quinta-feira, 21 de setembro de 2017

São Mateus, Apóstolo e Evangelista


    O próprio São Mateus, em seu Evangelho, teria registrado seu encontro com Jesus:
    "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe:
    - Segue-Me.
    O homem levantou-se e seguiu-O.
    Como estivesse Jesus à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com Ele e Seus discípulos. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos:
    - Por que come Vosso Mestre com os publicanos e com os pecadores?
    Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes:
    - Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia, não o sacrifício (Os 6,6).' Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.
    Então os discípulos de João, dirigindo-se a Ele, perguntaram:
    - Por que jejuamos nós e os fariseus, e os Teus discípulos não?
    Jesus respondeu:
    - Podem os amigos do esposo afligir-se enquanto o Esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o Esposo, então eles jejuarão. Ninguém põe um remendo de pano novo numa veste velha, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgão ficaria pior. Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam." Mt 9,9-18

    São Marcos conta a mesma passagem, identifica a cidade, mas, assim como São Lucas, chama São Mateus por outro nome, provavelmente para assinalar sua condição de levita, isto é, membro da classe de sacerdotes de Israel por critério de descendência, os filhos de Levi, instituída desde Moisés:
    "Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Cafarnaum... Quando ia passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto da arrecadação e disse-lhe:
    - Segue-Me.
    E Levi, levantando-se, seguiu-O." Mc 2,1.13

    São Lucas menciona mais explicitamente o banquete que São Mateus ofereceu a Jesus, ao qual acorreram também seus amigos de profissão, fato que gerou a crítica dos hipócritas religiosos:
    "Levi deu-Lhe um grande banquete em sua casa; vários desses fiscais e outras pessoas estavam sentados à mesa com eles. Os fariseus e seus escribas puseram-se a criticar..." Lc 5,29-30

    De fato, São Mateus era cobrador de impostos, quer dizer, recolhia parte das riquezas de seu povo para o Império Romano, àquela época representado na Galileia por Herodes Antipas. No entanto, embora vivesse um drama de consciência, pois bem sabia da desumana exploração, exercia sua profissão com lisura. Por certo já havia ouvido Jesus falar e sua alma encontrava n'Ele a Paz que todos buscamos. Ora, como bem narrou São João Evangelista, os próprios guardas enviados para prender Jesus percebiam que havia 'algo diferente' no Mestre.
    "Voltaram os guardas para junto dos príncipes dos sacerdotes e fariseus, que lhes perguntaram:
    - Por que não O trouxestes?
    Os guardas responderam:
    - Jamais alguém falou como este homem!... " Jo 7,46

    Mas Jesus conhece os corações das pessoas e não iria destratar um cobrador de impostos só por causa da profissão. Não foi à toa que Se sentou à mesa com eles, e não o fez porque fossem 'doentes'. Com esse gesto, Jesus alertava aqueles que já se julgam 'sadios', 'limpos'. Aliás, os cobradores de impostos seriam apenas tão pecadores quanto os fariseus. Por isso Jesus vai desmascarar a falta de humildade dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo, e defender conhecidos pecadores por serem conscientes de seus erros:
    "Em verdade vos digo: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no Reino de Deus! João veio a vós no Caminho da justiça e não crestes nele. Porém, os coletores e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para nele crerdes." Mt 21,31-32
    
    Noutra parábola, Jesus vai colocar lado a lado um cobrador de impostos e um fariseu, e mais uma vez o bom exemplo virá do fiscal de impostos:
    "Subiram dois homens ao Templo para orar. Um era fariseu; o outro, cobrador de impostos. O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: 'Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros.'
    O cobrador, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!'
    Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo o que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10-14


    São Mateus era um nobre galileu de Cafarnaum, homem contemplativo. Não há registro algum de palavra sua nos Evangelhos; nem mesmo no seu. Sua atenção era tão centrada em Jesus, em Seus gestos e Suas Palavras, que os demais Apóstolos e as pessoas que seguiam o Salvador quase nem percebiam sua distinta presença. Jesus, como a própria Palavra de Deus que é, o Verbo Encarnado, significa para ele, judeu culto e de , a absoluta realização da alma. Todas as Escrituras estavam ali, diante dele, na forma de uma Pessoa. E os Evangelhos só registram uma Palavra de Jesus dirigida a ele: 'Segue-Me'. Foi o bastante.
    Profundo conhecedor dos livros sagrados, ele sabia que a vinda do Messias estava próxima. Conhecia em especial as profecias, e estava muito bem atento ao cumprimento delas. Quando Jesus as explicava, então, ele sentia-se nos Céus, com o peito em flamas, exatamente como disseram os discípulos que foram acompanhados, sem que soubessem, por Jesus ressuscitado, no caminho de Emaús durante o Domingo da Ressurreição:
    "Não nos abrasava o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?" Lc 24,32

