terça-feira, 15 de agosto de 2017

Assunção de Nossa Senhora


    Em 1950, o Papa Pio XII declarou oficialmente que Maria foi elevada aos Céus em corpo e alma. Embora, além das elucidativas visões da Beata Anna Catarina Emmerich, os registros de Sua Assunção só existam em livros apócrifos, e só recentemente tenha sido declarada, a Igreja já a cultua desde os primórdios, pois está em perfeita conformidade com as Escrituras e é parte da Tradição dos Apóstolos.
    Pela Bíblia, em específico, temos no livro de Apocalipse o relato de São João Evangelista, que, apesar de não tratar propriamente de sua Assunção, viu-a já nos Céus e deu testemunho de Sua transfiguração em corpo glorioso e de Sua coroação: "Apareceu em seguida um grande sinal no Céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos Seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas." Ap 12,1
    E instantes antes dessa aparição, havia sido apresentada ao amado discípulo a Arca da Aliança, ou seja, a portadora da Revelação, como ele havia registrado no versículo imediatamente anterior: "Abriu-se o Templo de Deus no Céu e apareceu, no Seu Templo, a Arca do Seu Testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva." Ap 11,19
    Tais visões não se deram num momento qualquer: era o sinal da sétima trombeta, o terceiro 'ai'. Os Céus revelavam como havia sido o início do Reinado de Cristo. Leia-se: Cristo é a própria Revelação, Caminho da humanidade, realidade a ser vivida, Deus Vivo de Deus Vivo, e Sua Mãe é a definitiva Arca da Aliança, Seu precioso veículo para manifestar-Se ao mundo.
    Eis porque o salmista já cantava sua Assunção logo após a Ressurreição e a Ascensão de Jesus: "Levantai-Vos, Senhor, para vir ao Vosso repouso, Vós e a Arca de Vossa Majestade." Sl 131,8
    Ora, São João Evangelista era a pessoa mais bem informada a respeito de Maria, pois foi a ele que Jesus confiou a guarda de Sua Mãe. Mais: Maria foi-lhe confiada como a própria Mãe deste Apóstolo, como disse Jesus e de fato é, assim como também nossa. E em nenhuma hipótese ele iria desobedecer-Lhe: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua Mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua Mãe: 'Mulher, eis aí teu filho'. Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua Mãe'. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa." Jo 19,25-27
    Afirmativamente, é como filhos de Maria que São João Evangelista chama aqueles que testemunham Jesus, quando o inimigo percebeu que não poderia vencê-la e voltou-se contra a Igreja: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Tal condição é dada pela perfeita Comunhão com o Espírito prometido por Jesus, como diz São Paulo aos romanos: "Todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    Ele foi taxativo: "Se alguém não possui o Espírito de Cristo, este não é d'Ele." Rm 8,8b
    Pois só os filhos de Deus obtêm o testemunho do Santo Paráclito: "O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus." Rm 8,16
    E São João Evangelista diz do testemunho de Jesus: "Quem observa os Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 1,3-24
    Ainda que indiretamente, o Eclesiástico já atestava o insubstituível papel de Nossa Mãe Celeste nos planos de Deus: "Deus honra o pai nos filhos e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe." Eclo 3,2
    E alude aos tesouros no Céus, de que falou Jesus: "Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro." Eclo 3,4
    Pois, se somos filhos dos Sacerdotes da Igreja, que são nossos pais espirituais como reclamava São Paulo, como não haveríamos de ser filhos de Maria, a Nova Eva, que gerou o próprio Cristo para a Salvação da humanidade? Por isso, primando pela Unidade da Igreja, o Apóstolo dos Gentios corrigia os coríntios: "Não vos escrevo estas coisas para envergonhar-vos, mas admoesto-vos como meus filhos muitos amados. Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho. Por isso, conjuro-vos a que sejais meus imitadores. Para isso é que vos enviei Timóteo, meu filho muito amado e fiel no Senhor. Ele vos recordará minhas normas de conduta, tais como as ensino por toda parte, em todas as igrejas." 1 Cor 4,14-17


