domingo, 20 de agosto de 2017

São Bernardo


    Este monge beneditino começou a servir a Deus aos 22 anos, quando se candidatou à vida religiosa. Detalhe: trouxe consigo 30 postulantes à Abadia de Cister, na França. Eram irmãos, parentes e amigos seus. Apenas três anos mais tarde, em 1115, foi enviado por seu abade, Santo Estevão Harding, ao vale de Langres, à frente de 12 monges com a finalidade de construir uma nova abadia cisterciense, pois a primeira se havia tornado pequena demais. Eles chamaram a nova casa de 'Claro Vale', e daí veio o sobrenome que lhe deram: Claraval.
    Eleito abade deste monastério, assumiu com tanta devoção que inicialmente pareceu muito rigoroso aos seus pares. Mas era apenas sua santidade que começava a tornar-se ainda mais evidente. Tão cativante era a vida de São Bernardo de Claraval que logo seu próprio pai e irmãos, que eram muito ricos, escolheriam viver com ele na abadia. Sua irmã também se recolheu num mosteiro feminino.
    Nosso Santo precedia em quase cem anos a arrebatadora vocação para a pobreza evangélica, que iluminaria o mundo nas exemplares vidas de São Domingos, São Francisco e São Pedro Nolasco. As mulheres das cidades e vilas vizinhas temiam que seus maridos e filhos também o seguissem: ele parecia encantar as pessoas.


    E passados apenas mais três anos, em 1118, precisou construir novas abadias, pois mais uma vez já não havia lugar para todos. É quando Santo Estevão Harding convoca o Capítulo Geral Cisterciense e redige sua Ordem, que o Papa Calisto II logo aprovaria.
    Notável também por seus escritos, São Bernardo consegue com uma obra, 'Apologia', pôr fim aos desentendimentos entre sua ordem, os beneditinos de hábito branco, ou cistercienses, em referência à cidade onde tinham uma abadia, e os beneditinos hábito negro, ou clunisienses, da cidade de Cluny. Escreveu também muitas cartas que foram de grande importância para reformar a vida de bispos de toda a Igreja.
    Em 1128, foi convidado pelo Papa Honório II para ser o secretário do Concílio de Troyes. Aí ele é fortemente criticado pelo clero por sua opinião em assuntos que fugiam à sua competência, mas, por sua sincera humildade e profunda Comunhão com a vontade de Deus, terminou tendo todas suas propostas acatadas.
    Conseguiu nessa ocasião fundar a Ordem do Templo, ou os famosos Templários, cavaleiros militares que protegiam os peregrinos em viagem à Terra Santa, pois era o início de quase 200 anos de Cruzadas. Sua intenção era garantir as peregrinações, uma tradição quase obrigatória entre os europeus àquela época. A regra do Templários foi toda redigida por ele.
    Por fim, conseguiu também a independência dos cistercienses em relação à Abadia de Cluny, em 1132, pois realmente abraçavam um distinto carisma.


    Defendeu a Igreja da ganância de alguns príncipes da Europa, cujas riquezas mediam-se em terras, e ainda conseguia fazer-se ouvido por eles. Pôs fim ao cisma levantado por Anacleto II, um antipapa que não aceitava o papado de Inocêncio II, sucessor de Honório II. E por sua extrema habilidade de moderador, que era forte característica dos papas destes séculos, trouxe de volta todos que, por causa dessa controvérsia, puseram-se em oposição à Igreja. Com seu apoio, Inocêncio II instituiu definitivamente o celibato a todo Clero, e com rigor condenou a usura.
    Em 1145, não por acaso, saiu de Claraval o monge que se tornaria o Papa Inocêncio III. Foi também quando o reino de Jerusalém sofreu outro grande ataque dos muçulmanos, e o Papa pediu a São Bernardo que convocasse a Segunda Cruzada, para a qual ele obteve a adesão do rei da França, Luis VII, e do imperador do Sacro Império Germânico, Conrado III. A reconquista da Terra Santa pelas Cruzadas, entretanto, revelou-se desde então uma missão impossível. São Bernardo sofreu pesadas acusações por seu empenho nessa tarefa, mas, resignadamente, assumiu toda a culpa do fracasso.


    Combateu várias heresias que nasciam dentro da Igreja, a maioria delas através de bispos. Apoiado por muitos religiosos que se assombravam como os novos relatos que vinham de Jerusalém, voltou a defender outra Cruzada em encontros com os condes da Bélgica, mas não obteve sucesso. A Terceira só vai acontecer mais de 40 anos depois de sua morte.
    Afirmativamente, era manifesta vontade de toda a cristandade de então preservar relíquias e santos lugares, mantendo-os devidamente respeitados e livres para o acesso de peregrinos. Muitos leigos engajados, boa parte deles jovens revoltados com a 'passividade' da Igreja, faziam aos clérigos superiores duras críticas, e é majoritariamente deste segmento social, associados a mercadores e comerciantes da nascente burguesia, precursores do vultoso desenvolvimento econômico e social da Europa, que surgirão as próximas tentativas de libertação da Terra Santa.
    Ao morrer, em 1153, São Bernardo já havia fundado 72 mosteiros, que contavam aproximadamente com 700 monges. Escreveu várias obras de grande importância, além de centenas de cartas e sermões. Tomou parte em todas questões doutrinárias e religiosas de seu tempo. De forte devoção à Nossa Senhora, é dele a frase na Salve Rainha: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria."
    Um de seus mais significativos milagres ocorreu pelo hábito que tinha de dizer "Ave Maria" sempre que passava diante da imagem da Santíssima Virgem. Certa vez, ao fazer essa habitual saudação num mosteiro, a Mãe de Deus respondeu-lhe: "Ave Bernardo."