    São Mateus escreveu seu Evangelho, o primeiro dos quatro, em aramaico, língua que Jesus falava, caso único do Novo Testamento. Mas logo foi traduzido para o grego nas compilações seguintes. Ele deixou-nos, em cinco discursos de Jesus, a melhor síntese de Sua Doutrina, entre eles o Sermão da Montanha, além da versão mais conhecida e apreciada do Pai Nosso. Seu Evangelho traz a visão essencial da Catequese Cristã. Por isso, ao viajar a Índia, São Bartolomeu Apóstolo teria levado uma cópia.
    Seu Evangelho dirigia-se aos judeus e helenistas, descendentes de judeus espalhados pelas cidades que haviam sido dominadas pelo então destituído Império Grego, mostrando sempre pelas frequentes citações das Escrituras que Jesus era o Messias. E os judeus que se convertiam, antes de começarem a ser chamados de cristãos, eram conhecidos como nazarenos, por causa da origem de Jesus. Vemos esse termo na acusação que os judeus fizeram contra São Paulo a Felix, que foi governador da Judeia e morava em Cesareia:
    "É um dos líderes da seita dos nazarenos." At 24,5

    Após a Ascensão de Jesus, São Mateus teria pregado discretamente, bem a seu modo, entre os judeus da própria Judeia, mesmo em meio às perseguições. Assim viveu por 15 anos, mas viu-se obrigado a escrever seu Evangelho, que era a tradição oral da interpretação das Escrituras tomando como base a Vida do Cristo e Suas pregações no anúncio da Boa Nova. Foi uma decisão mais que acertada: as tensões sociais em Israel iriam explodir no ano de 70 da nossa era e uma nova dispersão iria mesmo demandar que Suas revelações e ensinamentos estivessem escritos.
    A primeira redação teria sido arrematada por volta do ano 50, em Antioquia, na atual Turquia, que era a terceira maior cidade do Império Romano, menor apenas que Roma e Alexandria. Paradoxalmente, apesar de seus escritos que ligam o cristianismo ao judaísmo, foi aí que os cristãos vindos do judaísmo perderam a influência sobre os cristãos vindos do paganismo. Aliás, foi aí onde os seguidores de Cristo foram chamados de cristãos pela primeira vez, por força da pregação de São Paulo e São Barnabé: "Durante um ano inteiro eles tomaram parte nas reuniões da comunidade e instruíram grande multidão, de maneira que em Antioquia é que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados pelo nome de cristãos." At 11,26

    Daí São Mateus quis ir a Roma; Talvez para auxiliar São Pedro na formação da sede da Igreja e do Colegiado Romano, que serviu de esboço para o atual Colégio de Cardeais. Mas aparentemente não conseguiu, e a razão pode ter sido a expulsão de judeus e cristãos da capital pelo imperador Cláudio, no ano de 49. As notícias, no entanto, dão conta de sua passagem pela Macedônia, pelo Império Parto, pela Pérsia e, por fim, pela Etiópia, o que amplia em muito sua área de atuação.
    Na Etiópia, centro de grande movimentação de judeus, ele teria vivido seus últimos anos. Curou de lepra Santa Efigênia, filha do rei, e por esse milagre ela teria se recusado a casar com o sucessor de seu pai, Hitarco, pois preferiu consagrar-se a Deus e ajudar São Mateus na divulgação da Boa Nova. Muito contrariado, Hitarco culpou São Mateus por essa decisão: ele a teria enfeitiçado. E mandou matá-lo no altar, enquanto celebrava a Santa Missa.
    Em 930 suas relíquias foram localizadas nesse país e levadas para Salerno, sul da Itália, onde é o padroeiro da cidade e sua procissão, de tradição secular, é muito festejada.


