terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Igreja, A Comunidade Messiânica


    Falar em messianismo parece coisa de fanático, um delírio. Mas quem crê no Evangelho deve ter ciência de que faz parte de uma comunidade messiânica, ou seja, que aguarda ser resgatada pelo Messias, Jesus, instaurador dessa comunidade que é a própria Igreja.
    Assim, de antemão não tenhamos dúvida sobre Quem é Jesus. Santo André, que presenciou São João Batista O batizar, convictamente vai dizer a São Pedro: "Achamos o Messias..." Jo 1,41
    E em sua intensa vida pastoral, desde o início São Paulo "... com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias." At 18,28
    Dito isto, as primeiras informações que precisamos saber sobre a Igreja é que é Jesus Quem a edifica, que Ele a chamou de 'Minha', que Ele a declarou invencível e que ela é liderada por um homem por Ele escolhido: "E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,18-19
    O termo 'igreja' vem do grego e significa 'assembleia' ou 'povo congregado', como é citado na Bíblia desde a libertação dos israelitas da escravidão do Egito. Ensinou Santo Estevão no Sinédrio: "Foi este Moisés que disse aos filhos de Israel: 'Deus vos suscitará dentre os vossos irmãos um profeta como eu.' Este é o que esteve entre o povo congregado no deserto, e com o anjo que lhe falara no monte Sinai, e com os nossos pais; que recebeu Palavras de Vida para transmiti-las a nós." At 7,37-38
    Há muito tempo, porém, após a manifestação de Jesus, usa-se também a palavra 'comunidade'. Mas inicialmente referia-se apenas aos cristãos de um determinado lugar, como foi empregada por São Lucas para indicar a igreja-mãe, localizada em Jerusalém: "E Saulo havia aprovado a morte de Estêvão. Naquele dia, rompeu uma grande perseguição contra a comunidade de Jerusalém. Todos se dispersaram pelas regiões da Judeia e de Samaria, com exceção dos Apóstolos." At 8,1
    Ou ainda o termo 'igreja' com letra inicial minúscula, seguido nome do lugar para designar os membros que lá se reuniam: "A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos da igreja de Jerusalém. Enviaram então Barnabé até Antioquia." At 11,22
    Esse mesmo termo foi usado por São Paulo para indicar as Santas Missas que aconteciam em residências, como ele escreve na carta ao povo de Colossos: "Saudai os irmãos de Laodiceia, como também a Ninfas e a igreja que está em sua casa." Cl 4,15
    Uso feito também na carta a Filemon "... a Ápia, nossa irmã, a Arquipo, nosso companheiro de armas, e à igreja que se reúne em tua casa." Fm 2
    Mas, com sua fervorosa flama, São Paulo usou termos bem mais expressivos: "Com efeito, irmãos, vós vos tornastes imitadores das igrejas de Deus que estão na Judeia, das igrejas de Jesus Cristo." 1 Ts 2,14
    Foi com esse sentido que escreveu também São João Evangelista, no livro do Apocalipse: "João, às sete igrejas que estão na Ásia..." Ap 1,4
    Aliás, com essa denominação foram incorporadas as primeiras comunidades de origem não-judia: "Havia então na igreja de Antioquia profetas e doutores, entre eles Barnabé, Simão, apelidado o Negro, Lúcio de Cirene, Manaém, companheiro de infância do tetrarca Herodes, e Saulo." At 13,1
    Esse emprego foi repetido por São Lucas no versículo seguinte, no momento em que se começou a instituir anciões, ou presbíteros, que são nossos atuais sacerdotes, também chamados de padres, o que só aconteceu algum tempo mais tarde, após as ordenações de bispos e diáconos pelos próprios Apóstolos: "Depois de ter pregado o Evangelho à cidade de Derbe, onde ganharam muitos discípulos, voltaram para Listra, Icônio e Antioquia (da Pisídia). Em cada igreja instituíram anciãos e, após orações com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor, em Quem tinham confiado." At 14,21-23
    Ou, como usou mais explicitamente São Paulo, o termo 'igreja dos gentios', como eram chamados os cristãos convertidos do paganismo: "Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é diaconisa da igreja de Cêncris... Saudai Prisca e Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus; pela minha vida eles expuseram as suas cabeças. E isso lhes agradeço, não só eu, mas também todas as igrejas dos gentios." Rm 16,1.3-4
    Até mesmo o denso termo 'Igreja de Deus' foi usado pelo inspirado 'Apóstolo dos Gentios', para denotar esses encontros em que se fazia a invocação do Nome do Senhor: "... à Igreja de Deus que está em Corinto, aos fiéis santificados em Jesus Cristo, chamados à santidade, juntamente com todos os que, em qualquer lugar que estejam, invocam o Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor Deles e Nosso..." 1 Cor 1,2
    Ou simplesmente, como já citado, o termo 'comunidade', agora empregado para designar também as assembleias dos ex-pagãos: "Paulo, porém, tendo escolhido Silas, e depois de ter sido recomendado pelos irmãos à Graça do Senhor, partiu. Ele percorreu a Síria, a Cilícia, confirmando as comunidades." At 15,40
    Termo, aliás, que foi usado também para referir-se aos cristãos que celebravam a partilha do Pão Celeste em casas particulares: "Saudai também a comunidade que se reúne em sua casa." Rm 16,5
    Comum também, já desde os tempos de Moisés, era o termo 'assembleia', que continuou sendo usado por São Paulo, mas agora mais especificamente para indicar a Santa Missa, quando escreveu ao povo de Corinto: "Em primeiro lugar, ouço dizer que, quando se reúne a vossa assembléia, há desarmonias entre vós." 1 Cor 11,18
    Ele usou-o mais uma vez aqui: "Se, pois, numa assembléia da igreja inteira todos falarem em línguas, e se entrarem homens simples ou infiéis, não dirão que estais loucos? Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias: não lhes é permitido falar, mas devem estar submissas, como também ordena a Lei." 1 Cor 14,23.34
    Em suma, como vemos na carta aos gálatas, eram termos que direta ou indiretamente denotavam as igrejas particulares, ou seja, as igrejas locais: "Eu era ainda pessoalmente desconhecido das comunidades cristãs da Judeia..." Gl 1,22
    Mas, em conjunto, todas elas indicavam unicamente 'a Igreja', com letra inicial maiúscula, termo que empregou São Lucas para designar a Comunhão de todos os cristãos: "A Igreja gozava então de Paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria. Estabelecia-se ela caminhando no temor do Senhor, e a assistência do Espírito Santo a fazia crescer em número." At 9,31
    Desse uso recorreu também São João Evangelista: "Escrevi uma palavra à Igreja. Mas Diótrefes, homem ambicioso do poder, não nos quer receber." 3 Jo 9
    Houve momentos também em que o termo era usado para caracterizar a unidade teológica, representada pelo povo em torno do Cristo, que aqui São Paulo menciona como sendo o próprio Deus: "Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o Seu próprio Sangue." At 20,28
    E, com esse sentido, não eram levadas em conta as diferenças de origem: "Não vos torneis causa de escândalo, nem para os judeus, nem para os gentios, nem para a Igreja de Deus." 1 Cor 10,32
    Não descuidemos, entretanto, de que a hierarquia da Igreja era concreta e abertamente constituída e declarada: "Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os Apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas." 1 Cor 12,28
    E essa hierarquia implicava em restrições claras. Sacerdotes, por exemplo, só eram reconhecidos os instituídos oficialmente pelos Apóstolos, e, após suas mortes, pelos Bispos. Ao defender a Unção dos Enfermos, São Tiago Menor vai recomenda-los: "Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor." Tg 5,14
    Por isso, acertadamente São Paulo reclama de 'consultas' feitas fora da Igreja: "No entanto, quando tendes contendas desse gênero, escolheis para juízes pessoas cuja opinião é tida em nada pela Igreja." 1 Cor 6,4


