sábado, 5 de agosto de 2017

Amor de Salvação


    O amor que nos salva não é apenas afeição. Vai muito além e está bem expresso no primeiro Mandamento. Trata-se do amor a Deus, também chamado de amor salvífico, o amor de total doação que Jesus exaltou ao ser questionado por um doutor da Lei: "'Mestre, qual é o maior Mandamento da Lei?' Respondeu Jesus: 'Amarás o Senhor Teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma de todo o tua força (Dt 6,5). Este é o maior e o primeiro Mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Nesses dois Mandamentos resumem-se toda a Lei e os Profetas.'" Mt 22,36-40
    Não por acaso, numa das vezes em que Se revelou Deus, Jesus pregou exatamente esse amor: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim." Mt 10,37
    Sem dúvida, Ele anunciava um novo conceito de família: "Jesus respondeu-lhe: 'Quem é Minha mãe e quem são Meus irmãos? E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui Minha mãe e Meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe.'" Mt 12,48-50
    E garantiu a São Pedro: "Respondeu-lhe Jesus: 'Em verdade vos digo: ninguém há que tenha deixado casa ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras por causa de Mim e por causa do Evangelho que não receba, já neste século, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, mesmo com perseguições, e no século vindouro a Vida Eterna.'" Mc 10,29-30
    É por esta perspectiva, e só por ela, que podemos entender Jesus como um 'divisor', quando Ele Se referiu à mera paz mundana, à qual não faz concessão: "Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa." Mt 10,34-36
    Esteja claro, porém, que Ele se referia à "... espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." Ef 6,17
    No entanto, o mesmo não aconteceria em sentido inverso: "O irmão entregará à morte o irmão, e o pai, o filho; e os filhos insurgir-se-ão contra os pais e dar-lhes-ão a morte. E sereis odiados de todos por causa de Meu Nome. Mas aquele que perseverar até o fim será salvo." Mc 13,12-13
    Contudo, tendo exclusivamente como objetivo a Salvação das almas, Ele determinou o dever de amar nossos inimigos, pois para um cristão oposição não significa ódio: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?" Mt 5,43-44.46
    Nesse sentido, São Paulo chega ao extremo de abandonar um fiel às mãos de Satanás. É a dramática sentença da excomunhão, quando à Igreja resta apenas dever da oração: "Em Nome do Senhor Jesus -, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Nosso Senhor Jesus -, seja esse homem entregue a Satanás, para mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva no Dia do Senhor Jesus." 1 Cor 5,4-5
    Ora, Jesus havia dado essa autoridade à Igreja, para que Seus sacerdotes decidissem caso a caso: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    E havia dito claramente que não é possível amar a Deus e ao mundo: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza." Mt 6,24
    São João Evangelista corroborou: "Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai." 1 Jo 2,15
    São Tiago Menor foi ainda mais contundente: "Todo aquele que quer ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus. Ou imaginais que em vão diz a Escritura: 'Sois amados até o ciúme pelo Espírito que habita em vós?'" Tg 4,4b-5
    Assim devem portar-se, como primeiríssimo exemplo, os verdadeiros sacerdotes da Igreja de Cristo, que tudo abandonam, por mais estranho e difícil que pareça, em nome do projeto salvífico. Jesus disse: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 16,12
    Aí incluídos, claro, todos os bens materiais: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser Meu discípulo." Lc 14,33
    Mas isso não deveria ser nenhuma novidade, pois Ele mesmo já havia alertado: "Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração." Mt 6,21
    Por essa mesma lógica Ele acusava os fariseus, que se pretendiam religiosos: "Raça de víboras, maus como sois, como podeis dizer coisas boas? Porque a boca fala do que lhe transborda do coração." Mt 12,37
    E também acusava os judeus, em geral, que não acreditavam em Suas obras nem tinham o amor de Deus exatamente por não guardarem a Palavra: "Mas tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que Meu Pai Me deu para executar - essas mesmas obras que faço - testemunham a Meu respeito que o Pai Me enviou. Vós nunca ouvistes a Sua voz nem vistes a Sua face... e não tendes Sua Palavra permanente em vós, pois não credes n'Aquele que Ele enviou. Não espero Minha Glória dos homens, mas sei que não tendes em vós o amor de Deus." Jo 5,36.37b-38.41-42
