terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Deus confunde


    Para além da dicotomia 'de frente para Deus, Luz, de costas para Ele, trevas', pode parecer contraproducente, ou até igualmente simplório, mas o fato é que há nuances, tanto de Luz quanto de trevas, e vez e outra Deus confunde o mundo. A despeito do que não nos foi revelado, essa é uma de Suas estratégias de correção, ou mesmo de castigo. Num rápido exemplo, temos a mensagem que Jesus mandou através do anjo da igreja de Laodiceia: "Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te. Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te." Ap 3,15-16.19
    Sem dúvida, em paralelo às mais animalescas concupiscências, a racionalidade tem tornado o ser humano soberbamente presunçoso, e isso não remanesce incólume perante o Pai. O primeiro pecado, aliás, foi exatamente esse. A serpente enganou Eva prometendo, no fruto que Deus havia proibido, a sabedoria dos 'deuses': "... no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal." Gn 3,5
    Falando muitas vezes por parábolas, em várias situações Jesus preferia não ser entendido de imediato, nem por todos: "Quando se acharam a sós, os que o cercavam e os Doze indagaram dele o sentido da parábola. Ele disse-lhes: 'A vós é revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em parábolas.'" Mc 4,10-11
    Isso veio a ser questionado pelos Apóstolos, e Ele invocou as Escrituras para explicar que o processo de conversão exige uma preparação. Não é reconhecendo o pecado que nos voltamos para Deus? "Os discípulos aproximaram-se d'Ele, então, para dizer-Lhe: 'Por que lhes falas em parábolas?' Respondeu Jesus: 'Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. Ao que tem, mais se dará e terá em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem. Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam. Assim se cumpre para eles o que foi dito pelo profeta Isaías: 'Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração deste povo se endureceu: taparam os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e Eu os sare (Is 6,9s).'" Mt 13,10-15
    Jesus afirmou que essa é a função do Espírito Santo: "E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Ele o convencerá a respeito da justiça, porque Eu Me vou para junto do Meu Pai e vós já não Me vereis; Ele o convencerá a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,8-11
    Ora, o próprio São Pedro teria que ser chamado a seguir Jesus mais uma vez, após Sua Ressurreição: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; Quando, porém, te converteres, confirma os teus irmãos." Lc 22,31-32
    Por isso, ao usar das parábolas, Jesus estimulava a uma reflexão mais profunda: "E dizia: 'Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!'" Mc 4,9
    Contudo, também as usou exatamente para fazer-Se melhor compreendido: "Era por meio de numerosas parábolas desse gênero que Ele lhes anunciava a Palavra, conforme eram capazes de compreender." Mc 4,33
    Antes de Sua Paixão, porém, e perante aqueles que perseveraram a Seu lado, Ele passou a usar de mais clareza: "Disse-vos essas coisas em termos figurados e obscuros. Vem a hora em que já não vos falarei por meio de comparações e parábolas, mas vos falarei abertamente a respeito do Pai." Jo 16,25
    De fato, muitos não viviam a verdadeira fé; fossem pessoas que apenas se maravilhavam com Seus prodígios, as quais Ele alertou para o poder do Pão da Vida Eterna: "Respondeu-lhes Jesus: 'Em verdade, em verdade vos digo: buscais-Me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu o Seu sinal.'" Jo 6,26-27
    Fossem pessoas que se atinham a Ele sem saber exatamente porquê: "Ao amanhecer, Ele saiu e retirou-Se para um lugar afastado. As multidões procuravam-nO e foram até onde Ele estava e queriam detê-Lo, para que não as deixasse. Mas Ele disse-lhes: 'É necessário que Eu anuncie a Boa Nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a Minha Missão.'" Lc 4,42-43
    Fossem pessoas que queriam conhecê-Lo e alcançar a Graça de uma cura: "Entretanto, espalhava-se mais e mais a Sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e ser curadas das suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar." Lc 5,15-16
    Ou ainda pessoas só interessadas em ver um 'sinal': "Vieram os fariseus, puseram-se a disputar com Ele e pediram-Lhe um sinal do Céu, para pô-Lo à prova." Mc 8,11
    Realmente confusos, muitos religiosos de Seu tempo viam-se provocados: "Os judeus rodearam-nO e perguntaram-Lhe: 'Até quando nos deixarás na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-nos claramente.'" Jo 10,24
    Mas o próprio Jesus já havia levantado esse problema: "Por que não compreendeis a Minha linguagem?" Jo 8,43a
    E Ele mesmo respondeu, colocando Sua vida em julgamento: "Quem de vós Me acusará de pecado? E se vos falo a Verdade, por que Me não credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus, e se vós não as ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,47
    Entretanto, até seguidores mais próximos tiveram que d'Ele ouvir mais explicações após Sua Ressurreição: "Disse-lhes Jesus: ''Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua Glória?'" Lc 24,25-26
    Os seguidores de São Paulo também reclamariam destes eternos vacilantes: "A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e vos tornastes tais, que precisais de leite em vez de alimento sólido! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,12-14
    Gente de bom coração, entretanto, mostrava-se realmente burilada quando Jesus pregava no dias de festa em Jerusalém: "Muitos do povo, porém, creram n'Ele e perguntavam: 'Quando vier o Cristo, fará mais milagres do que Este faz?'" Jo 7,31
    Mas desde o início Ele sempre guardou prudente distância do testemunho humano: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no Seu Nome, à vista dos milagres que fazia. Mas Jesus mesmo não Se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois Ele bem sabia o que havia no homem." Jo 2,23-25