O CORPO DE CRISTO

    Contudo, a mais significativa representação da Igreja é a do Corpo de Cristo. Diz São Paulo aos colossenses: "Ele é a Cabeça do Corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas." Cl 1,18
    Nós, portanto, somos apenas membros do Seu Corpo: "Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos Seus membros." 1 Cor 12,27
    E isso, como vimos, sem nenhuma distinção de origem. Ele escreve aos efésios: "A saber: que os gentios são co-herdeiros conosco (que somos judeus), são membros do mesmo Corpo e participantes da promessa em Jesus Cristo pelo Evangelho." Ef 3,6
    Assim, ser seguidor de Cristo é efetivamente tomar parte na construção de Sua Igreja, para o nosso bem e de nossos irmãos, visando exclusivamente a Salvação: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. É por Ele que todo o Corpo - coordenado e unido por conexões que estão ao Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria - efetua esse crescimento, visando a Sua plena edificação na caridade." Ef 4,11-13.16
    Por ela, então, a Santa Madre Igreja, devemos perseverar do mesmo modo que defendemos nossa própria vida: "Certamente, ninguém jamais aborreceu a sua própria carne; ao contrário, cada qual a alimenta e a trata, como Cristo faz à Sua Igreja - porque somos membros de Seu Corpo." Ef 5,29-30
    Foi a isso que Se referiu Jesus ao dizer: "Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    Como perfeito exemplo de cristão, e atestando seu completo abandono à mercê dos planos de Deus, São Paulo vai dizer: "Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim." Gl 2,20
    Porque, inseparavelmente juntos, Cristo e a Igreja, segundo este Apóstolo, compõem um mistério: "... pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, Seu corpo, da qual Ele é o Salvador. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,23.32
    E ele diz com todas as letras: "... Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para apresentá-la a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível." Ef 5,25b-27
    Noutra simbologia, para designar sua universal importância, a Igreja é descrita como o necessário ponto de convergência, o cósmico e místico arcabouço por desígnio do próprio Pai Eterno: "E Deus sujeitou a Seus pés todas as coisas, e O constituiu chefe supremo da Igreja, que é o Seu Corpo, o Receptáculo d'Aquele que enche todas as coisas sob todos os aspectos." Ef 1,22-23
    Ou, por fim, em várias citações feitas por São João Evangelista, como a própria Esposa de Cristo:
    - "Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada." Ap 19,7
    - "Eu vi descer do Céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o Esposo." Ap 21,2
    - "Então veio um dos sete Anjos que tinham as sete taças cheias dos sete últimos flagelos e disse-me: 'Vem, e mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro.' Levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus." Ap 21,9-11
    - "O Espírito e a Esposa dizem: 'Vem!' Possa aquele que ouve dizer também: 'Vem!' Aquele que tem sede, venha! E que o homem de boa vontade receba, gratuitamente, da Água da Vida!" At 22,17

    "Glória e louvor a Jesus, que nos leva ao Pai!"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Piedade


