domingo, 30 de outubro de 2016

O Ser Humano e a Perfeição


    Seria o perfeccionismo apenas um capricho humano? Ou nossa natureza realmente tende para a excelência do ser? Fazendo com que lembremos nossa origem e filiação divina, Jesus disse no Sermão da Montanha: "Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,48
    Segundo Ele, o ser humano diminui-se e rejeita sua vocação quando se conforma com qualquer condição que não seja o projeto da Criação, como alegou na discussão sobre o divórcio: "Mas não foi assim desde o princípio..." Mt 19,8b
    Devemos perceber que nada do que Deus fez é para a degradação, mas para a santificação, como ensinou São Paulo: "Pois tudo o que Deus criou é bom e nada há de reprovável, quando se usa com ação de graças. Porque tudo se torna santificado pela Palavra de Deus e pela oração." 1 Tm 4,4-5
    E sobre o comportamento não espiritualizado, ele diz: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Pois, muito além da formação que recebemos de nossos pais, Deus quer fazer-nos participantes de Sua santidade, e assim da eternidade. É o que dizem os seguidores da tradição de São Paulo: "Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a Vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua santidade." Hb 12,9-10
    São Pedro diz mais: que somos chamados por Sua Graça a participar da própria natureza divina: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,3-4
    Sem dúvida, os verdadeiros seguidores de Jesus recebem Sua Glória, como Ele derramou sobre os Apóstolos, pois é por ela que se concretiza a Unidade da Igreja, graças a Comunhão com a Santíssima Trindade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Pois o amor de Cristo é a verdadeira marca da Igreja. Ele sentenciou: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Com efeito, na Carta aos Hebreus está escrito que muitos já usufruíram dos dons divinos: "Porque aqueles que foram uma vez iluminados saborearam o dom celestial, participaram dos dons do Espírito Santo..." Hb 6,4
    Deus chama todos, portanto, ao Reino da perfeição. Diz São Paulo aos tessalonicenses: "... nós vos temos exortado, estimulado, conjurado a vos comportardes de maneira digna de Deus, que vos chama ao Seu Reino e à Sua Glória." 1 Ts 2,12
    Por isso ele reza para que, pela Sabedoria, alcancemos à perfeição e assim sejamos consolados, enquanto nessa vida, pelo poder celestial. Está na carta aos colossenses: "... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e percepção espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, confortados em tudo pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Mais: ele exorta-nos a restaurar nossa imagem divina através da intimidade com Deus: "Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    São Pedro diz a mesma coisa: "... crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo." 2 Pd 3,18
    Pois o Cristo é nossa medida, nossa perfeita reconciliação com o Pai, como diz o Santo de Tarso aos efésios: "... até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,13
    De fato, Jesus prometeu-nos que, se O tomarmos por mestre, alcançaremos Sua maturidade: "O discípulo não é superior ao mestre; mas todo discípulo perfeito será como o seu mestre." Lc 6,40
    Por isso os Apóstolos O anunciaram, para que cheguemos à Sua estatura: "A Ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda a Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo." Cl 1,28
    E é pela obediência à Palavra de Deus que chegamos à santidade, como disse São Paulo a São Timóteo: "Por ela, o homem de Deus se torna perfeito, capacitado para toda boa obra." 2 Tm 3,17
    Assim ele nos assegura participar da própria Onisciência divina: "O Senhor há de dar-te inteligência em tudo." 2 Tm 2,7
    Ele escreveu aos coríntios: "Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para a nossa glória. É como está escrito: 'Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4)', tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito, porque o Espírito penetra tudo, mesmo as profundezas de Deus. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém. 'Quem conheceu o pensamento do Senhor, para poder instruí-lo (Is 40,13)?' Nós, porém, temos o pensamento de Cristo." 1 Cor 2,7.9-10.14-16


A CARIDADE

    E a Sabedoria tem mostrado que a perfeição vem pela prática da caridade, seja material seja espiritual: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Por isso, para que ela esteja em nós de modo cada vez mais viva, reza também São Paulo: "Peço, na minha oração, que a vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e vos torneis puros e irrepreensíveis para o Dia de Cristo..." Fl 1,9-10
    Pois o verdadeiro amor nos faz iguais a Cristo! São João Evangelista afirma: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como é Jesus, assim também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,17
    Amar com sinceridade, portanto, é guardar a Palavra de Jesus, é viver como Ele viveu: "Aquele, porém, que guarda a Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que afirma permanecer n'Ele deve também viver como Ele viveu." 1 Jo 2,5-6
    E o pleno amor é o maior sinal da perfeição: "No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor." 1 Jo 4,18
    São Paulo, pois, associa a perfeição à presença do amor de Deus em nós: "Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em Paz, e o Deus de amor e Paz estará convosco." 2 Cor 13,11


