quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Santo André Apóstolo


    O irmão de São Pedro é considerado o 'protocletos', que em grego significa 'primeiro convocado'. Religioso e sensível, já era discípulo de São João Batista quando Jesus apresentou-Se para ser batizado. É também o primeiro a reconhecer e a anunciar Jesus como o Messias, além de convocar um novo discípulo, o próprio São Pedro. São João Evangelista narrou esse episódio: "No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos. E, avistando Jesus que ia passando, disse: 'Eis o Cordeiro de Deus.' Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Voltando-Se Jesus e vendo que O seguiam, perguntou-lhes: 'Que procurais?' Disseram-Lhe: 'Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?' 'Vinde e vede', respondeu-lhes Ele. Foram aonde Ele morava e ficaram com Ele aquele dia. Era cerca da hora décima. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que O tinham seguido. Foi Ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: 'Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo).' Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: 'Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra).'" Jo 1,35-42
    Por essa frase, vemos que Jesus demonstra conhecer São Pedro e também seu pai, portanto, pai também de Santo André. Como São Filipe, eles eram de Betsaida, nome que significa 'casa da pesca', lugar próximo a Cafarnaum e ao Mar da Galileia: "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Sabemos que, junto ao irmão, Santo André fazia parte de uma colônia de pescadores, mas, após Se retirar para o deserto por 40 dias, Jesus retornou e convidou-os para que pescassem almas: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.' Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: 'Vinde após Mim e vos farei pescadores de homens.' Na mesma hora abandonaram suas redes e O seguiram." Mt 4,17-20
    Santo André era solteiro, e morava com São Pedro, cuja casa teria sido dote de casamento, pois morava com sua sogra: "Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-Se a ensinar. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-Lhe a respeito dela. Aproximando-Se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21.29-31
    Na lista dos 12 Apóstolos, Santo André sempre aparece em segundo lugar, atrás apenas do irmão, o Príncipe dos Apóstolos: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e passou aí toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,12-16
    No dia em que multiplicou pães e peixes, Jesus provocou São Filipe, mas foi Santo André quem dispôs do que os Apóstolos tinham para que o milagre da 'partilha' acontecesse: "Jesus subiu a um monte e ali Se sentou com Seus discípulos. Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com Ele e disse a Filipe: 'Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?' Um dos Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe: 'Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... mas que é isto para tanta gente?'" Jo 6,3-9
    E é através de Santo André que São Filipe leva um recado a Jesus, quando Nosso Salvador percebe que Seu Nome já havia chegado a países vizinhos, e por isso anuncia a chegada de Sua hora: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus.' Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Por essas passagens e pela seguinte, notamos que Santo André fazia parte de um grupo mais íntimo de Cristo, ainda que não tão íntimo como eram São Pedro, São Tiago Maior e São João: "Saindo Jesus do Templo, disse-Lhe um dos Seus discípulos: 'Mestre, olha que pedras e que construções!' Jesus replicou-lhe: 'Vês este grande edifício? Não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida.' E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso se vai realizar?' Jesus pôs-Se então a dizer-lhes: 'Cuidai que ninguém vos engane. A respeito, porém, daquele dia ou daquela hora, ninguém o sabe, nem os anjos do Céu nem mesmo o Filho, mas somente o Pai.'" Mc 13,1-7.32
    No livro dos Atos dos Apóstolos, Santo André só é mencionado nos dias que antecede ao Pentecostes, o que indica sua intensa atividade fora de Jerusalém desde os primeiros anos da Igreja, como sustenta a Sagrada Tradição: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago." Ap 1,13
    Segundo Santo Hipólito, após a Ascensão de Jesus, Santo André pregou na Trácia, hoje uma região da Bulgária. O livro apócrifo 'Atos de André' aponta-o como o fundador da igreja de Bizâncio, que no século IV iria ser chamada de Constantinopla. Este fato teria acontecido no ano de 38. Estácio teria sido ordenado bispo por ele, e substituiu-o após sua partida em peregrinação. Ainda hoje ele é reconhecido como o padroeiro de Istambul, atual nome da cidade, a mais importante da Turquia.
    Baseando-se em Orígenes, Eusébio de Cesareia diz que Santo André teria pregado na Ásia Menor, atual Turquia, especificamente na região da Cítia, que fica na costa do Mar Negro, peregrinado por algumas cidades ao longo do Rio Volga, e por isso é também o padroeiro da Rússia, além de evangelizado Kiev, na atual Ucrânia. É padroeiro igualmente da Romênia, onde também exerceu seu apostolado. Parece mesmo ter tomado todo o entorno do Mar Negro como área de atuação.
    De volta a Grécia, radicou-se em Patras, na região da Acaia, terras do sudeste, onde fundou a igreja local que viria a ser modelo para todas as demais. O governador e juiz romano Egéas quis impor-lhe sua autoridade, mas ele recusou-a e respondeu-lhe dizendo que ele é que teria que submeter-se à autoridade de Cristo. Disse-lhe ainda que os deuses pagãos eram na verdade demônios, que seduziam e enganavam a todos. Foi a gota d'água. Enfurecido, Egéas ordenou que ele fosse crucificado, porém ficaram todos espantados quando ele recebeu sua condenação com alegria. Numa atitude que vai lembrar a de São Pedro, embora tenha sido crucificado antes dele, Santo André pediu apenas que fosse crucificado numa cruz diferente da de Jesus, porque não era digno de morrer como Seu Mestre.


    Foi dependurado numa cruz em forma de X por 2 dias, e antes de morrer doou todos os seus pertences aos carrascos, que estavam visivelmente constrangidos em cumprir aquela ordem. Seus restos mortais ficaram em Patras até 357, quando Constantino levou-os a Constantinopla. Na Quarta Cruzada, no início do século XII, os cruzados levaram-nos a Roma, por temerem as profanações dos invasores turcos, seguidores do islamismo.
    Conforme a Tradição, ao serem levadas a Europa pelos cruzados, suas relíquias estiveram primeiro na Escócia, onde ficou por bom tempo numa cidade que passou a levar seu nome, Saint Andrews, e por isso a bandeira deste país traz sua cruz.


    Após a união entre a Escócia e a Inglaterra, cuja bandeira já ostentava a Cruz de Cristo, a flâmula do Reino Unido incorporou a cruz de Santo André.


    Em 1964, o beato Papa Paulo VI devolveu suas relíquias a Patras, quando já eram apenas os ossos de um dedo, parte do crânio e pedaços de sua cruz.