    Aí ele tem seu nome seguinte ao de Nossa Senhora dos Anjos na dedicação da Catedral, cuja cripta lhe é dedicada.


      São Mateus, rogai por nós!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Santo André Taegon, São Paulo Hasang e Mártires


    A Coreia começou a ser catequizada nos anos de 1700, por simples leigos. Em suas visitas a Pequim, na época um grande centro de estudos e divulgação de conhecimento, o coreano Yi Byuk conheceu o livro 'A Verdadeira Doutrina de Deus', do padre jesuíta italiano Mateus Rici.
    Essa simples centelha incendiou sua alma: era o miraculoso nascimento da Igreja na Coréia, evidentemente sob a mais pura ação do Espírito Santo, por meio de singelas comunidades orantes, mesmo sem a presença de nenhum sacerdote. Impressiona também a força da que animava essa gente, pois as autoridades eram extremamente intolerantes ao cristianismo, e o primeiro padre, o chinês Zhu Wen Miao, só pisaria nessas terras em 1795.
    Em 1784 o Bispo de Pequim, um missionário francês, batizou Yi Sung-Hun, filho do embaixador coreano na China, que havia conhecido Yi Byuk em 1779 e através dele foi imediatamente arrebatado a Cristo. Sob a Graça desse Sacramento, ele retornou a Coreia, começou a anunciar Jesus e, por si mesmo, teve a iniciativa de batizar e 'ordenar' líderes leigos como 'clérigos temporários'.
    Mas, informados pelo Bispo de Pequim que tal procedimento era contrário às regras do Vaticano, eles corrigiram-se e aguardaram a vinda de um sacerdote, pois, apesar de seus frequentes pedidos, os números e as condições de atuação do clero na Ásia eram extremamente limitadas.
    De fato, nos séculos XVI e XVII, São Francisco Xavier, o 'Apóstolo' do Oriente, havia estado na Índia, na China e no Japão, contudo a resistência dos reis e autoridades locais não lhe permitiu fundar nada mais que comunidades isoladas, embora firmes na fé, que sobreviviam clandestinamente.
    Quando o padre Zhu Wen Miao chegou, porém, a igreja coreana já tinha mais de 4000 membros. E em 1821 nascia Santo André Kim Taegon. Seu pai era um desses heroicos pioneiros cristãos da Ásia, que fizera da sua casa uma igreja: difundia-se, catequizava-se e celebrava-se o Verbo da Vida. Mas em 1836, ao ser descoberto, seu pai foi brutalmente assassinado.
    Sua família foi poupada, sob ameaças para que abandonassem a fé, mas Santo André Taegon, na época aos 15 anos, aceitou ser enviado a Macau por intermédio de missionários franceses para estudar Teologia. Lá se vivia sob o domínio português, e os jesuítas haviam fundado em 1565 a Igreja de Santo Antônio, que ele veio a frequentar.


      Atualmente, num jardim próximo a essa Igreja, há uma estátua em sua homenagem.


    Aí Santo André Taegon preparou-se para ser sacerdote. E em 1844, aos 23 anos, ao ser ordenado diácono, sempre muito solícito para com as condições espirituais das comunidades de seu povo, decidiu-se por retornar imediatamente a Coreia, e pôs-se a trabalhar com fervor pela Salvação das almas.
    Conhecido por seu valoroso zelo pela Igreja, logo foi convidado a Xangai, na China, a fim de receber a ordenação sacerdotal, para onde prontamente viajou enfrentando todos os perigos da clandestinidade. Aí se tornou o primeiro sacerdote de origem coreana.
    A viagem de regresso foi igualmente temerária, evitando ser identificado como clérigo, o que colocava sua vida em risco. Mas tão logo pisou em terra, começou a evangelizar, batizar e casar como manda a Santa Igreja. A consolidação da paróquia, no entanto, demandava trânsito de documentos, e logo Santo André Taegon foi chamado mais uma vez a China, desta vez a Pequim.
    Nesta viagem em 1846, aos 25 anos, ele não teve a mesma sorte. Foi descoberto ainda em seu país. Levado à presença do rei, dada a notória condição de respeitável por sua erudição, foi interrogado e obrigado a renegar a fé católica. Mas ele respondeu: "Dado que o Senhor do Céu é o Pai de toda a humanidade e o Senhor de toda a Criação, como podeis pedir-me para trai-Lo? Se neste mundo aquele que trair o pai ou a mãe não é perdoado, com maior razão jamais posso trair Aquele que é o Pai de todos nós!"
    O rei, mudando de estratégia, perguntou pelos nomes das pessoas que comungavam de sua fé, mas Santo André, sabendo de suas intenções, negou-se a nominá-los. O perverso regente, porém, que já havia prendido seus familiares e cristãos mais próximos, reuniu todos e mandou decapitá-los.
    Eram 103, mas nenhum deles fez menção em abandonar a fé em Cristo.
    O Papa São João Paulo II beatificou-os em 1984.


