sábado, 31 de dezembro de 2016

São Silvestre


    São muitas as razões pelas quais a Igreja celebra a santidade do Papa São Silvestre I desde 336, apenas um ano após sua morte. Era a esse cristão que Constantino I ouvia, e é a ele que devemos o fato deste imperador ter publicado no ano de 314, poucos dias antes de São Silvestre ser eleito papa, o Édito de Milão, concedendo ao cristianismo liberdade de culto em terras do Império Romano.
    Não se pode esquecer, porém, que para esse feito também contribuíram a influência de Santa Helena, mãe do imperador e de família fortemente cristã, e o sonho que ele próprio teve, na noite anterior a uma decisiva batalha em 312, quando viu uma Cruz na qual estava escrito: "Sob este símbolo vencerás." De fato, na manhã seguinte ele mandou que pintassem a Cruz nos escudos de seus soldados e assim obteve uma grande vitória.


    São Silvestre foi o paciente conversor desse imperador, que só nos seus últimos dias pediu o Batismo. Não obstante, levou uma vida tão correta aos olhos de Deus, graças aos frequentes conselhos de sua mãe e de nosso Santo Papa, que também se tornou Santo. Foi igualmente por velada sugestão de São Silvestre que Constantino I convocou o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, onde foi debatida e afastada a heresia do arianismo, entre outras.
    Sábio, nosso Santo fazia tudo com humilde discrição para não dar ocasião à discórdia. Soube ser o Papa dos primeiros anos da Igreja livre, após, como romano, ter sido testemunha ocular por algumas décadas de sangrentas perseguições e violentos martírios. Com efeito, ele havia convocado o Primeiro Sínodo de Arles, em 314, no qual se examinou e foi banida a heresia criada por Donato, o donatismo, que não admitia que a Igreja perdoasse pecados cometidos após o Batismo. Mas esse Sínodo terminou provocando uma das primeiras divisões da Igreja, levando São Silvestre a provocar Constantino para que convocasse o referido Concílio, que seguiu debelando outras heresias.
    É de seu tempo, e com uma grande ajuda do imperador, a construção da primeira Basílica de São Pedro, no mesmo lugar da atual, no Monte Vaticano, onde o príncipe dos Apóstolos foi crucificado, que era lugar de um antigo cemitério pagão. Ainda de seu tempo é a construção da Basílica de São João de Latrão, a Catedral do Papa, e a Basílica de São Paulo (Extra-Muros), que também tiveram contaram com virtuosos auxílios de Constantino I.


    Entre outras coisas de grande valor, como a estátua de Roma Eterna, o imperador ainda doou o Palácio Lateranense para servir de moradia para o clero. Com todos esses monumentos, os cristãos saíram das pequenas e escondidas capelas espalhadas por toda Roma para viver abertamente a em prédios dignos de louvor a Deus.
    Apesar da mãe do imperador ser católica, era São Silvestre quem pregava e dava embasamentos teológicos que o convenciam cada vez mais da Verdade da manifestação de Cristo, através da inspiração e do poder de oratória que lhe concedia o Espírito Santo, além de seu testemunho de vida, de evidente e tocante simplicidade.


    Teve um longo papado, de 21 anos, entrando para a História da Igreja como um homem de profunda espiritualidade e hábil conciliador, apesar de todos os movimentos heréticos que surgiram durante os anos em que esteve na Cátedra de São Pedro.
    Foi sepultado numa basílica que passou a levar seu nome, construção iniciada por ele mesmo a partir da casa de uma família cristã, cujos subterrâneos foram escavados para abrigar um oratório devotado aos primeiros mártires da Igreja, e depois usados por muitos cristãos, que aí se encontravam às escondidas para reviver e atualizar a Paixão de Cristo na Santa Missa.


    A atual construção é do império Carolíngio, ou seja, do século IX, mas suas colunas são originais, do século V, quando foi concluída. Nela também foram depositados os restos mortais do venerado Papa São Martinho I, e foi padre São Carlos Borromeu, já no século XVI, trabalhando ativamente em suas feitorias, melhoramentos e adornos.


    São Silvestre, rogai por nós!