    Santo André, rogai por nós!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

O Mistério de Cristo


    Antes da Ressurreição e da Ascensão ao Céu, o mais grandioso fenômeno realizado por Jesus diante dos Apóstolos certamente foi a Transfiguração, quando lhes manifestou plenamente Sua condição divina. Por isso Ele pediu que os Apóstolos aguardassem o devido tempo para começar a divulgá-la.
    Esse episódio foi narrado assim por São Mateus:
    "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.
    Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com Ele. Pedro tomou então a palavra e disse-lhe:
    - Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias.
    Falava ele ainda, quando veio uma luminosa nuvem e envolveu-os. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia:
    - Eis o Meu Filho muito amado, em Quem pus toda Minha afeição; ouvi-O.
    Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-Se deles e tocou-os, dizendo:
    - Levantai-vos e não temais.
    Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus.
    E quando desciam, Jesus fez-lhes esta proibição:
    - Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos." Mt 17,2-3.9


A REVELAÇÃO PESSOAL

    Mas, mesmo tendo esperado o oportuno momento, não foi fácil divulgar tão desconcertante Revelação. Num suspiro, São Paulo falou dos esforços que fazia para anunciar a Encarnação do Cristo, sem dúvida, o maior mistério de Deus: "Tudo sofro para que os seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de uma plenitude de inteligência, para conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos os tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    E sabendo que tinha em mãos uma tarefa que ia muito além de suas capacidades, ele pedia humildemente por orações: "Orai também por nós. Pedi a Deus que dê livre curso à nossa palavra para que possamos anunciar o mistério de Cristo." Cl 4,3
    Assim, tanto quanto o próprio Cristo, o Evangelho é uma manifestação de divinos mistérios: "E orai também por mim, para que me seja dado anunciar corajosamente o mistério do Evangelho..." Ef 6,19
    Com efeito, o próprio Jesus havia dito que só revelaria o Pai a quem Ele quisesse, de onde se entende que Ele O revela de pessoa em pessoa: "Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O quiser revelar." Lc 10,22
    No mesmo sentido, São Paulo diz que só se pode dar conta de que Jesus é Deus com o auxílio do Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Por isso, ao constatar a incredulidade de tantos, mesmo diante de tão grandiosos milagres, o próprio Jesus apontou, na revelação pessoal e seletiva, um desígnio do Pai: "Eu Te bendigo, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos." Mt 11,25
    Ora, até mesmo parentes próximos de Jesus, não sem algum despeito, d'Ele exigiam que Se revelasse de uma vez ao mundo todo, e não sutilmente, de pessoa em pessoa como Ele fazia: "Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também os Teus discípulos vejam as obras que fazes. Pois quem deseja ser conhecido em público não faz coisa alguma ocultamente. Já que fazes essas obras, revela-Te ao mundo." Jo 7,3-4
    Jesus, porém, prometeu manifestar-Se apenas de um em um aos que O amam, falando assim a cada coração em particular: "Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu o amarei e manifestar-Me-ei a ele." Jo 14,21
    São Judas Tadeu, movido por sincera curiosidade, vai perguntar a Jesus o porquê de Suas manifestações pessoais: "Pergunta-lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?'" Jo 14,22
    Mas Ele respondeu tão somente garantindo vir morar com o Pai no coração de quem O Ama, ou seja, revelando-Se pessoalmente, sem fazer menção, nessa resposta, à Sua última e definitiva manifestação, que será a Parusia, Sua volta: "Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará a Minha Palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,23
    Sem dúvida, foi isso que Ele atestou quando rezou ao Pai pela Unidade da Igreja: "Manifestei o Teu Nome aos homens que do mundo Me deste. Agora eles reconheceram que todas as coisas que Me deste procedem de Ti." Jo 17,6a.7
    E havia dito: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44a
    profeta Jeremias já havia previsto que as revelações de Deus seriam pessoais, àqueles que O invocam com sinceridade e persistência: "Eis o que diz o Senhor que criou a terra, que a modelou e consolidou e Cujo Nome é Javé: 'Invoca-Me, e te responderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras.'" Jr 33,2-3
    E o religioso Simeão, que inspiradamente foi ao Templo assistir a Apresentação do Menino Jesus por Nossa Senhora e São José, previu apenas que, por Sua Pessoa, iniciava-se um período em que a humanidade se revelaria perante o Salvador, e não desde logo a manifestação final de Deus: "Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35