A SANTIDADE

    A conclusão, portanto, é que o projeto de Deus é levar-nos à perfeição que se encontra na santidade, cujo modelo é Jesus: "Deus nos salvou e chamou para a santidade, não em atenção às nossas obras, mas em virtude do Seu desígnio, da Graça que desde a eternidade nos destinou em Cristo Jesus..." 2 Tm 1,9
    Aliás, como nos lembra Jesus, o fato de sermos feitos à imagem e semelhança de Deus já subentende que devamos viver a santidade. Exorta São Paulo: "Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,22-24
    De fato, como invocou São Pedro, Deus pronunciou-Se sobre nossa vocação para a santidade desde os primórdios: "A exemplo da santidade d'Aquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: 'Sede Santos, porque Eu sou santo' (Lv 11,44)." 1 Pd 1,15-16
    E, por tal dom de amor, só poderíamos ser gratos e manifestar gratidão, como reconhecia São Paulo: "Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque desde o princípio vos escolheu Deus para vos dar a Salvação, pela santificação do Espírito e pela na Verdade." 2 Ts 2,13
    Ele diz expressamente: "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação..." 1 Ts 4,3
    E arremata: "Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade." 1 Ts 4,7
    Mas tão grande benção não somos capazes de alcançar sozinhos, nem por nossos méritos, senão pelo socorro da Graça: "... temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não pelo espírito de sabedoria do mundo, mas pelo socorro da Graça de Deus." 2 Cor 1,12
    Por isso ele a pede Àquele que nos pode concedê-la: "O Deus da Paz vos conceda santidade perfeita. Que todo o vosso ser, espírito, alma e corpo, seja conservado irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo!" 1 Ts 5,23
    Pois, como disse São Tiago Menor, isso é algo temos que admitir: "Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes..." Tg 1,17
    Tal graça, contudo, não nos seria concedida sem a consumação do Sacrifício de Jesus, que nos purificou e garantiu Sua ajuda para vencermos o pecado: "Por uma só oblação Ele realizou a perfeição definitiva daqueles que recebem a santificação." Hb 10,14
    Assim, ao entrar em Comunhão com a Santíssima Trindade somos também santificados: "Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em Nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de Nosso Deus." 1 Cor 6,11
    Precisamos ter em mente, porém, que somos santificados para obedecer, conforme as palavras de São Pedro: "... santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo e receber a sua parte da aspersão do Seu Sangue." 1 Pd 1,2
    Vemos-nos então moralmente compelidos a buscar e preservar a santidade, que nos assegurará a eterna bem-aventurança. São Paulo exortava aos romanos: "Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a Vida Eterna." Rm 6,22
    Com razão, não nos podemos mais permitir viver em confusão: "Pois, como pusestes os vossos membros a serviço da impureza e do mal para cometer a iniquidade, assim ponde agora os vossos membros a serviço da justiça para chegar à santidade." Rm 6,19
    E com a devida prudência, devemos estar cientes que poder viver a perfeição nesse mundo é um grande privilégio: "Vós, ao contrário, vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no livro dos Céus, e de Deus, juiz universal, e das almas dos justos que chegaram à perfeição..." Hb 12,22-23
    Pois a santidade é domínio de si e das palavras: "... porque todos nós caímos em muitos pontos. Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo." Tg 3,2
    É paciência: "Mas é preciso que a paciência efetue a sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma." Tg 1,4
    Ela vem pela Verdade, conforme Jesus rezou ao Pai: "Santifica-os pela Verdade. A Tua Palavra é a Verdade." Jo 17,17
    E sem ela não poderemos contemplar a face de Deus: "Procurai a Paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor." Hb 12,14


A VERDADEIRA PERFEIÇÃO

    O jovem rico que se julgava perfeito, aliás, numa arrogância característica da juventude, foi convidado por Jesus à verdadeira perfeição: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Mt 19,21
    Aos jovens, pois, quase sempre tão exigentes, São Pedro dedica algumas esclarecedoras palavras: "Semelhantemente, vós outros que sois mais jovens, sede submissos aos anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá Sua Graça aos humildes (Pr 3,34). Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-Lhe todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará." 1 Pd 5,5-10
    São Paulo, apesar de todas as graças por ele alcançadas, demostrando perfeita humildade diz: "Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo." Fl 3,12
    Na verdade, dada sua luminosa inspiração, ele estava sendo apenas sensato: "Demais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas Ele me disse: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,-10
    Também os antigos Profetas não puderam chegar à perfeição antes a manifestação de Jesus: "E, no entanto, todos estes mártires da fé não conheceram a realização das promessas! Porque Deus, que tinha para nós uma sorte melhor, não quis que eles chegassem sem nós à perfeição." Hb 11,39-40
    Ponderado, São Pedro pergunta-nos pela santidade que resistirá às turbulências e ao Juízo do fim dos tempos: "Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade..." 2 Pd 3,11
    Assim, essa espera deve ser marcada por um sincero esforço no caminho da retidão: "Portanto, caríssimos, esperando estas coisas, esforçai-vos em ser por Ele achados sem mácula e irrepreensíveis na Paz." 2 Pd 3,14
    Com efeito, São João Evangelista garante: "Todo o que é nascido de Deus não peca, porque o germe divino reside nele; e não pode pecar, porque nasceu de Deus. ... o que é gerado de Deus se acautela, e o Maligno não o toca." 1 Jo 3,9;5,18b
    Pois, como diz São Paulo, essa é nossa verdadeira condição como criaturas de Deus: "Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra Sua, criados em Jesus Cristo para as boas ações, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos." Ef 2,8-10
    E com estas palavras ele garante o correto proceder: "Porque é Deus Quem, segundo Seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Seus seguidores têm um argumento idêntico: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e vos conceder que cumprais a Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    Ora, o próprio Jesus explicou esse constante aperfeiçoamento conduzido por Deus: "... e todo ramo que dá fruto, Ele o limpa, para que dê ainda mais frutos." Jo 15,2b
    O Apóstolo dos Gentios, portanto, estimula-nos a persistir e resistir, confiante no conhecimento que nos é dado pelo Pai: "Estou pessoalmente convencido, meus irmãos, de que estais cheios de bondade, cheios de um perfeito conhecimento, capazes de vos admoestar uns aos outros." Rm 15,14
    E o faz a fim de que venhamos fazer parte da Comunhão dos Santos, como lhe disse Jesus: "... para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam o perdão dos pecados e a herança entre os que foram santificados." At 26,18