    E seria mesmo rejeitado pelos principais dos judeus, como profetizou o salmista: "A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular. Isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos." Sl 117,22-23
    Ou como previu o profeta Isaías, em menção feita por São Paulo: "E Israel tropeçou na pedra do escândalo, como está escrito: 'Eis que ponho em Sião uma pedra de escândalo, um rochedo que faz cair; quem n'Ele crer não será confundido' (Is 8,14;28,16)." Rm 9,32b-33
    De fato, durante Sua Apresentação no Templo de Jerusalém Jesus foi apontado pelo religioso Simeão como um sinal de contradição, um divisor de águas: "Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe: 'Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35a
    Aliás, Ele mesmo alegrou-Se com a Divina Providência, quando atestou que o Pai não revela indiscriminadamente Seu poder: "Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu Te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos." Lc 10,21b
    E Ele mesmo vai dizer de Sua Missão: "Jesus então disse: 'Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos.'" Jo 9,39
    Nossa Senhora também observou que Deus, além conceder o êxtase espiritual aos pobres, não deixa que os 'sábios' cheguem a consenso entre si, levando-os a viver em constantes desentendimentos: "A minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se alegra em Deus, Meu Salvador... Ele... dispersa os soberbos de coração... e eleva os humildes..." Lc 1,47.51-52
    E São Paulo anotou: "Mas Deus escolheu o que é loucura no mundo, para confundir os sábios; e escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte." 1 Cor 1,27
    Ora, era exatamente isso o que acontecia com aqueles que resistiam ao Mistério do Cristo, que ele começou a anunciar logo depois de sua conversão: "Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo." At 9,22
    Ele vai citar Isaías aos coríntios: "Pois está escrito: 'Anularei a sabedoria dos sábios e confundirei os inteligentes (Is 29,14).' Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo?" 1 Cor 1,19-20
    E foi nesse estado que ficou Herodes ao saber dos milagres de Jesus: "O rei Herodes ouviu falar de Jesus, Cujo Nome Se tornara célebre. Dizia-se: 'João Batista ressurgiu dos mortos e por isso o poder de fazer milagres opera nele.' Uns afirmavam: 'É Elias!' Diziam outros: 'É um profeta como qualquer outro.' Ouvindo isto, Herodes repetia: 'Ele é João Batista. Eu mandei cortar a cabeça dele, mas ele ressuscitou!'" Mc 6,14a-16
    Sem dúvida, a Santíssima Trindade já usava desse artifício desde o conhecido episódio da Torre de Babel: "Vamos descer e confundir a língua deles, para que um não entenda a língua do outro." Gn 11,7
    Nos Salmos de Davi, que devem ser entendidos como o próprio Jesus rezando ao Pai, vemos um constante pedido para que Deus atordoe os sentidos Seus inimigos: "Que todos os Meus inimigos sejam envergonhados e aterrados; recuem imediatamente, cobertos de confusão!" Sl 6,11
    De novo: "Que voltem para trás e sejam confundidos os que planejam o mal contra Mim!" Sl 35,4
    Ou ainda mais claramente nessa passagem: "Fiquem confusos e cobertos de ignomínia os que se alegram com Meus males, sejam envoltos em confusão e opróbrio os que se erguem contra Mim com soberba." Sl 35,26
    E essa profecia aconteceu quando Jesus entrou em Jerusalém, no Domingo de Ramos: "Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde Vossos adversários, e reduz ao silêncio Vossos inimigos." Sl 8,3
    Com efeito, os judeus reagiram assim: "Os cegos e os coxos vieram a Ele no Templo e Ele os curou, com grande indignação dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas que assistiam a Seus milagres e ouviam os meninos gritar no templo: 'Hosana ao filho de Davi!' Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,14-16
    E foi com base nessas palavras, fazendo menção à Sua Santíssima Mãe, que se deu a Ressurreição de Cristo: "Olhai-Me e tende piedade de Mim, dai ao Vosso Servo a Vossa força, salvai o Filho de Vossa Serva. Dai-Me uma prova de Vosso favor, a fim de que verifiquem Meus inimigos, para sua confusão, que sois Vós, Senhor, Meu sustento e Meu consolo." Sl 85,16-17
    Por sua vez, em seus Salmos Asaf pedia a Deus que não o deixasse no vazio da desilusão: "Sustentai-me pela Vossa promessa, para que eu viva; não queirais confundir minha esperança." Sl 118,11
    Aspirando ao caminho da Verdade, este salmista agarrava-se aos Mandamentos: "Afastai-me do caminho da mentira, e fazei-me fiel à Vossa Lei. Escolhi o caminho da Verdade, impus-me os Vossos decretos. Apego-me a Vossas ordens, Senhor. Não permitais que eu seja confundido." Sl 118,29-31
    E pedia a Deus a purificação de seu coração: "Seja perfeito meu coração na observância de Vossas leis, a fim de que eu não seja confundido." Sl 118,80
    O povo judeu, enfim, já sabia muito bem de onde vinha seu socorro e o que acontecia com seus inimigos: ".... mas fostes Vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes os que nos odiavam." Sl 43,8
    Tal certeza foi enfatizada ao contrapor carentes e insensatos: "O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores." Sl 145,9
    E assim eles pediam a Salvação da alma: "Defendei minha alma e livrai-me; não seja confundido eu que em Vós me acolhi." Sl 24,20
    Acertadamente, refugiavam-se em Deus, para livrarem-se da eterna condenação: "Junto de Vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre; por Vossa justiça, livrai-me!" Sl 30,2
    Não por acaso, o livro da Sabedoria já apontava: "Com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e Seu poder, posto à prova, confunde os insensatos." Sb 1,3
    Prevê como se dará o Julgamento dos iníquos: "Comparecerão aterrorizados com a lembrança de seus pecados, e suas iniquidades se levantarão contra eles para os confundir." Sb 4,20
    E diz o que acontece com os que afrontam o poder de Deus: "Mostrais Vossa força aos que não creem no Vosso poder, e confundis os que a não conhecem e ousam afrontá-la." Sb 12,17


