quinta-feira, 10 de agosto de 2017

São Lourenço


    Era espanhol e foi levado a Roma pelo Papa Sisto II, também Santo. Eram tempos de violenta perseguição à Igreja, mas ambos seguiam trabalhando com absoluto destemor. O angelical, bem humorado e forte jovem foi feito diácono, um dos sete primeiros da igreja de Roma. Era o responsável pela administração dos bens da comunidade, e distribuía esmolas.
    Em 257, o imperador Valeriano, irritado com o virtuoso crescimento da Igreja por todo império, pois tirava o povo do paganismo, sua religião, decretou captura e morte aos cristãos.
    No ano seguinte, Sisto II foi preso e decapitado. São Lourenço, que o acompanhou durante os quatro dias de sua prisão, queria morrer com ele. Momentos antes do martírio, com doçura e invocando o Sacrifício Eucarístico, ele pedia-lhe: "Meu pai, para onde vais sem vosso filho? Para onde vai o Santo Padre sem o vosso diácono? Jamais oferecestes o Sacrifício sem que eu vos acolitasse? Em que vos desagradei? Encontrastes em mim alguma infidelidade?"
    Mas o Papa precisava dele vivo para distribuir os bens da igreja local entre os pobres, pois bem sabia o que estava para acontecer e que em breve também ele seria sacrificado: "Não te abandono, meu filho! Deus reservou-te maior provação e vitória mais brilhante, pois és jovem e forte. A velhice e a fraqueza fazem com que os carrascos tenham pena de mim. Mas daqui a três dias me seguirás."
    São Lourenço cumpriu com diligência as ordens que recebeu: vendeu ouro, prata e os bens mais valiosos. Em seguida, convocou os pobres, viúvas e órfãos e distribuiu-lhes tudo que havia arrecadado, assim como todas as coisas que não conseguiu vender.
    O prefeito da cidade, ao ouvir que o administrador da igreja tinha tomado tal atitude, a princípio não acreditou. Deu ordem para que viesse até ele e aí exigiu que tudo entregasse para o luxo do imperador. Mas era tarde. Lourenço havia agido com rapidez, pois já esperava ansiosamente sua hora de também seguir para o martírio. Teve, entretanto, a ideia de dar uma bela lição ao prefeito. Pediu-lhe o prazo de um dia para juntar todos os valiosos bens de propriedade da Igreja.
    No dia seguinte, mandou convidar o prefeito para vir às portas da igreja receber o tesouro. Lá estavam uma multidão de enfermos, surdos, cegos, paralíticos, desamparados e indigentes. Disse-lhe São Lourenço: "Eis os tesouros da Igreja: os míseros que levam com resignação a Cruz de cada dia, carregam o ouro da virtude; são as almas prediletas do Senhor, que valem muito mais que pedras preciosas."
    O prefeito, tomado de ira, prometeu-lhe uma morte lenta e sofrida. Primeiro mandou acoitá-lo com crueldade, depois o colocou sobre um mármore de assar carne. Mas São Lourenço, em tocante paz, não se deixou tomar pelo medo e parecia não sentir nenhuma dor. Bem humorado, chegou a brincar com seu carrasco: "Se quiser, já pode me virar, pois este lado já está bem assado."


    Santo Ambrósio disse que seu rosto brilhava mais que o fogo, e de seu corpo saia um perfume enebriando a todos os presentes. São Leão Magno contou assim seus últimos momentos: "As chamas não puderam vencer a caridade de Cristo; e o fogo que queimava por fora foi mais fraco do que aquele que lhe ardia por dentro."


    Bastante carbonizado, seu corpo foi inicialmente sepultado no cemitério de Ciríaca, na Via Tiburtina, em Roma.
    A conversão de Constantino, imperador romano, algumas décadas mais tarde, bem como a permissão para a prática do cristianismo em todo Império, é atribuída à força da história de seu martírio, que rapidamente se espalhou por toda parte, e à sua intercessão, combinada com os sacrifício de São Pedro e São Paulo, aos quais ele tanto venerava.
    No local onde ele foi executado, Constantino mandou construir um pequeno oratório, sobre o qual no século VI foi erigida a Igreja de São Lourenço Extramuros, a quinta Basílica Patriarcal de Roma. A pedra de mármore de seu martírio foi preservada. Aí foram depositadas também as relíquias de Santo Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, que fora diácono como São Lourenço.


    Seu fêmur, com certificação papal, é venerado numa abadia beneditina erguida em sua homenagem em Ampleforth, no município de North Yorkshire, na Inglaterra.


    Por fim, na comuna italiana de Amaseno, no Lácio, há um frasco contendo seu sangue, pedaços de pele e resíduos de cinzas e terra, que são guardados na igreja de Santa Maria Assunta. Foram colhidos logo após sua morte, por gente que conhecia o cristianismo, presenciou seu martírio e viu-se profundamente tocada por sua fé. Tal e qual o sangue de São Januário, porém invariavelmente todos os anos desde 1600, o de São Lourenço sai do estado de coagulação, começando de modo sutil no início de agosto, até apresentar-se como sangue novo no dia 10.


    São Lourenço, rogai por nós!