    De que nos serve tanto conhecimento científico? Para o autodestrutivo conforto do individualismo, do hedonismo e do consumismo, seguidos das consequentes catástrofes pessoais, sociais e ecológicas? Para São Paulo, sob todos os aspectos, o amadurecimento tem uma finalidade muito especial. Ele deve necessariamente seguir na direção da piedade, mas não no seu significado de misericórdia, que é mais comum, na verdade uma corruptela, porém no significado original, de religiosidade, de natural e espontânea prática da . Ele escreveu a São Tito: "Paulo, servo de Deus, Apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da Verdade que conduz à piedade..." Tt 1,1
    São Timóteo ele exalta a devoção de amor a Deus como sinal da Vida Eterna: "Exercita-te na piedade. Se o exercício corporal traz algum pequeno proveito, a piedade, esta sim, é útil para tudo, porque tem a promessa da vida presente e da futura." 1 Tm 4,8
    E apelando à razão e à Revelação, divulgada pelos Apóstolos, condena todas as crendices que se opõem a verdadeira espiritualidade: "Quanto às fábulas profanas, esses contos extravagantes de comadres, rejeita-as." 1 Tm 4,7
    Dizia que ela deve ser vivida na mais absoluta gratuidade: "Sem dúvida, grande é o valor da piedade, porém quando acompanhada de espírito de desprendimento." 1 Tm 6,6
    No entanto, conhecedor das forças demoníacas, propunha pura e simplesmente correr, fugir de suas influências, e apontava, junto à piedade, algumas das principais virtudes cristãs: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão." 1 Tm 6,11
    São Pedro, na mesma linha do amadurecimento citada por São Paulo, afirma que é conhecendo Jesus que somos conduzidos a esses inestimáveis valores: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Àquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E como fruto de sua experiência ascética e mística, ensina uma luminosa sequência de metas que um fiel cristão deve trilhar para achegar-se concretamente a Deus: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade." 2 Pd 1,5-7
    Ele garante: "Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, não tropeçareis jamais. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino Eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a Sua Majestade com nossos próprios olhos." 2 Pd 1,10-11.16
    Falando das alterações cósmicas que se darão com o fim do mundo, o Príncipe dos Apóstolos exorta-nos a atingirmos a dignidade de filhos de Deus, através da devoção que nos salva: "Entretanto, virá o Dia do Senhor como ladrão. Naquele dia os céus passarão com ruído, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade..." 2 Pd 3,10-11
    Em assertivas palavras, indicando quase os mesmos valores dos estágios espirituais propostos por São Pedro, São Tiago Menor diz que a verdadeira piedade consta, em essência, de contrição, sobriedade, caridade e castidade: "Se alguém pensa ser piedoso, mas não refreia a sua língua e engana o seu coração, então é vã a sua religião. A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e Nosso Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo." Tg 1,26-27
    São Paulo tem na piedade, sempre com significado de vivência da fé, a principal característica da Doutrina de Jesus: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é cego, não entende nada, é doente à procura de discussões e brigas de palavras." 1 Tm 6,3-4a
    E energicamente condena os falsos mestres, que, entre outros graves pecados por cobiça, distorcem as práticas religiosas, aproveitam-se da boa fé dos verdadeiros devotos e maculam a Igreja enquanto Corpo Místico de Cristo: "Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, os vãos conflitos entre homens de coração corrompido e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro." 1 Tm 6,4b-5
    Profetiza, enfim, sobre toda espécie de lobo que se esconderá sob pele de cordeiro, como falsos fiéis que não vivem da sincera busca da realidade à qual devem curvar-se, mas fogosamente escolhem a doutrina que lhes convêm: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um período difícil. Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre a aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,1-7
    Esta, aliás, seria uma revelação particular que lhe foi feita pelo próprio Espírito Santo, como registrou: "O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas, de hipócritas e impostores que, marcados na própria consciência com o ferrete da infâmia." 1 Tm 4,1-2
    Por isso pedia aos colossenses ainda mais devoção: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças. Orai também por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa Palavra para que possamos anunciar o Mistério de Cristo." Cl 4,2-3a
    Aos romanos ele avisa dos sérios riscos do relaxamento da religiosidade: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    E dá uma lista de tenebrosas consequências de uma vida de aridez espiritual: "Por isso, Deus entregou-os aos desejos dos seus corações, à imundície, de modo que desonraram entre si os próprios corpos. Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a paixões vergonhosas: as suas mulheres mudaram as relações naturais em relações contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a paga devida ao seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os aos sentimentos depravados, e daí o seu procedimento indigno. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes contra os pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus, que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem os que as cometem." Rm 1,24-32
    Por fim, ele explica a São Timóteo como deve ser a postura de um autêntico piedoso, ciente de que a verdadeira religiosidade é absolutamente sobrenatural: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da Verdade. Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,15-16
    E recomenda: "Empenha-te em te apresentares diante de Deus como homem digno de aprovação, operário que não tem de que se envergonhar, íntegro distribuidor da Palavra da Verdade. Procura esquivar-te das conversas frívolas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena." 2 Tm 2,15-17a
    Ora, na Carta a São Tito, o Santo de Tarso sintetizou assim a Missão de Jesus: "Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    De fato, Jesus havia pregado um profunda coerência interior: "Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e Verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito, e os Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,23-24
    Pois, quando realmente nos entregamos a Deus, é Ele mesmo Quem realiza em nós Sua vontade: "E o Deus da Paz que, no Sangue da Eterna Aliança, ressuscitou dos mortos o Grande Pastor das ovelhas, Nosso Senhor Jesus, queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo, a Quem seja dada a Glória por toda a eternidade. Amém." Hb 13,20-21 
    E com absoluta razão, São Paulo inclui na prática de fé que rezemos também pelas autoridades não religiosas: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, Nosso Salvador, o Qual deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,2-3
    Inspiradamente, seus seguidores pedem especial deferência por nossos sacerdotes: "Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta). Assim, eles o farão com alegria, e não a gemer, que isto vos seria funesto." Hb 13,17
    A piedade, portanto, é a prática devota dos ritos religiosos, representados por excelência na Santa Missa, na qual se rende a Deus a Glória que Lhe é devida, como disse o cego de nascença curado por Jesus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz a Sua vontade." Jo 9,31
    Prática essa que imprescindivelmente requer humildade e Confissão, como explicou Jesus: "Subiram dois homens ao Templo para rezar. Um era fariseu; o outro, publicano. O fariseu, em pé, rezava no seu interior desta forma: 'Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10,14
    Pois muito mais que devoção, nas práticas de fé, assim como na Santa Missa, tal qual o Cristo devemos nos oferecer em verdadeiro sacrifício. São Paulo diz: "Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual." Rm 12,1
    Para tanto, é de suma importância que nos deixemos envolver por Seu Espírito: "Porque os verdadeiros circuncisos somos nós, que prestamos culto a Deus pelo Espírito de Deus, e pomos nossa Glória em Jesus Cristo, e não confiamos na carne." Fl 3,3
    E como no temor ao Senhor é que se tem o início da Sabedoria, a verdadeira religiosidade não pode ser diferente: "Sim, possuindo nós um reino inabalável, dediquemos a Deus um reconhecimento que Lhe torne agradável o nosso culto com temor e respeito. Porque Nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)." Hb 12,28


