terça-feira, 22 de agosto de 2017

Nossa Senhora Rainha


    Em 1954, o Papa Pio XII instituiu a celebração da Memória de Nossa Senhora Rainha. Foi uma declaração mais que devida, pois vários Santos já a haviam afirmado Rainha. O próprio São João Evangelista, aquele que foi incumbido pelo próprio Jesus da guarda de Sua Mãe e Nossa Mãe, deixou um evidente registro de Sua coroação nos Céus: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    E nós proclamamos a Santíssima Virgem como Rainha para ainda mais exaltar o Reino de Seu Filho, do qual Ela é a primeira participante. Sem dúvida, foi primeiramente a Maria que o Arcanjo São Gabriel anunciou o início eterno reinado do Salvador: "Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus Lhe dará o trono de Seu pai Davi; e reinará eternamente na Casa de Jacó, e o Seu Reino não terá fim." Lc 1,32-33
    Afirmativamente, foi o próprio Jesus que declarou a divina natureza de Seu Reino: "O Meu Reino não é deste mundo." Jo 18,36
    Ele foi instaurado desde o início de Sua vida pública, como Ele mesmo afirmou: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Isso marcou a ostensiva presença de Deus entre nós, segundo São João Evangelista: "E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós, e vimos Sua Glória..." Jo 1,14a
    Além do muito especial reinado de Maria, a Mãe do Rei, iniciado desde Sua Assunção aos Céus, Jesus também prometeu aos Apóstolos que reinariam junto com Ele: trata-se da efetividade Graça da Comunhão dos Santos: "Em verdade vos declaro: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da Glória, vós, que Me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel." Mt 19,28
    Ele também falou de gente comum, mas certamente Santa, participando ativamente das decisões de Seu Reino: "No Dia do Juízo, os ninivitas se levantarão com esta raça e a condenarão, porque fizeram penitência à voz de Jonas." Mt 12,41
    Essa afirmação foi repetida por São Paulo: "Se soubermos perseverar, com Ele reinaremos." 2 Tm 2,12
    Pedindo perfeita obediência às igrejas locais, Jesus promete algo ainda mais especial: Seu próprio trono para que nele nos sentemos: "Ao vencedor concederei assentar-se Comigo no Meu trono, assim como Eu venci e sentei-Me com Meu Pai no Seu trono. Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Ap 3,21
    Esse é o Reino de Sacerdotes de que falam as Escrituras, já em vigência neste mundo, que é cantado nos Céus pelos quatro Animais e vinte e quatro Anciãos em agradecimento ao Cordeiro: "Cantavam um cântico novo, dizendo: 'Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço de Teu Sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça; e deles fizeste para Nosso Deus um Reino de Sacerdotes, que reinam sobre a terra.'" Ap 5,9-10
    Com efeito, notadamente os Santos, por sua total fidelidade até à morte, encontram-se em pleno reinado sobre este mundo, tal e qual Jesus havia prometido: "Então ao vencedor, ao que praticar Minhas obras até o fim, dar-lhe-ei poder sobre as nações pagãs." Ap 2,26
    O livro do Apocalipse também fala dos tronos dos Santos, assim como do reinado deles, sempre pela espiritual Comunhão Jesus: "Vi também tronos, sobre os quais se assentaram aqueles que receberam o poder de julgar: eram as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus... Feliz e santo é aquele que toma parte na primeira ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: reinarão com Ele durante os mil anos." Ap 20,4.6
    Nos Céus, portanto, onde reina de forma especial Nossa Mãe e Rainha, os santos recebem, além de um trono, a coroa da Vida, que também foi prometida por Jesus: "Sê fiel até a morte e te darei a coroa da Vida." Ap 2,10
    No entanto, Ele avisou-nos das maquinações do inimigo, que nos quer tomar essa coroa, e também da brevidade dos tempos, seja ele o tempo de Sua Volta ou de nossa partida desse mundo: "Venho em breve. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa." Ap 3,11
    No mesmo tom de advertência, São Tiago Menor também falou sobre a coroa celestial: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a coroa da Vida que Deus prometeu aos que O amam." Tg 1,12
    São Pedro chamou-a de coroa da Glória: "E, quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de Glória." 1 Pd 5,4
    Ora, se a pobres pecadores está prometida tamanha Glória, de serem coroados e reinarem no Reino de Deus, como poderíamos negar a coroação e o reinado à Imaculada Virgem que nos trouxe a Salvação? Por inspiração do Espírito Santo, e tão somente ao receber a saudação de Nossa Mãe Celeste, disse Santa Isabel: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a Mãe de Meu Senhor?" Lc 1,42b-43