JESUS, PLENITUDE DE DEUS

    Os Apóstolos, porém, que tão bem O conheceram, testemunharam Sua absoluta divindade. São João Evangelista, por exemplo, assegura que através de Jesus nos foi dado suficiente entendimento para conhecermos a Deus, e sabermos que Jesus é Sua verdadeira manifestação: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20
    O próprio Jesus afirmou o privilégio que era conhecê-Lo pessoalmente, como foi concedido aos Apóstolos, às pessoas que O seguiam e de Seu tempo: "Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram." Lc 10,22-23
    Ele testemunhou abertamente Sua divindade no Templo de Jerusalém, e dizia que só não O reconhecia aqueles que permanecem no pecado: "Ele disse-lhes: 'Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo. Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que EU SOU, morrereis no vosso pecado.'" Jo 8,23-24
    Por isso São Paulo atestava que na Encarnação de Jesus estava a plenitude de Deus: "Pois n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." Cl 2,9
    Não há como negar, entretanto, que mesmo com tudo que foi revelado, estamos diante de um mistério que vai muito além de nossa capacidade de compreensão. Isso já estava escrito no livro de Jó: "Oh! Se Deus pudesse falar, e abrir Seus lábios para te responder, revelar-te os mistérios da Sabedoria que são ambíguos para o espírito, saberias então que Deus esquece uma parte de tua iniquidade. Pretendes sondar as profundezas divinas, atingir a perfeição do Todo-poderoso? Ela é mais alta do que o céu: que farás? É mais profunda que os infernos: como a conhecerás? É mais longa que a terra, mais larga que o mar." Jó 11,5-9
    Quem também deixou entrever que nem tudo de Deus pode ser conhecido por nós foi o próprio São Paulo. Ele o disse na Carta aos Romanos: "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência." Rm 1,19
    Contudo, apesar de ciente da nossa limitação, São Pedro afirma que nos foi concedido tudo de que precisamos para bem conhecer a Jesus: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    E não vê dificuldade alguma em conviver com os mistérios. Ao contrário, regojiza-se com eles: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja. Dela fui constituído ministro, em virtude da missão que Deus me conferiu de anunciar em vosso favor a realização da Palavra de Deus, mistério este que esteve escondido desde a origem às gerações passadas, mas que agora foi manifestado aos Seus Santos. A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e Glória deste mistério entre os gentios: Cristo em vós, esperança da Glória! A Ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo. Eis a finalidade do meu trabalho, a razão porque luto auxiliado por Sua força que atua poderosamente em mim." Cl 1,24-29
    O Eclesiástico, por sinal, já reconhecia que mesmo os esforços de um sábio dependem da vontade de Deus para que se possa conhecer a Verdade que nos cerca. E afirma que só Ele nos pode permitir meditar sobre Seus mistérios, só Ele nos pode ensinar Sua própria Doutrina: "O sábio procura cuidadosamente a sabedoria de todos os antigos, e aplica-se ao estudo dos profetas. Guarda no coração as narrativas dos homens célebres, e penetra ao mesmo tempo nos mistérios das máximas. Penetra nos segredos dos provérbios, e vive com o sentido oculto das parábolas. Exerce o seu cargo no meio dos poderosos, e comparece perante aqueles que governam. Viaja pela terra de povos estrangeiros, para reconhecer o que há do bem e do mal entre os homens. Desde o alvorecer aplica o coração à vigília para se unir ao Senhor que o criou, e ora na presença do Altíssimo. Abre sua boca para orar, e pede perdão de seus pecados, pois se for da vontade do Senhor que é grande, Ele o cumulará do espírito de inteligência. O Senhor orientará seus conselhos e seus ensinamentos, e ele meditará nos mistérios divinos. Ensinará Ele próprio o conhecimento de Sua Doutrina. E ele porá sua glória na Lei da aliança do Senhor." Eclo 39,1-8.10-11
    No Apocalipse, enfim, temos mais uma imagem do Salvador, na qual a mística segue sendo a tônica, mas Ele próprio deixa bem claro que detém total poder sobre a Igreja: "Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, e também no Reino e na perseverança em Jesus, fui levado à ilha de Patmos, por causa da Palavra de Deus e do testemunho que eu dava de Jesus. No Dia do Senhor, fui arrebatado pelo Espírito e ouvi atrás de mim uma voz forte, como de trombeta. Então voltei-me para ver quem estava falando; e ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro. No meio dos candelabros havia alguém semelhante a um Filho de homem, vestido com uma túnica comprida e com uma faixa de ouro em volta do peito. Tinha Ele cabeça e cabelos brancos como lã cor de neve. Seus olhos eram como chamas de fogo. Seus pés pareciam-se ao bronze fino incandescido na fornalha. Sua voz era como o ruído de muitas águas. Segurava na mão direita sete estrelas. De Sua boca saía uma espada afiada, de dois gumes. O Seu rosto assemelhava-se ao sol, quando brilha com toda a força. Ao vê-lo, caí como morto a Seus pés, mas Ele colocou sobre mim Sua Mão direita e disse: 'Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, Aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para sempre. Eu tenho a chave da morte e da região dos mortos. Escreve, pois, o que viste, tanto as coisas atuais como as futuras. Eis o simbolismo das sete estrelas que viste na Minha Mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas.'" Ap 1,9-10.12-20
    E nesse mesmo livro foi-nos revelado a aparência, igualmente transcendental, que Jesus terá no Últimos Dia: "Vi ainda o Céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que Ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em Sua cabeça muitos diademas e traz escrito um Nome que ninguém conhece, senão Ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o Seu Nome é Verbo de Deus. Seguiam-nO em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De Sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque Ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!" Ap 19,11-16


IGREJA: SINAL DA REVELAÇÃO E DO MISTÉRIO

    Na Primeira Carta de São Pedro, vemos que os antigos profetas tentavam entender como se daria a Salvação, através da manifestação do Messias, mas isso não lhes foi concedido. Até mesmo os anjos tiveram que aguardar Sua Revelação para compreendê-La: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu. Revelações estas, que os próprios anjos desejam contemplar." 1 Pd 1,12
    São Paulo, na Carta aos Efésios, vai reafirmar que as 'riquezas de Cristo' estão muito além dos nossos conhecimentos, e, em íntima concordância com São Pedro, revela que os anjos precisam contemplar Sua principal obra, a Igreja, para assim melhor entender os planos de Deus: "A mim, o mais insignificante dentre todos os Santos, coube-me a graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou. Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da Divina Sabedoria, de acordo com o desígnio eterno que Deus realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,8-11
    Sustenta ainda que só podemos fazer parte do Corpo Místico de Cristo, ou seja, da Igreja, se conduzidos pelo Espírito Santo, pois só a ela foi revelada, e também pelo Espírito, a Doutrina da Salvação: "É em Cristo que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus. Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos Apóstolos e profetas." Ef 2,22; 3,3-5
    E arremata: "Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,32


AMOR, PAZ E CONSOLAÇÃO QUE EXCEDEM TODO ENTENDIMENTO

    Na Carta aos Romanos, São Paulo assentou que, se estivermos dispostos a cumprir Seu projeto, Cristo já pode ser conhecido, embora, como visto acima, conforme seja de Seus desígnios revelar-Se: "Àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu Evangelho, na pregação de Jesus Cristo - conforme a revelação do mistério, guardado em segredo durante séculos, mas agora manifestado por ordem do eterno Deus e, por meio das Escrituras proféticas, dado a conhecer a todas as nações, a fim de levá-las à obediência da ..." Rm 16,25-26
    Isso significa que continuamos carentes dos auxílios de Seu Espírito para perceber sempre mais tal revelação, como ensina São Paulo: "Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as graças que Deus nos prodigalizou, e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar." 1 Cor 2,7.10.13-14
    Com efeito, Cristo representa a reconciliação entre os Céus e a Terra, e assim nosso retorno ao Paraíso: "Ele manifestou-nos o misterioso desígnio de Sua vontade, que em Sua benevolência formara desde sempre, para realizá-lo na plenitude dos tempos - desígnio de reunir em Cristo todas as coisas, as que estão nos Céus e as que estão na Terra." Ef 1,9-10
    Desde a manifestação de Jesus, portanto, sabemos que, através da presença de Seu Espírito, Deus jamais nos abandona: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    E que por Seus ensinamentos tudo colabora para a construção do Reino dos Céus: "Porque n'Ele se revela a justiça de Deus..." Rm 1,17
    Essa certeza nós podemos ter pela Paz que Ele nos concede sentir, que é radicalmente diferente da paz que se pode obter pelas coisas do mundo. Ele disse: "Deixo-vos a Paz, dou-vos a Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    E essa Paz, que sabemos ser indizível, também é um mistério: "E a Paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus." Fl 4,17
    Assim, ao contemplar o Cristo crucificado temos a certeza de estar diante do amor maior, muito além de tudo o que podemos conhecer. Ao referir-se a esse amor, São Paulo diz: "... a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento..." Ef 3,19
    N'Ele temos uma inquebrantável consolação: "Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, Nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna..." 2 Ts 2,16
    Pois é Ele mesmo que nos conforta: "... Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações..." 2 Cor 1,3-4
    Por isso São Paulo alegra-se e exulta com o triunfante projeto de Deus na Pessoa de Jesus: "Sim, é tão sublime - unanimemente o proclamamos - o mistério da bondade divina: manifestado na carne, justificado no Espírito, visto pelos anjos, anunciado aos povos, acreditado no mundo, exaltado na Glória!" 1 Tm 3,16
    Santa Teresinha do Menino Jesus, Doutora da Igreja, dizia sobre a Boa Nova de Cristo: "É acima de tudo o Evangelho que me ocupa durante as minhas orações; nele encontro tudo o que é necessário para minha pobre alma. Descubro nele sempre novas luzes, sentidos escondidos e misteriosos."