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"

sábado, 29 de outubro de 2016

O Amor de Deus


    Por que Deus quer ser amado por nós? Quem somos nós para correspondê-Lo com nosso errante amor? Porém, por mais que não entendamos, Ele nos determina em Seu primeiro Mandamento: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Dt 6,5
    Mas como poderíamos ser 'obrigados' a amar? Como pode Jesus exigir de nós maior amor a Ele que às pessoas que nos são mais próximas? Ele disse: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    A dureza dessa sentença, no entanto, esconde uma didática. Apesar da estranheza que causa em primeira mão, ao amadurecermos no amor, vemos que essa é uma forma de imprimir Sua Palavra em nossa memória, e que mais tarde é plenamente compreendida. De fato, não podemos verdadeiramente amar os nossos sem conhecermos com a devida profundidade o amor de Deus.
    E a despeito de Seus insondáveis desígnios, alguma luz nos vem sobre essa questão, e no mesmo sentido, quando lemos essa passagem os Provérbios: "Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que Ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima." Pr 3,11-12
    Tudo isso invariavelmente nos inspira a imagem de um pai cheio de precauções, agindo às vezes de modo por demais enérgico em função de risco futuro, e é sensato supor que seja mesmo assim. Os seguidores da tradição de São Paulo argumentam: "Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o Qual nos dará a Vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que Este o faz para nosso bem, para nos comunicar Sua Santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de Paz." Hb 12,7.9-11
    Ora, nas revelações feitas a São João Evangelista, o próprio Jesus vai dizer aos que se iludem com o poder: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te." Ap 3,19
    Também é frequente vermos na Bíblia a expressão 'temor a Deus'. E fica a pergunta: afinal, Ele quer ser amado ou temido? A Verdade é que, assim como amadurecemos, a compreensão de Sua Revelação requer tempo. No estágio de civilização que vivemos, é fácil perceber, ao menos teoricamente, que o amor sempre produz um relacionamento melhor e mais verdadeiro que o temor. Mas, também não há dúvida, a prática mais frequente não é essa. O temor foi e ainda é largamente usado. Entretanto, embora pouco usada, também já é antiga a didática do amor, e ainda cedo o Eclesiástico percebeu as inclinações emotivas do Criador: "O amor de Deus é uma Sabedoria digna de ser honrada." Eclo 1,14
    O Profeta Isaías, a propósito, bem antes do Eclesiástico já se tinha dado conta de nossa verdadeira relação com Ele: de filiação: "E, no entanto, Senhor, Vós sois Nosso Pai; nós somos a argila da qual sois o oleiro: todos nós fomos modelados por Vossas mãos." Is 64,8
    E se somos vez e outra castigados, se bem observarmos os acontecimentos, também é fácil atestar Sua infinita afabilidade. Ele mesmo disse: "Num acesso de cólera volvi de ti Minha face. Mas no Meu eterno amor, tenho compaixão de ti." Is 54,8
    O livro da Sabedoria, em especial, vai mais longe ao justificar Seu amor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós podeis tudo; e para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens. Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por Vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos os seres, porque todos são Vossos, ó Senhor, que amais a vida." Sb 11,23-26
    E como o autor dos Provérbios, ele conclui: "É por isso que castigais com brandura aqueles que caem, e os advertis mostrando-lhes em que pecam, a fim de que rejeitem sua malícia e creiam em Vós, Senhor." Sb 12,2
    Não seria, porém, o amor, e tão simplesmente o amor, ainda hoje, a lição mais difícil que Jesus tenta nos ensinar? Será que nós compreendemos, ao menos um pouco, a dimensão do Seu amor? Concebemos, ao menos episodicamente, que podemos amar como Ele nos ama? Ele disse: "Este é o Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    Que amor é esse que O levou a morrer por nós? Percebemos realmente o exemplo de tantos Santos e mártires? Chegaríamos também nós, por amor, a essas consequências? No entanto, essa é a meta por Ele estabelecida e demonstrada por Sua Paixão: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Jo 15,13
    Como entender esse sacrifício ao qual Deus Pai submeteu Seu próprio Filho? Ele não teria sido violento demais? "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu Seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Por certo a razão de ser dessa didática de Deus é nossa futilidade, nossa desatenção, nossa inconstância, nossa insensibilidade. Pois se Sua própria morte, brutal como foi, não nos faz despertar para o amor, o que teria acontecido se Ele tivesse apenas Se elevado aos Céus? Se toda Jerusalém não tivesse presenciado Sua Paixão e morte? Por isso São Paulo recomenda a São Timóteo que afaste o povo de todas as fábulas e fúteis conhecimentos, em nome de um verdadeiro amadurecimento espiritual: "Essa recomendação visava promover o amor que nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma sincera." 1 Tm 1,5
    Pois o verdadeiro amor a Deus, para minimamente corresponder ao que Ele tem por nós, manifesta-se, como demonstraram os Santos, por uma atitude de constante reconhecimento de nossos pecados e pela determinação em não tornarmos a errar: "Aquele que ama a Deus, O roga pelo perdão de seus pecados e acautela-se para não cometê-los no porvir." Eclo 3,4
    É o que faz o salmista, ao pedir perdão em nome de Seu amor: "Ó Deus, tem piedade de mim, conforme a Tua Misericórdia; no Teu grande amor cancela o meu pecado." Sl 51,3
    Ele reconhece: "Eu te darei graças, Senhor, Meu Deus, de todo o coração e darei glória a Teu Nome sempre, porque é grande para comigo o Teu amor..." Sl 86,12-13
    E afere-lhe o justo valor: "Porque Vosso amor me é mais precioso do que a vida..." Sl 63,4
    Agradecido pela Divina Misericórdia, o salmista registra: "... Deus de piedade, compassivo, lento para irar-Se mas rico de amor e de fidelidade..." Sl 86,15


