quarta-feira, 16 de agosto de 2017

As Virtudes


    O Catecismo da Igreja dá uma luminosa explanação sobre as virtudes, que nos orientam para o Sumo Bem: "As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé. Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem." CIC § 1804
    São Paulo, não por acaso, já recomendava aos filipenses: "Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos." Fl 4,8
    E São Gregório de Nissa, um dos Padres Capadócios e grande místico, dizia com absoluta propriedade: "O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus."
    O livro da Sabedoria, de fato, aponta quatro VIRTUDES CARDEAIS, aquelas que servem de base para todas as outras. O autor sagrado diz: "E se alguém ama a justiça, seus trabalhos são virtudes; a Sabedoria ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza; não há ninguém que seja mais útil aos homens na vida." Sb 8,7

TEMPERANÇA

    Também chamada de moderação, ou sobriedade: virtude que garante o domínio de si e coloca a vontade acima dos instintos.
    Ela é citada por São Paulo como um dos frutos do Espírito Santo: "... o fruto do Espírito é caridade, alegria, Paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança." Gl 5,22-23
    É também um ensinamento de Jesus, que nos manifestou plenamente a Graça de Deus: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    Aparece igualmente numa proposta de ascese da tradição de São Pedro, como um dos dons do amadurecimento espiritual: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Pd 1,5-8
    Ele indica que, sem essa virtude, não se chega aos frutos da oração: "Sede, portanto, moderados e sóbrios, para vos dedicardes à oração." 1 Pd 4,7
    E o Eclesiástico, visando a aquisição desse bem, recomenda a prática de comedimento: "Não sigas as tuas paixões. Refreia os teus desejos." Eclo 18,30

PRUDÊNCIA

    É a virtude da reflexão, da ordem, do bom senso e do discernimento. Numa exortação à Lei de Deus, o salmista canta: "Sobre os Vossos preceitos meditarei, e considerarei Vossos caminhos." Sl 118,15
    E exulta: "Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores. Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita Sua Lei dia e noite." Sl 1,1-2
    Com pertinência, o livro dos Provérbios registra essa reflexão sobre a peculiaridade das situações: "Sabedoria do prudente é discernir seu próprio caminho; a imprudência dos insensatos resvala no erro." Pr 14,8
    E também: "Quem adquire bom senso quer bem a si mesmo, e quem conserva o discernimento será feliz." Pr 19,8
    Ainda nos Provérbios, temos a advertência de um funesto destino para os insensatos: "O homem que se desvia do caminho da prudência, na assembléia das sombras repousará." Pr 21,16
    O Eclesiástico também versa sobre insensatez: "O hábito de praticar o mal não é sabedoria; o modo de agir dos pecadores não é prudência." Eclo 19,19
    E São Tiago Menor deixou-nos essa realística ponderação: "Mas aquele que procura meditar com atenção a Lei perfeita da liberdade e nela persevera - não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito -, este será feliz no seu proceder." Tg 1,25

JUSTIÇA

    É a virtude do compromisso moral com a Verdade, com a equidade, com a correção.
    Até os fariseus, ferrenhos opositores de Jesus, maliciosamente invocaram esse valor, fingindo reconhecê-lo entre Suas qualidades: "Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus segundo a Verdade. Não Te deixas influenciar por ninguém, pois não olhas a aparência das pessoas." Mt 22,16
    Em sentido inverso, numa atitude que bem atestava Sua humildade, Jesus deixou-Se batizar por São João Batista, demonstrando obediência à Lei e Sua igualdade de condição perante todos nós: "Por ora, deixa, é assim que devemos cumprir toda a justiça!" Mt 3,15
    Ele garantiu, no Sermão da Montanha, que os justos serão plenamente correspondidos pelo Pai: "Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados." Mt 5,6
    E fez dela um preceito: "Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça..." Mt 6,33
    Assim como no exemplo de humildade dado pelo Mestre, São Paulo afirma que só pela obediência a Deus se chega à justiça: "Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?" Rm 6,16
    Ora, a justiça, que Jesus veio ajudar-nos a cumprir, está estampada nos Mandamentos de Deus. O Apóstolo dos Gentios vai dizer aos romanos: "Enviando, por causa do pecado, o Seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça prescrita pela Lei fosse realizada em nós que vivemos não segundo a carne, mas segundo o Espírito." Rm 8,3b-4
    E deixa patente que é o amor à Verdade que nos traz a Salvação: "... aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar." 2 Ts 2,10
    O próprio Jesus vai dizer: "Aquele que não Me ama não guarda Minhas palavras." Jo 14,24a
    São João Evangelista sintetiza: "Nisto consiste o amor: que vivamos segundo Seus Mandamentos." 2 Jo 1,16

