quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Santo André Apóstolo


    O irmão de São Pedro é considerado o 'protocletos', que em grego significa 'primeiro convocado'. Religioso e sensível, já era discípulo de São João Batista quando Jesus apresentou-Se para ser batizado. É também o primeiro a reconhecer e a anunciar Jesus como o Messias, além de convocar um novo discípulo, o próprio São Pedro. São João Evangelista narrou esse episódio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. E, avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e ficaram com Ele aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Foi Ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).'" Jo 1,35-42
    Por essa frase, vemos que Jesus demonstra conhecer São Pedro e também seu pai, portanto, pai também de Santo André. Como São Filipe, eles eram de Betsaida, nome que significa 'casa da pesca', lugar próximo a Cafarnaum e ao Mar da Galileia: "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Sabemos que, junto ao irmão, Santo André fazia parte de uma colônia de pescadores, mas, após Se retirar para o deserto por 40 dias, Jesus retornou e convidou-os para que pescassem almas: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.' Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: 'Vinde após Mim e vos farei pescadores de homens.' Na mesma hora abandonaram suas redes e O seguiram." Mt 4,17-20
    Santo André era solteiro, e morava com São Pedro, cuja casa teria sido dote de casamento, pois morava com sua sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-Lhe a respeito dela. Aproximando-Se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21.29-31
    Na lista dos 12 Apóstolos, Santo André sempre aparece em segundo lugar, atrás apenas do irmão, o Príncipe dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,12-16
    No dia em que multiplicou pães e peixes, Jesus provocou São Filipe, mas foi Santo André quem dispôs do que os Apóstolos tinham para que o milagre da 'partilha' acontecesse: "Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com Ele e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Um dos Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 'Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente?'" Jo 6,3-9
    E é através de Santo André que São Filipe leva um recado a Jesus, quando Nosso Salvador percebe que Seu Nome já havia chegado a países vizinhos, e por isso anuncia a chegada de Sua hora: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por essas passagens e pela seguinte, notamos que Santo André fazia parte de um grupo mais íntimo de Cristo, ainda que não tão íntimo como eram São Pedro, São Tiago Maior e São João: "Saindo Jesus do Templo, disse-Lhe um dos Seus discípulos: 'Mestre, olha que pedras e que construções!' Jesus replicou-lhe: 'Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.' E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso se vai realizar?' Jesus pôs-Se então a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.'" Mc 13,1-7.32
    No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo André só é mencionado nos dias que antecede ao Pentecostes, o que indica sua intensa atividade fora de Jerusalém desde os primeiros anos da Igreja, como sustenta a Sagrada Tradição: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago." Ap 1,13
    Segundo Santo Hipólito, após a Ascensão de Jesus, Santo André pregou na Trácia, hoje uma região da Bulgária. O livro apócrifo 'Atos de André' aponta-o como o fundador da igreja de Bizâncio, que no século IV iria ser chamada de Constantinopla. Este fato teria acontecido no ano de 38. Estácio teria sido ordenado bispo por ele, e substituiu-o após sua partida em peregrinação. Ainda hoje ele é reconhecido como o padroeiro de Istambul, atual nome da cidade, a mais importante da Turquia.
    Baseando-se em Orígenes, Eusébio de Cesareia diz que Santo André teria pregado na Ásia Menor, atual Turquia, especificamente na região da Cítia, que fica na costa do Mar Negro, peregrinado por algumas cidades ao longo do Rio Volga, e por isso é também o padroeiro da Rússia, além de evangelizado Kiev, na atual Ucrânia. É padroeiro igualmente da Romênia, onde também exerceu seu apostolado. Parece mesmo ter tomado todo o entorno do Mar Negro como área de atuação.
    De volta a Grécia, radicou-se em Patras, na região da Acaia, terras do sudeste, onde fundou a igreja local que viria a ser modelo para todas as demais. O governador e juiz romano Egéas quis impor-lhe sua autoridade, mas ele recusou-a e respondeu-lhe dizendo que ele é que teria que submeter-se à autoridade de Cristo. Disse-lhe ainda que os deuses pagãos eram na verdade demônios, que seduziam e enganavam a todos. Foi a gota d'água. Enfurecido, Egéas ordenou que ele fosse crucificado, porém ficaram todos espantados quando ele recebeu sua condenação com alegria. Numa atitude que vai lembrar a de São Pedro, embora tenha sido crucificado antes dele, Santo André pediu apenas que fosse crucificado numa cruz diferente da de Jesus, porque não era digno de morrer como Seu Mestre.


