quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A Salvação vem dos Judeus


    Vivendo num mundo globalizado, onde enxergamos as nações em igualdade de direitos, soa estranho que Deus tenha escolhido um único povo para dar-Se a conhecer, ainda que tenha sido só inicialmente. Parecem privilégio e exclusividade descabidos.
    Mas esquecemos que Deus é Pessoa, e como tal quer ser conhecido e amado. É de Sua natureza de Pai amoroso que nos contacte pessoalmente, um a um, por isso não Se vale apenas da Revelação, que por ser coletiva pode parecer fria e distante. Com efeito, como na Encarnação do Cristo, Ele também vive conosco a História, para que a partir de nossas próprias experiências venhamos a dar testemunho de Seu amor e Sua Graça.
    Na verdade, Ele não começou por um povo, mas, de modo ainda mais singular, por um homem: Abraão. E mesmo assim, para que tal fato não caísse em esquecimento, instantemente teve que puxar por sua memória: "Eu sou o Senhor que te fiz sair de Ur da Caldeia para dar-te esta terra." Gn 15,7
    E quando já estava velho, Abraão ouviu palavras mais reveladoras e significativas: "Eu sou o Deus Todo-poderoso." Gn 17,1
    Deus também teve que Se identificar a Jacó, fazendo-lhe lembrar do que já tinha feito por seu avô e por seu pai: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaac..." Gn 28,13
    E quando o povo de Israel vivia como escravo no Egito, e quase O havia esquecido, Ele teve que Se identificar a Moisés, mas desta vez de forma inequívoca, mandando através dele um definitivo recado aos israelitas: "EU SOU AQUELE QUE SOU." Ex 3,14
    Enfim, não se pode dizer que os hebreus reconheceram e abraçaram Deus prontamente. Ora, assim como a qualquer um de nós, e ainda hoje, Ele quase sempre teve que deixar explícito Quem Ele era, bem como Sua divina unicidade, desde o primeiro Mandamento dado nas tábuas a Moisés: "Eu sou o Senhor Teu Deus... Não terás outros deuses diante de Minha face." Ex 20,3
    Moisés, da mesma forma, teve muito trabalho para fazer o povo acreditar, e ainda teve que outra vez declarar-lhes a exclusividade de Deus: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor." Dt 6,4
    Vemos, portanto, Deus apresentando-Se e dando-Se a conhecer em distintas manifestações, porém, tal e qual na atualidade, também vemos a recorrente dificuldade humana em reconhecê-Lo. O povo de Israel, pois, precisou ser trabalhado por gerações e gerações, e isso é mais um dos motivos que explica porque, fiel em Seu amor e assim ao Seu proceder, Ele escolheu, ao menos a princípio, apenas um povo a quem Se revelar mais explicitamente.
    E não obstante tanta relutância, da mesma forma sempre deixou evidente Sua personalidade afetiva, a fim de estabelecer uma amorosa relação com Seus filhos: "Amarás o Senhor, Teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças." Dt 6,5


DESDE O PRINCÍPIO, DEUS DE TODOS OS POVOS E NAÇÕES

    Também não resta dúvida de que a fase do 'crescei e multiplicai' tenha levado o ser humano a colonizar terras distantes, formando diversas nações: "Quando o Altíssimo dividia os povos e dispersava os filhos dos homens, fixou limites aos povos, segundo o número dos filhos de Deus." Dt 32,8
    Mas, como aconteceu com Adão e Eva no Paraíso, não era Sua vontade que os povos se voltassem contra Ele. Moisés esbraveja: "Pecaram contra Ele; já não são Seus filhos, mas raça degenerada, geração perversa, depravada. É assim que agradeceis ao Senhor, povo frívolo e insensato? Não é Ele Teu Pai, Teu Criador, que te fez e te estabeleceu? Lembra-te dos dias antigos, considera os anos das gerações passadas. Interroga teu pai e ele te contará; teus anciãos e eles te dirão." Dt 32,5-7
    Entretanto, a promessa que Ele fez a Abraão foi rigorosamente mantida: "... todas as famílias da terra serão benditas em ti." Gn 12,3