JESUS: LUZ NUM MUNDO DE AFLIÇÕES

    Diante de Jesus, pois, os espíritos imundos temiam ser entregues aos transtornos sem fim, ou seja, ao lago de fogo: "Que tens Tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos confundir?" Mc 1,24
    Noutra passagem, um anjo de Satanás reclama da Luz, da realidade revelada por Jesus: "Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-Te por Deus, que não me atormentes." Mc 5,7
    Citando mais uma vez Isaías, São Paulo explica assim a insensibilidade de Israel em não perceber o Cristo: "Deus deu-lhes um espírito de torpor, olhos que não vejam e ouvidos que não ouçam, até ao dia de hoje." Rm 11,8
    Isso já havia acontecido com o rei Saul, por recusar-se a cumprir as ordens de Deus. Foi logo após a unção de Davi: "O Espírito do Senhor retirou-Se de Saul, e um espírito mau veio sobre ele, enviado pelo Senhor." 1 Sm 16,14
    Igualmente com o rei Acab, que morreria na batalha de Ramot por seguir enganosos conselhos, apesar dos avisos do profeta Miqueias: "O Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos os profetas aqui presentes, mas é a tua perda que o Senhor decretou." 1 Rs 22,23
    E com o próprio Faraó, nos tempos de Êxodo: "O Senhor disse a Moisés: 'Vai procurar o faraó, porque lhe endureci o coração e o de sua gente para manifestar os Meus prodígios no meio deles, para que contes aos teus filhos e aos teus netos as maravilhas que fiz no Egito e os prodígios que operei no meio deles, e para que saibais que Eu sou o Senhor.'" Ex 10,1-2
    Jó, aliás, vai reclamar dos sobrenaturais procedimentos do próprio Deus: "Orgulhoso como um leão, Tu me caças, multiplicas proezas contra mim, redobras contra mim Teus assaltos, Teu furor cresce contra mim e vigorosas tropas vêm-me cercar. Por que me tiraste do ventre?" Jó 10,16-18a
    O Apóstolo de Tarso, ademais, fala da ação do 'deus desse mundo' para afastar as pessoas do Evangelho: "Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,3-4
    Na Segunda Carta aos Tessalonicenses, diz como ele age: "Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar." 2 Ts 2,10
    Afirma que esse pernicioso poder vem do próprio Pai: "... Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro." 2 Ts 2,11
    E cita especificamente o mistério do Mal, que no mundo atua sob a permissão de Deus: "Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém." 2 Ts 2,7
    Fala inclusive em milagres realizados por falsos profetas: "A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores." 2 Ts 2,9
    Tudo isso havia sido previsto pelo próprio Jesus: "Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos." Mt 24,24
    De fato, Ele cita a presença de figuras assim no Dia do Julgamento: "Muitos Me dirão naquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome, e não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu lhes direi: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, operários maus!'" Mt 7,22-23
    Por isso São Pedro, entre vários outros autores sagrados, pertinentemente descreve o inferno como lugar de tormentos: "Essa gente são fontes sem água, nuvens impelidas pelo furacão. Espera-os a escuridão das trevas." 2 Pd 2,17
    São Judas Tadeu dá idêntico parecer ao mencionar o livro de Henoc, um apócrifo, ou seja, livro não plenamente inspirado, no qual a condenação do Juízo Final é descrita assim: "Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus Santos para julgar a todos e confundir os ímpios por causa das obras que praticaram..." Jd 14b-15a
    E assim o Príncipe dos Apóstolos estimula a permanecermos na Paz de Cristo, mesmo diante daqueles que levantam falso testemunho, explicando o porquê desse comportamento: para confundi-los: "Tende uma consciência reta a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos os que desacreditam o vosso santo procedimento em Cristo." 1 Pd 3,16
    Com efeito, como replicou São Paulo na Carta aos Romanos, os Provérbios já ensinavam assim: "Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará." Pr 25,21-22
    Ora, o próprio Jesus havia ensinado: "Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e' perseguem." Mt 5,43-44
    Por isso também São João Evangelista pede que não nos afastemos d'Ele, para evitarmos o pior na 'hora da nossa morte', como diz a Ave Maria, ou, se vivo estivermos, no Último Dia: "E agora, filhinhos, permanecei n'Ele, para que, quando aparecer, tenhamos confiança e não sejamos confundidos por Ele, na Sua Vinda." 1 Jo 2, 28
    Porque os que estão em Comunhão com Jesus não serão atormentados, mas têm Sua Luz que conduz à eternidade: "Falou-lhes outra vez Jesus: 'Eu sou a Luz do mundo; aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida.'" Jo 8,12
    São estes que recebem o Espírito Santo, como Jesus prometeu, e por Ele são guiados à Verdade: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,16-17
    Por isso São Paulo garante: "Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor o Seu Espírito. Andamos na fé e não na visão." 2 Cor 5,5.7
    E explica assim o que acontece com as pessoas do mundo: "Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,14
    Como preciosíssimo e divino bem, portanto, a Igreja de Jesus traz na alma Sua Paz: "Deixo-vos a Paz, dou-vos a Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    Isaías foi mensageiro também dessa profecia a respeito de Jesus: "Por isso o Senhor Deus lhes diz: 'Eu porei em Sião uma pedra, um bloco escolhido, uma pedra angular e preciosa, uma pedra de alicerce e bem firmada: quem nela confiar não será abalado.'" Is 28,16
    Quantos aos anos que antecederam à Vinda do Cristo, a traição e malícia do povo de Israel não ficaria impune. Ao contrário, foi efetivamente corrigida: "Pasmai-vos e maravilhai-vos, obstinai-vos, feridos de cegueira, embriagai-vos, mas não de vinho, cambaleai, mas não por causa da bebida. Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de torpor, fechou vossos olhos e cobriu vossas cabeças. O Senhor disse: 'Esse povo vem a Mim apenas com palavras e Me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de Mim e o temor que ele Me testemunha é convencional e rotineiro, por isso continuarei a tratar esse povo de modo tão estranho que a sabedoria dos espertalhões se perderá e a inteligência dos astutos desaparecerá.'" Is 29,9-10.13-14
    A passagem de Jesus entre nós, contudo, seria a marca de um novo tempo: "Por isso eis o que disse o Senhor, o Deus da casa de Jacó, que resgatou Abraão: 'Daqui em diante Jacó não será mais confundido, e seu rosto não mais empalidecerá, porque, quando virem n'Ele Minha obra, bendirão o Meu Nome. Glorificarão o Santo de Jacó e temerão o Deus de Israel. Os espíritos desencaminhados aprenderão Sabedoria, e os que murmuravam receberão instrução." Is 29,22-24
    Não obstante, lembrando a definitiva volta de Cristo, oportunamente São Pedro menciona as características tribulações da vida de um cristão: "É isto o que constitui a vossa alegria, apesar das aflições passageiras a vos serem causadas ainda por diversas provações, para que a prova a que é submetida a vossa fé (mais preciosa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) redunde para vosso louvor, para vossa honra e para vossa glória, quando Jesus Cristo Se manifestar." 1 Pd 1,6-7
    Sem dúvida, foram palavras de Jesus: "Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Disse mais: "Em seguida, convocando a multidão juntamente com os Seus discípulos, disse-lhes: 'Se alguém Me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-Me.'" Mc 8,34
    Assim o Príncipe dos Apóstolos pede o moderado mas firme testemunho de nossa fé: "E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! Portanto, não temais as ameaças nem fiqueis conturbados. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,14-15
    Não é errado, portanto, dizer que o mundo está dividido entre os que creem e os que estão confusos...