JESUS, PROVA MAIOR DO AMOR DE DEUS

    Jesus conhece bem o coração das pessoas, e acompanha de perto os religiosos. Ele sabe que não é apenas o pagamento do dízimo que demonstra nosso reconhecimento ao amor de Deus: "Ai de vós, fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de diversas ervas e desprezais a justiça e o amor de Deus." Lc 11,42
    E, em discussão com os líderes da fé judaica, Ele foi ainda mais incisivo: "... sei que não tendes em vós o amor de Deus." Jo 5,42
    São Paulo diz uma coisa muito simples, mas cheia de Sabedoria: Deus tem com o filho que O ama uma relação muito especial: "... se alguém ama a Deus, esse é conhecido por Ele." 1 Cor 8,3
    Por isso, ressaltando o valor da perseverança para que vençamos a insensibilidade, a inconstância e a consciência faltosa, Jesus recomendou-nos vigilância: "Se guardardes os Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu amor." Jo 15,10
    Não por acaso, São João Evangelista atestou esse amor e essa perseverança até Seus últimos momentos: "Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a Sua hora. A hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim." Jo 13,1
    Contudo, ciente de nossas fraquezas, Jesus rezou ao Pai para que Seu amor, que é amor de Salvação, permanecesse em nós pela força de Sua manifestação: "Manifestei-lhes o Teu Nome, e ainda hei de Lho manifestar, para que o amor com que Me amaste esteja neles..." Jo 17,26
    Mas Ele também havia deixado patente que não podemos ser amados por Deus se não O amarmos: "Pois o mesmo Pai vos ama, porque vós Me amastes e crestes que saí de Deus." Jo 16,27
    Pois, ainda segundo Ele, não podemos honrar a Deus se não O honrarmos: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    E São Paulo bem sabe Quem é o imprescindível intermediário para que alcancemos verdadeiramente o mais puro amor: "... o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo..." Rm 5,5
    Ele sabe Quem nos anima: "... ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    E reza: "... que sejais poderosamente robustecidos pelo Seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem interior. Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados no amor, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer o amor de Cristo, que desafia todo o conhecimento..." Ef 3,16-19
    Devemos, portanto, retribuir o amor de Deus com grandeza de espírito: "Pois Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação." Tm 1,7
    Mas se errarmos, sabemos que há esperança. Deus disse por Isaías: "'Mas no Meu eterno amor, tenho compaixão de ti. Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais Meu amor te abandonará e jamais Meu pacto de Paz vacilará,' diz o Senhor, que Se compadeceu de ti." Is 54,8-10
    Para tanto Jesus nos deixou a Igreja, que deve ser nossa casa, onde somos purificados de nossas faltas: "Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no Seu Sangue e que fez de nós um Reino de Sacerdotes para Deus e Seu Pai, Glória e poder pelos séculos dos séculos! Amém." Ap 1,5b-6
    Pois, de fato, Deus é movido por Seu amor: "... Deus, que é rico em Misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou..." Ef 2,4
    E as pessoas que creem, sabem e sentem que Seu amor é verdadeiro: "E nós, que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco." 1 Jo 4,16
    São João Evangelista explica tal amor, e sua concomitante Redenção, com essas palavras: "Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o Seu Filho único ao mundo, para que tenhamos a Vida por meio d'Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o Seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros." 1 Jo 4,9-11
    Não por coincidência, mas pela mesma inspiração do Espírito Santo, essa pregação de São João é muito parecida com o que diz São Paulo: "Mas eis aqui uma prova brilhante de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua vida." Rm 5,8-10
    Por isso ele nos deseja as maiores bençãos: "Que o Senhor dirija os vossos corações para o Seu amor e a paciência de Cristo." 2 Ts 3,5
    E São Judas Tadeu, de olhos na eternidade, recomenda que perseveremos neste que é o maior dos dons divinos: "Conservai-vos no amor de Deus, aguardando a Misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Vida Eterna." Jd 1,21
    Mas cabe a pergunta: como poderíamos perseverar no amor de Deus? São João dá-nos uma sugestão bem simples: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai." 1 Jo 2,15
    Diz também: "Quem possuir bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    E ainda: "Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a Quem não vê." 1 Jo 4,20
    Ora, como Jesus viria a afirmar e chamar de Seu Mandamento, Deus, em nome de Seu amor, desde os Levíticos já nos havia recomendado: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Lv 19,18
    Portanto, por mais difícil que pareça, temos da parte de Deus essa determinação. E é pela obediência que perceberemos as benesses de Seu amor em nossas vidas. Com efeito, segundo São João, guardar Sua Palavra significa obedecê-la: "Aquele, porém, que guarda a Sua Palavra, n'Ele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito." 1 Jo 2,5
    Isso, claro, significa praticá-la concreta e efetivamente: "Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito." 1 Jo 4,12
    Por fim, numa síntese ainda mais concisa, ele registra: "Eis o amor a Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3
    E enternecido, exclama: "Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus!" 1 Jo 3,1
    É pela beleza e profundidade de frases como essas que uma exortação de São Paulo tornou-se a saudação de acolhida na Santa Missa: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    E por isso o Eclesiástico nos recomenda com absoluta pertinência: "... ama a Deus durante toda a tua vida, e invoca-O para tua Salvação." Eclo 13,18

