terça-feira, 1 de agosto de 2017

Santo Afonso


     Sua luminosa inteligência foi percebida desde a infância. Aos 13 anos já tocava cravo com perfeição, e aos 16 foi aprovado por unanimidade como doutor em Direito Civil e Eclesiástico, quando a idade mínima era 20 anos. Mas aos 27, diante de tantos casos graves de corrupção, resolve deixar a carreira de advogado e tornar-se padre.
    Era de família muito rica, seu pai estava orgulhoso do filho que não perdia nenhuma causa na justiça, havia-se tornado famoso entre os nobres e era cortejado por belas jovens. Mas o coração de Santo Afonso Maria de Ligório não se acostumava com o mundo de aparências e futilidades. Após poucos anos de estudo de Teologia, ordenou-se aos 30 anos, em 1726.
    Nas ruas buscava estar na companhia dos indigentes e marginalizados de Nápoles. E arrastava multidões de maltrapilhos para rezar e proclamar a Palavra de Deus. Criou as 'Capelas da Tarde', lugar onde os reunia também para estudar, cantar e realizar outras atividades sociais. Acompanhava os condenados à morte para confortá-los, tomar-lhes Confissão, fazer-lhes companhia nos momentos que antecediam as execuções e cuidar de seus funerais. Visitava enfermos nos hospitais, principalmente no Hospital dos Incuráveis, onde havia mais de um século tratou-se e trabalhou São Camilo.
    Tão intensa era sua vida de padre que em apenas 4 anos de serviços caiu doente, e viu-se obrigado a fazer um retiro para tratar-se. Foi quando descobriu um lugar chamado Santa Maria dos Montes, acima da cidade de Scala, onde vivia uma gente de aparência rude, criadores de cabra, e logo começou a evangelizá-los. Seu coração terno e sensível, que havia renegado o falso, ambicioso e ferino mundo da grande cidade, encantou-se com a pureza daquele povo do campo. Nem mesmo entre os indigentes havia encontrado gente tão verdadeira e amável.


    Teve que voltar para Nápoles, mas não conseguiu esquecer os criadores de cabra. Após um longo período de meditação e aconselhamento com seus superiores, resolveu que a gente de Santa Matia dos Montes era mais carentes, pois, vivendo em região tão afastada, não tinham quem os assistisse. Era 1732. Com dois colegas revezavam-se num burrico e deixaram para trás toda a estrutura material daqueles tempos. Fundou a Congregação do Santíssimo Redentor para anunciar o Evangelho aos mais abandonados. Haveriam de estar presente na vida dos mais humildes não apenas nos momentos religiosos, mas em todas as horas, nas suas casas, no dia-a-dia, nos trabalhos. E repetia: "Tudo é missão."
    Ao contrário de largos segmentos da Igreja de seu tempo, que falava de Lei e de pecado para combater o ateísmo já fortemente insurgente entre os mais letrados, Santo Afonso falava de amor e misericórdia. Se Deus amava a todos, como poderia ser possível não amá-Lo? Com total propriedade, fez do Sacramento da Confissão a porta de entrada de muitas almas no Reino de Deus. Cativava tão facilmente as pessoas que era procurado por todos como alguém para conversar, aconselhar-se e, mais que tudo, reconciliar-se com Deus.
    Escrevia profusamente. Deixou belíssimas obras, entre elas 'Teologia Moral', escrita para os sacerdotes, pois trata do momento em que o ser humano questiona sua vida diante dos amorosos olhos de Deus. E o 'Tratado da Castidade' ainda hoje é referência para quem deseja viver a verdadeira cristandade. Nele demonstrou claramente como certas amizades podem ser muito perigosas.
    Sempre usou de linguagem que todos entendiam, dos mais ricos aos mais pobres. A devoção e a simplicidade popular era sua grande bandeira para trair o pensamento dos cristãos e fazê-los conhecer a humildade do Messias, servo, feito homem. Revelou ao mundo a grandeza de Nossa Senhora na obra 'Glórias de Maria', de quem, segundo ele mesmo confessou a uma freira, recebia conselhos.
    Escreveu sobre os Mistérios de Cristo, sobre Sua Encarnação e Sua Paixão. Escreveu para religiosos e leigos, e ainda sobre poesia e música. São 111 obras. Diz-se que toda a consciência cristã daquele tempo foi inspirada por suas pregações. Sem sombra de dúvida, é o melhor prosador religioso da Itália de todo o século XVIII.


    Aos 66 anos, embora de saúde frágil, foi ordenado bispo de uma cidadezinha, Santa Ágata dos Godos, onde em treze anos renovou o seminário, melhorou sensivelmente a formação dos padres e levou o povo local ao socorro dos mais pobres.
    Em 1775 deixou a diocese e voltou para sua congregação, para as orações e para seus escritos. E em 1787 finalmente descansa, aos 91 anos, deixando 72 Capelas da Tarde e 183 Padres Redentoristas. Algumas de sua relíquias podem ser vistas sob um dos altares da basílica da comuna de Pagani, em Salermo, que foi erguida em homenagem a São Miguel Arcanjo mas passou a ser dedicada a nosso Santo, onde se venera sua imagem em madeira, com vestes e paramentos que lhe pertenceram.



    Santo Afonso, rogai por nós!