UMA VISÍVEL MARCA

    Mas nem toda religiosidade, que também se expressa na forma de zelo, é dotada da verdadeira Luz. Sobre a prática dos judeus, São Paulo observou: "Pois lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2
    Ele mesmo acusou seus erros de juventude: "Quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível." Fl 3,5b-6
    Essa, contudo, é uma chama que deve ser mantida: "Não relaxeis o vosso zelo. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor." Rm 12,11
    E pode ser facilmente atestada pelas atitudes do fiel, como São Paulo diz de um de seus colaboradores: "Com eles enviamos ainda outro nosso irmão, cujo zelo pudemos comprovar várias vezes e em diversas ocasiões. Desta vez se mostrará ainda mais zeloso, em razão da grande confiança que tem em vós." 2 Cor 8,22
    Ela é contagiante: "Porquanto estou ciente de vossa boa vontade, que enalteço, para glória vossa, ante os macedônios, dizendo-lhes que a Acaia também está pronta desde o ano passado. O exemplo de vosso zelo tem estimulado a muitos." 2 Cor 9,2
    Aliás, é uma das características religiosas mais marcantes: "Vós vos distinguis em tudo: na fé, na eloquência, no conhecimento, no zelo de todo o gênero e no afeto para conosco. Cuidai de ser notáveis também nesta obra de caridade." 2 Cor 8,7
    E por força da obediência, expressa-se ainda mais claramente diante de uma repreensão: "Vede, pois, que solicitude operou em vós a tristeza segundo Deus! Muito mais: que escusas! Que indignação! Que temor! Que ardor! Que zelo! Que severidade! Mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste assunto." 2 Cor 7,11
    Indubitavelmente, ela é amada e guiada pelo Pai Celestial: "Nesta esperança suplicamos incessantemente por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos da vossa vocação e que leve eficazmente a bom termo todo o vosso zelo pelo bem e a atividade de vossa fé." 2 Ts 1,11
    Conforme os dons, esse ardoroso zelo manifesta-se de várias formas: "Temos dons diferentes, conforme a Graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério, dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas, faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade." Rm 12,6-8
    De toda forma, retomando ao significado mais usual e não menos importante da piedade, ou seja, o de compaixão, que aliás é fruto certo da legítima prática religiosa, Jesus ensina que todos nós devemos dela usar com liberalidade, pois inevitavelmente também precisaremos da divina clemência: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!" Mt 5,7
    E citando o profeta Oseias, usando esse mesmo termo que significa 'coração de pobre', e bem designa o necessário aquebrantamento de coração para se viver uma sincera devoção, Jesus colocou-a como mais importante que certos rituais: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício.'" Mt 9,13

    "Socorrei, com bondade, os que Vos buscam!"

Crer, Celebrar, Viver e Rezar



ELE ENSINOU-NOS A CRER
"Não tenha medo. Apenas creia." Mc 5,36

Crer conforme a Oração do Credo
Nela está a essência do que precisamos acreditar. É também uma poderosíssima oração, capaz de religar-nos a Deus, de unir-nos como Igreja, de aumentar-nos a  e de afastar tentações, maus espíritos e o inimigo. Por ela lembramos de todos os importantes capítulos da Sã Doutrina, que professamos para a unção de nossa alma.

ENSINOU-NOS A CELEBRAR
"... fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19

Celebrar os 7 Sacramentos
Neles estão os visíveis sinais dos Mistérios de Deus. Os Sacramentos são ao mesmo tempo visíveis e invisíveis, sinais e mistérios, e marcam os capítulos da vida cristã. Através deles, nossos compromissos com Deus materializam-se por toda a existência terrena. O principal deles é a Eucaristia, onde está o Corpo e o Sangue de Cristo, o alimento da Vida Eterna. É uma imerecida Graça poder sentar-se com Ele à Sua mesa e comer de Pão da Vida.

ENSINOU-NOS A VIVER
"... faze isto e viverás." Lc 10,28

Viver os 10 Mandamentos
Os Mandamentos são a Lei da Vida, a Vida Plena. A consciência moral e a ética estão em Suas linhas, assim como a Paz e a justiça. 'Amar a Deus sobre todas as coisas' é uma frase muito significativa nesses tempos de hedonismo, materialismo e individualismo. 'Guardar os dias santos' é excelente remédio contra solidão, estresse, depressão, manias, compulsão e obsessão.

E ENSINOU-NOS A REZAR
"Eis como deveis rezar: Pai Nosso, que estais no Céu..." Mt 6,9

Rezar o Pai Nosso
Ao rezá-lo, voltamo-nos para o Pai, para a santidade, para o Reino dos Céus e para a divina justiça. E assim aprendemos a confiar em Sua Providência, em Sua Misericórdia e a ter as coisas sem possessividade ou ambição. Pedimos perdão por nossas frequentes faltas e, na mesma proporção, oferecemos perdão aos nossos irmãos. Pedimos ainda força contra as tentações que podem arruinar nossas vidas. E, caso não resistamos, pedimos que Ele nos livre do Maligno, ou nossa derrocada será total.