    "Por amor nos enviastes Vosso Filho!"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

São Judas Tadeu, Apóstolo


    Foi um dos Apóstolos mais reservados, de quem ficaram poucos registros, mas nem por isso se deduz que tenha sido menos ativo. As várias regiões que teria visitado depois da Ascensão de Jesus, assim como suas frequentes viagens, desfazem a impressão de mero contemplativo, que alguns inferem pelas poucas citações bíblicas de seu nome.
    De fato, não é muito mencionado. Aparece nas listas dos Apóstolos nos Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas:
    - "Eis os nomes dos doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    - "Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o zelota; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    - "Ao amanhecer, chamou os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelador; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16
    Ele é citado como um dos 'irmãos' de Jesus nos Evangelhos de São Mateus e São Marcos:
    - "Não é este o Filho do carpinteiro? Não é Maria Sua mãe? Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?" Mt 13,55
    - "Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?" Mc 6,3
    É São Judas que questiona Jesus, no Evangelho de São João, quanto à Sua maneira de manifestar-Se pessoa a pessoa, pois gostaria de vê-Lo manifestando-Se o quanto antes ao mundo todo, de forma gloriosa e em definitivo. Nessa passagem fica evidente o respeito com que ele trata Jesus, chamando-O de Senhor, detalhe que também desmistifica a 'irmandade' entre eles, como pretendem alguns, pela simples falta de intimidade: "Pergunta-Lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?' Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará a Minha Palavra e Meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,22-23


    Ele tem seu nome ainda nas listas dos 11 presentes no Cenáculo, pouco antes da vinda do Espírito Santo, por ocasião do Pentecostes, conforme o livro dos Atos dos Apóstolos: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago." At 1,13
    Por fim, assina uma Epístola na qual providencialmente identifica-se com irmão de São Tiago Menor. Essa passagem deixa ainda mais claro que ele não era irmão de Jesus, nem filho de Nossa Senhora ou sequer de São José. Como ele mesmo faz questão de apresentar-se, talvez justamente para esclarecer esse assunto, diz-se irmão de Tiago, filho de Maria, esposa de Cleófas, ou Alfeu, seu equivalente hebraico, e parenta próxima de Maria Santíssima. Ele não se identifica como irmão de Jesus, como seguramente faria se o fosse, mas como Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1,1
    Os chamados 'irmãos de Jesus', na verdade apenas parentes, e assim designados pela inexistência da palavra 'primo' na língua aramaica, aparecem ainda mais claramente como filhos de Maria de Cleófas nos Evangelhos de São Mateus, de São Marcos e de São Lucas:
    - "Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,56
    - "Estavam ali também algumas mulheres olhando de longe; entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé." Mc 15,40
    - "Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele era colocado." Mc 15,47
    - "Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar o corpo de Jesus." Mc 16,1
    - "Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago." Lc 24,10
    Sabemos que essa Maria era a esposa de Cleófas, e parenta de Nossa Senhora, porque essas cenas narram precisamente a Crucificação e o Sepultamento de Jesus, e São João Evangelista, que também as descreveu, deixou-nos o nome de seu esposo: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe e a irmã de Sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    A Carta de São Judas também não é extensa. Ele justifica tê-la escrito apenas para corroborar o que 'os Apóstolos' ensinavam, como se não fosse um deles, para deixar seu testemunho sobre o Cristo e para alertar das já correntes heresias, exortando os fiéis a não desanimarem com o escárnio que sofriam: "Caríssimos, estando eu muito preocupado em vos escrever a respeito da nossa comum Salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a pelejar pela , confiada de uma vez para sempre aos Santos. Pois certos homens ímpios se introduziram furtivamente entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este Julgamento; eles transformam em dissolução a Graça de Nosso Deus e negam Jesus Cristo, Nosso único Mestre e Senhor. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo as suas ímpias paixões; homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito Santo.'" Jd 1,3-4.17-19
    Nela, demonstrando o mesmo respeito apresentado no Evangelho de São João, ele menciona o Nome de Jesus 6 vezes, e em todas as vezes chama-O de Cristo. E, como vimos, chama-O ainda de 'Nosso único Mestre e Senhor', ou seja, nenhum resquício de intimidade familiar, muito menos de fraternidade sanguínea.
    A confusão com Judas Iscariotes teria dificultado bastante a divulgação de seu nome, de sua história e a devoção que certamente lhe é devida. Isso explica porque, desde o início, São Marcos e São Mateus já o apresentavam com o nome de Tadeu, que talvez fosse um apelido íntimo, mas afirmativamente com a clara intenção de diferenciá-los.