    Também não deve prosperar, senão simbolicamente, a interpretação que vê a Igreja na Mulher citada por São João Evangelista no livro do Apocalipse. De fato, Jesus foi gerado no ventre de Maria e não pela Igreja, que só seria instituída depois de Sua Ascensão, quando da vinda do Espírito Santo no Pentecostes. Seria um completo despropósito, portanto, dar azo a uma argumentação que acaba por atentar contra a própria Igreja, pois obscurece ou mesmo sonega à Mãe de Deus, sua mais representativa pessoa humana, tão caro registro. Aliás, assim como Maria só é Rainha porque Jesus é Rei, a Igreja só é mãe porque Maria é Mãe de Deus. E a pessoa de Maria na aparição registrada no livro do Apocalipse é evidentemente clara: "Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Ela deu à luz um Filho, um Menino, Aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas Seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do Seu trono." Ap 12,2.5
    A imagem da Igreja como mãe se tem por São Paulo, quando falou da Jerusalém Celestial aos gálatas, embora na verdade ele invocasse Sara, que como Matriarca de Israel também é pré-figura da Maria: "Mas a Jerusalém lá do alto é livre e esta é a nossa mãe..." Gl 4,26
    Ela, a Jerusalém Celestial é a Esposa do Cordeiro, como viu São João Evangelista: "Então veio um dos sete Anjos que tinham as sete taças cheias dos sete últimos flagelos e disse-me: 'Vem, e mostrar-te-ei a Noiva, a Esposa do Cordeiro. Levou-me em espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus.'" Ap 21,9-11a
    Nos demais textos bíblicos, temos a pré-figura de Maria Mãe Rainha na pessoa de Betsabé, que era a mãe de Salomão, a quem ele tratou com especial deferência, fazendo-a sentar à sua direita como era do hábitos dos reis de Israel, dado que tinham muitas esposas: "Betsabé foi, pois, ter com o rei... O rei levantou-se para ir-lhe ao encontro, fez-lhe uma profunda reverência e sentou-se no trono. Mandou colocar um trono para a sua mãe, e ela sentou-se à sua direita..." 1 Rs 2,19
    A mãe do rei Jeconias, seguindo essa tradição, também era tratada com tal deferência: "Eis o teor da carta que o profeta Jeremias endereçou de Jerusalém aos demais anciãos cativos, aos sacerdotes e profetas, e a todo o povo deportado por Nabucodonosor para Babilônia, depois que deixaram Jerusalém, o rei Jeconias, a rainha-mãe, os eunucos, os chefes de Judá e Jerusalém e os carpinteiros e serralheiros." Jr 29,1-2
    Outra pré-figura de Maria Mãe Rainha, e grande intercessora, aparece no livro de Ester, quando esta rainha, que era judia, pede por seu povo ao seu esposo, o rei da Pérsia, cujo aliado de outro país, Amã, havia assinado um decreto condenando à morte todos os judeus: "Se achei Graça a teus olhos, ó rei, e se ao rei lhe parecer bem, concede-me a vida, eis o meu pedido! Salva meu povo, eis o meu desejo!" Est 7,3
    Falam também de uma especialíssima rainha os Cânticos dos Cânticos, por cujos divinos reflexos de poder e Glória é impossível não ver Maria, a predileta de Deus, segundo Ele mesmo: "Há sessenta rainhas, oitenta concubinas, e inumeráveis jovens mulheres; uma, porém, é a minha pomba, uma só a minha perfeita; ela é a única de sua mãe, a predileta daquela que a deu à luz. Ao vê-la, as donzelas proclamam-na bem-aventurada, rainhas e concubinas louvam-na. Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol, temível como um exército em ordem de batalha?" Ct 6,8-10
    E o salmista havia visto uma rainha finamente vestida, cujos filhos reinariam sobre a terra e cujo nome por todos os povos seria eternamente celebrado: "Vosso trono, ó Deus, é eterno, de equidade é Vosso cetro real. ... posta-se à Vossa direita a Rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece o teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza se encantará o Rei; Ele é Teu Senhor, rende-Lhe homenagens. Tomarão teus filhos o lugar de teus pais, tu os estabelecerás príncipes sobre toda a terra. Celebrarei teu nome através das gerações. E os povos te louvarão eternamente." Sl 44,7.10b-12.17-18
    Não esqueçamos, porém, que antes mesmo da inigualável Graça de gerar o Salvador, Maria já havia sido agraciada por Deus, bem como usufruía permanentemente de Sua presença, como vemos nas palavras do Arcanjo São Gabriel. E acertadamente, vê-se incluso nesse prévio agraciamento Sua Imaculada Conceição: "Ave, agraciada, o Senhor é Contigo." Lc 1,28

    "Mãe, Rainha e Vencedora três vezes Admirável. Mostra-Te Mãe na minha vida."