Santa Catarina Labouré


    Freira vicentina, foi agraciada com cinco aparições da Virgem Maria, que aconteceram entre 18 de julho e dezembro de 1830, sendo a mais importante a de 27 de novembro, quando ela se apresentou como Nossa Senhora das Graças e mandou cunhar a medalha miraculosa, pela qual tem derramado grandes bênçãos aos que se mostram fiéis usuários.
    Zoe de Labouré, seu nome de batismo, nasceu em 1806 de família que com ela teve onze filhos. Ainda criança tornou-se órfã de mãe e, por inspiração do Espírito de Deus, adotou Nossa Senhora. Aos 18 anos pediu ao pai para ser freira, mas ele não lhe permitiu, alegando que precisava de ajuda para criar seus irmãos. Aos 23 anos, após todos criados, ela voltou a insistir com o pai por sua vocação religiosa, e em abril de 1830, ao obter seu consentimento, entrou para a ordem fundada por São Vicente de Paulo, pois havia sonhado com ele, dizendo que Deus a queria trabalhando para ajudar os enfermos. Adotou o nome de Catarina e era exemplo de devoção e de dedicação aos enfermos no hospital da congregação em Paris.
    As visões que tinha de São Vicente, porém, tornaram-se muito frequentes, e ela sentiu-se na obrigação de relatá-las ao confessor espiritual, mas ele apenas pedia que escrevesse todos os detalhes. Passou então a ter visões de Jesus Eucarístico e, em seguida, de Cristo Rei, no início de junho do mesmo ano, o que deixou seu confessor em alerta.
    E na noite do dia 18, um anjo apareceu para conduzi-la à Capela do Convento, onde Nossa Mãe Celestial por ela esperava para uma aparição de mais de duas horas. Santa Catarina, ajoelhando-se aos seus pés e apoiando os braços ao seu colo, buscou os afagos daquela que havia adotado como mãe e recebeu a Consolação que anseiam todas as almas. Mas também ouviu que Deus queria encarregar-lhe de uma difícil missão, e iria demandar toda sua , sem hesitação.
    

    Entretanto, de tão impressionada com aquela aparição, Santa Catarina resolveu não dizer nada a ninguém, nem mesmo ao seu confessor. E aguardou comedidamente a indicação de sua missão, confiante nas palavras de Nossa Senhora, que lhe havia garantido: "Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos estarão sempre sobre ti."
    Sua incumbência foi finalmente revelada quando a Mãe do Salvador lhe apareceu em 27 de novembro de 1830. Nossa Santa escreveu assim em seu diário:

    "A Santíssima Virgem apareceu ao lado do altar, de pé sobre um globo, com o semblante de uma Senhora de indizível beleza; de veste branca, manto azul, tinha as mãos elevadas até à cintura e sustentava um globo figurando o mundo, encimado por uma cruzinha. A Senhora era toda rodeada de tal esplendor que era impossível fitá-la. O radiante rosto de celestial claridade conservava os olhos elevados ao Céu, como para oferecer o globo a Deus. A Santíssima Virgem baixou para mim os olhos e disse-me no íntimo de meu coração:
    'Este globo que vês representa o mundo inteiro... e cada pessoa em particular... Eis o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que pedem.'
    Desapareceu, então, o globo que tinha nas mãos e, como se estas não pudessem já com o peso das Graças, voltaram-se para a terra em amorosa atitude. Formou-se em volta da Santíssima Virgem um figura oval, na qual em letras de ouro se liam estas palavras que cercavam a Senhora: 'Ó MARIA CONCEBIDA SEM PECADO, ROGAI POR NÓS QUE RECORREMOS A VÓS.'
    Ouvi, então, uma voz que me dizia:
    'Faça cunhar uma medalha por este modelo. Todas as pessoas que a trouxerem receberão grandes graças, sobretudo se a trouxerem no pescoço. As graças serão abundantes, especialmente para aqueles que a usarem com confiança.'
    Então o quadro virou-se, e no verso apareceu a letra M, monograma de Maria, com uma cruz em cima, tendo um Terço na base; por baixo do M, os dois Corações, de Jesus e de Maria; o de Jesus, com uma coroa de espinhos e o de Maria atravessado por uma espada; contornava o quadro uma coroa de doze estrelas."

    Não era uma fácil tarefa. Onde cunharia medalhas? Quem a ajudaria? Seu confessor creria nela? E de imediato perguntou a Imaculada Virgem como poderia realizar sua missão, ao que ela simplesmente lhe indicou o Padre Jean Marie Aladel.
    De fato, seu confessor ouviu-a com muita atenção, mas passou ainda dois anos observando seu comportamento para ter certeza de que se tratava de uma verdadeira aparição. Nesse período Santa Catarina manteve sua rotina, entregando-se com a costumeira dedicação às orações e ao trabalho, que, aliás, executou por 45 anos no mesmo hospital, desde que entrou no convento até o dia de sua morte em 1876, aos 70 anos.