FORTALEZA

    É a virtude da firmeza e da perseverança, contra todas as dificuldades. É por ela que se resiste ao medo, às tentações e às injustiças. Ela confere destemor perante a própria morte, como demonstraram os mártires da Igreja.
    Foi a essa virtude que Jesus aludiu quando ensinou: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Na parábola do semeador, falando sobre sementes para referir-Se à Palavra da Salvação, Ele aponta como é possível evoluir na Graça de Deus: "Aquela que caiu na boa terra são os que ouvem a Palavra com coração reto e bom, retêm-na e dão fruto pela perseverança." Lc 8,15
    Ela é um dos dons dos Santos, como afirmou São Lucas: "Estêvão, cheio de Graça e fortaleza..." At 6,8
    O rei Davi, por sinal, sabia muito bem de onde vinha sua força: "O Senhor é o Meu rochedo, Minha fortaleza..." 2 Sm 22,2
    São Paulo confirma: "Mas o Senhor é fiel, e Ele há de dar-vos forças e preservar-vos do Mal." 2 Ts 3,3
    E disse a São Timóteo: "Pois Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza..." 2 Tm 1,7
    Ele indicava-lhe o Evangelho como seguríssimo caminho: "Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste." 2 Tm 3,14
    Já conforme os seguidores de São Paulo, a fortaleza é uma inafastável condição para sermos Igreja, de sermos parte no Corpo Místico de Cristo: "Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme até o fim nossa fé dos primeiros dias..." Hb 3,14
    Pois, em Jesus, nossa alma tem uma âncora dada por Deus: "Esperança esta que seguramos qual âncora de nossa alma, firme e sólida..." Hb 6,19


    Há, no entanto, as VIRTUDES TEOLOGAIS, que vêm do profundo conhecimento de Deus e levam à plena Comunhão com Ele.
    Diz o Catecismo da Igreja: "As virtudes humanas fundam-se nas virtudes teologais que adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina. Pois as virtudes teologais referem-se diretamente a Deus. Dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade e têm a Deus Uno e Trino por origem, motivo e objeto.
    As virtudes teologais fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Informam e vivificam todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para torná-los capazes de agir como Seus filhos e merecer a Vida Eterna. São o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano. Há três virtudes teologais: a , a esperança e a caridade." CIC §§ 1812-1813
    Elas foram apontadas por São Paulo: "Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor." 1 Cor 13,13
    E falando da vigília à espera do Senhor, ele vai citá-las como armas de guarda: "Nós, ao contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios. Tomemos por couraça a fé e o amor, e por capacete a esperança da Salvação." 1 Ts 5,8
    Diferente das VIRTUDES MORAIS, as teologais são dádivas infusas, isto é, só podem ser alcançadas por manifesto auxílio de Deus. Elas são o selo do Espírito Santo.



    Como disse Jesus, vir a acreditar n'Ele é um trabalho realizado pelo Pai: "A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou." Jo 6,29
    Ele expressou essa mesma realidade nestes termos: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44a
    Mas também ensinou que devemos afastar-nos das ilusões: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Eis que São Paulo recomenda a São Timóteo a companhia dos verdadeiros cristãos, que realmente cultuam a piedade: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Pois através de Sua esplendorosa manifestação, Jesus deu-nos elementos que claramente apontam a grandeza do Pai. São João Evangelista testemunhou: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro." 1 Jo 5,20
    Foi o que fez por Sua Paixão e Ressurreição, como disse São Pedro: "Por Ele tendes fé em Deus, que O ressuscitou dos mortos e glorificou, a fim de que vossa fé e vossa esperança se fixem n'Ele." 1 Pd 1,21
    Assim como pela fundação da Igreja, na qual refulge Sua Glória pela indestrutível Unidade: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Os Apóstolos, com efeito, desde o início já sabiam Quem os podia fazer crer: "... disseram ao Senhor: 'Aumenta-nos a fé!'" Lc 17,5
    De fato, crer é um mistério. Os seguidores de São Paulo cravaram: "A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê." Hb 11,1
    E ainda segundo eles, nossa busca pela Verdade não pode ser nem negligente nem presunçosa: "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus..." Hb 11,6
    Mas a Sã Doutrina só pode ser assimilada e preservada por ação do Santo Espírito, a Terceira Pessoa de Deus. É o que vemos na recomendação que São Paulo dá a São Timóteo: "Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós." 2 Tm 1,14
    Por isso Jesus exorta: "E Eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,9-10.13