    "O Vosso Filho permaneça entre nós!"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Piedade


    De que nos serve tanto conhecimento científico? Para o autodestrutivo conforto do individualismo, do hedonismo e do consumismo, seguidos das consequentes catástrofes pessoais, sociais e ecológicas? Para São Paulo, sob todos os aspectos, o amadurecimento tem uma finalidade muito especial. Ele deve necessariamente seguir na direção da piedade, mas não no seu significado de misericórdia, que é mais comum, na verdade uma corruptela, porém no significado original, de religiosidade, de natural e espontânea prática da . Ele escreveu a São Tito: "Paulo, servo de Deus, Apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da Verdade que conduz à piedade..." Tt 1,1
    São Timóteo ele exalta a devoção de amor a Deus como sinal da Vida Eterna: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da vida presente e da futura." 1 Tm 4,8
    E apelando à razão e à Revelação, divulgada pelos Apóstolos, condena todas as crendices que se opõem a verdadeira espiritualidade: "Quanto às fábulas profanas, esses contos extravagantes de comadres, rejeita-as." 1 Tm 4,7
    Dizia que ela deve ser vivida na mais absoluta gratuidade: "Sem dúvida, grande é o valor da piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento." 1 Tm 6,6
    No entanto, conhecedor das forças demoníacas, propunha pura e simplesmente correr, fugir de suas influências, e apontava, junto à piedade, algumas das principais virtudes cristãs: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,11
    São Pedro, na mesma linha do amadurecimento citada por São Paulo, afirma que é conhecendo Jesus que somos conduzidos a esses inestimáveis valores: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Àquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E como fruto de sua experiência ascética e mística, ensina uma luminosa sequência de metas que um fiel cristão deve trilhar para achegar-se concretamente a Deus: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade." 2 Pd 1,5-7
    Ele garante: "Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade com nossos próprios olhos." 2 Pd 1,10-11.16
    Falando das alterações cósmicas que se darão com o fim do mundo, o Príncipe dos Apóstolos exorta-nos a atingirmos a dignidade de filhos de Deus, através da devoção que nos salva: "Entretanto, virá o Dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade..." 2 Pd 3,10-11
    Em assertivas palavras, indicando quase os mesmos valores dos estágios espirituais propostos por São Pedro, São Tiago Menor diz que a verdadeira piedade consta, em essência, de contrição, sobriedade, caridade e castidade: "Se alguém pensa ser piedoso, mas não refreia a sua língua e engana o seu coração, então é vã a sua religião. A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e Nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo." Tg 1,26-27
    São Paulo tem na piedade, sempre com significado de vivência da fé, a principal característica da Doutrina de Jesus: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é cego, não entende nada, é doente à procura de discussões e brigas de palavras." 1 Tm 6,3-4a
    E energicamente condena os falsos mestres, que, entre outros graves pecados por cobiça, distorcem as práticas religiosas, aproveitam-se da boa fé dos verdadeiros devotos e maculam a Igreja enquanto Corpo Místico de Cristo: "Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, os vãos conflitos entre homens de coração corrompido e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro." 1 Tm 6,4b-5
    Profetiza, enfim, sobre toda espécie de lobo que se esconderá sob pele de cordeiro, como falsos fiéis que não vivem da sincera busca da realidade à qual devem curvar-se, mas fogosamente escolhem a doutrina que lhes convêm: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,1-7
    Esta, aliás, seria uma revelação particular que lhe foi feita pelo próprio Espírito Santo, como registrou: "O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas, de hipócritas e impostores que, marcados na própria consciência com o ferrete da infâmia." 1 Tm 4,1-2
    Por isso pedia aos colossenses ainda mais devoção: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças. Orai também por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa Palavra para que possamos anunciar o Mistério de Cristo." Cl 4,2-3a
    Aos romanos ele avisa dos sérios riscos do relaxamento da religiosidade: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    E dá uma lista de tenebrosas consequências de uma vida de aridez espiritual: "Por isso, Deus entregou-os aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus, que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." Rm 1,24-32
    Por fim, ele explica a São Timóteo como deve ser a postura de um autêntico piedoso, ciente de que a verdadeira religiosidade é absolutamente sobrenatural: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade. Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,15-16
    E recomenda: "Empenha-te em te apresentares diante de Deus como homem digno de aprovação, operário que não tem de que se envergonhar, íntegro distribuidor da Palavra da Verdade. Procura esquivar-te das conversas frívolas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena." 2 Tm 2,15-17a
    Ora, na Carta a São Tito, o Santo de Tarso sintetizou assim a Missão de Jesus: "Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    De fato, Jesus havia pregado um profunda coerência interior: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    Pois, quando realmente nos entregamos a Deus, é Ele mesmo Quem realiza em nós Sua vontade: "E o Deus da Paz que, no Sangue da Eterna Aliança, ressuscitou dos mortos o Grande Pastor das ovelhas, Nosso Senhor Jesus, queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo, a Quem seja dada a Glória por toda a eternidade. Amém." Hb 13,20-21 
    E com absoluta razão, São Paulo inclui na prática de fé que rezemos também pelas autoridades não religiosas: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,2-3
    Inspiradamente, seus seguidores pedem especial deferência por nossos sacerdotes: "Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta). Assim, eles o farão com alegria, e não a gemer, que isto vos seria funesto." Hb 13,17
    A piedade, portanto, é a prática devota dos ritos religiosos, representados por excelência na Santa Missa, na qual se rende a Deus a Glória que Lhe é devida, como disse o cego de nascença curado por Jesus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz a Sua vontade." Jo 9,31
    Prática essa que imprescindivelmente requer humildade e Confissão, como explicou Jesus: "Subiram dois homens ao Templo para rezar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, rezava no seu interior desta forma: 'Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10,14
    Pois muito mais que devoção, nas práticas de fé, assim como na Santa Missa, tal qual o Cristo devemos nos oferecer em verdadeiro sacrifício. São Paulo diz: "Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual." Rm 12,1
    Para tanto, é de suma importância que nos deixemos envolver por Seu Espírito: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, e pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    E como no temor ao Senhor é que se tem o início da Sabedoria, a verdadeira religiosidade não pode ser diferente: "Sim, possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que Lhe torne agradável o nosso culto com temor e respeito. Porque Nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)." Hb 12,28