    Uma vez cunhadas, através das medalhas se realizavam muitíssimos milagres, que as fizeram rapidamente conhecidas e desejadas por toda população.
    Exceto ao confessor e ao seu bispo, Santa Catarina nunca divulgou essas aparições. Elas fazem parte de uma importantíssima série que culminaria em Fátima, e inclui as Aparições de Quito, de Lourdes, de Salette e de Akita. De fato, a Santíssima Mãe avisou que se iniciavam tempos 'difíceis para a França e para o mundo', mas nossa Santa publicou-as apenas pouco antes de morrer, e por expressa autorização da própria Senhora Imaculada.
    Em 1947, Santa Catarina foi canonizada pelo Venerável Papa Pio XII, profícuo escritor e de heroicas virtudes.


    Ao ser beatificada em 1933, seu corpo foi exumado e encontrava-se absolutamente incorrupto, como ainda se vê em exposição na capela do convento, ao lado direito do Altar.


    Santa Catarina Labouré, rogai por nós!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Sagrada Família


JOSÉ E MARIA

    A Bíblia oferece belas imagens da Sagrada Família. Uma delas é descrita por São Mateus, quando um anjo do Senhor se encarrega de consolidar a união entre São José e Nossa Senhora:

    "Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, Sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que Ela concebeu por virtude do Espírito Santo.
    José, seu esposo, sendo justo e não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse:
   - José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois O que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, a Quem porás o Nome de Jesus, porque Ele salvará o Seu povo de Seus pecados.
    Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta: 'Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que Se chamará Emanuel (Is 7,14), que significa: Deus Conosco.'
    Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, Ela deu à luz o Seu filho, que recebeu o Nome de Jesus." Mt 1,18-25


NATAL DE JESUS

    Cena de singular beleza é o Nascimento de Jesus, que São Lucas narrou assim:

    "Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
    Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para alistar-se com a sua esposa Maria, que estava grávida.
    Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz Seu filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.
    Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. O anjo disse-lhes:
    - Não temais, eis que vos anuncio uma Boa Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
    E subitamente se juntou ao anjo uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
    - Glória a Deus no mais alto dos Céus e na terra Paz aos homens, objetos da divina benevolência.
    Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o Céu, falaram os pastores uns com os outros:
    - Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que nos manifestou o Senhor.
    Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura. Vendo-O, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino.
    Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores.
    Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.
    Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito." Lc 2,1-20


A FUGA DE HERODES

   Na fuga para o Egito, a Sagrada Família é vista em um delicado momento, entre o amor e o ódio de reis. Mas não deixa de exprimir sua pujante espiritualidade, como relata São Mateus:

    "E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, foi precedendo os magos até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela estrela encheu-os de profunda alegria.
    Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante d'Ele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-Lhe como presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.
    Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse:
    - Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para matá-Lo.
    José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: 'Do Egito Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1).
    Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar em Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado dos magos. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: 'Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer Consolação, porque já não existem (Jr 31,15)!'
    Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse:
    - Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do Menino.
    José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel.
    Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: 'Será chamado Nazareno'." Mt 2,9-23


APRESENTAÇÃO DO MENINO JESUS NO TEMPLO DE JERUSALÉM

    Complementarmente, se São Mateus não registra a passagem da Sagrada Família por Jerusalém para a Apresentação do Senhor, quando mesmo sob as ameaças de Herodes ela vai cumprir fiel e corajosamente suas obrigações religiosas, São Lucas não registra a fuga para o Egito após a Apresentação, indicando apenas o retorno a Nazaré. Sem dúvida, outro épico momento:

    "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.
    Concluídos os dias da purificação de Sua mãe, segundo a Lei de Moisés (Lv 12,4), levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2)'; e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos (Lv 12,8).
    Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a Consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não morreria sem primeiro ver o Cristo do Senhor. Impelido pelo Espírito Santo, foi ao Templo. E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para cumprirem a respeito d'Ele os preceitos da Lei, tomou-O em seus braços e louvou a Deus nestes termos:
    - Agora, Senhor, deixai o Vosso servo ir em Paz, segundo a Vossa Palavra. Porque os meus olhos viram a Vossa Salvação que preparastes diante de todos os povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel.
    Seu pai e Sua mãe estavam admirados das coisas que d'Ele se diziam. Simeão abençoou-os e disse a Maria, Sua mãe:
    - Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações. E uma espada transpassará a tua alma.
    Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de idade avançada. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação.
    Após terem observado tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, à Sua cidade de Nazaré.
    O Menino ia crescendo e fortificava-Se: estava cheio de Sabedoria, e a Graça de Deus repousava n'Ele." Lc 2,21-39


