS

    A Doutrina de Jesus, portanto, prima pelo mais prudente comedimento espiritual: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram." Mt 7,13
    E enquanto perfeito exemplo, Ele aponta para Si mesmo como baliza: "Jesus tornou a dizer-lhes: 'Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a Porta das ovelhas.'" Jo 10,7
    Alertou para o perigo da escravidão do pecado, deixando claro que só Ele pode conceder-nos a verdadeira liberdade: "Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres.'" Jo 8,34-36
    Mas mesmo depois de anos de convertido, e de toda sua fortaleza espiritual, São Paulo seguia reconhecendo em si mesmo a concupiscência, isto é, a propensão ao pecado, cujo enfrentamento requer nossa perene vigília e os frequentes auxílios da Graça de Deus: "Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o bem, porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?... " Rm 7,18-20.24
    Por isso dizia: "Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção do nosso corpo. Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inefáveis gemidos. E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o Qual intercede pelos Santos, segundo Deus. Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo os Seus desígnios." Rm 8,22-28
    E assim ele lutou até o fim, quando avisou da proximidade de sua definitiva libertação: "Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação aproxima-se. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé." 2 Tm 4,6-7
    O salmista, de fato, já rezava: "Eu reconheço toda a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado." Sl 50,5
    Porque os pecados são muitos, como apontava Jesus: "Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno." Mt 5,37
    E muitas também são nossas responsabilidades, principalmente para com os mais novos: "Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que seus anjos no Céu contemplam sem cessar a face de Meu Pai, que está nos Céus." Mt 18,10
    De fato, há horríveis possessões: "Vendo Jesus de longe, correu e prostrou-se diante d'Ele, gritando em alta voz: 'Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-Te por Deus, que não me atormentes.' É que Jesus lhe dizia: 'Espírito imundo, sai deste homem!' Perguntou-lhe Jesus: 'Qual é o teu nome?' Respondeu-Lhe: 'Legião é o meu nome, porque somos muitos.'" Mc 5,6-9
    A escravidão pode custar anos ou décadas: "Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não cometerás adultério.' Eu, porém, vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,27-28
    Ou representar, ainda nessa vida, as próprias trevas: "Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!" Mt 6,23
    E mais uma vez a 'solução' oferecida por Jesus parece radical: "Se teu olho direito é para ti causa de queda, arranca-o e lança-o longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo todo seja lançado na geena. E se tua mão direita é para ti causa de queda, corta-a e lança-a longe de ti, porque te é preferível perder-se um só dos teus membros, a que o teu corpo inteiro seja atirado na geena." Mt 5,29-30
    Pois sem o socorro do Cordeiro de Deus, o verme do pecado sobreviverá mesmo no inferno: "Se o teu pé for para ti ocasião de queda, corta-o fora; melhor te é entrares coxo na Vida Eterna do que, tendo dois pés, seres lançado à geena do fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga." Mc 9,45-46
    São Paulo, por sinal, chegou a desistir da vida terrena de um fiel da igreja de Corinto, guardando suas esperanças para as penas do Purgatório: "Em Nome do Senhor Jesus -, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Nosso Senhor Jesus -, seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,4-5
    Quem for agraciado com uma cura da alma, portanto, melhor que não torne a pecar. Jesus advertiu assim o cego de nascença que Ele havia curado: "Mais tarde, Jesus achou-o no Templo e disse-lhe: 'Eis que ficaste são; já não peques, para não te acontecer coisa pior.'" Jo 5,14
    Quem registrou as graves consequências de uma recaída em pecado foi São Mateus, anotando as Palavras de Jesus: "Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso que não acha. Diz ele, então: 'Voltarei para a casa donde saí.' E, voltando, encontra-a vazia, limpa e enfeitada. Vai, então, buscar sete outros espíritos piores que ele, e entram nessa casa e se estabelecem aí; e o último estado daquele homem torna-se pior que o primeiro." Mt 12,43-45a
    Certos exorcismos, então, não são nada fáceis. Requerem vida de verdadeira piedade, como Ele ensinou aos Apóstolos: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20b
    Por isso São Paulo alertou sobre o respeito aos Sacramentos: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1
    Ele cuidava zelosamente do rebanho de Cristo e dizia porquê: "Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos as suas maquinações." 2 Cor 2,11
    Como grande trunfo nessa batalha, Jesus exalta a obediência diante dos religiosos judeus: "Quem é de Deus ouve as Palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    E denunciava: "Vós tendes como pai o Demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    A postura dos cristãos diante do Mal, todavia, exige força espiritual: "Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado. Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,39-45
    Pois, antes de tudo, o seguimento do Cristo é um profundo exercício de antecipação para a Paz: "Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta." Mt 5,23-24
    Tal resignação, porém, não é nada meramente humano. Ao contrário, só é possível com os divinos auxílios, quando Ele mesmo assume todo o comando sobre nós. Os seguidores de São Paulo rezavam: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais a Sua Vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    São Paulo, de fato, sustentava esse argumento: "Porque é Deus Quem, segundo Seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    E convidada a contemplar as coisas do alto: "Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos Santos na Luz. Ele arrancou-nos do poder das trevas e introduziu-nos no Reino de Seu Filho muito amado, no Qual temos a Redenção, a remissão dos pecados. Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação. E também a vós, que, há bem pouco tempo, eram alheios a Deus e inimigos pelos vossos pensamentos e más obras, eis que agora Ele vos reconciliou pela morte de Seu Corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,12-15.21-23
    Ora, não foi assim que se deixou conduzir Nossa Senhora diante da Anunciação do Arcanjo São Gabriel? Não deveríamos viver esta mesma entrega? "Então disse Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.'" Lc 1,38a
    Quando iremos entender a importância do silêncio de Nossa Mãe Celeste? "Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração." Lc 2,19
    Jesus afirmou que a partir de um determinado momento Deus assume o comando de nosso crescimento espiritual: "... e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê ainda mais frutos." Jo 15,2b
    E prometeu Sua real presença entre os membros da Igreja: "Porque onde dois ou três estão reunidos em Meu Nome, aí estou Eu no meio deles." Mt 18,20
    Pois, na verdade, muitos de nós já vivem concretamente uma especial proximidade de Deus: "Vendo Jesus que ele falara sabiamente, disse-lhe: 'Não estás longe do Reino de Deus.'" Mt 12,34a
    São Paulo afirma: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    E diz: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus." Ef 2,19
    Mais: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus." Fl 3,20a

    "Santificai e reuni o Vosso povo!"