segunda-feira, 21 de agosto de 2017

São Pio X


    Humilde mas enérgico, foi destemido defensor da Doutrina da Igreja contra as heresias acobertadas sob o nome de 'modernismo'. Dócil e amável, não abdicava de sua autoridade diante dos ataques e das maquinações do inimigo, que chegava como propostas de 'renovações' até mesmo pela alta hierarquia do Clero.
    Seu papado, de 1903 a 1914, foi num período muito turbulento da História, pois o ateísmo e, mais uma vez, a prosperidade material, como no surgimento da burguesia, eram moda em vários segmentos sociais, que deslumbradamente se julgavam inovadores. Nas universidades, a tendência era rever tudo pela ótica do naturalismo, e até a seria algo simplesmente natural. A psicologia e a sociologia prometiam respostas para tudo, mas, em flagrante contradição. nenhuma dessas bandeiras de 'um mundo melhor' evitou a Primeira e, pouco mais tarde, a Segunda Guerra Mundial.


    Essas 'novidades' chegavam também às portas dos seminários e às correntes de Teologia, entretanto encontraram o pulso firme de Giusepe Sarto, italiano, filho de humildes agricultores e zeloso padre das Tradições da Igreja. Em meio a tantas tribulações, ele, que não queria ser Papa, veio para consolidar uma enorme gama de procedimentos e formalidades que ainda hoje sustentam o Catolicismo. Para citar um dos mais importantes, ele precisou de todo o seu papado para reordenar e codificar todo o Direito Canônico, que se havia tornado um grande emaranhado de leis.
    O Secretário de Estado do Vaticano de seu tempo, o renomado Cardeal Merry del Val, enumerou algumas de suas contribuições de suma importância: "A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico; a construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do Clero; a nova disciplina referente à Primeira Comunhão e à Comunhão frequente; o restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros atos de governo..."


    Não temia pronunciar-se em defesa da Santa Igreja perante os chefes de estados, e foi sua postura crítica e decisiva contra espúrios interesses políticos que acelerou a separação entre o Estado e Igreja na França. Contrariou várias vezes a aristocracia européia, levantando a voz em defesa da dignidade humana dos trabalhadores, que eram tratados como mais uma mercadoria durante o surto de industrialização e de inchaço dos centros urbanos no continente.
    Ficou conhecido como o Papa da Eucaristia, pelo sumo valor que com toda razão lhe atribuía: "A devoção à Eucaristia é a mais nobre de todas as devoções, porque tem o próprio Deus por objeto; é a mais salutar porque nos dá o próprio Autor da Graça; é a mais suave, pois suave é o Senhor. Se os anjos pudessem sentir inveja, invejar-nos-iam porque podemos comungar."
    Tornou o rito do Santíssimo Sacramento uma prática mais frequente, diária, e também mais acessível às camadas populares. Abriu também às crianças o caminho à Comunhão, tão logo chegassem à 'idade da razão', do discernimento.
    Fiel filho de Nossa Senhora, sempre procurava seus auxílios: "O Rosário é a mais bela de todas as orações, a mais rica em Graças e a que mais agrada a Santíssima Virgem."
    E dizia de sua força: "Dai-me um exército que reze o Rosário e vencerei o mundo."


