domingo, 13 de agosto de 2017

Santo Hipólito


    Por seu exaltado amor à Sã Doutrina, teve uma vida bastante conturbada: entrava frequentemente em conflito com os próprios cristãos, e chegou a ser aclamado Papa por um grupo dissidente da Igreja. Foi o primeiro antipapa, portanto, mas soube reconhecer seus erros e morreu como Santo.
    Teria nascido em Roma, em 170. Notável teólogo, de reconhecida erudição e eloquência, foi seguidor de Santo Irineu e de São Policarpo, e influenciou profundamente Orígenes, que ouviu suas aclamadas pregações e cuidou de registrar as memoráveis. Santo Hipólito escreveu obras ainda hoje lidas, como 'Teorias Filosóficas', o 'Livro de Daniel' e, a mais importante por retratar os primeiros anos da Igreja, 'A Tradição Apostólica'. Nela vemos registros dos primeiros ritos da Igreja sob o bispado de São Pedro.
    Era presbítero em Roma durante o papado de Zeferino, entre 199 e 217, e rebelou-se contra ele, acusando-o injustamente de modalismo, uma heresia que considerava Deus e Jesus a mesma Pessoa, apenas teriam nomes diferentes. Não pôde, porém, sustentar essa acusação, pois na verdade o Papa Zeferino defendia com maestria o entendimento que levaria à compreensão da Santíssima Trindade, sustentando que Deus é simultaneamente Pai, Filho e Espírito Santo, mas em 3 Pessoas diferentes.
    Em suas críticas, Santo Hipólito achava que Zeferino não possuía conhecimento suficiente para ser Papa, e que seria manipulado por Calisto, seu diácono. Contudo, por seus agressivos pronunciamentos, ele afetava cada vez mais a autoridade papal e a unidade da Igreja, ainda que cuidasse estar apenas defendendo a Doutrina e a Disciplina.
    Impulsivo e temperamental, chegou ao extremo de romper declaradamente com o papado quando São Calisto I foi aclamado sucessor de Zeferino, em 217, e estendeu a absolvição também em casos de arrependimento por reincidência em graves pecados, como adultério, homicídio e apostasia. Demasiadamente rigoroso, Santo Hipólito achava um escândalo que o perdão fosse concedido mais de uma vez nesses casos. Em tempos que a Igreja ainda não exigia o celibato, ele condenava São Calisto também por admitir como sacerdote homens que tivessem sido casados 2 ou 3 vezes, e reconhecer o casamento entre escravos e mulheres livres, que as leis civis romanas proibiam.


    Como era muito admirado por seus conhecimentos, seus seguidores aclamaram-no Bispo de Ostia, uma cidade costeira próxima a Roma, e em paralelo à eleição de São Calisto I para o papado, o que causou divisão tanto entre sacerdotes como entre fiéis da região. A maior parte do clero, entretanto, não cedeu às suas contestações e continuou fiel a São Calisto I.
    O 'Cisma de Santo Hipólito' durou quase 20 anos, pois ele ainda fez oposição aos Papas Urbano, que liderou a Igreja de 222 a 230, e São Ponciano, de 230 a 235. Alexandro Severo, imperador até então, era muito condescendente com as religiões e preferiu não interferir. Mas quando Maximino Trácio assumiu, iniciou-se um novo período de perseguições aos cristãos, e Santo Hipólito e São Ponciano foram condenados a trabalhos forçados numa mina de pedra na ilha da Sardenha, a oeste da península itálica.
    O gesto que teria convertido Santo Hipólito foi a humildade com que São Ponciano renunciou ao papado, para que a Igreja não ficasse sem o Sumo Pontífice, a ponte entre os Céus e a terra. O primeiro Papa deportado, portanto, foi também o primeiro a usar o recurso extremo da renúncia, pensando sempre e exclusivamente no bem da Igreja. Santo Hipólito, profundamente tocado em seu coração tão ríspido e intolerante, pediu perdão a São Ponciano que, além não lhe ter raiva, rezava com frequência pela conversão de sua alma, e assim dele recebeu o Sacramento da Reconciliação com Deus.


    Expostos a intensos maus tratos, açoites e até torturas, Santo Hipólito veio a falecer e pouco depois também São Ponciano, no mesmo ano em que foram exilados, 235. Em 354, no dia 13 de agosto, seus restos mortais foram transportados juntos para Roma, onde tiveram recepção com a devida solenidade, pois os cristãos cultuavam suas memórias.
    Santo Hipólito foi enterrado na Via Tiburtina e São Ponciano nas Catacumbas chamadas de São Calisto, que na verdade haviam sido criadas pelo Papa Zeferino, para dar um digno destino aos restos mortais dos Santos e Papas nos períodos de perseguição. Completava-se então aquela que seria chamada a Cripta dos Papas, o lugar mais importante das Catacumbas de São Calisto, também chamado de 'O Pequeno Vaticano', à qual São Damásio mandou fazer uma lápide. Segredo tão bem preservado, ela só foi descoberta em 1854.


    Santo Hipólito, rogai por nós!