    "Anunciamos, Senhor, a Vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!"

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os Anjos do Apocalipse


    Como é de se perceber, o livro do Apocalipse faz vasto uso de simbologia. Isso quer dizer que suas figuras valem mais pelo que representam e menos por si mesmas. Elas estão, por assim dizer, acima de ambiguidades e incoerências. Precisamos, portanto, apreciar suas mensagens mais pelo contexto histórico-religioso e não apenas literalmente, não desfazendo, porém, a vivacidade de suas verdades de fé, que, embora sutis, são até mais ricas de significados. A própria palavra apocalipse, do grego, hoje usada como sinônimo de fim do mundo, quer dizer tão somente Revelação, embora inclua também revelações sobre o fim dos tempos.
    Um das marcas deste livro é a intensa participação dos anjos nas visões que teve São João Evangelista. E é igualmente tão grandiosa que às vezes se confunde com a manifestação do próprio Cristo, como acontece com Deus Pai, aliás, em algumas passagens do Antigo Testamento. É o que vemos logo nas primeiras linhas: "Revelação de Jesus Cristo, que Lhe foi confiada por Deus para manifestar aos Seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por Sua vez, por intermédio de Seu anjo, comunicou ao Seu servo João, o qual atesta, como Palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo o que viu. Num domingo, fui arrebatado em êxtase..." Ap 1,1-2.10
    Igualmente intensa é a participação deles em nossas vidas, mesmo que nós, cegos pelas coisas desse mundo, não a percebamos. É o caso de nosso anjo da guarda, por exemplo, e como ensina o Apocalipse, cada igreja, enquanto Diocese, tem seu anjo. Diz Jesus: "Eis o simbolismo das sete estrelas que viste na Minha mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas." Ap 1,20
    Tanto que São João, que para isso foi convocado, passou a escrever as mensagens que lhe eram ditadas não diretamente às igrejas, mas primeiro aos seus anjos. Jesus ordenou-lhe: "Ao anjo da igreja de Éfeso, escreve..." Ap 2,1
    É um anjo de Deus, da mesma forma, que vai dar ensejo à última e definitiva manifestação de Jesus, o Leão de Judá, o Cordeiro de Deus: "Eu vi também, na mão direita d'Aquele que estava assentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. Vi então um anjo vigoroso, que clamava em alta voz: 'Quem é digno de abrir o livro e desatar os seus selos?'" Ap 5,1-2
    E são muitos, muitos os anjos que já O adoram no Céu: "Na minha visão ouvi também, ao redor do trono, dos Animais e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de milhares de milhares e de milhões de milhões, bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.'" Ap 5,11-12
    São anjos também os que detém o poder dos 'ventos', numa clara alusão às forças da natureza: "Depois disso, vi quatro anjos que se conservavam em pé nos quatro cantos da terra, detendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, sobre o mar ou sobre árvore alguma." Ap 7,1
    Eles obedecem ao comando de outro anjo, revelando que há hierarquia entre eles, anjo esse que tem uma tarefa bem específica: o divino ministério do Batismo: "Vi ainda outro anjo subir do oriente; trazia o selo de Deus vivo, e pôs-se a clamar com voz retumbante aos quatro anjos, aos quais fora dado danificar a terra e o mar, dizendo: 'Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que tenhamos assinalado os servos de Nosso Deus em suas frontes.'" Ap 7,3-2
    E ante a presença dos Santos, todos eles se juntam para louvar a Deus, que é o ritual celeste de onde temos nossa Santa Missa: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro.' E todos os anjos estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Animais; prostravam-se de face em terra diante do trono e adoravam a Deus, dizendo: 'Amém, louvor, Glória, Sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao Nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém.'" Ap 7,9-12
    Os anjos que assistem diretamente a Deus, pertencentes a outra hierarquia, têm como missão anunciar com trombetas os castigos que vão assolar a Terra: "Eu vi os sete anjos que assistem diante de Deus. Foram-lhes dadas sete trombetas." Ap 8,2
    Eles apresentam-se de forma muito especial: "Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete espíritos de Deus." Ap 4,5b
    Estão à serviço do Cristo: "Ao anjo da igreja de Sardes, escreve: 'Eis o que diz Aquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas.'" Ap 3,1a
    São parte dos atributos do Cordeiro, em vigília por todo o mundo: "Tinha Ele sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus, enviados por toda a terra." Ap 5,6b