    Foi dependurado numa cruz em forma de X por 2 dias, e antes de morrer doou todos os seus pertences aos carrascos, que estavam visivelmente constrangidos em cumprir aquela ordem. Seus restos mortais ficaram em Patras até 357, quando Constantino levou-os a Constantinopla. Na Quarta Cruzada, no início do século XII, os cruzados levaram-nos a Roma, por temerem as profanações dos invasores turcos, seguidores do islamismo.
    Conforme a Tradição, ao serem levadas a Europa pelos cruzados, suas relíquias estiveram primeiro na Escócia, onde ficou por bom tempo numa cidade que passou a levar seu nome, Saint Andrews, e por isso a bandeira deste país traz sua cruz.


    Após a união entre a Escócia e a Inglaterra, cuja bandeira já ostentava a Cruz de Cristo, a flâmula do Reino Unido incorporou a cruz de Santo André.


    Em 1964, o beato Papa Paulo VI devolveu suas relíquias a Patras, quando já eram apenas os ossos de um dedo, parte do crânio e pedaços de sua cruz.


    Santo André, rogai por nós!

domingo, 27 de novembro de 2016

O Advento


    O termo Advento, que significa a 'vinda' do Senhor, é um tempo do Calendário Litúrgico que se dedica à preparação da Epifania do Senhor, ou seja, da manifestação de Deus em Pessoa.
    Oficialmente, esse período foi adotado em 380 no Sínodo de Saragoza, Espanha, e previa apenas um período três semanas antes do Natal do Senhor, data em que se comemorava também a Epifania. Contudo, no final do século V, o Papa São Gelásio, percebendo a importância de instituir essa celebração, pronunciou-se sobre ela no que ficou conhecido como o 'Sacramentário Gelasiano', o segundo mais antigo livro de liturgia da Igreja.
    Mesmo antes do Sínodo de Saragoza, porém, extra-oficialmente bispos e sacerdotes da França e da Espanha já praticavam a espera do Nascimento de Jesus nos mesmos modos da Quaresma, ou seja, por um período de seis semanas e como um tempo de abstinência, jejuns e penitências.
    No século VII incluiu-se à essa celebração a espera da vinda definitiva de Jesus, a Parusia, que em grego quer dizer 'Presença', e só ocorrerá no fim dos tempos, pouco antes da restauração do Universo e da ressurreição da carne. Por isso, mais uma vez o período da celebração foi alterado, passando a ser de cinco semanas.
    Mais tarde, com os argumentos de que a Parusia já era um dos elementos essenciais de toda a Liturgia, adotou-se finalmente o período de quatro semanas, que se faz representar por quatro velas. A primeira simboliza o perdão a Adão e Eva; a segunda, a de Abrão e dos patriarcas em herdar a Terra Santa; a terceira, a alegria de Davi com a promessa da Eterna Aliança; e a quarta, a inspiração dos Profetas que anunciaram a Salvação.
    Assim as duas primeiras semanas devem ser dedicadas à contrição, como preparação para a volta definitiva de Jesus, enquanto as duas últimas são consagradas à alegria devota e piedosa por sua primeira passagem entre nós, quando da Encarnação do Cristo.
    O Advento, portanto, é um período de recolhimento e sincera conversão, como ensinava São João Batista: "Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Mas é também o período propício a reviver a espera e a chegada do Salvador, que confirmou com grandes sinais a instauração do Reino dos Céus. Com efeito, Jesus vai dizer aos fariseus, Seus ferrenhos adversários: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Tais sinais confirmavam que os tempos de uma vida meramente carnal já se haviam cumprido, como afirmou São Paulo: "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho..." Gl 4,4
    É, pois, na primeira semana do Advento, véspera do quarto domingo que antecede o Nascimento de Jesus, que se monta o presépio, uma invenção de São Francisco de Assis para nossa mais profunda contemplação, e a árvore de Natal.

    "O Vosso Filho permaneça entre nós!"