    Resignadamente, São Paulo admitia: "O amor de Cristo nos constrange..." 2 Cor 5,14
    Não é, pois, apenas com afeto, mas principalmente por perfeita obediência aos Mandamentos de Deus, capaz do santo sacrifício, que devemos amar uns aos outros. Exatamente como fez o Cristo, quando estabeleceu Seu amor como parâmetro: "Este é o Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros como Eu vos amo. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos." Jo 15,12-13
    O Apóstolo de Tarso atesta: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-Se ainda mais, tornando-Se obediente até a morte, e morte de Cruz." Fl 2,6-8
    E explicando como seríamos capazes desse amor, Jesus pediu total adesão à Sua Palavra: "Se guardardes os Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu amor." Jo 15,10
    Pois Sua Palavra tem o dom de purificar, como Ele garantiu aos Apóstolos: "Vós já estais puros pela Palavra que vos tenho anunciado." Jo 15,3
    Amar a Jesus, portanto, é amar a Palavra por Ele anunciada, que Ele prometeu como autêntica: "Aquele que não Me ama não guarda Minhas palavras. A Palavra que tendes ouvido não é Minha, mas sim do Pai que Me enviou." Jo 14,24
    E por isso Ele rezou ao Pai pelos Apóstolos, pouco antes de Sua Paixão: "Santifica-os pela Verdade. A Tua Palavra é a Verdade." Jo 17,17
    Tão profunda conversão, aliás, Deus quer para todos nós. São Paulo diz a São Timóteo que Ele "... deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da Verdade." 1 Tm 2,4
    E aderir à Palavra de Deus representa um inalienável compromisso com a Salvação dos demais, o que só é possível pela perfeita preservação da Palavra através da Unidade da Igreja. E também por isso Jesus pediu ao Pai: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-21
    Foi nesses termos, de fato, que Ele garantiu a Vida Eterna: "Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    Foi isso o que Ele fez: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os Seus que estavam no mundo, até o extremo os amou." Jo 13,1
    Foi isso que Ele ofereceu e pediu ao jovem rico, que se julgava Santo: "Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: "Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me." Mc 10,21
    Foi isso que fez Deus Pai, enviando-nos Jesus: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu Seu Filho único, para que todo o que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    Foi isso que fez São Paulo: "Desejo realmente que estejais informados do árduo combate que sustento por amor de vós e dos de Laodiceia, assim como de todos os que ainda não me viram pessoalmente!" Cl 2,1
    Sem dúvida, esse é o caminho da santidade, pelo qual o Santo de Tarso defendeu a Igreja, o Corpo Místico de Cristo que se ergue pela força do Espírito Santo: "É n'Ele (Cristo) que todo edifício, harmonicamente disposto, levanta-se até formar um templo santo no Senhor. É n'Ele que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus. Por essa causa é que eu, Paulo, sou prisioneiro de Jesus Cristo por amor de vós, gentios..." Ef 2,21-22;3,1
    Pois é a santidade, isto é, o voluntarioso e inquebrantável compromisso com os Mandamentos, que nos ensina o amor de Deus: "Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação... Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade. Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos deu o Seu Espírito Santo. A respeito da caridade fraterna, não temos necessidade de vos escrever, porquanto vós mesmos aprendestes de Deus a vos amar uns aos outros." 1 Ts 4,4a.7-9
    E só pela ação do Espírito de Deus nos é dado conhecer esse amor: "E a esperança não engana. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    De fato, São Paulo pôde atestar esta realidade na comunidade de Colossos pelo testemunho de Epafras, um de seus seguidores: "Foi ele que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    E condenando as mundanos projetos e ilusões, ele afirmou: "... o fruto do Espírito é caridade... Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória." Gl 5,22.24-26a
    Aliás, o Divino Paráclito é a própria garantia da Salvação dada por Deus através da Nova e Eterna Aliança, que foi estabelecida pelo Cristo: "N'Ele também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13-14