OS SETE CASTIGOS

    Mas esses castigos são precedidos por um turíbulo cheio de brasas que vem do Altar Celestial, no qual se despejam os incensos que representam as orações dos santos que clamam por justiça: "Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao Altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os Santos no Altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos Santos, diante de Deus. Depois disso, o anjo tomou o turíbulo, encheu-o de brasas do altar e lançou-o por terra; e houve trovões, vozes, relâmpagos e terremotos." Ap 8,3-5
    E assim vêm os castigos, que lembram as pragas do Egito, onde o sangue claramente significa morte. O primeiro altera de forma drástica a amenidade do clima, destruindo boa parte de nossa capacidade de produção de alimentos: "Então os sete anjos, que tinham as trombetas, prepararam-se para tocar. O primeiro anjo tocou. Saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra; e queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde." Ap 8,6-7
    O segundo aponta para um grande desastre ecológico nos oceanos, também sinalizado pela morte, que, além do clima, afeta severamente a pesca e o comércio internacional: "O segundo anjo tocou. Caiu então no mar como que grande montanha, ardendo em fogo, e transformou-se em sangue uma terça parte do mar, morreu uma terça parte das criaturas que estavam no mar e pereceu uma terça parte dos navios." Ap 8,8-9
    O terceiro castigo atinge letalmente um expressivo manancial de nossa água potável: "O terceiro anjo tocou a trombeta. Caiu então do Céu uma grande estrela a arder como um facho; caiu sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes. O nome da estrela era Absinto. Assim, uma terça parte das águas transformou-se em absinto e muitos homens morreram por ter bebido dessas águas envenenadas." Ap 8,10-11
    O quarto castigo indica um cataclismo cósmico, provocando escurecimento global: "O quarto anjo tocou. Foi atingida então uma terça parte do sol, da lua e das estrelas, de modo que se obscureceram em um terço; e o dia perdeu um terço da claridade, bem como a noite. A esta altura de minha visão, eu ouvi uma águia que voava pelo meio dos céus, clamando em alta voz: 'Ai, ai, ai dos habitantes da terra, por causa dos restantes sons das trombetas dos três anjos que ainda vão tocar.'" Ap 8,12-13
    O quinto castigo aponta para uma enfermidade não mortal, mas causadora de dores agonizantes. A estrela cadente é o próprio Diabo, que consegue libertar os anjos decaídos, cujas armas invariavelmente causam terríveis tormentos psicológicos: "O quinto anjo tocou a trombeta. Vi então uma estrela cair do céu na terra, e foi-lhe dada a chave do poço do abismo; ela o abriu e saiu do poço uma fumaça como a de uma grande fornalha. O sol e o ar obscureceram-se com a fumaça do poço. Da fumaça saíram gafanhotos pela terra, e foi-lhes dado poder semelhante ao dos escorpiões da terra. Mas foi-lhes dito que não causassem dano à erva, verdura, ou árvore alguma, mas somente aos homens que não têm o selo de Deus na fronte. Foi-lhes ordenado que não os matassem, mas os afligissem por cinco meses. Seu tormento era como o da picada do escorpião. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a conseguirão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles. Têm eles por rei o anjo do abismo; chama-se em hebraico Abadon, e em grego, Apolion." Ap 9,1-6.11
    O sexto castigo é aterradoramente mortal, lembra o ataque dos exércitos de uma nação inimiga chefiada por generais que se portam como facínoras, mas a morte que causam só é comparável às agonias do inferno. Contudo, mesmo diante de imensa tragédia, a maioria das pessoas insistirão em suas perversões: "Terminado assim o primeiro ai, eis que, depois dele, vêm ainda dois outros. O sexto anjo tocou a trombeta. Ouvi então uma voz que vinha dos quatro cantos do altar de ouro, que está diante de Deus, e que dizia ao sexto anjo que tinha a trombeta: 'Solta os quatro anjos que estão acorrentados à beira do grande rio Eufrates.' Então foram soltos os quatro anjos que se conservavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano da matança da terça parte dos homens... O número de soldados desta cavalaria era de duzentos milhões. Eu ouvi o seu número. E uma terça parte dos homens foi morta por esses três flagelos (fogo, fumaça e enxofre) que lhes saíam das narinas. Mas o restante dos homens, que não foram mortos por esses três flagelos, não se arrependeu das obras de suas mãos." Ap 9,12-16.18.20
    Outro anjo, que também se confunde com o Cristo por aparência, poder e simbologia, clama e a voz de Deus se faz ouvir através de trovões, mas tal mensagem é um segredo. É quando ele entrega a São João o Evangelho, que é doce de ser anunciado, mas acarretará grandes sofrimentos aos que o divulgarem. No entanto, tal missão é imperativa e urgente: "Vi então outro anjo poderoso descer do Céu, revestido de uma nuvem e com o arco-íris em torno da cabeça. Seu rosto era como sol, e as suas pernas como colunas de fogo. Segurava na mão um pequeno livro aberto. Pôs o pé direito sobre o mar, o esquerdo sobre a terra e começou a clamar em alta voz, como um leão que ruge. Quando clamou, os sete trovões ressoaram. Quando cessaram de falar, dispunha-me a escrever, mas ouvi uma voz do Céu que dizia: 'Sela o que falaram os sete trovões e não o escrevas.' Então o anjo, que eu vira de pé sobre o mar e a terra, levantou a mão direita para o Céu e jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que criou o céu e tudo o que há nele, a terra e tudo o que ela contém, o mar e tudo o que encerra, que não haveria mais tempo; mas nos dias em que soasse a trombeta do sétimo anjo, se cumpriria o mistério de Deus, de acordo com a Boa Nova que confiou a Seus servos, os profetas. Então a voz que ouvi do Céu falou-me de novo, e disse: 'Vai e toma o pequeno livro aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e a terra.' Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele me disse: 'Toma e devora-o! Ele te será amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel.' Tomei então o pequeno livro da mão do anjo e o comi. De fato, em minha boca tinha a doçura do mel, mas depois de o ter comido, amargou-me nas entranhas. Então foi-me explicado: 'Urge que ainda profetizes de novo a numerosas nações, povos, línguas e reis.'" Ap 10,1-11
    São Pedro e São Paulo, que também profetizaram, tiveram na terra o martírio como sentença, mas foram vitoriosamente elevados aos Céus. O testemunho deles traz o sétimo castigo, uma anacrônica alusão ao incêndio de Roma por Nero, bem como o fim da segunda desgraça, com a indiscriminada morte de inúmeras pessoas. Contudo, inicia-se com eles o vigoroso tempo da Igreja: "Mas incumbirei às minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. Mas, depois de terem terminado integralmente o seu testemunho, a Fera que sobe do abismo lhes fará guerra, os vencerá e os matará. Mas, depois de três dias e meio, um sopro de vida, vindo de Deus, os penetrou. Puseram-se de pé e grande terror caiu sobre aqueles que os viam. Ouviram uma forte voz do Céu que dizia: 'Subi aqui!' Subiram então para o Céu numa nuvem, enquanto os seus inimigos os olhavam. Naquela mesma hora produziu-se grande terremoto, caiu uma décima parte da cidade e pereceram no terremoto sete mil pessoas. As demais, aterrorizadas, deram glória ao Deus do Céu. Terminou assim a segunda desgraça. E eis que depressa sobrevém a terceira. O sétimo anjo tocou a trombeta. Ressoaram então no Céu altas vozes que diziam: 'O império de Nosso Senhor e de Seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e Ele reinará pelos séculos dos séculos.'" Ap 11,3.7.11-15