ESPERANÇA

    Uma vez que nos submetemos aos Seus desígnios, é o próprio Deus que nos anima para a Vida Plena, como escreveu aos romanos o Santo de Tarso: "O Deus da esperança encha-vos de toda a alegria e de toda a Paz na vossa fé, para que pela virtude do Espírito Santo transbordeis de esperança!" Rm 15,13
    Essa obra, ainda segundo este Apóstolo, Deus realiza em nós através do amor que Jesus manifestou em Suas atitudes e ensinamentos, ao anunciar o Reino dos Céus: "Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, Nosso Pai, que nos amou e nos deu consolação eterna e boa esperança pela Sua Graça, animem vossos corações e confirmem-nos para toda boa obra e palavra!" 2 Ts 2,16
    Pois Jesus é o próprio Verbo que se fez carne, a Boa Nova, a própria Verdade: "Esperança que vos foi transmitida pela pregação da Verdade do Evangelho..." Cl 1,5
    E de fato, as Escrituras são um franco convite à esperança: "Ora, tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para a nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as Escrituras, tenhamos esperança." Rm 15,4
    Mas a esperança também é um mistério: "Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança; porque o que alguém vê, como é que ainda o espera?" Rm 8,24
    E deve olhar para muito além da vida terrena, como diz São Paulo aos coríntios: "Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    Pois só a Luz de Deus, fruto de íntima relação com Ele, pode fazer-nos compreender a grandeza de Seus projetos: "... que ilumine os olhos do vosso coração, para que compreendais a que esperança fostes chamados..." Ef 1,18
    Não perdê-la, porém, depende de nós, de nossa perseverança em função da promessa. No entanto, sem esquecer do exemplo e da boa companhia dos Santos: "Desejamos, apenas, que ponhais todo o empenho em guardar intacta a vossa esperança até o fim, e que, longe de vos tornardes negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas." Hb 6,11
    Para tanto São Pedro recomenda que, em espírito de mansidão, guardemos bem meditada a Sã Doutrina: "Portanto, não temais suas ameaças e não vos turbeis. Antes santificai em vossos corações Cristo, o Senhor. Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,15
    Com efeito, segundo São João Evangelista, ela representa nossa chance de recuperar a semelhança divina: "E todo aquele que n'Ele tem esta esperança torna-se puro, como Ele é puro." 1 Jo 3,3

AMOR

    É Jesus, pois, que nos infunde o amor do Pai pela absoluta fidelidade com que exerceu Sua Missão. Mencionando a Palavra que transmitiu aos Apóstolos, Ele assim rezou na oração pela Unidade da Igreja: "Manifestei-lhes o Teu Nome, e ainda hei de Lho manifestar, para que o amor com que Me amaste esteja neles..." Jo 17,26
    E com o advento do Pentecostes, quando se deu o nascimento da Igreja, o Espírito Santo tem consumado essa Graça. Diz São Paulo: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    Pois é Ele, o Autor da Graça, que nos conduz à Vida Eterna: "Foi Epafras que nos informou do amor com que o Espírito vos anima." Cl 1,8
    É Ele Quem conduz a Igreja: "... pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14
    É nesse amor, aliás, divinamente demonstrado por Jesus, que devemos perseverar. Ele recomenda: "Como o Pai Me ama, assim também Eu vos amo. Perseverai no Meu amor." Jo 15,9
    E indicou como fazê-lo: através da obediência: "Se guardardes os Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor..." Jo 15,10
    Essa grande obra, enfim, é imensamente compensada pela Graça. Reza São Paulo: "A Graça esteja com todos os que amam Nosso Senhor Jesus Cristo com amor inalterável e eterno." Ef 6,24
    Inebriado por esse amor, São Paulo se perguntava: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?" Rm 8,35
    Pertinaz, ele convida-nos a essa grande virtude: "Tendei à perfeição, animai-vos, tende um só coração, vivei em Paz, e o Deus de amor e Paz estará convosco." 2 Cor 13,11
    No mesmo sentido, diz São João Evangelista: "Aquele, porém, que guarda a Sua Palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito." 1 Jo 2,5
    Diz mais: "Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor." 1 Jo 4,8
    Contudo, não deixa de indicar a fonte: "Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro." 1 Jo 4,19
    E aponta-o como a verdadeira fortaleza, a absoluta serenidade: "No amor não há temor." 1 Jo 4,18

    "Santificai-nos pelo dom do Vosso Espírito!"