    Ele começou a evangelizar em sua terra, na Galileia, para onde foram os Apóstolos após a Ascensão de Jesus. Depois foi a Samaria, de onde partiu para a Síria, Idumeia (atual Jordânia), Líbia Antiga, Armênia e Pérsia, e aí teria vindo-lhe ao encontro São Simão, o zelota.
    Em sua companhia, percorreram as 12 províncias do Império Persa fazendo muitos milagres e convertendo muita gente, mas, por despertarem ciúmes dos poderosos sacerdotes pagãos, foram brutalmente assassinados num mesmo dia. Segundo a Tradição e apócrifos, São Judas Tadeu foi morto a golpes de machado na cabeça, e São Simão, serrado ao meio.
    A devoção a ele só voltou a crescer, e dessa vez a partir da Europa, graças à aparição de Jesus a Santa Gertrudes, no século XIII, recomendando os socorros de São Judas para as causas impossíveis, como ela deixou escrito em sua biografia. É a partir desse momento que surge a alcunha de São Judas Tadeu, juntando os nomes atribuídos a ele nos diferentes Evangelhos.
    Nosso santo é retratado também como aquele que levou o Cristianismo a Armênia, quando ainda viajava em companhia de São Bartolomeu. De fato, atendendo a um chamado do rei, levou-lhe a famosa 'imagem de Edessa', a pintura mais antiga de Cristo de que se tem notícia. Relatos dão conta que esse rei teria enviado uma carta a Jesus, ainda nos tempos de Sua vida pública, convidando-O à sua corte, mas Ele respondeu dizendo que no futuro um de Seus Apóstolos iria ter com ele.


    Ainda hoje estes mártires da fé são cultuados como Santos padroeiros pela Igreja Apostólica Armênia, pois a São Judas Tadeu foi dedicado um mosteiro no norte do Irã, e outro a São Bartolomeu, no sul da Turquia, quando essas duas regiões ainda formavam a Armênia, uma antiga província do Império Romano.
    Há notícias de que ele estava no Primeiro Concílio, de Jerusalém, e visitou também Beirute e Edessa, onde teria confeccionado a pintura que levou ao rei da Armênia.
    Seus restos mortais foram guardados no Oriente Médio por vários séculos, depois foram levados a França e posteriormente a Roma, onde foram sepultados sob o Altar de São José, na Basílica de São Pedro.


    São Judas Tadeu, rogai por nós!

São Simão Zelota, Apóstolo


    Certamente o mais desconhecido dentre os Apóstolos. São Mateus chamava-o de 'cananeu': "Eis os nomes dos doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    Assim como São LucasSão Marcos chama-o de zelota, uma referência ao zelo apaixonado que seu grupo religioso tinha pelas Escrituras, desejosos que eram de vê-las plenamente respeitadas: "Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o zelota; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    Após a referida citação de São Lucas, aliás, idêntica a essa acima, São Simão só vai ser citado mais uma vez no Novo Testamento na lista dos Apóstolos que estão no Cenáculo, logo após a Ascensão de Jesus e pouco antes do Pentecostes. E de novo o Amado Médico vai atribuir-lhe a alcunha de zelota: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago." At 1,13


    Os Evangelhos e os demais livros do Novo Testamento nada mais relatam nada sobre São Simão. Assim como São Tiago Menor e São Judas Tadeu, que eram parentes próximos de Jesus, e ainda São Tomé e Judas Iscariotes, dele não ficou registrado em que momento passou a acompanhar Jesus, diferente do que acontece com os demais Apóstolos.
    Mas, baseando-se no Evangelho de São João, é muito provável que ele também tenha sido convidado para as Bodas de Caná, talvez mesmo a convite de São Pedro, e assim presenciado quando Jesus transformou água em vinho. Com efeito, aí e pelo local, São João, como testemunha ocular e de registros cronológicos tão pontuais, dá a entender que o grupo dos Apóstolos já estivesse formado: "Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a Sua Glória, e os Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11
    Para alguns estudiosos, a palavra 'cananeu', usada por São Mateus, e zelota, usada por São Marcos e São Lucas, teriam o mesmo significado. Além de fundamentalistas religiosos, esses nomes designariam nacionalistas inspirados no movimento de Macabeus, que expulsou os gregos da Terra Santa havia uns 200 anos, e por isso defendiam a libertação de romanos pela luta armada, grupo ao qual São Pedro deve ter pertencido, também chamados de sicários, e incitará uma revolta no ano de 70 de nossa era, quando Jerusalém será destruída, como Jesus profetizou (Lc 19,44), por ordem do imperador Vespasiano. Outros estudiosos, porém, acham que cananeu é apenas a indicação de sua origem, Canaã.


    Esses detalhes descrevem um homem simples e verdadeiro, assim como era o Príncipe dos Apóstolos, o que nos permitiria dizer que nosso Santo passou por uma profunda conversão, passando do ativismo miliciano para a contemplação essencialmente espiritual. As palavras que ouviu e os fatos que presenciou marcaram-no para o resto da vida, e ele, demonstrando Sabedoria, humildemente rendeu-se. Abdicou da violência e abraçou fervorosamente a vida de testemunha da Ressurreição e dos ensinamentos de Cristo.
    Sabe-se que São Simão acompanhou São Marcos ao Egito, talvez ao seu convite, quando este foi enviado por São Pedro a Alexandria, que era a segundo cidade mais importante do Império, menos apenas que Roma.
    Sabe-se também que, antes de acompanhar São Marcos, ele esteve com São Filipe, evangelizando na Síria.
    Mais tarde vamos encontrá-lo na Pérsia, acompanhando São Judas Tadeu, parente próximo de Jesus, ou porque Jerusalém já estaria reduzida às cinzas ou a chamado deste Apóstolo, que possivelmente teria percebido os riscos de contrariar os interesses dos sacerdotes persas e assim solicitou sua imponente companhia.