    Na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, escrita aos bispos franceses em 1910, ele afirma: "Nosso cargo apostólico impõe-nos a obrigação de zelar pela pureza da fé, pela integridade da disciplina católica e de preservar os fiéis dos perigos do erro e do mal, principalmente quando o erro e o mal se apresentam com uma linguagem atraente que, encobrindo a ambiguidade das ideias e o equívoco das expressões com o ardor do sentimento e a sonoridade das palavras, pode inflamar os corações no amor de coisas sedutoras, mas funestas."
    E acusa religiosos católicos que se acintosamente afastam da Doutrina da Igreja: "Bem sabemos que se jactam de levantar a dignidade humana e a condição, há muito menosprezada, das classes trabalhadoras [...] seu sonho consiste em trocar as bases naturais e tradicionais, e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios, que ousam declarar mais fecundos, mais benfazejos do que os princípios sobre os quais repousa a atual sociedade cristã."
    Foi oportunamente contundente: "... formaram um conceito especial da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da fraternidade, e, para justificar os seus sonhos sociais, apelam ao Evangelho interpretado à sua própria maneira e, o que é mais grave, a um Cristo desfigurado e diminuído."
    E arrematou: "Não, Veneráveis Irmãos – e é preciso reconhecer energicamente nestes tempos de anarquia social e intelectual – a cidade não será construída de outra forma senão aquela pela qual Deus a construiu; a sociedade não se edificará se a Igreja não lhe lançar as bases e não dirigir os trabalhos; não, a civilização não mais está para ser inventada nem a cidade nova para ser construída nas nuvens. Ela existiu e existe; é a civilização cristã, é a cidade católica. Trata-se apenas de instaurá-la e restaurá-la sem cessar sobre seus fundamentos naturais e divinos contra os ataques sempre renovados da utopia malsã, da rebeldia e da impiedade: omnia instaurare in Christo."
    Pio IX, arguto observador da sociedade e crítico de insanas ideologias desde suas nascentes, cujo papado durou de 1846 a 1878, já havia denunciado: "Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e verdadeiro socialista."
    São Pio X manteve atentamente esta vigília! Na encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 1907, ele apôs o ostensivo subtítulo: "Carta Encíclica do Papa Pio X sobre os erros do modernismo". O modernismo católico, firmou, é uma "síntese de todas as heresias" recentes, nomeadamente: evolucionismo, relativismo, criptomarxismo, cientificismo e psicologismo.


    Homem de vibrante e autêntica compaixão, nosso 'Pai dos órfãos e dos abandonados' não alimentava aversão ou sequer desprezo por estas correntes que atacam a Igreja. Ao contrário, pedia caridade por "... aqueles que se nos opõem e perseguem, vistos, talvez, como piores do que realmente são."
    Falava da conversão dos opositores na esperança "... de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a Luz e a Paz de Deus."
    Mesmo para com ferrenhos renitentes, por ele excomungados, sua atitude era de compreensão, jamais de abominação. Num caso específico, chegou a recomendar a um bispo: "Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele."
    E se houvesse arrependimento, a recomendação era ainda mais efusiva: "Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar."
    Veio mesmo a pagar pensão mensal a quem deles estivesse em graves dificuldades financeiras.


    Zeloso pelo rebanho, escreveu ele mesmo um catecismo simples e objetivo, de perguntas e respostas, que bem resumia o Catecismo Romano visando popularizar o conhecimento teológico básico. Segundo ele mesmo, usou de "linguagem clara e concisa". E segundo nosso saudoso Bento XVI, "... o Catecismo de São Pio X conserva sempre o seu valor. O que pode mudar é a maneira de transmitir os conteúdos da fé." Como características, ele ressalta "... a simplicidade de exposição e a profundidade de conteúdos."
    Verdadeiramente Santo, tinha o dom da cura, que várias pessoas obtiveram tão somente por estar em sua presença.
    O lema de seu papado, como visto na Carta Apostólica acima citada, era: "Restaurar todas as coisas em Cristo." Levou uma vida de extrema simplicidade e trabalhou dedicadamente para o bem maior dos cristãos e da Igreja.


    Morreu em 1914, aos 79 anos, extremamente contrariado com o início da Primeira Grande Guerra.
    Logo após sua morte, deu-se uma série de milagres atribuídos à sua intercessão.
    É o padroeiro dos peregrinos enfermos.
    Em 1970, em sua memória o arcebispo francês Marcel Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, de vida apostólica, ativa defensora das tradições católicas.
    Foi homenageado com uma expressiva estátua na Basílica de São Pedro.


    Suas relíquias, como o solidéu, também estão aí, sob o altar da Capela da Apresentação de Nossa Senhora.


    São Pio X, rogai por nós!