QUANTO A NÓS...
Com sutileza, São Paulo questiona se realmente temos Jesus como mestre:


    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Graça


    A Graça é propriamente a gratuidade que caracteriza todas as ações de Deus. Mas como tudo d'Ele procede, em geral usa-se o termo Graça para designar Suas grandiosas e especiais dádivas, às vezes notórias, que partem direta e exclusivamente de Sua iniciativa. Isto é, elas indicam momentos nos quais se experimenta uma grande intimidade com o Pai, com a Trindade Santa.
    Assim, e por consequência, ela é uma inequívoca manifestação de Seu poder, que tudo controla. É pela Graça que Ele nos arrebata do pecado e nos purifica, concedendo participar de Sua divina natureza, ou seja, da plenitude de Sua Glória. Toda Graça, portanto, é sinal de Sua onipotência, onisciência e onipresença, para que percebamos o estabelecimento e a vigência do Reino de Céus. É algo sobrenatural, e por isso esplendoroso, ainda que também possa ser sutil e pessoal.
    É pela Graça, pois, que conhecemos o Espírito Santo, a 'mão sempre atuante' de Deus. Mesmo antes de Sua manifestação 'oficial' no Pentecostes, as ações do Pai já se faziam cumprir por Seu intermédio. Com toda propriedade, os seguidores de São Paulo chamam-nO de "... Autor da Graça." Hb 10,29
    E assim como o Espírito Santo, também o Filho, mesmo antes de Sua Encarnação, agia permanentemente, embora de forma oculta. São João Evangelista, olhando para o passado, percebeu bem Suas obras: "Tudo foi feito por Ele..." Jo 1,3
    Este evangelista também registra: "... a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    A plena manifestação do Cristo, então, para os Apóstolos era inconfundível: "Todos nós recebemos de Sua plenitude Graça por Graça..." Jo 1,16
    Pelos relatos que ouviu, São Lucas apontava Jesus, desde Sua infância, como fonte e manifestação da Graça: "O Menino ia crescendo e fortificava-Se: estava cheio de Sabedoria, e a Graça de Deus repousava n'Ele." Lc 2,40
    E após Sua Ressurreição, o testemunho dos Apóstolos, como Ele havia pedido, era a garantia dessa unção: "Com grande coragem os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a Graça." At 4,33
    De fato, como o profeta Isaías havia profetizado, Jesus declarou que Sua Missão era exatamente: "... publicar o ano da Graça do Senhor." Lc 4,19
    Foi, portanto, através do Cristo que recebemos a Graça da adoção, e passamos a feliz condição de filhos de Deus. Diz São Paulo: "No Seu amor predestinou-nos para sermos adotados como filhos Seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de Sua livre vontade, para fazer resplandecer a Sua maravilhosa Graça, que nos foi concedida por Ele no Bem-amado." Ef 1,5-6
    Noutro passagem ele pediu a Deus que o livrasse de uma específica provação, mas recebeu d'Ele a seguinte resposta: "A Minha Graça é o bastante para ti, porque é na fraqueza que se revela totalmente a Minha força." II Cor 12,9a
    E ao mencionar a suprema dádiva da reconciliação com Deus, que também por Jesus é-nos oferecida, ele alerta para o absoluto respeito que se deve aos Sacramentos ministrados pela Igreja: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1
    Não por acaso, uma das principais aparições marianas é a de Nossa Senhora das Graças, quando ela prometeu que, através da Medalha Milagrosa, "Todos os que a usarem receberão grandes Graças."


5 'TIPOS' DE GRAÇA

    São Pedro afirma que a Graça de Deus se manifesta de muitas formas, conforme os dons do Espírito Santo: "Como bons administradores da multiforme Graça de Deus, cada um coloque à disposição dos outros o dom que recebeu." 1 Pd 4,10
    E não resta dúvida de que é o Espírito de Deus Quem os distribui, como ensina São Paulo: "Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons, repartindo a cada um como Lhe apraz." 1 Cor 12,5-7.11
    O que Ele sempre faz visando o bem de toda a comunidade de fé: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    Assim, para efeito de melhor compreensão, podemos estudar as Graças quanto a seus fins. São elas:

    Graça Santificanteé a Graça da qual toda humanidade pode usufruir tão somente por força da Encarnação do Cristo, e que recebemos através do Sacramento no Batismo. Maria foi concebida sem pecado, mas nós, para afastá-lo e sermos justificados, precisamos dessa benção ininterruptamente concedida por Deus aos que O buscam, pois santificar-nos é Sua perene vontade. Antes de subir aos Céus, Nosso Salvador apareceu à multidão de seus seguidores e instruiu os Apóstolos: "Quando O viram, adoraram-nO; entretanto, alguns hesitavam ainda. Mas Jesus, aproximando-Se, lhes disse: 'Toda autoridade Me foi dada no Céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.'" Mt 28,18-19
    E foi o que eles fizeram, a princípio sob a notória liderança do Príncipe dos Apóstolos, como se deu no Pentecostes: "Pedro lhes respondeu: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.'" At 2,38
    Essa Graça, portanto, é a condição essencial para que vivamos nossa divina filiação. Disse São Paulo: "Porquanto não recebestes um espírito de escravidão para viverdes ainda no temor, mas recebestes o Espírito de Adoção, pelo qual clamamos: 'Aba! Pai!'" Rm 8,15
    E mencionando os sagrados preceitos da Igreja, argumentou com os tessalonicenses: "No mais, irmãos, aprendestes de nós a maneira como deveis proceder para agradar a Deus - e já o fazeis. Rogamo-vos, pois, e vos exortamos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis que preceitos vos demos da parte do Senhor Jesus. Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação; que eviteis a impureza; que cada um de vós saiba possuir o seu corpo santa e honestamente, sem se deixar levar pelas paixões desregradas, como os pagãos que não conhecem a Deus. Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu o Seu Espírito Santo." 1 Ts 4,1-5.8
    Ora, o próprio Pai havia-nos determinado: "... sede Santos, porque Eu, o Senhor, Vosso Deus, sou Santo." Lv 19,2