A Aparição de Paris


    Em Paris, uma noviça da Companhia Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, foi despertada na noite da festa deste Santo, em 19 de Julho de 1830, por uma voz infantil que lhe chamava à capela do convento, pois lá Nossa Senhora estava à sua espera. A princípio, ela teve medo de desobedecer as regras de sua ordem, mas a voz garantiu-lhe que estavam todas dormindo.
    Ela acreditou porque, enquanto comemoravam o dia de São Vicente, havia poucas horas, a Madre Superiora pregou sobre sua vida e distribuiu a cada uma delas um pequeno pedaço do sobrepeliz que ele usava. Santa Catarina Labouré recebeu seu fragmento com muita devoção e logo pediu a intercessão deste Santo para que pudesse ver Nossa Senhora, pois sempre foi a maior vontade de toda sua vida. E ao fazer essa oração teve a nítida sensação de que seu desejo se realizaria naquela noite.
    Embalada por essa mesma sensação, ela foi à capela, que encontrou inexplicavelmente aberta e iluminada. Ao ajoelhar-se junto ao Altar, viu Nossa Senhora envolta em Luz, sentada na cadeira da Madre Superiora. Uma voz disse-lhe: "A Santíssima Maria deseja falar-te." Ela aproximou-se, ajoelhou-se aos seus pés e colocou as mãos em seu colo. Disse-lhe então a Mãe do Céu: "Deus deseja te encarregar de uma missão. Tu encontrarás oposição, mas não temas, terás a Graça de poder fazer todo o necessário. Conta tudo a teu confessor. Os tempos estão difíceis para a França e para o mundo. Vai ao pé do Altar, Graças serão derramadas sobre todos, grandes e pequenos, e especialmente sobre os que as buscarem. Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos estarão sempre sobre ti. Haverá muitas perseguições, a Cruz será tratada com desprezo, será derrubada e o sangue correrá."
    Santa Catarina não comentou com ninguém sobre essa aparição até o dia 27 de novembro do mesmo ano, quando foi à capela para as orações de vésperas e mais uma vez viu Nossa Senhora sobre o Altar, tal qual a imagem acima, rodeada por uma frase que dizia: "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós." Foi quando ela lhe deu essas instruções: "Faz cunhar uma medalha onde apareça minha imagem como a vês agora. Todos os que a usarem receberão grandes Graças." Depois, voltando-lhe as costas, fez com que ela visse como seria o desenho no verso da medalha, hoje mundialmente conhecida.


    Era o M de Maria, a Cruz sobre o Monte Calvário, 12 estrelas que simbolizam as tribos de Israel e os Apóstolos, o Sagrado Coração de Jesus cercado de espinhos, cuja devoção o Senhor prometeu a Graça da Vida Eterna a Santa Margarida Maria Alacoque, em 1675, e, ao lado, o Imaculado Coração de Maria, traspassado pela espada como havia previsto o profeta Simeão no Templo de Jerusalém, quando da Apresentação do Menino Jesus.
    Sem saber como poderia realizar tal tarefa, Santa Catarina perguntou a Nossa Senhora, que simplesmente indicou-lhe que procurasse seu confessor, o padre Jean Marie Aladel. De fato, ele escutou com carinho todos esses relatos, mas pediu que Santa Catarina guardasse tudo em silêncio. Só dois anos depois, após examinar com cuidado o comportamento daquela humilde freira, ele foi ao Arcebispo de Paris, Dom Quelen, que autorizou a cunhagem inicial de 2 mil medalhas, realizada em 20 de junho de 1832. Em paralelo, este bispo instaurou um inquérito para acompanhar os resultados obtidos pelos fiéis que a usavam, e sua conclusão foi essa: "A rápida propagação, o grande número de medalhas cunhadas e distribuídas, os admiráveis benefícios e Graças singulares obtidos, parecem sinais do Céu que confirmam a realidade das aparições, a verdade das narrativas da vidente e a difusão da Medalha."
    Os dizeres na medalha, '... concebida sem pecado...', confirmavam uma devoção que já existia havia muito tempo. Com efeito, desde 1476, o Papa Sisto IV tinha declarado o dia 8 de dezembro como festa universal da Imaculada Conceição. Entretanto, só na mesma data no ano de 1854, ou seja, mais de 20 anos depois da aparição a Santa Catarina, o Papa Pio IX declarou solenemente esse Dogma de , em sua bula 'Ineffabilis Deus'.
    A origem dessa fé, no entanto, remonta a passagem do Evangelho de São Lucas, quando o Arcanjo São Gabriel saudou Nossa Senhora: "Ave, agraciada..." Lc 1,28
    O livro de Jó, meditando sobre a origem do ser humano, deu-nos uma pista sobre a gestação de Jesus, que não poderia nascer de uma mulher impura: "Quem fará sair o puro do impuro?" Jó 14,4
    Isso apenas corrobora o valor que Deus dá à castidade, da qual nasceu Seu Filho segundo uma profecia: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e O chamará Deus Conosco." Is 7,14
    Diz respeito também a Palavra de Deus, no Antigo Testamento, quando Ele disse à Serpente: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela." Gn 3,15
    Realmente, o inimigo vai perseguir Nossa Senhora. Mas como um anjo, que segundo Jesus "não se casarão nem se darão em casamento" (cf. Mc 12,25), ela voou para seu retiro. É quando o maligno passa a perseguir seus filhos, 'sua descendência', vale dizer, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17
    A Sagrada Devoção ao Imaculado Coração de Maria foi confirmada pela própria Santíssima Virgem, na Aparição de Lourdes, em 1858, quando ela apresentou-se como a 'Imaculada Conceição' a uma jovem e humilde camponesa, Santa Bernadete de Lourdes, que sequer conhecia esse Dogma. Também na Aparição de Fátima, em 1917, aliás, em conformidade com a Aparição de Quito, no remoto ano de 1594, ela prometeu que, após grandes heresias e tribulações, seu Sagrado Coração triunfaria. Por fim, na Aparição de Cimbres, ela apresentou-se com o singelo nome de 'a Graça', inequívoca menção ao título de Nossa Senhora da Graça, no singular, como é chamada em Portugal.
    Santa Catarina Labouré faleceu em 1876, aos 70 anos. Em 1933, quando exumado, seu corpo estava intacto como se vê até hoje. Assim como as relíquias de Santa Luísa de Marilac, ele está exposto ao lado do altar da capela do convento onde se deu a Aparição da Santíssima Virgem, que passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.


    Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!

sábado, 26 de novembro de 2016

Cristo Rei


    O Reinado de Cristo já está em vigor e sempre foi uma certeza, embora muitos teimem em não aceitar. De fato, ao ser inquirido por Pilatos, Jesus disse a Verdade: "'O Meu Reino não é deste mundo. Se o Meu Reino fosse deste mundo, os Meus súditos certamente teriam pelejado para que Eu não fosse entregue aos judeus.' Perguntou-Lhe então Pilatos: 'És, portanto, rei?' Respondeu Jesus: 'Sim, Eu sou Rei. É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve a Minha voz.'" Jo 18,36-37
    Ora, o Arcanjo Gabriel, falando sobre Jesus, havia revelado a Nossa Senhora: "Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o Seu Reino não terá fim." Lc 1,32-33
    Esse foi o reconhecimento feito por São Bartolomeu Apóstolo, ao atestar o poder de clarividência de Jesus, logo no primeiro instante em que O encontrou: "Falou-Lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.'" Jo 1,49
    Sua instituição, no entanto, já se havia dado no próprio Céu, feita por Deus Pai, como viu o profeta Daniel: "Olhando sempre a visão noturna, vi um ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno; nunca cessará e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14
    Davi, que também era profeta, redigiu um Salmo no qual registra essas palavras de Deus, ditas ao Seu Filho amado: "O Senhor disse a Meu Senhor: 'Senta-Te à Minha direita até que Eu ponha os Teus inimigos como um banquinho para os Teus pés.'" Sl 109,1
    E como portentoso sinal cósmico, sábios reis de nações pagãs, mas igualmente inspirados pelo Espírito Santo, viram e seguiram a Estrela que anunciava a vinda do 'Rei dos judeus': "Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: 'Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a Sua estrela no oriente e viemos adorá-Lo.'" Mt 2,1-2
    Com efeito, a despeito das características imprecisões das profecias, isso foi previsto pelo salmista: "Os reis de Társis e das ilhas Lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-Lhe-ão seus dons. Assim Ele viverá e o ouro da Arábia Lhe será ofertado; por Ele hão de rezar sempre e O bendirão perpetuamente." Sl 71,10.15
    E tal reconhecimento espalhou-se pelo mundo nas pessoas de muitos reis cristãos, vários deles Santos e Santas, como São Luis, Santa Isabel da Hungria, Santa Margarida da Escócia, Santa Isabel de Portugal, o que justifica plenamente Seu título de Rei dos reis: "Todos os reis hão de adorá-Lo, hão de servi-Lo todas as nações." Sl 71,11
    Durante toda a vida pública de Jesus, pois, a figura do Reino de Deus sempre esteve presente em Suas exortações e sermões. Quando Ele começou a pregar, por exemplo, Suas primeiras palavras foram um convite à purificação para que pudéssemos entrar em Seu Reino: "Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus." Mt 3,2
    Mas essa penitência, chamada também de Sacramento de Reconciliação, deve precedida pelo Batismo, para que depois se obtenha a Comunhão e, mais tarde, a Crisma. Sacramentos, aliás, ministrados exclusivamente por Sua Igreja, como Jesus ensinou a Nicodemos: "Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus." Jo 3,5
    E em se tratando de penitência, coerentemente Seu Reino é oferecido aos verdadeiramente humildes: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Assim, como Jesus mesmo nos instou, buscar Seu Reino deve ser nossa meta: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,33
    Porque além de Seus preciosos ensinamentos, por Seus milagres Ele nos deu grandiosas provas do início de Seu Reinado: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Mas não permitiu que as pessoas o confundissem com os reinos desse mundo, como aconteceu após a multiplicação dos pães e peixes: "Jesus, percebendo que queriam arrebatá-Lo e fazê-Lo rei, tornou a retirar-Se sozinho para o monte." Jo 6,15
    E determinou como deve ser a hierarquia da Igreja, parte visível de Seu Reino: "Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar Sua vida em resgate por uma multidão." Mt 20,26-28