    Aí converteram muita gente, o que de fato atiçou a fúria dos religiosos pagãos, quando foram barbaramente martirizados. Talvez por seu físico avantajado, os assassinos de São Simão só se deram por satisfeitos quando o serraram ao meio, após matarem São Judas Tadeu, no mesmo dia, a golpes de machado desferidos contra sua cabeça. Esses relatos chegaram-nos por um livro antigo, de autoria desconhecida, chamado 'Atos de Simão e de Judas', que atribui a eles o profundo conhecimento do Cristianismo que efetivamente verificou-se nessa região.
    Há, ademais, registros não confirmados de que São Simão tenha falecido com mais de cem anos.
    Seus restos mortais sempre foram mantidos pelos cristãos juntos aos de São Judas Tadeu, desde o sepultamento até passarem pela França e serem finalmente levados a Roma, onde foram depositados sob o Altar de São José, na Basílica de São Pedro.


    São Simão, rogai por nós!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Novos Céus e Nova Terra


    Séculos antes da Encarnação do Cristo, Deus já tinha prometido através do Profeta Isaías que, para bem fazer Sua justiça, criaria novos céus e nova Terra: "... porque as desgraças de outrora serão esquecidas, já não lhes volverão ao espírito. Pois Eu vou criar novos céus, e uma nova Terra; o passado já não será lembrado, já não volverá ao espírito, mas será experimentada a alegria e a felicidade eterna daquilo que vou criar. Pois vou criar uma Jerusalém destinada à alegria, e seu povo ao júbilo..." Is 65,16-18
    Quer dizer, Ele promete a verdadeira felicidade, os Céus, para que nele Seu povo viva a eternidade: "Pois, assim como os novos céus e a nova Terra que vou criar devem subsistir diante de Mim, declara o Senhor, assim devem subsistir vossa raça e vosso nome." Is 66,22
    Longe de atemorizar, portanto, a intenção de Deus ao revelar o fim dos tempos é exclusivamente garantir a realização de Sua justiça, e assim oferecer Consolação ao Seu povo. Foi exatamente nestes termos que o Eclesiástico interpretou as visões do Profeta Ezequias: "Por uma poderosa inspiração ele viu o fim dos tempos, e consolou aqueles que choravam em Sião..." Eclo 48,27
    Com efeito, nas revelações que teve do novo céu e da nova Terra, São João Evangelista, falando da definitiva Consolação de Deus, narra assim o fim da condição meramente carnal: "Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: 'Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição.'" Ap 21,3-4
    Por isso o anúncio do Evangelho faz-se necessário, para que a humanidade tenha o testemunho de Jesus quanto à Vida Eterna, e seja confortada diante de um aparente império da maldade no mundo. Aliás, segundo o próprio Cristo, a própria conclusão do anúncio da Boa Nova será o sinal do fim dos tempos: "Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro para servir de testemunho a todas as nações, e então chegará o fim." Mt 24,14
    Falando sobre esse assunto, o chamado terrível Dia do Senhor, São Pedro menciona estrondo, fogo, dissolução e fusão dos astros. Mas sua preocupação maior é com nossa santidade, e que efetivamente alcancemos as promessas de Deus: "Naquele dia os céus passarão com um estrondo assombroso, os elementos abrasados se dissolverão, e será consumida a Terra com todas as obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas se hão de desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o Dia de Deus, esse Dia em que se hão de dissolver os céus inflamados e se hão de fundir os elementos abrasados! Nós, porém, segundo Sua promessa, esperamos novos céus e uma nova Terra, nos quais habitará a justiça." 2 Pd 3,10-13
    Nesse mesmo sentido, os discípulos de São Paulo retratam uma visão parecida: "Aquele, Cuja voz um dia abalou a terra, agora diz: 'Mais uma vez farei estremecer, não somente a Terra, mas também o céu.' A expressão 'mais uma vez' anuncia o desaparecimento de tudo aquilo que participa da instabilidade do mundo criado, para que permaneça só o que é inabalável." Hb 12,26-27
    Segundo São Mateus, Jesus falou sobre fenômenos cósmicos semelhantes, que sucederiam tempos difíceis: "Logo depois da tribulação daqueles dias, o sol vai ficar escuro, a lua não brilhará mais e as estrelas cairão do céu, e os poderes do espaço ficarão abalados." Mt 24,29
    E, segundo São Lucas, Ele deu detalhes da reação da humanidade diante de acontecimentos tão estarrecedores: "Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas. E, na Terra, as nações cairão no desespero, apavoradas com o barulho do mar e das ondas. Os homens desmaiarão de medo e ansiedade, pelo que vai acontecer ao Universo..." Lc 21,25-26
    Não por acaso, falando sobre a religiosidade do povo, Jesus já havia questionado: "Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará sobre a Terra?" Lc 18,8
    De fato, São Paulo fala de uma grande apostasia, isto é, o abandono da fé, um período final no qual o Inimigo reinará: "Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de Sua boca e o aniquilará com o resplendor da Sua Vinda. A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à Verdade, mas consentiram no mal." 2 Ts 2,3-4.8-12
    E o próprio Jesus afirmou o fim de todo o Universo, em contraponto à perenidade de Sua Palavra: "Os céus e a Terra desaparecerão, mas as Minhas palavras não desaparecerão." Lc 21,33
    Em perfeita concordância, São Pedro vai reafirmar o poder do Verbo Encarnado, indicando também o destino final de tudo que conhecemos: "Mas os céus e a Terra que agora existem são guardados pela mesma Palavra Divina, e reservados para o fogo no Dia do Juízo e da perdição dos ímpios." 2 Pd 3,7
    E Jesus, dirigindo-se estritamente ao Seu rebanho, acrescenta: "Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima." Lc 21,28
    Mas lembrando daqueles que desfalecerão de pavor, Ele também avisou: "Ficai atentos e rezai continuamente, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem." Lc 21,36
    Ou seja, não podemos mais nos enganar: vivemos o tempo da paciência de Deus! E Ele só espera que abracemos de uma vez por todas o Sacramento da Penitência: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam. Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar..." 2 Pd 3,9.15
    Pois foi para isso que Jesus nos enviou o Espírito Santo: "Entretanto, digo-vos a Verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, vo-lO enviarei. E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo." Jo 16,7-8
    Por fim, como já havia dado a entender, Jesus assegura que o Dia do Juízo surpreenderá a todos. Ciente disso, é inconcebível que um bom cristão abandone-se às ilusões de pecados mortais, ou mesmo dos veniais, se ao menos tiver ciência do fogo provador: "Pois esse Dia cairá, subitamente, sobre todos aqueles que habitam a face de toda a Terra. Tomai cuidado para que os vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse Dia não caia de repente sobre vós." Lc 21,34-35
    E como disse em últimas palavras antes de Sua Ascensão aos Céus, o cumprimento dessa profecia é de perfeito segredo. À Igreja, portanto, cabe tão somente recolher-se no Espírito Santo e assim testemunhar a Salvação, que está em Sua Palavra e em Sua Paixão: "Respondeu-lhes ele: Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em Seu poder, mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo." Ap 1,7-8