    Abraão tornou-se pai carnal, embora nem todos viessem a guardar as tradições hebreias, e, pela fé, também pai espiritual de muita gente: "... farei de ti o pai de uma multidão de povos... farei nascer de ti nações..." Gn 17,5b-6a
    Pois mesmo que a tradição só considere como hebreu o filho de uma hebreia, na ascendência do próprio Jesus há três mulheres estrangeiras: "Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute." Mt 1,1.3a.5a
    De fato, após alguma prática de patrilinearidade, Moisés estabeleceu uma separação para com as nações pagãs: "Não contrairás com elas matrimônios: não darás tua filha a seus filhos, e não tomarás de suas filhas para teu filho, pois elas afastariam do Senhor o teu filho, que serviria a outros deuses; a cólera do Senhor se inflamaria contra ele e não tardaria a exterminar-vos." Dt 7,3-4
    Tal fluidez, portanto, é de expressivo significado porque no Cristo, Glória maior dos judeus, estava previsto que todos os povos se reconciliariam com Deus. É a Eterna Aliança prometida pelo Pai através do profeta Isaías: "Prestai-Me atenção, e vinde a Mim; escutai, e vossa alma viverá: quero concluir convosco uma Eterna Aliança, outorgando-vos os favores prometidos a Davi. Farei de ti um testemunho para os povos, um sobreano condutor das nações; conclamarás povos que nunca conheceste, e nações que te ignoravam acorrerão a ti, por causa do Senhor Teu Deus, e do Santo de Israel que fará tua glória." Is 55,3a.4-5
    Assim, como ditavam as profecias, em Jesus a Salvação seria anunciada não somente aos judeus, mas por toda a Terra: "E agora o Senhor fala, Ele, que Me formou desde Meu Nascimento para ser Seu Servo, para trazer-Lhe de volta Jacó e reunir-Lhe Israel: 'Não basta que sejas Meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de Ti a Luz das nações, para propagar Minha Salvação até os confins do mundo.'" Is 49,6
    Na visão de Daniel, com efeito, o Cristo apresenta-Se diante de Deus Pai para reinar sobre todos os povos: "Olhando sempre a visão noturna, vi um ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império,Glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno; nunca cessará e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,13-14
    Foi também o que afirmou o religioso Simão, durante a Apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém, pois Jesus é efetivamente a Glória de Israel, mas não somente dele: "Agora, Senhor, deixai o Vosso servo ir em Paz, segundo a Vossa Palavra. Porque os meus olhos viram a Vossa Salvação, que preparastes diante de todos os povos, como Luz para iluminar as nações, e para a glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,29-32
    Isso foi profetizado até por um inimigo de Jesus, o sumo sacerdote do ano em que foi crucificado: "... Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para que fossem reconduzidos à Unidade os filhos de Deus dispersos." Jo 11,51b-52
    Entretanto, Israel já vivia no Advento do Cristo um momento de extrema fragilidade, padecendo mais uma grande humilhação por décadas de dominação dos romanos. Isso explica as palavras de Nossa Senhora, celebrando na gestação de Jesus também a definitiva Redenção de Seu povo: "Acolheu a Israel, Seu servo, lembrado da Sua Misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre." Lc 1,54-55
    Tal 'privilégio', porém, de ser chamado de 'povo de Deus', estava sujeito a algumas condições. Disse Moisés: "O Senhor te confirmará como um povo consagrado a Ele, como te jurou, contanto que observes Suas ordens e andes pelos Seus caminhos. Todos os povos da terra verão, então, que és marcado com o Nome do Senhor..." Dt 28,9-10a
    Ou seja, os judeus deviam espelhar Sua santidade, como Ele mesmo disse através do profeta Ezequiel: "Então as nações ficarão sabendo que Eu sou Javé - oráculo do Senhor Javé - quando Eu mostrar a Minha santidade diante deles por meio de vocês." Ez 36,23b