    De suas luminosas reflexões, ele registrou:
    "A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, amá-Lo sem medida."
    "Amar a Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade."
    "Da Cruz e das chagas do Nosso Redentor sai um grito para nos fazer entender o amor que Ele nos tem."
    "Deus é Sabedoria, e quer ser amado não só suave mas também sapientemente… Aliás, com muita facilidade o espírito do erro escarnecerá do teu zelo, se desprezares a ciência. Nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão."
    "Quem somos nós, e qual a nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente, era isso que Deus queria: que nós, vendo a nossa insuficiência e a falta de auxílio, recorrêssemos com toda a humildade à Sua Misericórdia."
    "Poderíamos definir a humildade assim: é uma virtude que estimula o homem a menosprezar-se diante da clara verdade do seu próprio conhecimento."
    "'Senhor, que queres que eu faça?' (pergunta Paulo). É esta certamente a forma de uma perfeita conversão. Quão poucos se ajustam a esta forma de perfeita obediência, de tal modo tenham abdicado da própria vontade que nem sequer mais tenham o seu próprio coração, e a toda a hora se perguntem, não o que eles querem, mas o que o Senhor quer!"
    "A oração controla os nossos afetos e dirige as nossas ações para Deus."
    "São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios."
    "Com a oração a alma consegue o divino auxílio, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas."
    "Todo o nosso mérito consiste em confiarmos plenamente em Deus."
    "Para chegarmos à perfeição, temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação vemos o que nos falta; pela súplica recebemos o que nos é necessário."
    "Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em participar devotamente de uma só Missa do que com distribuir todas as riquezas aos pobres e peregrinar por toda a terra."
    "A Eucaristia é o amor que supera todos os outros amores no Céu e na terra."
    "Existe indubitavelmente uma espantosa analogia entre o azeite e o Nome do Amado, pelo que a comparação apresentada pelo Espirito Santo não é arbitrária. A não ser que possais sugerir algo de melhor, afirmarei que o Nome de Jesus possui semelhança ao azeite na tripla utilidade deste último, nomeadamente, para iluminar, na alimentação e como lenitivo. Mantém a chama, alimenta o corpo, alivia a dor. É luz, alimento e medicina. Observai como as mesmas propriedades podem ser encontradas no Nome do Divino Noivo. Quando pronunciado, fornece luz; quando meditado, alimenta; quando invocado, serena e abranda."
    "A Comunhão reprime as nossas paixões: principalmente, ira e sensualidade. Quando Jesus está presente corporalmente em nós, ao redor de nós, montam guarda de amor os anjos."
    "Não há música mais suave, palavra mais jubilosa, pensamento mais doce que Jesus, Filho de Deus!"
    "Ser deificado é tornar-se caridade porque Deus é caridade; por isso todos os esforços da alma devem ter como alvo a caridade. A caridade dá a visão de Deus e a semelhança a Deus."
    "Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d’Ela, obtermos tudo de que necessitamos."
    "Quereis um advogado junto a Jesus? Recorrei a Maria, pois nela não há senão pura compaixão pelos males alheios. Pura não só porque ela é Imaculada, mas porque nela só existe pura e simples compaixão. Digo-o sem hesitar: Maria será ouvida pela consideração que lhe é devida."
    "Deus quis que nada recebêssemos que não passe pelas mãos de Maria."
    "Deus depositou em Maria a plenitude de todo o bem."
    "Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as Graças e chamou-as Maria."
    "A lança que abriu o lado de Jesus, transpassou a alma da Virgem, que não podia separar-se do Filho."
    "Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria."
    "Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro de sua intercessão, não negligencies os exemplos de sua vida. Seguindo-a, não te transviarás; rezando a ela, não desesperarás; pensando nela, evitarás todo erro. Se ela te sustenta, não cairás; se ela te protege, nada terás a temer; se ela te conduz, não te cansarás; se ela te é favorável, alcançarás o fim."
    "Quem recorreu à vossa proteção e foi por vós desamparado, ó Maria?"
    "Os infernos tremem de medo ao ouvir o nome de Maria."
    "O herege é ovelha na lã, raposa nas entranhas e lobo nas obras."
    É Doutor da Igreja, e suas relíquias, como uma vértebra, são veneradas no sacro museu da Igreja de Sant'Ana de Dijon, na região da Borgonha, centro leste da França.


    São Bernardo, rogai por nós!