    Seu grande colaborador era o leigo São Paulo Chong Hasang, incansável pregador do Evangelho e grande responsável por um expressivo número de conversões. Era visivelmente movido pelo Espírito Santo, e também foi canonizado.


    Santo André Kim Taegon, antes de ser sacrificado, conseguiu deixar uma mensagem escrita para os fiéis que não haviam sido capturados. Dizia: "Eu peço-vos: não deixeis de lado o amor fraterno, mas ajudai-vos uns aos outros, perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação."


    Para que se tenha um ideia da dificuldade da divulgação da Palavra de Deus na Coreia (bem como na Ásia), mas principalmente do heroísmo da fé e do perfeito amor a Deus que aí se viram, dignos dos maiores santos, entre 1785 e 1882 mais de 10 mil fiéis foram martirizados.
    Hoje, absolutamente vitoriosos e em virtuoso crescimento, os católicos na Coréia do Sul são mais de 5 milhões, em 14 Dioceses, com 5.000 sacerdotes e 3.500 religiosos.
    O lugar do nascimento de Santo André Taegon, onde havia vivido sua família desde o bisavô, tornou-se um belíssimo santuário, conhecido como o berço do Catolicismo na Coreia. Sua casa foi especialmente preservada. Muitos dos atuais padres e freiras coreanos são dessa região.


    Sua fíbula, osso mais fino da canela, encontra-se bem preservada.


    Santo André Taegon e São Paulo Hasang, rogai por nós!

terça-feira, 19 de setembro de 2017

A Aparição de Salette


    Vestida como as mulheres da região dos Alpes Franceses, em Isére, próximo a Grenoble, em 1846 Nossa Senhora apresentou-Se a dois pastorzinhos, Maximin Giraud, de 12 anos, e Mélanie Calvat, de 15.
    Eles tinham um nível de instrução muito limitado, e exatamente por isso impressionaram ainda mais os sacerdotes que lhes interrogaram sobre a aparição. Como poderiam saber de tantos detalhes sobre os assuntos da Igreja?
    Primeiro, Mélanie viu um grande clarão no vale onde costumava pastorear, e assim chamou Maximin. Enquanto o menino se aproximava, ela sentiu uma exprimível Paz e a clara sensação de prestar reverência. E aos poucos, por entre a luz, começaram a ver a figura de uma Senhora sentada sobre uma rocha.


    Ela estava chorando, mas enxugou devagar o rosto com as mãos, ficou de pé, cruzou suavemente os braços, colocando-os por dentro das mangas do vestido, ao modo do povo da região, e chamou-os com afeição:
    - Vinde, meus filhos, não tenhais medo. Estou aqui para vos dar uma importante mensagem!
    Usava um lindo e longo vestido, um avental e um xale cruzado ao peito, franjeado de rosas, sobre o qual se via uma grossa corrente. Tinha uma touca camponesa coroada de rosas. Ao pescoço, numa corrente mais fina, pendia um grande e brilhante crucifixo, que tinha uma torquês na ponta esquerda da trave e um martelo na direita.
    O rosto e as veste de Nossa Senhora reluziam de modo tão vivo e exuberante que nem Maximin nem Mélanie conseguiam parar de fitá-la. A simbologia era clara: o martelo e a torquês foram os instrumentos com os quais soldados romanos consumaram a Crucificação de Jesus. As rosas na borda do lenço representam o Rosário, sacramental de suma importância para aproximar-nos das Graças de Deus. A grossa corrente significa o peso da escravidão do pecado de seus filhos, razão do atual sofrimento de Nossa Senhora, do qual ela quer libertar-nos.
    Lágrimas corriam no seu rosto enquanto dizia que se o povo não se submetesse aos ditames da Santa Igreja Católica, não poderia mais evitar que o pesado braço de Seu Filho caísse sobre toda a humanidade, pois não se guardava mais o Domingo nem se respeitava o Santíssimo Nome de Jesus.