    Graça Sacramental: é a Graça obtida por cada um dos Sacramentos que nos acompanham pelas etapas da vida, dos quais a Eucaristia é o Sacramento por excelência. Jesus instituiu-o: "Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: 'Isto é o Meu Corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de Mim.'" Lc 22,19
    Ao Santíssimo Sacramento todos os demais estão ordenados, e do Qual todos nós devemos frequente e impreterivelmente participar: "Então Jesus lhes disse: 'Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes o Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos.'" Jo 6,53
    Ora, são os Sacramentos que nos confirmam como parte de Corpo Místico de Cristo, ou seja, Sua Igreja. Foi essa Comunhão que Jesus estabeleceu através da Confissão: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, assim também Eu vos envio a vós.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,21-23
    E é pelo Sacramento da Crisma, só concedido pelo Bispo, sucessor dos Apóstolos, ou alguém por ele especialmente designado, que se recebe o Espírito Santo: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois apóstolos lhes impuseram as mãos e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    Enfim, são os Sacramentos que santificam a Igreja, como ensina São Paulo. "Mas a cada um de nós foi dada a Graça, segundo a medida do dom de Cristo... para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,7.12-13
    O Apóstolo de Tarso nos questiona: "O Cálice de bênção, que benzemos, não é a Comunhão do sangue de Cristo? E o Pão, que partimos, não é a Comunhão do Corpo de Cristo?" 1 Cor 10,16

    Graça Habitualé a Graça dada a todos os Santos, ou seja, aos que com sinceridade buscam as 'coisas do alto', para que possam viver permanentemente fazendo a vontade de Deus. É através deles que o Pai cotidianamente sustém a humanidade, como foi o caso de Santo Estevão, um diácono escolhido para auxiliar os Apóstolos: "Este parecer agradou a toda a reunião. Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos, e estes, orando, impuseram-lhes as mãos. Divulgou-se sempre mais a Palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número dos discípulos em Jerusalém. Também grande número de sacerdotes aderia à . Estevão, cheio de Graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo." At 6,5-8
    Foi também este o caso de Apolo, um judeu de Alexandria que converteu-se a Cristo e tornou-se uma importantíssima figura na cidade de Corinto: "Como ele quisesse ir a Acaia, os irmãos animaram-no e escreveram aos discípulos que o recebessem bem. A sua presença em Corinto foi, pela Graça de Deus, de muito proveito para os que haviam crido, pois com grande veemência refutava publicamente os judeus, provando, pelas Escrituras, que Jesus era o Messias." At 18,27-28
    E havia sido esse o caso de Moisés, como nos dias antes de tirar o povo da escravidão do Egito: "O Senhor disse a Moisés: 'Vai procurar o faraó, porque lhe endureci o coração e o de sua gente para manifestar os Meus prodígios no meio deles, para que contes aos teus filhos e aos teus netos as maravilhas que fiz no Egito e os prodígios que operei no meio deles, e para que saibais que Eu sou o Senhor.'" Ex 10,1-2
    Com efeito, essa é a meta defendida por São Paulo: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Aliás, assim é a Missão do próprio Jesus: "Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e cumprir a Sua obra." Jo 4,34

    Graça Especial: é a Graça também conhecida por carisma, que pode ser prodigiosa, como o dom de curas e milagres. Jesus prometeu à Igreja: "Estes milagres acompanharão os que crerem: expulsarão os demônios em Meu Nome, falarão novas línguas, manusearão serpentes e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos aos enfermos e eles ficarão curados." Mc 16,17-18
    Como um sinal de Deus, Ele já havia dado tal autoridade aos Apóstolos desde a primeira missão: "Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, de graça dai!" Mt 10,7-8
    Também sobre isso, temos uma palavra de São Paulo: "A um é dada pelo Espírito uma palavra de Sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito; a outro, a , pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas." 1 Cor 12,8-10
    Uma das Graças Especiais é a Graça de Estado, que é totalmente voltada para os ministérios da Igreja. Como vimos, São Paulo havia pontuado: "Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para edificação da Igreja." 1 Cor 14,12
    E discorreu: "Temos dons diferentes, conforme a Graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé. Aquele que é chamado ao ministério, dedique-se ao ministério. Se tem o dom de ensinar, que ensine; o dom de exortar, que exorte; aquele que distribui as esmolas, faça-o com simplicidade; aquele que preside, presida com zelo; aquele que exerce a misericórdia, que o faça com afabilidade." Rm 12,6-8
    Também esse é o exemplo de Jesus: "... Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para apresentá-la a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível." Ef 5,25b-27

    Graça Atual: é a Graça de uma extraordinária intervenção divina, que se realiza diretamente na vida do cristão, e pode acontecer desde sua conversão até que se complete sua santificação. Pode ser um sinal, um milagre, uma cura, e foi um dos meios usados por Jesus para divulgar o Evangelho, visando redimir a humanidade: "Seguia-O uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos." Jo 6,2
    Foi assim na conversão de São Paulo, quando Jesus lhe apareceu no caminho de Damasco: "Então eu disse: 'Quem és, Senhor?' O Senhor respondeu: 'Eu sou Jesus, a quem persegues. Mas levanta-te e põe-te em pé, pois Eu te apareci para te fazer ministro e testemunha das coisas que viste e de outras para as quais hei de manifestar-Me a ti. Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à Luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam perdão dos pecados e herança entre os que foram santificados." At 26,15-18
    E assim acontecia através de São Paulo e São Barnabé em suas missões: "Em Icônio, Paulo e Barnabé, segundo seu costume, entraram na sinagoga dos judeus e ali pregaram, de tal modo que uma grande multidão de judeus e de gregos se converteu à fé. Mas os judeus, que tinham permanecido incrédulos, excitaram os ânimos dos pagãos contra os irmãos. Não obstante, eles demoraram-se ali por muito tempo, falando com desassombro e confiança no Senhor, que dava testemunho à Palavra da Sua Graça pelos milagres e prodígios que Ele operava por mãos dos Apóstolos." At 14,1-3
    Para esse fim, Jesus prometeu à Igreja: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,20
    E disse também do Espírito Santo: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16