A VOLTA TRIUNFAL DE CRISTO

    Numa grandiosa visão que teve do Retorno do Cristo, o Profeta Joel atestou as convulsões dos astros e exclamou admirado: "Que multidão, que multidão no vale do Julgamento, porque chegou o Dia do Senhor! O sol e a lua se obscurecem, as estrelas empalidecem. O Senhor rugirá de Sião, trovejará de Jerusalém; os céus e a Terra serão abalados." Jl 4,14-16
    Para nós, no entanto, sem os auxílios do Espírito de Jesus é inimaginável tamanho poder que Deus manifestará. Mas Ele o quis revelar: concedeu a São João Evangelista a seguinte visão, para que fosse registrada no Livro do Apocalipse: "Vi, então, um grande trono branco e Aquele que nele Se assentava. Os céus e a Terra fugiram de Sua face, e já não se achou lugar para eles." Ap 20,11
    E concedeu-lhe também a visão do Céu e da Terra recriados: "Vi, então, um novo Céu e uma nova Terra, pois o primeiro Céu e a primeira Terra desapareceram..." Ap 21,1
    Esses tempos coincidem com a definitiva Volta de Cristo, que São Pedro chamou de restauração universal: "É necessário, porém, que o Céu O receba até os tempos da restauração universal, da qual falou Deus outrora pela boca dos seus santos Profetas." At 3,21
    É quando Deus, pela obra de Seu Filho, será tudo em todos, como disse São Paulo: "E, quando tudo Lhe estiver sujeito, então também o próprio Filho renderá homenagem Àquele que Lhe sujeitou todas as coisas, a fim de que Deus seja tudo em todos." 1 Cor 15,28
    Segundo os seguidores da tradição de São Paulo, é exatamente esse o papel que Jesus cumpriu: "Aquele para Quem e por Quem todas as coisas existem, desejando conduzir à Glória numerosos filhos, deliberou elevar à perfeição, pelo sofrimento, o Autor da Salvação deles, para que Santificador e santificados formem um só todo." Hb 2,10-11a
    Essa é a razão pelo qual Jesus veio comungar conosco da vida humana! Para que entremos em Comunhão com Ele, através de Sua Carne e Seu Sangue, celebrados na Santa Missa, em nome da Salvação: "Por isso, Jesus não hesita em chamá-los Seus irmãos, dizendo: 'Anunciarei Teu Nome a Meus irmãos, no meio da assembléia cantarei os Teus louvores' (Sl 21,23). Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma Carne e do Sangue, também Ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão." Hb 2,11b-12.14-15
    De fato, eles reconhecem o vigente estado de coisas: "Atualmente, é verdade, não vemos que tudo Lhe esteja sujeito. Mas Aquele que fora colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós O vemos, por Sua Paixão e Morte, coroado de Glória e de honra. Assim, pela Graça de Deus, a Sua morte aproveita a todos os homens." Hb 2,8b-9
    São Paulo explica: "Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a Ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de Sua Vinda. Depois, virá o fim, quando Ele entregar o Reino a Deus, ao Pai, depois de haver destruído todo principado, toda potestade e toda dominação. Porque é necessário que Ele reine, até que ponha todos os inimigos debaixo de Seus pés. O último inimigo a derrotar será a morte, porque Deus sujeitou tudo debaixo dos Seus pés." 1 Cor 15,21-26
    E ainda segundo o Apóstolo dos Gentios, não resta a menor dúvida que Ele o cumprirá: "Aí não haverá mais grego nem judeu, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas somente Cristo, que será tudo em todos." Cl 3,11
    Por isso, ele se adianta: "Estou pregado à Cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim." Gl 2,19b-20
    O primeiro ato de Deus, portanto, ao apresentar-nos a eternidade, será refazer Seu primeiro ato, pois, como diz o Livro do Gênesis: "No princípio, Deus criou os Céus e a Terra." Gn 1,1

    "Ajudai-nos a criar um mundo novo!"