AMOR À VERDADE

     Amor de Salvação, portanto, é essencialmente o amor à Verdade. Escreveu São Paulo: "A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro." 2 Ts 2,9-11
    Por isso Jesus chamou o Espírito Santo, Aquele que arremataria Seus ensinamentos, de Espírito da Verdade: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    E falando em nome da Igreja, São João Evangelista vai distinguir: "Quem conhece a Deus, ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisto que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro." 1 Jo 4,6b
    Ele explicou o vínculo entre a Palavra de Deus e o verdadeiro amor: "Aquele, porém, que guarda a Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos n'Ele: aquele que afirma permanecer n'Ele deve também viver como Ele viveu." 1 Jo 2,5-6
    E sintetizou: "Nisto consiste o amor: que vivamos segundo Seus Mandamentos." 2 Jo 1,16
    Disse que tal comportamento era o próprio 'amor de Deus': "Eis o amor de Deus: que guardemos Seus Mandamentos." 1 Jo 5,3a
    Por isso ele exclama pela total entrega através da caridade: "Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em Verdade." 1 Jo 3,18
    Pois assim como Jesus é Luz e Verdade, com absoluta convicção também nós devemos sê-los no mundo: "Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele é, assim também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,17
    Essa é condição que deve buscar todo cristão, segundo São Paulo: "Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a , a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada. Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria! A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a Verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." 1 Cor 13,2-7
    Essa é a condição da perfeição humana: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    E assim ele exalta a indefectível unidade da Igreja de Cristo, que é a própria obra da Salvação, bem como maior sinal do amor e da santidade dos cristãos: "A uns Ele constituiu Apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do Corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo." Ef 4,11-13
    Ora, foi nesse sentido que Jesus afirmou este amor: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Essa unidade em torno da Igreja é mais que compreensível em função da obrigação de preservar o Precioso Depósito, o Evangelho que a ela foi confiado. São Paulo explica: "Todavia, se eu tardar, quero que saibas como deves portar-te na Casa de Deus, que é a Igreja de Deus Vivo, coluna e sustentáculo da Verdade." 1 Tm 3,15
    Isso leva a entender o amor que o próprio Jesus tem pela Igreja: "Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para apresentá-la a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25b-27.32
    E como Ele ensinou sobre o amor maior, o Apóstolo dos Gentios diz em que consiste essa entrega: "Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós entregou-Se a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor." Ef 5,2
    Com efeito, morrermos com Ele é o sentido da Santa Missa: "Eu vos exorto, pois, irmãos, pela Misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual." Rm 12,1
    Por sua profunda experiência do amor de Deus, São Paulo não o dizia apenas em sentido figurado: "Ainda que tenha de derramar o meu sangue sobre o sacrifício em homenagem à vossa fé, eu alegro-me e felicito-vos." Fl 2,17
    E seus seguidores, cuidando de animar todo o rebanho, faziam eco a suas palavras: "Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,4
    Sem dúvida, São João Evangelista ouviu de Jesus palavras de advertência, para que, em nome de um verdadeiro sacrifício de louvor, antes se cumpra em nós a completa purificação dos pecados: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te." Ap 3,19
    E São Tiago Menor apregoa: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque depois de sofrer a provação receberá a coroa da vida, que Deus prometeu aos que O amam. Cada um é tentado pela sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,12.14-15