IGREJA, O REINO DE SACERDOTES

    Como, no entanto, esse projeto deve ser levado a cabo também pelo ser humano, pois a ele foi prometido, Jesus confiou as chaves a São Pedro: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    E por reconhecer nestes sacerdotes a condução do Espírito de Deus, São João Evangelista registrou: "Aceitamos o testemunho dos homens." 1 Jo 5,9a
    Por isso Jesus pede pureza e inocência de criança a todos nós: "Em verdade vos declaro: se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus." Mt 18,3-4
    Os Seus sacerdotes, portanto, devem viver a castidade, como Ele mesmo viveu: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12
    E, na verdade, tal condição é apenas mais um testemunho de fé, antecipando nesse mundo o que haverá de ser nos Céus, como Jesus corrigiu os saduceus: "Respondeu-lhes Jesus: 'Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus. Na Ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no Céu.'" Mt 22,29-30
    Não por acaso, Ele criticou severamente a impenitência dos religiosos de Sua época, avisando-os de um mais longo período no Purgatório: "Em verdade vos digo: os cobradores de impostos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus! João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os cobradores de impostos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele." Mt 21,31-32
    De tão sutil, Seu Reino parece nem existir, mas Nosso Senhor assegurou que sua ostensiva instauração será certamente grandiosa: "A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou na sua horta, e que cresceu até fazer-se uma grande planta e as aves do céu vieram fazer ninhos nos seus ramos." Mt 13,18-19
    Garantiu também que, pela boa vontade de muitos em acolher Sua Palavra, Seu Reino faz-se sensivelmente presente entre nós. Quanto à Sua Volta definitiva, entretanto, Ele deixou claro que ela seria inconfundível: "Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: 'O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós.' Mais tarde Ele explicou aos discípulos: 'Virão dias em que desejareis ver um só dia o Filho do Homem, e não O vereis. Então vos dirão: Ei-lo aqui; e: Ei-lo ali. Não deveis sair nem os seguir. Pois como o relâmpago, reluzindo numa extremidade do céu, brilha até a outra, assim será com o Filho do Homem no Seu Dia.'" Lc 17,20-24
    Disse ainda que Seus Apóstolos reinariam com Ele: "Em verdade vos declaro: no Dia da Renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no Trono da Glória, vós, que Me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel." Mt 19,28
    E em mais uma bela e cativante imagem, garantiu-nos que Seu Reino é como um grande e festivo banquete: "E vós tendes permanecido comigo nas Minhas provações; Eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como Meu Pai o dispôs a Meu favor, para que comais e bebais à Minha mesa no Meu Reino e vos senteis em tronos..." Lc 22,28-30
    De fato, foi isso que São João Apóstolo atestou já em idade avançada, rendendo-Lhe graças: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Prometeu igualmente que a Justiça Divina seria feita, e que o Mal seria definitivamente banido: "Quando o Filho do Homem voltar na Sua Glória e todos os anjos com Ele, sentar-Se-á no Seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante d'Ele e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a Vida Eterna." Mt 25,31-32.46
    E se o castigo eterno parece violento demais, lembremos o que Ele havia dito noutra parábola: "Quanto aos que Me odeiam, e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os na Minha presença." Lc 19,27
    A subida de Jesus a Jerusalém, por fim, em Sua última Páscoa, aconteceu como previsto pelo profeta Zacarias, e o povo recebeu-O como um rei: "Trouxeram então o jumentinho até Jesus, puseram seus mantos em cima, e Jesus montou. Muitos estenderam seus mantos no caminho, enquanto outros espalharam ramos apanhados no campo. Os que iam à frente e os que vinham atrás clamavam: “Hosana! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Bendito o Reino que vai começar, o Reino de Davi, nosso pai! Hosana no mais alto dos Céus!" Mt 11,7-10
    Mas, como sabemos, o ciúme dos sacerdotes judeus levou-O à farsesco julgamento e à Cruz. Antes, porém, Seus executores espancaram-nO e debocharam de Sua Majestade. Não foram os únicos, contudo. Todos nós, que não buscamos Seu Reino, estamos fazendo pouco de Sua Paixão e Sacrifício, e crucificando-O mais uma vez: "Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-nO com todo o pelotão. Arrancaram-Lhe as vestes e colocaram-Lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio: 'Salve, rei dos judeus!' Cuspiam-Lhe no rosto e, tomando da vara, davam-Lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem d'Ele, tiraram-Lhe o manto e entregaram-Lhe as vestes. Em seguida, levaram-nO para O crucificar." Mt 27,27-31
    

