sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Santa Clara


    Quando a intensificação do comércio começava a enriquecer a Europa, aos 17 anos Santa Clara conheceu São Francisco, que já tinha 29, e começou a alimentar o sonho de também abraçar a santa pobreza. Seus pais eram bem mais ricos que os dele, e como mulher foi muito mais difícil sair de casa contra a vontade do pai. Após completar 18 anos, porém, no Domingo de Ramos de 1212, ela fugiu na calada da noite para um lugar combinado com São Francisco e outros frades.
    Em seguida foram à Porciúncula, uma pequena igreja fora da cidade de Assis, tida como obra de cristãos eremitas palestinos do século IV, que foi adotada por São Bento e seus monges em 576, e agora estava sendo abraçada pelos franciscanos. Lá, o Poverello (que quer dizer pobrezinho, apelido de São Francisco) cortou-lhe os belos cabelos e deu-lhe um manto de linho cru, em sinal de consagração a Deus e de compromisso com a pobreza.
    Já desde pequena era muito caridosa com os mais pobres e nunca havia entendido a separação entre os que têm tudo, como era sua família, e o povo que nada tinha e ainda vivia trabalhando para dar mais aos abastados.
    Bem que seu pai suspeitou para onde ela havia fugido. Acompanhado de seus guardas, foram até à Porciúncula na certeza de que a 'pueril menina' tinha sido enfeitiçada pelo 'maluco de Assis e sua trupe de irresponsáveis'.



    Porém não a encontrou aí. Ao saber que São Francisco e seus seguidores se tinham dirigido ao Mosteiro de São Paulo das Abadessas, da ordem das beneditinas, pôs-se rapidamente a caminho, mas quando lá chegou e viu sua filha de cabelos curtos, vestida com o hábito, teve um choque paralisante. São Francisco, tanto para confortá-lo como para demovê-lo da intenção de levá-la de volta, apresentou-a como esposa de Cristo.
    Dias mais tarde, ela foi conduzida para o Convento de Panzo, também das beneditinas. Dezesseis dias depois da fuga de casa, sua irmã mais nova, Inês, que também foi canonizada, iria juntar-se a ela, assim como, passados alguns anos, sua irmã Beatriz, e ainda sua mãe Ortolana, após enviuvar.
    A pedido de Santa Clara, o Poverello criou uma nova regra para ela e outras seguidoras que pretendiam viver a verdadeira e completa pobreza, exatamente ao modo dos frades menores, como ele quis que fossem chamados. Para tanto, levou-as às cercanias de Assis, a uma casa junto à igreja de São Damião, onde a imagem do Cristo Crucificado lhe havia falado. Depois trouxe-lhes a regra que seria o carisma das Pobres Senhoras, mais tarde chamadas de Clarissas, em homenagem a Santa Clara, ou ainda a Ordem Segunda de São Francisco.


    Dessa casa Santa Clara não mais sairá. Vai praticar penitências tão rigorosas que São Francisco vai obrigá-la a comer ao menos um pão por dia, nos três que ficava de jejum todas as semanas. Vivia para adorar o Santíssimo Sacramento, para a oração e para tratar de enfermos. Abstinha-se totalmente de carne, dormia sobre ramos de videira e usava um feixe de lenha como travesseiro.
    São Francisco afastava-se cada vez mais delas, por causa do carinho que lhe tinham. Achava que não merecia e que as tirava da oração. Depois de muitos apelos, ele aceitou ir lá e fazer-lhes uma pregação. Entrou na igreja de São Damião, rezou bastante em voz baixa, olhando ora para o altar ora para cima, e depois pediu-lhes cinzas; com elas fez um círculo à sua volta, como para não contaminar o ambiente, detendo em si suas concupiscências, pôs o resto sobre a cabeça e recitou o Salmo 50, da penitência. Demonstrando assim emblematicamente sua luta contra o Mal, apresentava-se como um grande pecador.
    Em 1224 ele seria acometido dos estigmas de Cristo, que o fariam recolher-se ainda mais para evitar a admiração e a curiosidade popular. Em 1225, no mesmo ano que as monjas de Santo Apolinário adotaram a regra das Clarissas, gravemente doente mas sem querer renegar o dom da vida, com toda humildade ele vai à casa de Santa Clara e pede para ser tratado como um simples enfermo. Depois de uma ligeira melhora, parte novamente. Seria o último encontro desses formidáveis filhos de Deus. Em 1226, morre São Francisco.
    Santa Clara trocou intensa correspondência com o papa, porque não queria aceitar a propriedade que ele tentava doar a ela ou à sua irmã, Santa Inês de Assis, para uso da congregação que formavam. Escreveu também a regra definitiva das Clarissas, acrescentando alguns detalhes à deixada por São Francisco. Falava estritamente o necessário, para não dar ocasião aos pecados que se manifestam nas palavras. Ao chegar à sua presença, todos sentiam que estavam diante de uma Santa. E com razão, pois ao bastar-se com as pequenas esmolas que lhe doava o povo, elas multiplicavam-se em suas mãos a ponto das demais irmãs não suportarem o peso quando lhes repassava. Curava as enfermidades das irmãs fazendo o sinal da Cruz sobre elas.
    Em 1244, quando o Imperador Frederico II invadiu a Itália, enviou os muçulmanos para tomar a região de Assis. Eles resolveram começar por São Damião, mas ao tentarem invadir a igreja viram dela sair Santa Clara portando o Ostensório com a Hóstia Consagrada. Foram tomados de um pânico inexplicável, os cavalos andavam assustados para trás, e eles terminaram fugindo sem sequer tentar invadir Assis.
    Num Natal, quando esteve muito enferma, não pôde ir assistir à Missa do Galo na igreja de São Francisco, mas pediu as irmãs que não se detivessem por sua causa; ficaria muito bem sozinha. Mais tarde, quando as irmã voltaram para contar-lhe como havia sido bela a Santa Missa, viram seu rosto inexplicavelmente alegre e radiante. E ela disse-lhes: "Louvai o Senhor, irmãs caríssimas, porque não quis deixar-me só neste lugar. Enquanto vós rezáveis, eu, por Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e por intercessão de meu pai São Francisco, estive presente em sua igreja e participei de toda celebração, inclusive recebi Santíssima Comunhão."
    Por esse milagre de teletransportação, em 1958 o Papa Pio XII faz dela a padroeira da televisão.
    Em 1253, já bem enfraquecida, era frequentemente visitada pelo alto clero. Todos queriam conhecer a santa irmã de São Francisco de Assis e pedir-lhe conselhos. Ela aproveitou para pedir e receber do Papa Inocêncio IV, em duas ocasiões, o Sacramento da absolvição dos pecados. Ele, que ia visitá-la para inspirar-se em sua santidade, comentou: "Quisera Deus que eu necessitasse de tão pouco perdão."
    Viveu os últimos 17 dias sem tomar nenhum alimento, pois sua e devoção só cresciam enquanto chegava a hora de encontrar-se com Deus. Seu cordão e seus cabelos, que foram cortados por São Francisco, junto aos hábitos do Poverello e um sapato por ele usado depois de receber os estigmas, podem ser vistos na basílica que leva seu nome, onde fora a igreja de São Jorge. Segundo relatos, seu corpo esteve perfeitamente conservado até o início do século XIX.


    Santa Clara, rogai por nós!