O CAMINHO DA SALVAÇÃO

    Como capítulo especial, a chegada de Jesus ao Céu significa a possibilidade de vitória do ser humano sobre o pecado, e nessa ocasião, por Ele e por nós combateram São Miguel Arcanjo e seus exércitos: "Houve uma batalha no Céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no Céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos. Eu ouvi no Céu uma voz forte que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e noite, diante do Nosso Deus.'" Ap 12,7-11
    Como defesa dos ataques do inimigo, também Maria Santíssima é dotada de asas, uma condição angelical e virginal, pois, como disse Jesus, os anjos 'não se casam nem se dão em casamento': "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,13-14
    É também um anjo que anunciará a triunfal volta de Jesus e o início do Juízo Final: "Vi, então, outro anjo que voava pelo meio do céu, tendo um Evangelho eterno para anunciar aos habitantes da terra e a toda nação, tribo, língua e povo. Clamava em alta voz: 'Temei a Deus, e dai-Lhe glória, porque é chegada a hora do Seu Julgamento. Adorai Aquele que fez o céu e a terra, o mar e as fontes.'" Ap 14,6-7
    Antes, porém, um anjo anuncia a queda da Babilônia, que à época era simbolizada por Roma, mas certamente foi sucedida por muitas outras grandes cidades: "Outro anjo seguiu-o, dizendo: 'Caiu, caiu a grande Babilônia, por ter dado de beber a todas as nações do vinho de sua imundície desenfreada.'" Ap 14,8
    Outro anjo avisa dos castigos aos que não se emendarem do pecado da cobiça, sob todos os aspectos, que são os castigos do inferno definitivo, da segunda morte: "Um terceiro anjo seguiu-os, dizendo em alta voz: 'Se alguém adorar a Fera e a sua imagem, e aceitar o seu sinal na fronte ou na mão, há de beber também o vinho da cólera divina, o vinho puro deitado no cálice da Sua Ira. Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos Seus santos anjos e do Cordeiro. A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a Fera e a sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal do seu nome." Ap 14,9-11
    E mais um anjo sinaliza para Jesus o início de Sua ceifa. Seu golpe, de fato, é único e definitivo: "Outro anjo saiu do Templo, gritando em voz alta para Aquele que estava assentado na nuvem: 'Lança a tua foice e ceifa, porque é chegada a hora de ceifar, pois está madura a seara da terra.' O Ser que estava assentado na nuvem lançou então a foice à terra, e a terra foi ceifada." Ap 14,15-16
    Depois é a vez do anjo que recolherá o 'joio', os maus frutos. Ele agirá ao sinal de outro anjo, que controla o fogo, e a ira de Deus se dará 'fora de Jerusalém', onde será muito grande a mortandade: "Outro anjo saiu do Templo do Céu. Tinha também uma foice afiada. E outro anjo, aquele que tem poder sobre o fogo, saiu do Altar e bradou em alta voz para aquele que tinha a foice afiada: 'Lança a foice afiada e vindima os cachos da vinha da terra, porque maduras estão as suas uvas.' O anjo lançou a sua foice à terra e vindimou a vinha da terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue que atingiu até o nível dos freios dos cavalos pelo espaço de mil e seiscentos estádios." Ap 14,17-20



OS SETE ÚLTIMOS FLAGELOS

    Os sofrimentos do mundo, porém, ainda não teriam acabado, nem o Templo do Céu estaria aberto para os que ressuscitaram para a Glória de Deus. Preparavam-se os castigos finais, prenúncios do Juízo Final: "Vi ainda, no Céu, outro sinal, grande e maravilhoso: sete anjos que tinham os sete últimos flagelos, porque por eles é que se deve consumar a ira de Deus. Os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do Templo, vestidos de linho puro e resplandecente, cingidos ao peito com cintos de ouro. Um dos quatro Animais deu-lhes então sete taças de ouro, cheias da ira de Deus que vive pelos séculos dos séculos. Encheu-se o Templo de fumaça provinda da Glória de Deus e do Seu poder. E ninguém podia entrar, enquanto não se consumassem os sete flagelos dos sete anjos." Ap 15,1.6-8
    E eis que se dá a consumação da Ira de Deus: destruição total e a batalha final: "Ouvi, então, uma voz forte saindo do Templo, que dizia aos sete anjos: 'Ide, e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.' O primeiro, portanto, pôs-se a derramar a sua taça sobre a terra. Formou-se uma úlcera atroz e maligna nos homens que tinham o sinal da Fera e que se prostravam diante de sua imagem. O segundo derramou a sua taça sobre o mar. Este tornou-se sangue, como o de um morto, e pereceu todo ser que estava no mar. O terceiro derramou a sua taça sobre os rios e as fontes das águas, e transformaram-se em sangue. Ouvi, então, o anjo das águas dizer: 'Tu és justo, Tu que és e que eras o Santo, que assim julgas. Porque eles derramaram o sangue dos Santos e dos Profetas, Tu lhes deste também sangue para beber. Eles o merecem.' Ouvi o altar dizer: 'Sim, Senhor Deus Dominador, são verdadeiros e justos os Teus julgamentos.' O quarto derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe dado queimar os homens com o fogo. E os homens foram queimados por grande calor, e amaldiçoaram o Nome de Deus, que pode desencadear esses flagelos; e não quiseram arrepender-se e dar-Lhe glória. O quinto derramou a sua taça sobre o trono da Fera. Seu reino se escureceu e seus súditos mordiam a língua de dor. Amaldiçoaram o Deus do Céu por causa de seus sofrimentos e das suas feridas, sem se arrependerem dos seus atos. O sexto derramou a sua taça sobre o grande rio Eufrates, e secaram-se as suas águas para que se abrisse caminho aos reis do oriente. Vi (sair) da boca do Dragão, da boca da Fera e da boca do falso profeta três espíritos imundos semelhantes a rãs; são os espíritos de demônios que realizam prodígios, e vão ter com os reis de toda a terra, a fim de reuni-los para a batalha do Grande Dia do Deus Dominador. 'Eis que venho como um ladrão! Feliz aquele que vigia e guarda as suas vestes para que não ande nu, ostentando a sua vergonha!' Eles os reuniram num lugar chamado em hebraico Har-Magedon. O sétimo derramou a sua taça pelos ares e saiu do Templo uma grande voz do trono, que dizia: 'Está pronto!' Houve, então, relâmpagos, vozes e trovões, assim como um terremoto tão grande como jamais houve desde que há homens na terra. A grande cidade foi dividida em três partes, e as cidades das nações caíram, e Deus lembrou-Se da grande Babilônia, para lhe dar de beber o cálice do vinho de Sua ira ardente. Todas as ilhas fugiram, e montanha alguma foi encontrada. Grandes pedras de gelo, que podiam pesar um talento, caíram do céu sobre os homens. Os homens amaldiçoaram a Deus por causa do flagelo da saraiva, pois este foi terrível." Ap 16,1-20
    O império do paganismo, por fim, é simbolizado por uma prostituta, cuja punição se aproxima: "Veio, então, um dos sete anjos que tinham as sete taças e falou comigo: 'Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas, com a qual se contaminaram os reis da terra. Ela inebriou os habitantes da terra com o vinho da sua luxúria.'" Ap 17,1-2
    O anjo que acompanha São João é quem dá os detalhes dessa revelação. A mulher é a perdição que a Babilônia simboliza, e a Fera, seu rei: "Mas o anjo me disse: 'Por que te admiras? Eu mesmo te vou dizer o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres que a carrega.'" Ap 17,7
    E o fim dos cultos pagãos, com suas falsas divindades, acontece pelo anúncio de um anjo que mais uma vez confunde-se com o próprio Jesus: "Depois disso, vi descer do Céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua Glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande.' Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo." Ap 18,1-3
    Como se podia esperar, um anjo põe fim ao poder de sedução da cidade das trevas: "Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: 'Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada.'" Ap 18,21
    Em seguida, sob às ordens de outro anjo, são barbaramente exterminados os simpatizantes das nações pagãs: "Vi, então, um anjo de pé sobre o sol, a chamar em alta voz a todas as aves que voam pelo meio dos céus: 'Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de generais e carnes de poderosos; carnes de cavalos e cavaleiros; carnes de homens, livres e escravos, pequenos e grandes.'" Ap 19,17-18
    Então um anjo, talvez São Rafael Arcanjo, como já havia feito nos relatos do livro de Tobias, aprisiona Satanás. É a vitória definitiva da fé cristã: "Vi, então, descer do Céu um anjo que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e o acorrentou por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, ele deve ser solto por um pouco de tempo." Ap 20,1-3