JESUS ENSINANDO NO TEMPLO AOS 12 ANOS

    Mais um memorável acontecimento na história da Sagrada Família é quando o Menino Jesus permanece em Jerusalém, após o final da Páscoa, que foi narrado por São Lucas:

    "Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa.
    Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que os Seus pais o percebessem.
    Pensando que Ele estivesse com os Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e O buscaram entre os parentes e conhecidos. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura d'Ele.
    Três dias depois O acharam no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos os que O ouviam estavam maravilhados da Sabedoria de Suas respostas.
    Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe:
    - Meu filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição.
    Respondeu-lhes Ele:
    - Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na Casa de Meu Pai?
    Eles, porém, não compreenderam o que Ele lhes dissera. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso.
    E Jesus crescia em estatura, em Sabedoria e Graça, diante de Deus e dos homens." Lc 2,41-52


    Em Barcelona, uma monumental catedral é dedicada à Sagrada Família, de projeto do arquiteto Gaudi.


    E mais um dos grandes sinais do valor que Deus dá à Sagrada Família está na preservação da Santa Casa de Nazaré, miraculosamente transladada pelos céus para Loreto, na Itália, ao fim do século XIII.


    Sagrada Família, rogai por nós!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

São Tomás Becket


    Foi amigo de adolescência e juventude de Henrique II, rei da Inglaterra no século XII, mas não pensou duas vezes antes de oferecer-lhe declarada resistência quando ele quis usurpar direitos da Igreja, através de leis chamadas 'Constituições de Clarendon'. Era na ocasião o Arcebispo de Canterbury, principal diocese britânica, atual sede da igreja anglicana, mas de início teve que fugir para a França pois sua vida estava realmente em risco.
    Durante a mocidade viveu como nobre e era amante da vida mundana, desfrutando de todas as regalias de um cortês em palácios, festas, cavalgadas e caçadas. Foi educado nas melhores escolas, tendo estudado também em Paris e em Bolonha, na Itália, a primeira universidade do mundo ocidental. Ao retornar a Londres, porém, por sua inteligência e sensibilidade foi convidado por Teobaldo, Arcebispo da Cantuária, para representá-lo em importantes missões em Roma. Demonstrou nesses tempos um profundo apreço pela Igreja Católica e tornou-se arcediácono dessa diocese, além de reitor da renomada Escola de Beverly.
    Destacou-se de tal modo por seu brilhantismo nessas funções que foi nomeado por seu amigo, e então rei, Henrique II, para o cargo de chanceler da Inglaterra. Seus dons de conciliador fizeram dele um excelente diplomata, cargo que exerceu por sete anos. As pretensões de poder do rei, entretanto, afastaram São Tomás da Igreja, levando-o a participar de cobranças de antigos impostos que visavam retirar autonomia e direitos dos bispos. Evidentemente, o clero ressentiu-se da nova postura assumida por São Tomás, que também havia retornado ao convívio dos nobres e do rei em suas festas, assim como ao comportamento mundano.
    Tão íntimo estava da família real que o próprio rei confiou-lhe a educação de seu filho. Mais tarde ele iria dizer que havia recebido mais afeição de São Tomás que do próprio pai. Morto Teobaldo, o rei obteve do papa a concessão para indicar o novo arcebispo, pois Roma tentava melhorar as relações com a corte inglesa. O papa, porém, bem sabia que seu indicado seria São Tomás, e acreditava, como defendia João de Salisbury, Bispo de Chartres, na França, em sua definitiva conversão quando assumisse as funções do arcebispado, mesmo sob fortes protestos que viriam do clero da Inglaterra.
    O Bispo de Chartres estava certo: os desígnios de Deus cumpriram-se exatamente como o Espírito Santo havia inspirado a Igreja. E frustraram as ambições do rei, que não esperava tamanha transformação como a que se deu em São Tomás. Ele abraçou fielmente a vida de virtudes, praticando a pobreza evangélica e, para penitenciar-se, passou a usar roupas grosseiras e desconfortáveis por baixo dos paramentos. Sua ordenação de sacerdócio e, no dia seguinte, de arcebispado, no ano de 1162, alguns meses após a morte de Teobaldo, teriam sido a centelha que fez seu coração começar a arder verdadeiramente de amor ao Evangelho.


