quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Revestir-se de Cristo


    Frequentemente São Paulo usa o verbo 'revestir-se' no sentido de renovação espiritual, de mais profunda conversão para quem se põem no caminho da Salvação. De fato, as vestes são uma maneira de representar quem somos, como nas profissões, ou a situação que vivemos, como nas festas e no luto. Assim ele exorta a uma significativa transformação, que seja tão notória às pessoas em volta quanto nossas vestes. E cuidando de livrar-nos de toda pequena influência do Maligno, também alerta: "Abstende-vos de toda aparência do mal." 1 Ts 5,22
    Jesus mesmo recomendou esta imprescindível iniciativa: "Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar, e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta." Mt 5,23-24
    Segundo o Apóstolo de Tarso, os que amam a Cristo devem trazer em si Sua imagem e Sua Glória, pois Deus "... predestinou-os para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou." Rm 8,29-30
    Com efeito, este é um indizível dom que Jesus deu aos Apóstolos, como vemos quando Ele rezou ao Pai a Oração da Unidade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Pois sabemos que a Glória de Cristo é muito maior que a que Moisés conheceu, como disse São Paulo: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face, embora transitório, quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito!" 2 Cor 3,7-8
    Essa Glória é a imagem do próprio Pai, é Sua santidade: "... e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade." Ef 4,24
    E tomando como modelo Sua imagem, assim devemos nos restaurar: "Vós vos despistes do homem velho com os seus vícios, e vos revestistes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    Essa Graça, que precisa ser efetivamente vivenciada, é adquirida desde o Batismo: "Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo." Gl 3,27
    Guardá-la, pois, deve ser nosso combate nesse mundo errante: "... revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites." Rm 13,14
    E em todas as circunstâncias: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma sociedade depravada e maliciosa, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-16a
    Porque a Graça é nossa defesa contra os verdadeiros inimigos, que são invisíveis: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço." Ef 6,11-12
    Tomando como exemplo as armas de um guerreiro, São Paulo faz uma pertinente comparação com nossas 'armas espirituais': "Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da paz. Sobretudo, embraçai o escudo da , com que possais apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus." Ef 6,13-17
    Inspiradamente, ele chamou-as de 'armas da Luz': "A noite vai adiantada, e o dia vem chegando. Despojemo-nos das obras das trevas e vistamo-nos das armas da Luz." Rm 13,12
    Essas 'vestes espirituais' deixam claros sinais em nossa alma, que transparecem fortemente em nosso jeito de agir: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência." Cl 3,12
    Elas fazem-se notar no respeito aos mais velhos, como recomendou São Pedro: "Semelhantemente, vós outros que sois mais jovens, sede submissos aos anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a Sua Graça aos humildes (Pr 3,34)." 1 Pd 5,5
    Assim também às autoridades e instituições, desde que não oponíveis, sejam elas divinas ou humanas como dizia São Paulo: "Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação." Rm 13,1-2
    Pois, em nome da ordem pública, por elas até devemos rezar: "Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda a piedade e honestidade." 1 Tm 2,1-2
    Devemos portar, enfim, a indefectível marca do amor, sem o qual não nos achegamos ao Cristo: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Porque não se revestir de Cristo será sinônimo de trágico destino, como Ele mesmo explicou na parábola que alude às Núpcias do Cordeiro: "'Meu amigo, como entraste aqui, sem a veste nupcial?' Disse então o Rei aos servos: 'Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 22,12-13
    E mandou essa mensagem, que vale para todos: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito' - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de Mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,17-18
    Ora, Ele denunciava desvios já na hipocrisia dos falsos religiosos, no caso escribas e fariseus, que invariavelmente se materializa desde a aparência: "Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos." Mt 23,5
    Por isso, em oposição a mundanos cuidados, recomendava confiança da Divina Providência, que se reflete através da modéstia: "E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo, que não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu vos digo que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo." Mt 6,28-30.32-33
    São Pedro dizia o mesmo às mulheres, sempre tão volúveis diante dessas tentações: "Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus." 1 Pd 3,3-4
    De fato, as promessas de Vida Eterna são representadas por outras vestes, mais que especiais, iguais às do próprio Salvador, como Ele mesmo revelou a São João Evangelista no Apocalipse: "Todavia, tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem. O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do Livro da Vida, e o proclamarei diante do Meu Pai e dos Seus anjos." Ap 3,4-5
    Essas já são as vestes dos Anciãos que ele viu nos Céus: "Ao redor havia vinte e quatro tronos, e neles, sentados, vinte e quatro Anciãos vestidos de vestes brancas e com coroas de ouro na cabeça." Ap 4,4
    São as vestes dos Santos Mártires da Igreja, que nos Céus junto a Deus intercedem por justiça: "Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: ‘Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?’ Foi então dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos." Ap 6,9-11
    Aliás, veste de Todos os Santos, que venceram o pecado e já estão perante Deus, louvando diante de Seu trono: "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão... Então um dos Anciãos falou comigo e perguntou-me: 'Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes'. E ele me disse: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,9.13-14
    Por fim, essa é a marca da própria Ressurreição da carne, na qual pomos toda nossa esperança. Diz São Paulo: "Nós, porém, somos cidadãos dos Céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao Seu Corpo Glorioso..." Fl 3,20-21
    É a própria Vida Eterna: "Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, ou seja, quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a Palavra da Escritura: 'A morte foi tragada pela Vitória' (Is 25,8). 'Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão' (Os 13,14)?" 1 Cor 15,54-55
    Não por acaso, ainda entre nós, Jesus deu aos mais íntimos Apóstolos um sinal de Sua Glória. Foi na Transfiguração do Monte Tabor: "... Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-Se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra pode fazê-las assim tão brancas." Mc 9,2-3
    