O REINO DOS CÉUS

    Para concluir o espetáculo de crueldades, o governador da Judeia fez-Lhe mais essa humilhação: "Pilatos redigiu também uma inscrição e a fixou por cima da Cruz. Nela estava escrito: 'Jesus de Nazaré, rei dos judeus.'" Jo 19,19
    Mas até Seu último suspiro houve gente humilde à Sua volta. Dimas, mesmo sendo um ladrão e passando por momentos de grande dor e agonia, soube perceber a injustiça que estava acontecendo. Tocado pelo Espírito Santo, sensível e arrependido ele reconheceu em Jesus o Salvador: "Jesus, lembra-Te de mim, quando tiveres entrado no Teu Reino!" Lc 23,42
    E seu pedido foi imediatamente concedido: "Em verdade te digo: hoje estarás Comigo no Paraíso." Lc 23,43
    Após Sua Ressurreição, e pouco antes de subir definitivamente aos Céus, os Apóstolos quiseram saber quando Ele iria instaurar materialmente Seu Reino. Mas Jesus ainda teria que enviar o Espírito Santo para que nós assumíssemos a construção Igreja, que é a imagem do Reino: "'Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?' Respondeu-lhes Ele: 'Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em Seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo.'" At 1,6-8
    Os sacerdotes de Cristo, portanto, já estão reinando, pelo serviço de Salvação que nos prestam: "Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça; e deles fizeste para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a terra." Ap 5,9-10
    E os Santos, cujas almas já estão nos Céus, já vivem uma nova vida e estão reinando com Cristo. São sacerdotes da eternidade, passando por um ínterim exclusivamente espiritual, à espera da Ressurreição da carne, como atestou São João Evangelista: "Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e todos aqueles que não tinham adorado a Fera ou sua imagem, que não tinham recebido o seu sinal na fronte nem nas mãos. Eles viveram uma vida nova e reinaram com Cristo por mil anos. Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,6
    São Paulo e São Barnabé, no entanto, bem sabiam que, a exemplo da Cruz, alcançar o Reino da Justiça seria uma dolorosa tarefa, dada a oposição do Maligno que a Igreja cotidianamente enfrenta no mundo. Mas, pelo Sacramento da Crisma, recomendavam a todos os fiéis que resistissem: "Confirmavam as almas dos discípulos e exortavam-nos a perseverar na , dizendo que é necessário entrarmos no Reino de Deus por meio de muitas tribulações." At 14,22
    O Apóstolo de Tarso pede-nos um testemunho de vida, portanto, aquele que damos através de nossas atitudes: "Porque o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos." 1 Cor 4,20
    E afirma que após o Juízo Final, na Criação do novo Céu e nova Terra, o Reinado de Jesus será repassado a Deus Pai: "Depois, virá o fim, quando entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. E, quando tudo Lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem Àquele que Lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,24.28
    Das visões que teve, no Livro do Apocalipse São João Evangelista descreveu assim o trono e o Reinado de Deus, que se perfaz na Santíssima Trindade:

    "Imediatamente, fui arrebatado em espírito; no Céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser. E Quem estava sentado assemelhava-Se pelo aspecto a uma pedra de jaspe e de sardônica. Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono.
    Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça. Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus.
    Havia ainda diante do trono um mar límpido como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro Animais vivos cheios de olhos na frente e atrás. O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo.
    Estes Animais tinham cada um seis asas cobertas de olhos por dentro e por fora. Não cessavam de clamar dia e noite:
    - Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, O que é, O que era e O que deve voltar.
    E cada vez que aqueles Animais rendiam glória, honra e ação de graças Àquele que vive pelos séculos dos séculos, os vinte e quatro Anciãos inclinavam-se profundamente diante d'Aquele que estava no trono e prostravam-se diante d'Aquele que vive pelos séculos dos séculos, e depunham suas coroas diante do trono, dizendo:
    - Tu és digno Senhor, Nosso Deus, de receber a honra, a glória e a majestade, porque criaste todas as coisas, e por Tua vontade é que existem e foram criadas.
    Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares, bradando em alta voz:
    - Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor.
    Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão... o Cordeiro... é Senhor dos senhores e Rei dos reis.
    Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia:
    - Eis aqui o Tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o Seu povo, e Deus mesmo estará com eles.
    Então O que está assentado no trono disse:
    - Eis que Eu renovo todas as coisas."
                        Ap 4,2-11;5,11-12;7,9;17,14;21,3.5

    "Vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre!"

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Santa Catarina de Alexandria