    Não demorou para que ele pedisse afastamento do cargo de chanceler, e começasse a sonegar os impostos que ele mesmo vinha ajudando a arrecadar em nome do rei. Em outubro de 1163, no entanto, Henrique II tentou isolar São Tomás, colocando outros bispos ingleses contra ele numa reunião em Westminster, mas sem sucesso, pois ele resistiu com serenidade. Em janeiro de 1164, bastante irritado e sentindo-se traído, o rei convocou uma assembleia no Palácio de Clarendon e apresentou 16 'constituições' que retiravam a independência do clero na Inglaterra e reduzia a influência de Roma. Todos os bispos, que já vinham sendo pressionados, concordaram e assinaram, exceto São Tomás.
    Sob intensa perseguição por éditos que alcançavam também seus aliados, e até por caluniosos processos a respeito de seus anos como chanceler, São Tomás fugiu para a França, onde por seis anos esteve sob a proteção do rei Luís VII, que era rival de Henrique II. De lá, ele pediu ao papa a excomunhão de Henrique II e o Interdicto da Inglaterra, ou seja, a excomunhão de todo o país por causa do apoio que lhe davam os bispos de lá. Em 1167, por fim, o papa enviou representantes para resolver o conflito, mas São Tomás recusou-os sob argumento que eles lhe tiravam a autoridade, e que negociar com o rei, sob as condições que ele impunha, ofendia os princípios da Igreja.
    Em 1170, quando o papa estava prestes a adotar o Intedicto, Henrique II nomeou seu filho como rei da Inglaterra e proclamou-se imperador. São Tomás condenou seu antigo amigo pela dissimulação e contestou a coroação realizada pelo Bispo de York, que só ele, Arcebispo da Cantuária, poderia ter realizado. Acuado, Henrique II propôs-lhe a paz, convidando-o a coroar o príncipe. O Papa Alexandre III instou que São Tomás retornasse e reabrisse as tratativas de paz em território inglês.
    Ele voltou aclamado pelos fiéis, mas, conhecendo bem a índole do ex-amigo, sabia o que lhe esperava. Dizia a todos: "Voltei para morrer no meio de vós!"
    Usando de toda firmeza, contudo, logo ao desembarcar em Kent excomungou todos os bispos que haviam pactuado com as 'constituições' do rei, bem como os que haviam tomado parte na coroação do príncipe. Essa atitude foi usada com a gota d'água pelo Henrique II, que, como já havia planejado, ordenou-lhe a morte. No entanto, mesmo sabendo que iria ser assassinado, São Tomás não quis fugir. Disse: "O medo da morte não deve fazer-nos perder de vista a justiça."


    Vestiu sua casula e foi para os degraus do altar, cantar as Vésperas do Ofício das Horas, quando recebeu os assassinos golpes de quatro cavaleiros do rei, sem opor resistência. Monges e um visitante, que testemunharam o ataque, também foram feridos.
    Foi na ocasião de sua morte que se descobriu que ele usava um cilício, camisa de tecido rude e incômodo, como um modo de penitência. Tinha 52 anos.
    Em 1173, menos de três anos depois, foi declarado Santo e Mártir pelo Papa Alexandre III.
    Em 1174, após a rebelião de seus três filhos, inclusive Ricardo, que se tornaria o cruzado cognominado Coração de Leão, tomado de arrependimento, Henrique II foi ao seu túmulo para penitenciar-se, pois já se havia tornado lugar de intensa peregrinação. Levou então suas relíquias para a cripta da Catedral da Cantuária, e em 1220 elas foram postas para veneração na Capela da Trindade, proeminente parte da Catedral, depois do altar principal.
    Além de preservar o lugar de seu martírio, há na Catedral da Cantuária uma capela dedicada à sua homenagem, onde a parte de cima de seu crânio, brutalmente decepada durante o assassinato, foi venerada com muito carinho até a reforma protestante. A partir de então seu túmulo foi removido e destruído. A urna, que guardou suas relíquias na Capela da Trindade, encontra-se no Museu Victoria e Albert, mas suas relíquias, caprichosamente defendidas por fiéis católicos, seguem sendo veneradas e levadas em procissão por ruas e pela ponte de Londres.


    São Tomás Becket, rogai por nós!