UMA VISÍVEL MARCA

    Mas nem toda religiosidade, que também se expressa na forma de zelo, é dotada da verdadeira Luz. Sobre a prática dos judeus, São Paulo observou: "Pois lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2
    Ele mesmo acusou seus erros de juventude: "Quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível." Fl 3,5b-6
    Essa, contudo, é uma chama que deve ser mantida: "Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,11
    E pode ser facilmente atestada pelas atitudes do fiel, como São Paulo diz de um de seus colaboradores: "Com eles enviamos ainda outro nosso irmão, cujo zelo pudemos comprovar várias vezes e em diversas ocasiões. Desta vez se mostrará ainda mais zeloso, em razão da grande confiança que tem em vós." 2 Cor 8,22
    Ela é contagiante: "Porquanto estou ciente de vossa boa vontade, que enalteço, para glória vossa, ante os macedônios, dizendo-lhes que a Acaia também está pronta desde o ano passado. O exemplo de vosso zelo tem estimulado a muitos." 2 Cor 9,2
    Aliás, é uma das características religiosas mais marcantes: "Vós vos distinguis em tudo: na fé, na eloquência, no conhecimento, no zelo de todo o gênero e no afeto para conosco. Cuidai de ser notáveis também nesta obra de caridade." 2 Cor 8,7
    E por força da obediência, expressa-se ainda mais claramente diante de uma repreensão: "Vede, pois, que solicitude operou em vós a tristeza segundo Deus! Muito mais: que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo! Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto." 2 Cor 7,11
    Indubitavelmente, ela é amada e guiada pelo Pai Celestial: "Nesta esperança suplicamos incessantemente por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos da vossa vocação e que leve eficazmente a bom termo todo o vosso zelo pelo bem e a atividade de vossa fé." 2 Ts 1,11
    Conforme os dons, esse ardoroso zelo manifesta-se de várias formas: "Temos dons diferentes, conforme a Graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério, dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas, faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade." Rm 12,6-8
    De toda forma, retomando ao significado mais usual e não menos importante da piedade, ou seja, o de compaixão, que aliás é fruto certo da legítima prática religiosa, Jesus ensina que todos nós devemos dela usar com liberalidade, pois inevitavelmente também precisaremos da divina clemência: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!" Mt 5,7
    E citando o profeta Oseias, usando esse mesmo termo que significa 'coração de pobre', e bem designa o necessário aquebrantamento de coração para se viver uma sincera devoção, Jesus colocou-a como mais importante que certos rituais: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício.'" Mt 9,13

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

Crer, Celebrar, Viver e Rezar



ELE ENSINOU-NOS A CRER
"Não tenha medo. Apenas creia." Mc 5,36

Crer conforme a Oração do Credo
Nela está a essência do que precisamos acreditar. É também uma poderosíssima oração, capaz de religar-nos a Deus, de unir-nos como Igreja, de aumentar-nos a  e de afastar tentações, maus espíritos e o inimigo. Por ela lembramos de todos os importantes capítulos da Sã Doutrina, que professamos para a unção de nossa alma.

ENSINOU-NOS A CELEBRAR
"... fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19

Celebrar os 7 Sacramentos
Neles estão os visíveis sinais dos Mistérios de Deus. Os Sacramentos são ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, sinais e mistérios, e marcam os capítulos da vida cristã. Através deles, nossos compromissos com Deus materializam-se por toda a existência terrena. O principal deles é a Eucaristia, onde está o Corpo e o Sangue de Cristo, o alimento da Vida Eterna. É uma imerecida Graça poder sentar-se com Ele à Sua mesa e comer de Pão da Vida.

ENSINOU-NOS A VIVER
"... faze isto e viverás." Lc 10,28

Viver os 10 Mandamentos
Os Mandamentos são a Lei da Vida, a Vida Plena. A consciência moral e a ética estão em Suas linhas, assim como a Paz e a justiça. 'Amar a Deus sobre todas as coisas' é uma frase muito significativa nesses tempos de hedonismo, materialismo e individualismo. 'Guardar os dias santos' é excelente remédio contra solidão, estresse, depressão, manias, compulsão e obsessão.