    A sensata pergunta a ser levantada é: Se os 'lenços e outros panos' de São Paulo (At 19,11), a 'sombra' de São Pedro (At 5,15) e a 'orla do manto' de Jesus (Lc 8,44) realizam milagres enquanto relíquias, que dizer do próprio corpo de Nossa Senhora que por nove meses teve Deus em seu ventre? Poderia o receptáculo da Absoluta Graça corromper-se?
    Deus não o permitiu nem à Santa Casa de Nazaré, que por anjos foi levada a Loreto, na Itália...
    Ora, se a própria Igreja, apesar de alguns de seus membros, é incorruptível (Mt 16,18b; Ef 5,25b-27), como não o seria então o ventre de Maria Santíssima do qual a humanidade deve renascer para ser Igreja? "Respondeu Jesus: 'Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da Água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.'" Jo 3,5-6
    É o que diz Santa Isabel sobre Jesus: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre." Lc 1,42
    Mas que claramente se entende a nós, como escreveu São Paulo: "Aqueles que Ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E se, após Sua morte, o corpo de Nossa Senhora realmente tivesse permanecido num sepulcro, tal lugar jamais seria ignorado por qualquer pessoa da considerável multidão de fiéis, e assim logo seria divulgado, pois, desde as Bodas de Caná da Galileia e mesmo depois da Ascensão de Jesus, ela sempre esteve presente junto aos Apóstolos e nas atividades da nascente Igreja: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,13-14
    E foi o próprio Jesus que prometeu preparar-nos um lugar nos Céus. Acaso Ele não faria o mesmo para Sua Santíssima Mãe? Ele disse: "Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, Eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei Comigo, para que, onde Eu estou, também vós estejais." Jo 14,2-3
    Os Apóstolos, ademais, que já tinham a Ressurreição de Jesus como o grande trunfo para atestar a manifestação do Messias, não precisavam 'inventar' mais esse grandioso episódio. Seria um capítulo a mais, como se veria mais tarde, em tempo oportuno, a ser incorporado às revelações do Precioso Depósito, o que àqueles tempos certamente dificultaria o próprio anúncio da Encarnação do Cristo.
    Assim, portanto, deram-se os fatos; e assim temos que acolhê-los. Essa é a Verdade, a obra de Deus. E com mais essa maravilha Ele simplesmente explicitou ainda mais, na pessoa da Santíssima Mãe, Sua feição de Amoroso Pai, como já fizera através de Jesus, reafirmando sobremaneira a Doutrina da Ressurreição da Carne. Ele afirmou: "... Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,50a
    Por outro lado, a inspiração do Espírito Santo foi especialmente decisiva para a definição desse Dogma pelo Papa, assim como fora para a sustentação de sua Tradição, mantida pelos membros da Igreja através dos séculos. De fato, Jesus havia prometido que o Divino Paráclito instruiria a Igreja anunciando 'as coisas que virão': "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Da mesma forma, o Papa, os Cardeais, os Bispos, os Sacerdotes e Diáconos Católicos são ministros da Nova Aliança, movidos pelo Espírito de Deus, e como tais também eles não falam por si mesmos, mas em Nome de Deus, como disse Jesus do Paráclito: "... porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir." Idem
    São Paulo, com efeito, já havia atestado: "Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. É Ele que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    E cravou: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    É, portanto, pela moção do Divino Espírito que temos a Igreja Viva, capaz de testemunhar as obras do Reino dos Céus como Jesus ensinou: "O Espírito é que vivifica... As palavras que vos tenho dito são Espírito e Vida." Jo 6,63
    Por isso, atestando a importância da instituição eclesial fundada pessoalmente pelo Salvador, disse São Paulo: "... Cristo amou a Igreja e entregou-Se por ela, para santificá-la, purificando-a pela Água do Batismo com a Palavra, para apresentá-la a Si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25-27.32
    Bem ao modo da Igreja Viva, por fim, e da constante presença do Espírito de Deus entre nós, sobre a Assunção temos ainda os extraordinários relatos da Beata Anna Catarina Emmerich, que viveu entre 1774 e 1824, e em 2004 foi beatificada por São João Paulo II. Eles detalham os últimos anos da vida de Nossa Senhora na proximidades de Éfeso, na atual Turquia, onde com São João Evangelista se recolheu das perseguições dos judeus, que Jesus havia profetizado: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3

    
    Em termos místicos, São João Evangelista cita esse episódio no livro do Apocalipse: "Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de Seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,14
    O profeta Isaías já previra essa revigorante dádiva de Deus, o alento que tornou humanamente suportáveis as 'espadas' que traspassaram a alma de Nossa Senhora da Dores: "Até os adolescentes podem esgotar-se, e jovens robustos podem cambalear, mas aqueles que contam com o Senhor renovam suas forças; Ele dá-lhes asas de águia. Correm sem se cansar, vão para a frente sem se fatigar." Is 40,30-31
    Nas visões que teve, aliás, desde a infância, Anna Catarina Emmerich conta que a Santíssima Virgem havia memorizado a Via Sacra, que repetiu inúmeras vezes ainda em Jerusalém, enquanto lá pôde viver, e, já em Éfeso, escolheu lugares parecidos em volta do campo onde morava. Aí, entre orações, Nossa Mãe Celeste repetia diariamente as 15 estações.
    Nossa Beata também viu, nesse mesmo lugar, os últimos dias da Imaculada Mãe, quando convocou todos os Apóstolos para deles despedir-se, seus últimos instantes, o local onde ela foi sepultada, que ainda não foi encontrado, e o momento, imediatamente seguinte, em que ela foi elevada aos Céus diante dos olhos dos Apóstolos.
    As igrejas ortodoxa e anglicana também professam que Maria Santíssima foi elevada aos Céus.


    Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!