    Uma linda jovem de 17 anos, filha de Costus, o rei de Alexandria, foi ao palácio do imperador romano Maximino II para convencê-lo, através de teologia e filosofia, da inutilidade do culto aos deuses pagãos e da Encarnação de Deus na Pessoa de Jesus. Sábia e piedosa, desejava verdadeiramente a Salvação do imperador, pois corria risco de vida tão somente por apresentar-se como cristã. Com esse heroico gesto, esperava também acabar com a perseguição aos cristãos.
    Surpreso e encantado, o imperador pediu-a em casamento, prometendo até divorciar-se para dedicar-se só a ela, mas ele não sabia que Santa Catarina já havia desposado Jesus.
    Quando mais nova, nossa Santa dizia que queria casar com um jovem que fosse tão bonito e inteligente quanto ela mesma, e assim recebeu várias visitas e cortejos, mas rejeitava todos porque achava que lhes faltava ou beleza ou inteligência. Ananias, um sábio eremita e visionário cristão, a quem ela muito admirava, disse-lhe uma vez: "A Virgem Maria te encontrará um esposo!"
    Poucos dias depois, Nossa Senhora apareceu-lhe trazendo o Menino Jesus pela mão. E perguntou a Santa Catarina: "Tu gostas d'Ele?" Ela, muito encantada, foi logo dizendo: "Oh, sim!"' Maria, então, voltando-se para Jesus, perguntou-Lhe: "E Tu? Gostas dela?" O Menino Jesus, porém, respondeu com repúdio: "Não, é muito feia." Chorando muito, logo que pôde Santa Catarina foi ao encontro de Ananias, e ele inspiradamente explicou-lhe: "Não é tua beleza que Ele reprova, mas o orgulho que vive em tua alma."
    Foi quando ela passou a ouvir ainda mais atentamente as palavras do devoto eremita, e abraçou verdadeiramente o Catolicismo. Por rigorosos exercícios de ascese, alcançou finalmente a humildade que lhe faltava, quando mais uma vez lhe apareceu Nossa Senhora acompanhada do Menino Jesus, que agora lhe olhava com pureza nos olhos. A Virgem Santíssima tinha um par de alianças e colocou uma em seu dedo e a outra no dedo do Menino Jesus. Esse fato ficou conhecido como o 'Casamento Místico de Santa Catarina'.
    A proposta de casamento do imperador, portanto, encontrava esse intransponível obstáculo. E diante da convicta recusa de Santa Catarina, assim como de seus luminosos e persistentes argumentos tentando converter-lhe, o imperador convocou 50 sacerdotes da religião pagã para debater com aquela humilde jovem, que lhe parecia enigmática, mas certamente era muito sábia.
    Mas acabou muito irritado ao ver que os sábios não lhe podiam resistir! Profundamente inspirada pelo Espírito de Deus, em poucos dias Santa Catarina não só os calou como também conseguiu convertê-los. Realmente furioso, Maximino II ordenou que os sacerdotes fossem queimados vivos, e junto a eles sua esposa, além de Porfírio, que era seu ajudante de campo, e quase 200 oficiais. Impressionados com a poderosa Doutrina anunciada por aquela jovem, todos haviam acompanhado por dias e horas a fio os debates que se deram na corte, e assim acabaram por converter-se.
    Quanto a Santa Catarina, ele ordenou que fosse morta sob tortura numa roda de navalhas. Sem mostrar nenhum temor, porém, pois esperava ardentemente viver em definitivo seu Matrimônio com Cristo, ela simplesmente fez o Sinal da Cruz e esperou a morte. E como um grande sinal de Deus, ao começarem a rodá-lo, o aparelho foi milagrosamente despedaçando-se diante de todos, sem sequer atingir-lhe.


    Estupefato, mas temendo um novo vexame, Maximino II conduziu-a pessoalmente para fora da cidade e decapitou-a. Do seu pescoço, no entanto, saiu apenas leite, o que fez o imperador retirar-se para dentro do palácio visivelmente trêmulo e assombrado. Era por volta do ano de 308.
    Ela é uma dos 14 Santos Auxiliares, os eficazes intercessores contra alguns específicos males: é a protetora contra a morte súbita. É aclamada também como a padroeira dos estudantes, filósofos e professores.
    Já no século XV, Santa Catarina apareceu várias vezes a Santa Joana d'Arc, indicando inclusive o lugar onde ela encontraria a espada para levar a França à vitória contra os ingleses, na Guerra dos Cem Anos.
    Seu corpo não restou nos ermos da cidade por muito tempo, pois apareceram alguns anjos e levaram-no para o exato lugar, no Monte Sinai, onde Moisés viu a sarça ardente. E desde seu sepultamento, assistido por monges eremitas cristãos, instituiu-se aí um santuário de peregrinação, onde grandes Graças são alcançadas. Contudo só no século VII, alguns anos após o término da construção do monastério, seu túmulo foi devidamente identificado, pois temendo que infiéis ou saqueadores o violassem, tornou-se tradição entre os monges mantê-lo oculto. Esse lapso de tempo, porém, só fez aumentar a devoção à jovem mártir.
    O monastério erguido entre 527 e 565, por ordem do imperador cristão Justiniano I, é o mais antigo em atividade de toda cristandade. O lugar da sarça ardente, assim como uma planta de sua germinação, foram preservados.