E ENSINOU-NOS A REZAR
"Eis como deveis rezar: Pai Nosso, que estais no Céu..." Mt 6,9

Rezar o Pai Nosso
Ao rezá-lo, voltamo-nos para o Pai, para a santidade, para o Reino dos Céus e para a divina justiça. E assim aprendemos a confiar em Sua Providência, em Sua Misericórdia e a ter as coisas sem possessividade ou ambição. Pedimos perdão por nossas frequentes faltas e, na mesma proporção, oferecemos perdão aos nossos irmãos. Pedimos ainda força contra as tentações que podem arruinar nossas vidas. E, caso não resistamos, pedimos que Ele nos livre do Maligno, ou nossa derrocada será total.

QUANTO A NÓS...
Com sutileza, São Paulo questiona se realmente temos Jesus como mestre:


    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Os Obstáculos à Oração


    São reconhecidos quatro grandes empecilhos ao bem rezar:

DISTRAÇÃO

    Jesus ensinou: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro." Mt 6,24a
    Mais: "Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus." Lc 9,62b
    E apontou como sua causa as ilusões mundanas: "O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a Palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa." Mt 13,22
    Devemos reconquistar nosso coração, em geral tomado por uma vida completamente desvirtuada. Ele reclamava dos judeus: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Mas também alertava os Apóstolos: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mc 14,38
    São Pedro pedia prontidão: "Cingi, portanto, os rins do vosso espírito, sede sóbrios e colocai toda vossa esperança na Graça que vos será dada no Dia em que Jesus Cristo aparecer." 1 Pd 1,13
    Por isso os seguidores da tradição de São Paulo reclamam: "Teríamos muita coisa a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada a vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus; e vos tornastes tais, que precisais de leite em vez de alimento sólido!" Hb 5,11-12
    O próprio São Paulo adverte: "Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos suas maquinações." 2 Cor 2,11
    Também São Pedro: "Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar." 1 Pd 5,8
    Era assim que o inimigo agia para com Jesus, como vemos logo após as tentações no deserto: "Depois de tê-Lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se d'Ele até o tempo oportuno." Lc 4,13
    Entretanto, São Tiago Menor assegura: "Mas aquele que procura meditar com atenção a Lei perfeita da liberdade e nela persevera - não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito -, este será feliz no seu proceder." Tg 1,25

ARIDEZ

    Jesus ensinou: "... alegrai-vos porque os vossos nomes estão escritos nos Céus." Lc 10,20
    Falta-nos, então, descobrir o sabor e a alegria de rezar: "... Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e rezou: 'Pai, Senhor do Céu e da Terra, Eu Te dou graças...'" Lc 10,21
    São Paulo estimulava: "Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,11
    Questiona: "Onde está agora aquele vosso entusiasmo? Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na ." Gl 4,15a;6,9-10
    E denuncia o relaxamento da religiosidade que leva à negação da fé, e ao consequente embrutecimento, que são motivados pela insensatez da vaidade: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    Ele sintetiza assim a Missão de Jesus: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa feliz esperança, a aparição gloriosa de Nosso Grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós, a fim de resgatar-nos de toda a iniquidade, purificar-nos e constituir-nos Seu povo de predileção, zeloso na prática do bem." Tt 2,12-14
    E pedia que nos empenhássemos na prática da caridade: "... Ele salvou-nos, mediante o Batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo que nos foi concedido em profusão por meio de Cristo, Nosso Salvador... Certa é esta Doutrina e quero que a ensines com constância e firmeza, para que os que abraçaram a fé em Deus se esforcem por se aperfeiçoar na prática do bem. Isto é bom e útil aos homens." Tt 3,5b-6.8
    Os seguidores de São Paulo, no mesmo sentido, fazem-nos recordar a própria Paixão de Cristo: "Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo." Hb 12,3

PREGUIÇA

    Jesus ensinou: "Vigiai e orai, para não cairdes em tentação!" Mc 14,38
    Precisamos resistir à negligência e ao pouco-caso: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário rezar sempre sem jamais deixar de fazê-lo." Lc 18,1
    E tornar-nos diligentes perante as próprias exigências do Cristo, por conta de nossos pecados: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Refaz, pois, o teu zelo e arrepende-te." Ap 3,19
    Ele corrigiu Seus discípulos que iam a Emaús, numa de Suas primeiras aparições após a Ressurreição: "Jesus disse-lhes: 'Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas!'" Lc 24,25
    São Paulo também foi contundente: "Despertai, como convém, e não pequeis! Porque alguns vivem na total ignorância de Deus - para vergonha vossa o digo." 1 Cor 15,34
    Advertia: "Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Ele entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia." Rm 1,28-30
    Pedia vigília e Sabedoria: "Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo, pois os dias são maus." Ef 5,15-16
    Que cuidássemos de um dia-a-dia digno de um cristão: "Procurai viver com serenidade, ocupando-vos das vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado. É assim que vivereis honrosamente em presença dos de fora e não sereis pesados a ninguém." 1 Ts 4,11-12
    E exortava à plena atividade espiritual: "Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos." Ef 6,18

POUCA FÉ

    Jesus ensinou: "Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado." Mc 11,24
    Ele prometeu-nos tudo que estivesse em Comunhão com os projetos do Pai: "Tudo o que pedirdes com na oração, vós o alcançareis." Mt 21,22
    Apontando para Si mesmo, simplificou assim toda a vontade de Deus, cuja essência é a nossa Salvação: "A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou." Jo 6,29b
    Reclamava dos apenas curiosos: "Disse-lhe Jesus: 'Se não virdes milagres e prodígios, não credes...'" Jo 4,48
    Mas também reclamou de São Tomé, que duvidou de Sua Ressurreição: "Disse-lhe Jesus: 'Creste, porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!'" Jo 20,29
    E falando sobre as demais realizações espirituais, Ele disse: "Em verdade vos digo: se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda..." Mt 17,20
    Com efeito, na presunção ou a pessoa se julga santa ou acha que Deus a salvará exclusivamente por Sua Divina Misericórdia. Mas, além de um dom, a fé é uma conquista, e para tanto devemos pedi-la a Deus: "Os Apóstolos disseram ao Senhor: 'Aumenta-nos a fé!'" Lc 17,5
    Os da tradição de São Paulo fazem lembrar o exemplo dos Santos: "Desejamos, apenas, que ponhais todo o empenho em guardar intata a vossa esperança até o fim, e que, longe de vos tornardes negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas." Hb 6,11-12
    E São Tiago Menor provoca: "Se alguém de vós necessita de Sabedoria, peça-a a Deus - que a todos dá liberalmente, com simplicidade e sem recriminação - e ser-lhe-á dada. Mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação, porque o homem que vacila assemelha-se à onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro. Não pense, portanto, tal homem que alcançará alguma coisa do Senhor, pois é um homem irresoluto, inconstante em todo o seu proceder." Tg 1,5-8

    Santo Agostinho dizia: "Reza-se como se vive e vive-se como se reza."