    Parte do que ela disse foi entendido por Maximin, e a outra, por Mélanie. Ela dirigiu-se a eles em francês, e quando foi preciso em patois, o dialeto que eles falavam, e que também usaria poucos anos depois na confirmação dessa sua mensagem, por ocasião da Aparição de Lourdes.
    Ela pediu expressamente por verdadeira conversão, ou seja, prática de orações, participação na Santa Missa e respeito à religião revelada por Jesus. E como retrato da realidade de todos os tempos, em todas as nações, questionou por que só algumas das idosas senhoras iam às Missas no verão.
    A Mélanie, ela descreveu detalhadamente como deveria funcionar a Ordem dos Apóstolos dos Últimos Tempos, que havia sido profetizada por São Luís Maria Montfort, e a Ordem da Mãe de Deus, que funcionaria ali mesmo, no lugar da aparição.
    Avisou a Maximin que a batata, o trigo, a uva e o milho de toda a Europa estavam ameaçados por pragas, como ele logo lembrou ter ouvido de seu pai, e que, por falta de práticas de piedade, a divina proteção não os defenderia da fome que estava por ceifar muitas vidas.
    Depois disse aos dois em francês: "Pois bem, meus filhos, transmitireis isso a todo o meu povo."
    Por fim, começou a subir uma elevação do terreno seguida pelos pastorzinhos, quando eles viram que seus pés não tocavam mais o chão, só levemente faziam mover a mais alta relva. Uma vez no topo, ela elevou-se entre 3 e 5 metros, permaneceu assim alguns instantes, olhou à direita e à esquerda, envolveu-se numa radiante luz e desapareceu no firmamento.


    Seus relatos foram bem ouvidos pelo pároco local, que se impressionou profundamente com o que eles lhe diziam em francês, língua que não conheciam tão bem. Mas o Bispo de Grenoble, ao tomar por este padre notícias da aparição, tratou de transferi-lo da paróquia, pois estava visivelmente tocado pelos relatos.
    Todos queriam saber detalhes diretamente dos adolescentes, e eles não se cansavam de repetir, indo inclusive algumas vezes com a gente ao local da aparição. Foi quando descobriram que no lugar havia surgido uma fonte, tal e qual aconteceria nas Aparições de Lourdes e de Cimbres.
    Foram também ameaçados por autoridades para que confessassem como mentira, mas eles simplesmente repetiam o mesmo e fiel relato. Não sofreram muito com isso, porém, porque muitos milagres começaram a acontecer e a fome logo começou a afetar a região, o que lhes confirmava a profecia. E como vieram a faltar todos os alimentos a que a Santíssima Virgem se referira, mais de um milhão de pessoas morreram de fome em toda Europa por aqueles anos.
    De sua parte, em 1847, o bispo encarregou dois teólogos para que examinassem a mensagem da Mãe Celeste e os milagres que estavam acontecendo na região. Eles também tiveram a oportunidade de interrogar os adolescentes. Em 1848, o relatório foi concluído e enviado ao Papa Pio IX, que reconheceu a autenticidade de todos os relatos.
    Como se deu com a Irmã Lúcia na Aparição de Fátima, havia relatos que só Mélanie havia ouvido e só poderia revelar ao papa, mas ela foi pressionada para contar a um cardeal, que dizia ter vindo em nome do papa para tomar seu depoimento. Ela, porém, resistiu e só se permitiu escrevê-los sob a promessa de seriam entregues exclusivamente ao Sumo Pontífice. Era 1851, e ela já se encontrava no Convento das Irmãs da Providência, em Corenc, próximo a Grenoble.
    Ao tomar conhecimento do conteúdo, Pio IX não teve dúvida: "Estes são os segredos de Salette. Se o mundo não se arrepender, perecerá."