ENCONTRAR GRAÇA AOS OLHOS DE DEUS

    A expressão 'encontrar Graça aos olhos de Deus' é frequente nas Escrituras. Aqui estão alguns exemplos:
    "Noé, entretanto, encontrou Graça aos olhos do Senhor." Gn 6,8
    "Disse então o rei a Sadoc: 'Reconduz a Arca de Deus à cidade. Se eu encontrar Graça aos olhos do Senhor, Ele me reconduzirá e me fará revê-la, bem como o lugar de Sua habitação.'" 2 Sm 15,25
    "Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em teu coração! Assim encontrarás Graça e reputação aos olhos de Deus e dos homens." Pr 3,3-4
    "Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás Graça diante do Senhor." Eclo 3,20a
    "Eis o que diz o Senhor: 'Encontrou Graça no deserto o povo que escapou da espada. Dentro em pouco, Israel gozará de repouso.'" Jr 31,2
    "O anjo disse-Lhe: 'Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus.'" Lc 1,30
    Essa expressão significa obter um 'privilégio' de Deus, ou uma clara possibilidade de poder solicitar-Lhe uma dádiva, um favor de inestimável valor, uma benção extraordinária.
    Mas lembremos que Sua intenção, ao conceder Suas Graças, é sempre nos revigorar e ajudar a construir Seu Reino, ou seja, promover a Salvação das almas.

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Deus Amigo


    Com Sua Doutrina de renascimento espiritual, e assim o aperfeiçoamento das relações humanas, Jesus ensinou que entre os Apóstolos não haveria autoridade nos moldes da que vemos no mundo: "Jesus, porém, chamou-os e disse-lhes: 'Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,25-28
    E para que isso ficasse bem claro, Ele deu um emblemático exemplo logo após a Santa Ceia, quando lavou os pés de todos, inclusive os de Judas: "Depois de lavar-lhes os pés e tomar as Suas vestes, sentou-Se novamente à mesa e perguntou-lhes: 'Sabeis o que vos fiz? Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o Seu Senhor, nem o enviado é maior do que Aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes." Jo 13-12-17
    Outra grande inovação como profeta foi Seu amigável modo de tratar a todos. Isso encantava quem O conhecia, pois realmente agia com naturalidade. E coerentemente recomendava: "... aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas." Mt 11,29
    Até nas acusações que Lhe faziam os falsos religiosos, Jesus era reconhecido por Seu proceder sempre amistoso com os mais afastados da . Diziam d'Ele: "É um comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos e dos pecadores." Mt 11,19
    Ao paralítico, descido numa maca através do telhado, Ele vai curar-lhe primeiro a alma, o que também fez com docilidade: "Meu amigo, os teus pecados te são perdoados." Lc 5,20
    Na parábola dos trabalhadores, que chegam no fim do dia e recebem o mesmo salário dos que começaram o dia trabalhando, Ele responde cordialmente àquele que Lhe reclama de uma suposta injustiça: "Amigo, Eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que Me pertence?" Mt 20,13.15
    A um que reclamava do irmão sua parte da herança, com delicadeza Ele vai recusar a posição de autoridade: "Meu amigo, quem Me constituiu juiz ou árbitro entre vós?" Lc 12,14
    E ao que numa parábola comporta-se com humildade, sentando-se nos últimos lugares mesmo sendo uma pessoa importante, Jesus dirige-Se assim: "Amigo, vem mais para cima." Lc 14,10
    A alegria por um pecador que se salva, em analogia a de quem acha uma ovelha perdida, segundo Ele deve ser repartida entre amigos: "... e, voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: 'Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido.'" Lc 15,6
    E quando Lázaro faleceu, Jesus, numa das pouquíssimas vezes em que foi visto chorando, referiu-Se a ele com ternura: "O Nosso amigo Lázaro adormeceu. Eu vou acordá-lo." Jo 11,11