AMAR A DEUS COM O PRÓPRIO AMOR DE DEUS

    Assim, pela guarda dos Mandamentos, o amor com que Deus nos ama passa a ser o mesmo que temos por Ele. É o que se depreende da oração de Jesus ao Pai, quando pedia pelos Apóstolos na oração da Unidade: "Manifestei-lhes o Teu Nome, e ainda hei de LhO manifestar, para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles." Jo 17,26
    São João Evangelista aponta essa mesma fonte: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus." 1 Jo 4,7
    E repete: "Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro." 1 Jo 4,19
    Alegando o Sacrifício Pascal do Cristo, ele diz como nos foi dado conhecer esse amor e qual sua finalidade: "Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o Seu Filho único, para que vivamos por Ele. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou Seu Filho como Salvador do mundo." 1 Jo 4,9.14
    Identifica também de que, por franca antecipação, fomos libertos por esse amor: "Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele amado, e enviado o Seu Filho para expiar os nossos pecados." 1 Jo 4,10
    Por isso exclama: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus." 1 Jo 3,1a
    Afirma, como disse São Paulo ao falar de penhor, que o Santo Paráclito é o selo de amor que temos de Deus: "Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o Seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos n'Ele e Ele em nós, por Ele ter-nos dado o Seu Espírito." 1 Jo 4,12b-13
    Trata-se, pois, do mesmo amor de Salvação, o amor do Sacrifício Pascal: "Nisto temos conhecido o amor: Jesus deu Sua vida por nós. Também nós outros devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos." 1 Jo 3,16
    E detalha: "No amor não há medo. Ao contrário, o perfeito amor lança fora o medo, pois o medo implica castigo, e aquele que tem medo não chegou à perfeição do amor." 1 Jo 4,18
    O salmista, no entanto, já via tal sacrifício como mera consequência da fé: "Mas por Vossa causa somos entregues à morte todos os dias e tratados como ovelhas de matadouro." Sl 43,23
    Por isso, neste caminho da Cruz, São Pedro propõe essa ascese: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade." 2 Pd 1,5-7
    Citando os Provérbios, ele indica no amor entre irmãos nossa intangível luta contra o pecado: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque o amor cobre a multidão dos pecados (Pr 10,12)." 1 Pd 4,8
    De fato, sobre a mulher adúltera que Lhe lavou os pés com lágrimas, Jesus havia dito: "Por isso te digo: seus numerosos pecados foram-lhe perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama." Lc 7,47
    São Paulo fala em algo parecido: "... leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade." Ef 4,2
    Ressalta o amor a Deus como vínculo da Divina Graça: "A Graça esteja com todos os que amam Nosso Senhor Jesus Cristo com amor inalterável e eterno." Ef 6,24
    Mas firmando propósito na imprescindível Luz do Evangelho, ele reza: "Peço, na minha oração, que a vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e vos torneis puros e irrepreensíveis para o Dia de Cristo, cheios de frutos da justiça, que provêm de Jesus Cristo, para a Glória e louvor de Deus." Fl 1,9-11
    Exorta: "Enfim, irmãos, nós vos pedimos e exortamos, no Senhor Jesus, que progridais sempre mais no modo de proceder para agradar a Deus. Vós o aprendestes de nós, e já o praticais. Todavia continueis progredindo cada vez mais." 1 Ts 4,1
    Repete Jesus: "Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade, porque toda a Lei se encerra num só preceito: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo' (Lv 19,18)." Gl 5,13b-14
    Em perfeita consonância com São João Evangelista, ele afirma: "... a caridade é o pleno cumprimento da Lei." Rm 13,10
    E diz como deve ser nosso proceder para com todo zelo religioso: "Acolhei aquele que é fraco na fé, com bondade, sem discutir as suas opiniões. Quem distingue um dia do outro faz isso por amor ao Senhor. E quem come de tudo come tudo para a Glória do Senhor, pois, ao comer, dá graças a Deus; e quem não come deixa de comer por amor ao Senhor, e também ele dá graças a Deus. Nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor. Não venha a tornar-se objeto de calúnia a tua vantagem." Rm 14,1.6-8.16
    Todavia, ao referir-se à resistência dos judeus à Manifestação de Jesus, ele lamenta a religiosidade desprovida de entendimento. Ora, as Escrituras anunciavam o Servo Sofredor: "Irmãos, o desejo do meu coração e a súplica que dirijo a Deus por eles são para que se salvem. Pois lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento. Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque Cristo é o fim da Lei, para justificar todo aquele que crê." Rm 10,1-4
    E por isso questionava o indevido emprego do dom de línguas: "Se eu oro em virtude do dom das línguas, o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto. Então que fazer? Orarei com o espírito, mas orarei também com o entendimento; cantarei com o espírito, mas cantarei também com o entendimento." 1 Cor 14,14-15
    São Pedro, por fim, ressaltando o concurso da razão para que se alcance a Salvação, argumenta no mesmo sentido: "Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito. Tende uma consciência reta a fim de que, mesmo naquilo em que dizem mal de vós, sejam confundidos os que desacreditam o vosso santo procedimento em Cristo." 1 Pd 3,15b-16
    E vê no amor salvífico a fonte da verdadeira alegria: "Este Jesus vós O amais sem O terdes visto; credes n'Ele sem O verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a Salvação de vossas almas." 1 Pd 1,8-9

    "Confirmai o Vosso povo na Unidade!"