REVESTIR-SE DO ESPÍRITO SANTO

    Mas o poder de Suas vestes não se encerravam em Luz. Ao tocá-las, a mulher que tinha hemorragia havia doze anos foi instantaneamente curada: "Jesus percebeu imediatamente que saíra d'Ele uma força e, voltando-Se para o povo, perguntou: 'Quem tocou Minhas vestes?'" Mc 5,30
    E ela não foi a única: "Onde quer que Ele entrasse, fosse nas aldeias ou nos povoados, ou nas cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de Suas vestes. E todos aqueles que tocavam em Jesus ficavam sãos." Mc 6,56
    Até Seus inimigos quiseram um pedaço de Suas veste e da túnica, embora não soubessem o inestimável valor que elas têm: "Depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram Suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado. A túnica, porém, toda tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois, uns aos outros: 'Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de quem será.' Assim se cumpria a Escritura: 'Repartiram entre si Minhas vestes e deitaram sorte sobre Minha túnica.' (Sl 21,19)" Jo 19,23-24
    Tal poder faz-se representar pela autoridade que Jesus deu à Igreja, desde a fundação no dia de Pentecostes, quando derramou o Espírito Santo sobre os Apóstolos: "Eu vos mandarei o Prometido de Meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Pois a Igreja é feita de novas criaturas, que vivem uma condição além da carne como viveu o próprio Cristo. São Paulo atestou: "De fato, Cristo morreu por todos para que os vivos não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim, doravante, não conhecemos ninguém conforme a natureza humana. E se uma vez conhecemos Cristo segundo a carne, agora já não O conhecemos assim. Portanto, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo." 2 Cor 5,15-17
    Significativamente, a transfiguração também foi o sinal dado por Deus na pessoa de Nossa Mãe Celestial, desde sua chegada aos Céus: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    Fulgurante, ademais, eram as vestes do anjo que apareceu a Santa Maria Madalena, no Domingo da Ressurreição: "E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do Céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. Resplandecia como relâmpago e suas vestes eram brancas como a neve." Mt 28,2-3
    Foi em idêntica condição que o anjo apareceu a Cornélio, fato que culminou no 'Pentecostes dos não judeus': "Faz hoje quatro dias que estava eu a orar em minha casa, à hora nona, quando se pôs diante de mim um homem com vestes resplandecentes..." At 10,30
    Essa, entretanto, é a promessa que Jesus faz a todos que guardam Seus Mandamentos: "Então, no Reino de Seu Pai, os justos resplandecerão como o sol." Mt 13,43
    Pois como a Glória que Ele deu aos Apóstolos, essa é a própria Glória de Deus Pai, que estará estampada em Seus filhos: "Quando Cristo, Vossa Vida, aparecer em Seu triunfo, então vós aparecereis também com Ele, revestidos de Glória." Cl 3,4
    É igualmente assim a roupa do Cordeiro, à espera de Suas Núpcias: "Alegremo-nos, exultemos e demos-Lhe Glória, porque se aproximam as Núpcias do Cordeiro. Foi-Lhe dado revestir-Se de linho puríssimo e resplandecente. Porque o linho são as boas obras dos Santos." Ap 19,8
    É assim a aparência da Nova Jerusalém: "... a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus." Ap 21,10-11
    Aliás, tal e qual havia sido prescrito pelo Profeta Baruc: "Tira, Jerusalém, a veste de luto e de miséria; reveste, para sempre, os adornos da Divina Glória. Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus, e coloca sobre a cabeça o diadema da Glória do Eterno. Deus vai mostrar à terra, e sob todos os Céus, teu esplendor." Br 5,1-3
    Por fim, o próprio Jesus, Deus de Deus, promete que a Eterna Felicidade será daqueles que usufruirão plenamente desta Jerusalém Celestial: "Felizes aqueles que lavam as suas vestes para ter direito à árvore da Vida e poder entrar na Cidade pelas portas." Ap 22,14
    De sua luminosa inspiração, São Paulo deixou-nos alguns detalhes da definitiva transfiguração: "Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna no Céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos da nossa habitação celeste, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que nos deu por penhor o Seu Espírito. Por isso estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto do Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, esforçamo-nos por agradar-Lhe. Porque teremos de comparecer diante do Tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." 2 Cor 5,1-10

    "Confirmai na caridade o Vosso povo!"