    Ora, mesmo quando tratava das mais sérias questões, Jesus falava amistosamente à multidão: "Digo-vos a vós, Meus amigos: não tenhais medo daqueles que matam o corpo e depois disto nada mais podem fazer. Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: temei Àquele que, depois de matar, tem poder de lançar no inferno; sim, eu vo-lo digo: temei a este." Lc 12,4-5
    Pois, como ensinava, a construção do Reino de Deus resume-se em fazer amigos, mesmo que estejamos nas situações de maior pecaminosidade: "Eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos." Lc 16,9
    Mesmo ao repreender o invasor da festa de casamento, Ele foi afável: "Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial?" Mt 22,12
    Com essa mesma mansidão, não Se valia de Sua divindade e tratava os Apóstolos como amigos: "Vós sois Meus amigos, se fazeis o que vos mando." Jo 15,14
    E explicou porquê: "Não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." Jo 15,15
    Para nossa perfeita instrução, Ele deixou como parâmetro a dimensão de Seu amor: "Ninguém tem maior amor do que Aquele que dá a Sua vida por Seus amigos." Jo 15,13
    Não por acaso, Seu maior ensinamento trata exatamente de amor aos inimigos: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?" Mt 5,43-46
    Inimigo mesmo, Ele só considerava Satanás, como explicou na parábola do joio e do trigo: "O inimigo, que o semeia, é o Demônio. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos." Mt 13,39
    De fato, pouco antes do momento em que ia ser traído, Jesus vai chamar o próprio Judas de amigo: "Amigo, faz já o que tens a fazer." Mt 26,50
    Esse proceder, São Paulo explicava assim aos tessalonicenses: "Se alguém não obedecer ao que ordenamos por esta carta, notai-o e, para que ele se envergonhe, deixai de ter familiaridade com ele. Porém, não deveis considerá-lo como inimigo, mas repreendê-lo como irmão." 2 Ts 3,14-15
    Ironicamente, como sempre se flagra nas ações do Demônio, contra Jesus os poderosos faziam as pazes: "Nesse dia, Herodes e Pilatos ficaram amigos, pois antes eram inimigos." Lc 23,12
    Mas Ele não alimentou revolta nem mesmo contra aqueles que O crucificavam: "E Jesus dizia: 'Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.'" Lc 23,34
    Por fim, quando apareceu aos Apóstolos pela primeira vez, sempre fiel a esse constante proceder, Jesus foi amável até para demonstrar-lhes que realmente havia ressuscitado na carne: "Amigos, não tendes acaso alguma coisa para comer?" Jo 21,5
    De São Pedro, pela extrema responsabilidade de toda a Igreja que lhe confiou, Ele cobrou a fidelidade de uma verdadeira amizade: "Pedro ficou triste, porque lhe perguntou pela terceira vez se era Seu amigo." Jo 21,17
    São Paulo também testemunhou a redentora amistosidade de Deus que Jesus encarnou: "Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida." Rm 5,8-10
    O mesmo disse São Tiago Menor, que rememorou a fundação de Israel: "Assim se cumpriu a Escritura, que diz: 'Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus' (Gn 15,6)." Tg 2,23
    Com efeito, isso havia sido percebido pelo Eclesiástico: "Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. Um amigo fiel é um remédio de Vida e imortalidade; quem teme ao Senhor, achará esse amigo." Eclo 6,15-16
    E os Provérbios já sinalizavam para a proposta de Jesus de amar até mesmo os inimigos: "Tem o teu inimigo fome? Dá-lhe de comer. Tem sede? Dá-lhe de beber: assim amontoarás brasas ardentes sobre sua cabeça e o Senhor te recompensará." Pr 25,21-22
    São Tiago Menor, porém, não deixava de denunciar as traições ao Pai: "Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus." Tg 4,4
    Diante de situações de grande afronta à Verdade, e assim ao Evangelho, São Paulo repreendeu severamente um mago que tentava perverter o procônsul da ilha de Pafos: "Filho do demônio, cheio de todo engano e de toda astúcia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter os retos caminhos do Senhor!" At 13,10
    O próprio Jesus havia deflagrado esse combate contra falsos religiosos: "Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Quem é de Deus ouve a Palavra de Deus, e se vós não a ouvis é porque não sois de Deus." Jo 8,44-47
    Por isso Ele deu aos Apóstolos uma efetiva condição para essa batalha: "Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo." Lc 10,19
    E assim São Pedro avisa que o Juízo começará pela Igreja: "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus?" 1 Pd 4,17
    Mas é certa a Vitória de Cristo, que se dará com decisiva a participação da Igreja, que é Seu Reino de Sacerdotes: "Depois, virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que Ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de Seus pés. O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo dos Seus pés." 1 Cor 15,24-26
    Com efeito, ainda que por vezes ela venha a ser reduzida a um pequeno resto, o próprio Jesus declarou que a Igreja é invencível: "E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Pois é Ele mesmo, como se lê acima, que a edifica, e de modo perene: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    Ora, sofrendo a hostilidade na própria pele, São Paulo, em questionamento aos gálatas, levanta a verdadeira razão de tantos ataques aos escolhidos de Deus: "Tornei-me, acaso, vosso inimigo, porque vos disse a Verdade?" Gl 4,16
    Contudo, primando por valores como paciência e mansidão, ele via aí o 'bom combate, como exortou a São Timóteo: "Mas tu, ó homem de Deus, foge desses vícios e procura com todo empenho a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão. Combate o bom combate da fé." 1 Tm 6,11-12a
    Pois com amor esperava seu encontro com Jesus: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a Sua Aparição." 2 Tm 4,7-8
    Ele deu detalhes desse combate, cujas armas são claramente espirituais: "Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, pelo Seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai as vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos os cristãos." Ef 6,10-18
    Pedia pelo dom da fortaleza, isto é, que não nos intimidássemos diante das ameaças à integridade do rebanho: "Cumpre, somente, que vos mostreis em vosso proceder dignos do Evangelho de Cristo. Quer eu vá ter convosco quer permaneça ausente, desejo ouvir que estais firmes em um só espírito, lutando unanimemente pela fé do Evangelho, sem vos deixardes intimidar em nada pelos vossos adversários. Isto para eles é motivo de perdição; para vós outros, de Salvação. E é a vontade de Deus, porque a vós vos é dado não somente crer em Cristo, mas ainda por Ele sofrer." Fl 1,27-29
    Mas também recomendava contrição e serenidade, bem como perseverança dentro da Igreja: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração. Rejeita as discussões tolas e absurdas, visto que geram contendas. Não convém a um servo do Senhor altercar; bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres dos laços do demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos." 2 Tm 2,22-26
    Pedia amor pelos nossos sacerdotes: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e vos admoestar. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Além, claro, da inspiração do Divino Espírito: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas as circunstâncias. Que as vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder a cada um devidamente." Cl 4,5-6

    A palavra amor é de origem egípcia. Os vocábulos que correspondem às nossas letras MR são encontrados entalhados em pedras, escritos em hieróglifos. Com o advento das vogais, chegou-se à forma como hoje a conhecemos. Daí vem a palavra amigo, que Jesus usou com especial distinção para exprimir Seu projeto do Reino dos Céus.
    Enquanto mais importante traço de Sua Personalidade, seja humana, seja divina, a amistosidade de Jesus está em perfeita harmonia com o revolucionário Mandamento que Ele nos deixou: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Este é o Meu Mandamento..." Jo 13,34;15,12

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"