    Hoje se sabe que a aparição de Salette é a terceira de uma série de mensagens dadas em esplendorosas aparições da Imaculada Virgem, que começou em Quito em 1594, foi corroborada em Paris, em 1830, depois em Lourdes, em 1858, e concluiu-se em Fátima, em 1917, com uma gravíssima repercussão desta última em Akita, no Japão, em 1975.

PROFECIAS DE NOSSA SENHORA DE SALETTE

   Segue abaixo um resumo das revelações feitas por Nossa Senhora, que, como ela mesma pediu, só foram comunicadas ao mundo em 1858, quando se deu a Aparição de Lourdes, que era a confirmação da de Salette:

- Muitos sacerdotes tornaram-se indignos de celebrar a Santa Eucaristia por amor ao dinheiro e aos prazeres (simonia, carreirismo, hedonismo, homossexualismo e pedofilia?);
- Os governantes teriam seus entendimentos obscurecidos pelo Diabo, e as divisões entre governos, sociedades e famílias farão a humanidade sofrer grandes castigos por 35 anos (1ª e 2ª Guerras Mundiais?);
- A Itália sangrará pelas guerras, e padres e até bispos abandonarão a ;
- Por ação do Diabo e seus maus espíritos, maus livros se espalharão pela terra, provocando o afastamento da fé e o surgimento da doutrina dos espíritos (ateísmo, pornografia e espiritismo?);
- O individualismo irromperá pelo mundo, e a mentira e a malícia provocarão a destruição do patriotismo e da família (corrupção moral e dos costumes?);
- Os Papas sofrerão atentados (por certo, Pio IX e Papa São João Paulo II);
- Os governos tentarão banir a fé (comunismo e ateísmo?);
- O Demônio reinará nos corações e invadirá as ordens religiosas usando pessoas entregues aos prazeres da carne, que estarão espalhados por toda a terra ('revolução' sexual?);
- Nas guerras, franceses lutarão contra franceses e italianos lutarão contra italianos, Paris será queimada e Deus abandonará esses países, porque renegaram o Evangelho (2ª Guerra Mundial?);
- Os crimes dos homens traspassarão a abóboda do céu e grandes cidades serão cobertas por terremotos (aviões de guerra e a bomba atômica?);
- Mas pelo clamor dos justos, Jesus irá destruir os escravos do pecado. A paz reinará e homens retornarão à fé (fim do comunismo?);
- Após 25 anos de grandes colheitas, porém, os homens esquecerão que é o pecado que causa todos os males, um precursor do Anticristo liderará muitas nações contra Jesus e por 10 anos o povo, iludido, só pensará em diversões (a aparente vitória do capitalismo?);
- Então a Terra será castigada por muitas pragas, e muitas guerras acontecerão até que os 10 aliados do Anticristo dominem o mundo (A Grande Tribulação?);
- A natureza clama por vingança contra os homens e treme de medo à espera do que deve acontecer à Terra (catástrofes ecológicas?);
- Nossa Senhora prometeu resistir junto aos Seus filhos, os verdadeiros filhos da Igreja, pois até conventos irão se tornar casa do Maligno;
- Nascerá o Anticristo, as estações mudarão, a terra produzirá maus frutos, terremotos tragarão cidades, a lua ficará vermelha e Roma se entregará ao Anticristo (ateísmo e o aquecimento global?);
- Os demônios do ar farão prodígios para perverter cada vez mais pessoas, mas o Evangelho continuará sendo anunciado (a TV e a internet? Ou os OVNI's e a Guerra Espacial?);
- A Igreja será eclipsada e virão os tempos das grandes aflições, que só com a ajuda de Deus poderão ser vencidas (a grande apostasia profetizada por São Paulo?);
- (Nossa Senhora então faz um apelo aos verdadeiros servos de Deus Vivo!): "Já é hora de saírem e virem iluminar a Terra. Ide e mostrai-vos como meus queridos filhos. Estou convosco e em vós, desde que a vossa fé seja a Luz que vos ilumine nesses dias de infortúnio. Que o vosso zelo vos torne como que famintos da Glória e da honra de Jesus Cristo. Combatei, filhos da Luz, vós, pequeno número que ainda tendes vista; porque chegou o tempo dos tempos, o fim dos fins."



    "Nossa Senhora de Salette, rogai por nós!"