PEDIR A DEUS

    Jesus ensinou-nos a rezar ao Pai com total confiança: "Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celeste dará boas coisas aos que Lhe pedirem." Mt 7,9-11
    Confiança essa, como vimos, que dever ser expressa por atitudes: "Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado." Mc 11,24
    Ele deu um exemplo: "Respondeu-lhes Jesus: 'Em verdade vos declaro que, se tiverdes fé e não hesitardes, não só fareis o que foi feito a esta figueira, mas ainda se disserdes a esta montanha: 'Levanta-te daí e atira-te ao mar', isso se fará..." Mt 21,21
    Claro, Ele falava de pedidos que estão em conformidade com a Sã Doutrina: "Se permanecerdes em Mim, e as Minhas Palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito." Jo 15,7
    E até reclamou: "Por que Me chamais: 'Senhor, Senhor...' e não fazeis o que digo?" Lc 6,46
    São João Evangelista explicou: "A confiança que depositamos n'Ele é esta: em tudo quanto Lhe pedirmos, se for conforme à Sua vontade, Ele nos atenderá. E se sabemos que Ele nos atende em tudo quanto Lhe pedirmos, sabemos daí que já recebemos o que pedimos." 1 Jo 5,14-15
    Falava, portanto, de pedidos feitos por pessoas que estão em dia com os Sacramentos: "Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que Lhe pedirmos, receberemos d'Ele porque guardamos os Seus Mandamentos e fazemos o que é agradável a Seus olhos." 1 Jo 3,21-22
    Por isso São Pedro, ao discorrer sobre o Batismo, dá uma exemplo do que devemos pedir: "Esta água prefigurava o Batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência, pela Ressurreição de Jesus Cristo." 1 Pd 3,21
    Jesus explicou assim a importância de perseverar nas orações: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo. 'Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava pessoa alguma. Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com frequência à sua presença para dizer-lhe: 'Faze-me justiça contra o meu adversário.' Ele, porém, por muito tempo não o quis. Por fim, refletiu consigo: 'Eu não temo a Deus nem respeito os homens; todavia, porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar.' Prosseguiu o Senhor: 'Ouvis o que diz este juiz injusto? Por acaso não fará Deus justiça aos Seus escolhidos, que estão clamando por Ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los? Digo-vos que em breve lhes fará justiça.'" Lc 18,1-8a
    Criticou, porém, quem pensa que será atendido por orações meramente mecânicas, como se elas valessem por sua extensão: "Nas vossas orações, não useis de vãs repetições como fazem os pagãos, julgando que serão ouvidos por muito falarem. Não os imiteis, porque Vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós Lho peçais." Mt 6,7-8
    Isso nada tem a ver, no entanto, com as devotas e ardorosas repetições, das quais Ele mesmo usou no Horto das Oliveiras: "Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras." Mt 26,44
    O profeta Baruc já havia percebido uma grande dádiva de Deus, dada ao povo da Revelação: "É Ele o Nosso Deus, com Ele nenhum outro se compara. Conhece a fundo os caminhos que conduzem à Sabedoria, galardoando com ela Jacó, Seu servo, e Israel, Seu favorecido. Foi então que ela apareceu sobre a terra, onde permanece entre os homens." Br 3,36-38
    E São Paulo explicou a razão de ser desta Graça, que bem lembra o Sacrifício da Cruz: "Por isso... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, confortados em tudo pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Porque nem tudo, mesmo que justo, será concedido. Isso se dá em função dos mais elevados planos de Deus, que também preveem tempos difíceis, como disse o terceiro dos anjos que anunciam o Juízo: "Eis o momento para apelar para a paciência dos Santos, dos fiéis, aos Mandamentos de Deus e à fé em Jesus." Ap 14,12
    São Tiago Menor, ademais, criticava duramente a insensatez de certos 'pedidos': "Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões." Tg 4,2b-33
    Com efeito, São Marcos retratou situações assim em seu Evangelho: "E embarcando depois com Seus discípulos, foi para o território de Dalmanuta. Vieram os fariseus e puseram-se a disputar com Ele e pediram-Lhe um sinal do Céu, para pô-Lo à prova. Jesus, porém, suspirando no Seu Coração, disse: 'Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo: jamais lhe será dado um sinal.' Deixou-os e seguiu de barca para a outra margem." Mc 8,10-13
    