NOVO CÉU E NOVA TERRA

    Por fim, um dos sete anjos apresenta a São João a Jerusalém Celestial, guardada também por 12 anjos: "Então veio um dos sete anjos que tinham as sete taças cheias dos sete últimos flagelos e disse-me: 'Vem, e mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro.' Levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus. Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas por doze anjos. E mediu a muralha: cento e quarenta e quatro côvados, segundo a medida humana empregada pelo anjo." Ap 21,9-12.17
    É também esse anjo que lhe apresenta o rio da Água Viva, símbolo do Espírito Santo que recebemos nessa vida, e a fonte da Vida Eterna no Céu: "Mostrou-me então o anjo um rio de água viva resplandecente como cristal de rocha, saindo do trono de Deus e do Cordeiro." Ap 22,1
    São João então se confunde, com razão, quanto ao tratamento que deve dar ao anjo. E é avisado para divulgar as revelações que teve: "Fui eu, João, que vi e ouvi estas coisas. Depois de as ter ouvido e visto, prostrei-me aos pés do anjo que as mostrava. Mas ele me disse: 'Não faças isto! Sou um servo como tu e teus irmãos, os profetas, e aqueles que guardam as palavras deste livro. Prostra-te diante de Deus.' Disse ele ainda: 'Não seles o texto profético deste livro, porque o momento está próximo.'" Ap 22,8-10
    Ao final, Jesus toma a palavra: "Eu, Jesus, enviei o Meu anjo para vos atestar estas coisas a respeito das igrejas. 'Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a estrela radiosa da manhã.'" Ap 22,16

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"

domingo, 27 de novembro de 2016

O Advento


    O termo Advento, que significa a 'vinda' do Senhor, é um tempo do Calendário Litúrgico que se dedica à preparação da Epifania do Senhor, ou seja, da manifestação de Deus em Pessoa.
    Oficialmente, esse período foi adotado em 380 no Sínodo de Saragoza, Espanha, e previa apenas um período três semanas antes do Natal do Senhor, data em que se comemorava também a Epifania. Contudo, no final do século V, o Papa São Gelásio, percebendo a importância de instituir essa celebração, pronunciou-se sobre ela no que ficou conhecido como o 'Sacramentário Gelasiano', o segundo mais antigo livro de liturgia da Igreja.
    Mesmo antes do Sínodo de Saragoza, porém, extra-oficialmente bispos e sacerdotes da França e da Espanha já praticavam a espera do Nascimento de Jesus nos mesmos modos da Quaresma, ou seja, por um período de seis semanas e como um tempo de abstinência, jejuns e penitências.
    No século VII incluiu-se à essa celebração a espera da vinda definitiva de Jesus, a Parusia, que em grego quer dizer 'Presença', e só ocorrerá no fim dos tempos, pouco antes da restauração do Universo e da ressurreição da carne. Por isso, mais uma vez o período da celebração foi alterado, passando a ser de cinco semanas.
    Mais tarde, com os argumentos de que a Parusia já era um dos elementos essenciais de toda a Liturgia, adotou-se finalmente o período de quatro semanas, que se faz representar por quatro velas. A primeira simboliza o perdão a Adão e Eva; a segunda, a de Abrão e dos patriarcas em herdar a Terra Santa; a terceira, a alegria de Davi com a promessa da Eterna Aliança; e a quarta, a inspiração dos Profetas que anunciaram a Salvação.
    Assim as duas primeiras semanas devem ser dedicadas à contrição, como preparação para a volta definitiva de Jesus, enquanto as duas últimas são consagradas à alegria devota e piedosa por sua primeira passagem entre nós, quando da Encarnação do Cristo.
    O Advento, portanto, é um período de recolhimento e sincera conversão, como ensinava São João Batista: "Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Mas é também o período propício a reviver a espera e a chegada do Salvador, que confirmou com grandes sinais a instauração do Reino dos Céus. Com efeito, Jesus vai dizer aos fariseus, Seus ferrenhos adversários: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Tais sinais confirmavam que os tempos de uma vida meramente carnal já se haviam cumprido, como afirmou São Paulo: "Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho..." Gl 4,4
    É, pois, na primeira semana do Advento, véspera do quarto domingo que antecede o Nascimento de Jesus, que se monta o presépio, uma invenção de São Francisco de Assis para nossa mais profunda contemplação, e a árvore de Natal.

    "O Vosso Filho permaneça entre nós!"