    Santa Catarina, rogai por nós!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Santo André Dung-Lac e companheiros


    Segundo Tertuliano, um Padre Latino do século II: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos."
    Como em muitos lugares no mundo onde os cristãos foram mortos por não renegar a Santa Fé, aliás, como em Roma nos primeiros séculos, no Vietnã não foi diferente. E um dos líderes que seguiu o mesmo caminho de Cristo foi Santo André Dung-Lac, decapitado na capital, Hanói, em 1839.
    A evangelização em suas terras começou ainda no século XVI, na Era da Circunavegações, com a chegada dos primeiros missionários europeus, principalmente portugueses, de diversas ordens e congregações. E assim tiveram início mais de quatro séculos de violentas perseguições perpetradas pelas autoridades locais, vitimando bispos, padres, seminaristas, catequistas e leigos, sendo destes últimos a maioria pais e mães de cristãos.
    Em 1580 já havia um surpreendente número de mártires em seu país. Só Roma Antiga teria visto tantos sacrifícios. De 1625 a 1886 iniciou-se uma grande e sistemática perseguição aos cristãos em toda a Ásia, e só no Vietnã foram mais 130 mil mortes. Assistindo vultosa escala de conversões, e enciumados pela perda da devoção que o povo lhes tinha, reis e governantes declararam ódio ao cristianismo e morte qualquer um que anunciasse o Evangelho ou se tornasse cristão.
    Nosso Santo nasceu em Bac-Ninh, no norte do Vietnã, aproximadamente em 1795, de família muito pobre. Quando seus pais procuraram trabalho em Hanói, aos 12 anos a guarda de Dung An Trân foi entregue a um diligente catequista, que prometeu dar-lhe casa e alimento. Sempre muito lúcido, ele teve educação cristã por 3 anos e foi batizado com o nome de André Dung. Aprendeu latim e chinês e tornou-se ele mesmo um catequista, viajando por todo país.
    Escolhido para estudar Teologia, tornou-se padre dominicano em 1823. Incansável pregador, jejuava com frequência e batizava muita almas. Ainda seminarista, revelou-se profícuo missionário atuando nas mais diversas regiões de sua terra, muitas delas de extrema pobreza.
    Para que se tenha uma ideia da incipiente condição de seu trabalho, o alfabeto vietnamita foi criado no século XVII por Alexander de Rhodes, um padre jesuíta francês, baseando-se na anotações de missionários portugueses do século anterior. É também deste pioneiro o primeiro catecismo local.


    Preso por várias vezes, e sempre libertado por doações feitas pelo povo ou por fianças secretamente pagas pela congregação, Santo André Dung-Lac nunca concordava com elas. Dizia: "Aqueles que morrem pela fé sobem ao Céu. Ao contrário, nós que nos escondemos continuamente gastamos nosso dinheiro para fugir dos perseguidores. Seria melhor deixar-nos prender e morrer."    
    Como assassiná-los simplesmente não surtia o efeito desejado, pois, para o povo que bem assimilava o catecismo, o martírio era realmente a essência do Cristianismo, antes de serem mortos, e para maior humilhação, os cristãos eram marcados em suas faces com as palavras 'ta dao', que significa falsa religião, além de presos e torturados por longos períodos. Maridos eram afastados das esposas, e as crianças dos pais. Os refugiados nas mais longínquas florestas e montanhas eram sumariamente executados. Mas, quanto mais perseguidos, mais crescia o amor a Deus entre eles.


    Santo André Dung-Lac foi morto após dolorosas e intermináveis torturas. Contando com ele, na fase mais cruel perseguição foram 117 mártires, a maioria atuantes entre 1830 e 1870: entre os ordenados eram 36 padres vietnamitas e 21 missionários estrangeiros, sendo 6 bispos e 5 padres dominicanos espanhóis, além de 10 franceses, que eram 2 bispos e 8 padres da Sociedade das Missões Estrangeiras.
    Junto a leigos eles entregaram suas almas a Cristo em 76 decapitações, 21 estrangulamentos, 5 mutilações, 5 queimados vivos e 9 mortos por tortura. Demonstrando a exemplar resignação e resistência disseminada entre eles, nenhum sequer vacilou em abandonar o Catolicismo.


    Em 1862, por fim, um tratado assinado com a França começou a garantir a liberdade religiosa no país, mas demorou mais de duas décadas para ser plenamente respeitado.
    Suas histórias inspiraram fortemente Santa Teresinha de Lisieux a candidatar-se a voluntária entre freiras carmelitas para servir a Deus em Hanói. Ela deixou escrito em seu diário que seu grande sonho era ser missionária, nominadamente nessa cidade, mas a gravidade de sua enfermidade não lhe permitiu.
    Contudo, movidos pela bestial ira do comunismo, em 1955 russos e chineses puseram-se a aniquilar padres e bispos, além de milhares de fiéis por todo o país. O efeito desse verdadeiro banho de sangue, porém, foi inverso. Não por acaso, a população do Vietnã tornou-se a quinta maior de católicos da Ásia.
    Nossos 117 mártires foram beatificados em quatro grupos separados no início do século passado, por três papas, mas canonizados juntos em 1988 pelo Papa São João Paulo II.


    Suas relíquias são veneradas na Igreja de Bá Chuong, na cidade de Ho Chi Minh, antiga Saigon, no sul do Vietnã.


    Santo André Dung-Lac e companheiros, rogai por nós!