PEDIR A DEUS NA IGREJA

    É claro, Jesus confirma em especial as orações feitas pela Igreja, pois sentenciou sobre quem não se arrepende de seus pecado: "E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no Céu. Digo-vos ainda isto: se dois de vós se unirem sobre a terra para pedir, seja o que for, consegui-lo-ão de Meu Pai que está nos Céus." Mt 18,17b-19
     E pregava a humildade como verdadeira postura de um fiel: "Jesus disse-lhes ainda esta parábola a respeito de alguns que se vangloriavam como se fossem justos, e desprezavam os outros: 'Subiram dois homens ao Templo para orar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: 'Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,9-14
    Condenou, por isso, quem faz orações pessoais em lugares públicos, ou mesmo sagrados, para aparecer: "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao Teu Pai em segredo; e Teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,5-6
    Ele pedia que nos antecipássemos em buscar a Paz com nossos irmãos, zelando pela verdadeira Comunhão espiritual: "Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta." Mt 5,23-24
    E afirmou que é pela perseverança que recebemos o Espírito de Deus: "Eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. ... Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,9-10.13
    Essa, contudo, é uma dádiva exclusiva à Igreja: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece, mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    De fato, São Pedro atestou ante o Sinédrio, após terem sido presos os Apóstolos: "... o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32b
    Era de Deus mesmo, portanto, que Jesus falava quando prometeu Água Viva pela primeira vez: "Chegou, pois, a uma localidade da Samaria, chamada Sicar, junto às terras que Jacó dera a seu filho José. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: 'Dá-Me de beber.' (Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.) Aquela samaritana Lhe disse: 'Sendo Tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!... (Pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos.)' Respondeu-lhe Jesus: 'Se conhecesses o dom de Deus, e Quem é que te diz: Dá-Me de beber, certamente Lhe pedirias tu mesma e Ele te daria uma Água Viva.'" Jo 4,5-10
    No episódio da Festa das Tendas, isso vai ficar ainda mais claro: "No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: 'Se alguém tiver sede, venha a Mim e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de Água Viva (Zc 14,8; Is 58,11).' Dizia isso, referindo-Se ao Espírito que haviam de receber os que cressem n'Ele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto que Jesus ainda não tinha sido glorificado." Jo 7,37-39
    E São Paulo apontou uma de Suas funções, agindo exatamente através das orações: "Outrossim, o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis." Rm 8,26
    Disse também do Pai: "Àquele que, pela virtude que opera em nós, pode fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou entendemos..." Ef 3,20
    Ou da intercessão do próprio Cristo, indiretamente aludindo à Santíssima Trindade: "Cristo Jesus, que morreu, ou melhor, que ressuscitou, que está à mão direita de Deus, é Quem intercede por nós!" Rm 8,34b
    Pois por Jesus temos a perfeita reconciliação com o Pai, alcançamos Sua Glória: "Ainda mais: nós nos gloriamos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem desde agora temos recebido a reconciliação!" Rm 5,11
    De fato, para a perfeita Unidade da Igreja, a Comunhão dos Santos, Ele derramou Sua Glória sobre os Apóstolos: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 1,22-23
    E tão somente para a edificação da Igreja devem ser empregados os dons do Espírito Santo, como ensina São Paulo aos coríntios: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja. Por isso, quem fala em línguas, peça na oração o dom de as interpretar." 1 Cor 14,12-13
    Pois explicando as vocações, Jesus garantiu: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele vos conceda." Jo 15,16
    E, sem dúvida, Deus é plenamente glorificado pela manifestação de Jesus: "E tudo o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Qualquer coisa que Me pedirdes em Meu Nome, vo-lo farei." Jo 14,13-14
    Santa Marta já havia percebido tal eficácia, como declarou após a morte de São Lázaro: "Marta disse a Jesus: 'Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido! Mas sei também, agora, que tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá.'" Jo 11,21,22
    Para formar tal convicção, Jesus avisou que no Dia de Sua Ressurreição os Apóstolos perceberiam que Ele e o Pai são um: "Naquele dia não Me perguntareis mais coisa alguma. Em verdade, em verdade vos digo: o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele vo-Lo dará. Até agora não pedistes nada em Meu Nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita. Naquele dia pedireis em Meu Nome, e já não digo que rogarei ao Pai por vós. Pois o mesmo Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,23-24.26-27
    Por isso São Pedro garantia aos fiéis: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4


O CARISMA DE REZAR

    Os Apóstolos pediram que Jesus lhes ensinasse a rezar, pois tinham visto São João Batista ensinar seus discípulos. É humano: em algum momento vamos olhar para o Céu, nossa alma vai suspirar...
    Jesus rezava intensa e frequentemente. Acordava quando ainda estava escuro e buscava um lugar deserto para Suas orações. Ao cair da noite, Ele subia sozinho algum monte e rezava. Antes de escolher os Doze, Ele subiu uma montanha e rezou por toda a noite.
    Na noite que foi entregue, Ele afastou-Se de Seus Apóstolos mais próximos, ajoelhou-Se e rezou tão fervorosamente que Seu suor se tornou gotas de sangue e escorriam pelo chão... E por três vezes repetiu a mesma oração!
    Rezou ao Pai pela unidade da Igreja, para que Lázaro fosse ressuscitado, para que Seus algozes fossem perdoados por Sua morte na Cruz e para que São Pedro não fraquejasse na liderança dos Apóstolos.
    Na parábola do juiz que não temia a Deus, Ele ensinou que nunca deixássemos de rezar.
    E como haviam pedido os Apóstolos, Ele deixou-nos o Pai Nosso, um perfeita oração, irretocável! Devemos chamar Deus de Pai e conversar com Ele todos os dias.
    Rezar é um combate. Aprendemos a resistir e a vencer. É um pedido de socorro, humilde, mas a Quem de fato pode nos ajudar. São Pedro, por exemplo, quando estava se afogando, pediu socorro a Jesus, não aos Apóstolos da barca.
    São Paulo fala em oração em quase todas as suas cartas. Pedia preces por ele e que se reze em todas as circunstâncias.
    Rezar é um mistério. É receber força, Consolação e Paz inefáveis, mesmo quando já não acreditamos numa solução.
    Rezar é entrar em estado de Graça, é colocar-se diante de Deus, é sentir Sua presença...
    Em todas as suas ApariçõesNossa Senhora insiste na importância de rezar sempre, e que prolonguemos ao máximo esses momentos de contato com os Céus, pela recitação do Terço. E como é Nossa Mãe, ela sempre reza por nós, 'agora e na hora de nossa morte'.
    O Terço rezado diariamente é o caminho mais singelo para alcançar a Paz que Jesus prometeu...
    Os anjos rezam em louvores diante do trono de Deus...
    O Espírito Santo reza por nós em gemidos inexprimíveis...
    Assim seja, Senhor. Assim seja...

    "Confirmai na caridade Vosso povo!"