    Deviam espelhar Sua Sabedoria, que por eles veio a viger na terra: "É Ele o Nosso Deus, com Ele nenhum outro se compara. Conhece a fundo os caminhos que conduzem à Sabedoria, galardoando com ela Jacó, Seu servo, e Israel, Seu favorecido. Foi então que ela apareceu sobre a terra, onde permanece entre os homens." Br 3,36-38
    Por isso, São Pedro exigia dos judeus, seus irmãos, o testemunho do Cristo: "Foi em primeiro lugar para vós que Deus suscitou o Seu Servo, para vos abençoar, a fim de que cada um se aparte da sua iniquidade." At 3,26
    São Paulo sustenta o mesmo argumento na Carta aos Romanos: "Eles são os israelitas; a eles foram dadas a adoção, a Glória, as Alianças, a Lei, o culto, as promessas e os patriarcas; deles descende Cristo, segundo a carne, o Qual é, sobre todas as coisas, Deus bendito para sempre. Amém." Rm 9,4-5
    Coberto de razão, ele também afirma que Deus não retira Suas dádivas: "... quanto à eleição eles são muito queridos por causa de seus pais. Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 28b-29
    Motivo pelo qual, ainda segundo o Apóstolo de Tarso, o Evangelho teria que ser anunciado inicialmente aos judeus, como fez Jesus: "Com efeito, não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força vinda de Deus para a Salvação de todo o que crê, ao judeu em primeiro lugar e depois ao grego." Rm 1,16
    Após a Vinda do Espírito Santo, no entanto, e com o 'Pentecostes dos Pagãos', São Tiago Menor vai resumir assim os argumentos de São Pedro na defesa do ingresso dos não-judeus na Santa Igreja: "Simão narrou como Deus começou a olhar para as nações pagãs para tirar delas um povo que trouxesse o Seu Nome." At 15,14
    O próprio São Pedro, ao dirigir-se exclusivamente aos não-judeus numa de suas cartas, usará esses termos: "... àqueles que, pela justiça do Nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram uma fé tão preciosa quanto a nossa." 2 Pd 1,1b
    Pois como protestou São Paulo aos judeus em Roma, houve um momento em que os Apóstolos abandonariam os esforços de anunciar-lhes Cristo: "Ficai, pois, sabendo que aos gentios é enviada agora esta Salvação de Deus; e eles a ouvirão." At 28,28
    De fato, Jesus havia previsto a total aversão do 'povo de Deus' aos cristãos: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus." Jo 16,2
    E foi assim que os pagãos assumiram o protagonismo nos projetos de Deus, bem como perseverou entre os judeus a rejeição ao Messias. São Paulo recorda Isaías: "Na Lei está escrito: 'Será por gente de língua estrangeira e por lábios estrangeiros que falarei a este povo; e nem assim Me ouvirão', diz o Senhor (Is 28,11s)." 1 Cor 14,21
    Por isso, ainda segundo São Paulo, essa 'mudança de planos' não deveria causar estranheza aos judeus: estava predita havia séculos: "E pergunto ainda: Acaso Israel não o compreendeu? Já Moisés lhes havia dito: 'Eu vos despertarei ciúmes com um povo que não merece este nome; provocar-vos-ei a ira contra uma nação insensata (Dt 32,21).' E Isaías abalança-se a dizer: 'Fui achado pelos que não Me buscavam; manifestei-Me aos que não perguntavam por Mim (Is 65,1).' Ao passo que a respeito de Israel ele diz: 'Todo o dia estendi as Minhas mãos a um povo desobediente e teimoso (Is 65,2).'" Rm 10,19-21
    Aliás, foi tão somente o cumprimento de mais uma profecia: "Pois asseguro que Cristo exerceu Seu ministério entre os incircuncisos para manifestar a veracidade de Deus pela realização das promessas feitas aos patriarcas." Rm 15,8
    Efetivamente, o Apóstolo dos Gentios já havia dito: "Porque nem todos os que descendem de Israel são verdadeiros israelitas, como nem todos os descendentes de Abraão são filhos de Abraão; mas: 'É em Isaac que terás uma descendência que trará o teu nome (Gn 21,12).' Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que serão considerados como descendentes." Rm 9,6b-8