A Aparição de Paris


    Em Paris, uma noviça da Companhia Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, foi despertada na noite da festa deste Santo, em 19 de Julho de 1830, por uma voz infantil que lhe chamava à capela do convento, pois lá Nossa Senhora estava à sua espera. A princípio, ela teve medo de desobedecer as regras de sua ordem, mas a voz garantiu-lhe que estavam todas dormindo.
    Ela acreditou porque, enquanto comemoravam o dia de São Vicente, havia poucas horas, a Madre Superiora pregou sobre sua vida e distribuiu a cada uma delas um pequeno pedaço do sobrepeliz que ele usava. Santa Catarina Labouré recebeu seu fragmento com muita devoção e logo pediu a intercessão deste Santo para que pudesse ver Nossa Senhora, pois sempre foi a maior vontade de toda sua vida. E ao fazer essa oração teve a nítida sensação de que seu desejo se realizaria naquela noite.
    Embalada por essa mesma sensação, ela foi à capela, que encontrou inexplicavelmente aberta e iluminada. Ao ajoelhar-se junto ao Altar, viu Nossa Senhora envolta em Luz, sentada na cadeira da Madre Superiora. Uma voz disse-lhe: "A Santíssima Maria deseja falar-te." Ela aproximou-se, ajoelhou-se aos seus pés e colocou as mãos em seu colo. Disse-lhe então a Mãe do Céu: "Deus deseja te encarregar de uma missão. Tu encontrarás oposição, mas não temas, terás a Graça de poder fazer todo o necessário. Conta tudo a teu confessor. Os tempos estão difíceis para a França e para o mundo. Vai ao pé do Altar, Graças serão derramadas sobre todos, grandes e pequenos, e especialmente sobre os que as buscarem. Terás a proteção de Deus e de São Vicente, e meus olhos estarão sempre sobre ti. Haverá muitas perseguições, a Cruz será tratada com desprezo, será derrubada e o sangue correrá."
    Santa Catarina não comentou com ninguém sobre essa aparição até o dia 27 de novembro do mesmo ano, quando foi à capela para as orações de vésperas e mais uma vez viu Nossa Senhora sobre o Altar, tal qual a imagem acima, rodeada por uma frase que dizia: "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós." Foi quando ela lhe deu essas instruções: "Faz cunhar uma medalha onde apareça minha imagem como a vês agora. Todos os que a usarem receberão grandes Graças." Depois, voltando-lhe as costas, fez com que ela visse como seria o desenho no verso da medalha, hoje mundialmente conhecida.


    Era o M de Maria, a Cruz sobre o Monte Calvário, 12 estrelas que simbolizam as tribos de Israel e os Apóstolos, o Sagrado Coração de Jesus cercado de espinhos, cuja devoção o Senhor prometeu a Graça da Vida Eterna a Santa Margarida Maria Alacoque, em 1675, e, ao lado, o Imaculado Coração de Maria, traspassado pela espada como havia previsto o profeta Simeão no Templo de Jerusalém, quando da Apresentação do Menino Jesus.
    Sem saber como poderia realizar tal tarefa, Santa Catarina perguntou a Nossa Senhora, que simplesmente indicou-lhe que procurasse seu confessor, o padre Jean Marie Aladel. De fato, ele escutou com carinho todos esses relatos, mas pediu que Santa Catarina guardasse tudo em silêncio. Só dois anos depois, após examinar com cuidado o comportamento daquela humilde freira, ele foi ao Arcebispo de Paris, Dom Quelen, que autorizou a cunhagem inicial de 2 mil medalhas, realizada em 20 de junho de 1832. Em paralelo, este bispo instaurou um inquérito para acompanhar os resultados obtidos pelos fiéis que a usavam, e sua conclusão foi essa: "A rápida propagação, o grande número de medalhas cunhadas e distribuídas, os admiráveis benefícios e Graças singulares obtidos, parecem sinais do Céu que confirmam a realidade das aparições, a verdade das narrativas da vidente e a difusão da Medalha."
    Os dizeres na medalha, '... concebida sem pecado...', confirmavam uma devoção que já existia havia muito tempo. Com efeito, desde 1476, o Papa Sisto IV tinha declarado o dia 8 de dezembro como festa universal da Imaculada Conceição. Entretanto, só na mesma data no ano de 1854, ou seja, mais de 20 anos depois da aparição a Santa Catarina, o Papa Pio IX declarou solenemente esse Dogma de , em sua bula 'Ineffabilis Deus'.
    A origem dessa fé, no entanto, remonta a passagem do Evangelho de São Lucas, quando o Arcanjo São Gabriel saudou Nossa Senhora: "Ave, agraciada..." Lc 1,28
    O livro de Jó, meditando sobre a origem do ser humano, deu-nos uma pista sobre a gestação de Jesus, que não poderia nascer de uma mulher impura: "Quem fará sair o puro do impuro?" Jó 14,4
    Isso apenas corrobora o valor que Deus dá à castidade, da qual nasceu Seu Filho segundo uma profecia: "Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e O chamará Deus Conosco." Is 7,14
    Diz respeito também a Palavra de Deus, no Antigo Testamento, quando Ele disse à Serpente: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela." Gn 3,15
    Realmente, o inimigo vai perseguir Nossa Senhora. Mas como um anjo, que segundo Jesus "não se casarão nem se darão em casamento" (cf. Mc 12,25), ela voou para seu retiro. É quando o maligno passa a perseguir seus filhos, 'sua descendência', vale dizer, a Igreja: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17
    A Sagrada Devoção ao Imaculado Coração de Maria foi confirmada pela própria Santíssima Virgem, na Aparição de Lourdes, em 1858, quando ela apresentou-se como a 'Imaculada Conceição' a uma jovem e humilde camponesa, Santa Bernadete de Lourdes, que sequer conhecia esse Dogma. Também na Aparição de Fátima, em 1917, aliás, em conformidade com a Aparição de Quito, no remoto ano de 1594, ela prometeu que, após grandes heresias e tribulações, seu Sagrado Coração triunfaria. Por fim, na Aparição de Cimbres, ela apresentou-se com o singelo nome de 'a Graça', inequívoca menção ao título de Nossa Senhora da Graça, no singular, como é chamada em Portugal.
    Santa Catarina Labouré faleceu em 1876, aos 70 anos. Em 1933, quando exumado, seu corpo estava intacto como se vê até hoje. Assim como as relíquias de Santa Luísa de Marilac, ele está exposto ao lado do altar da capela do convento onde se deu a Aparição da Santíssima Virgem, que passou a chamar-se Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa.


    Nossa Senhora das Graças, rogai por nós!