UM POVO ANDANTE COMO MENSAGEIRO

    A palavra 'hebreu' significa 'andante'. Tal característica, assim como a secular tradição de formar a família e criar os filhos, transmitindo fielmente conhecimento e costumes, foram sem dúvida inspiradas por Deus, pois deles Se serviria para fazer-Se conhecer e divulgar Sua Palavra. Ora, antes mesmo do primeiro filho gerado por Sara, Ele havia feito uma Aliança com Abraão e sua descendência: "Faço Aliança contigo e com tua posteridade, uma Aliança Eterna, de geração em geração, para que Eu seja o Teu Deus e o Deus de tua posteridade." Gn 17,7
    E ainda bem antes da Vinda do Messias, Ele já convidava também os estrangeiros para participar dessa Aliança, como primeiro vemos falar o profeta Isaías e em seguida o próprio Deus vai complementar: "Que o estrangeiro que deseja afeiçoar-se ao Senhor não diga: 'Certamente o Senhor vai excluir-me de Seu povo'. ... estrangeiros que desejam unir-se ao Senhor, para servi-Lo e amar Seu Nome, para serem Seus servos, se observarem o sábado sem profaná-lo, e '... se se afeiçoarem à Minha Aliança, Eu os conduzirei ao Meu monte santo e os cumularei de alegria na Minha Casa de Oração; seus holocaustos e sacrifícios serão aceitos sobre Meu altar, pois Minha Casa chamar-se-á Casa de Orações para todos os povos.'" Is 56,3.6-7
    Com efeito, desde a construção do Templo de Jerusalém, e ao menos três séculos antes deste profeta, que o rei Salomão intercedia pelos estrangeiros: "Quanto ao estrangeiro, que não pertence ao Vosso povo de Israel, quando vier de uma terra longínqua por causa de Vosso Nome, - porque se ouvirá falar da grandeza de Vosso Nome, da força de Vossa mão e do poder de Vosso braço, - quando vier orar neste Templo, ouvi-o do alto dos Céus, do alto de Vossa morada, ouvi-o e fazei tudo o que esse estrangeiro Vos pedir. Então todos os povos da terra conhecerão o Vosso Nome, Vos temerão como o Vosso povo de Israel, e saberão que o Vosso Nome é invocado sobre esta Casa que edifiquei." 1 Rs 8,41-43
    Assim, por muitos séculos até a chegada de Jesus, na plenitude dos tempos, por Seus arautos Deus falou ao povo de Israel e também ao mundo, como se incluem os seguidores de São Paulo na epístola endereçada aos hebreus: "Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas." Hb 1,1
    Como posteridade de Abraão, por fim, Jesus fala à samaritana do Pai, de Sua história entre o povo judeu e de Si mesmo: "Vós adorais O que não conheceis, nós adoramos O que conhecemos, porque a Salvação vem dos judeus." Jo 4,22
    E nestes termos Ele vai justificar a Salvação de que Zaqueu, pelas promessas de Deus, é destinatário: "Disse-lhe Jesus: 'Hoje entrou a Salvação nesta casa, porquanto também este é filho de Abraão. Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.'" Lc 19,9-10
    Mas nem por isso os judeus deviam bastar-se, como Ele mesmo avisou ainda no início de Suas pregações: "Não digais dentro de vós: 'Nós temos a Abraão por pai!' Pois eu vos digo: 'Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão.'" Mt 3,9
    Enquanto mero ser humano, contudo, o Nazareno era ciente de Suas limitações e sabia que tinha uma Missão muito específica a cumprir. Sem dúvida, essa era uma promessa feita aos judeus e que entre eles haveria de realizar-se, embora a Boa Nova por Ele anunciada não mais tivesse que se restringir a eles. Por isso, enquanto o Cristo esteve entre nós, os Apóstolos também tiveram um rebanho delimitado para apascentar, como narrou São Mateus: "Estes são os Doze que Jesus enviou em missão, após lhes ter dado as seguintes instruções: 'Não ireis ao meio dos gentios nem entrareis em Samaria; ide antes às ovelhas que se perderam da casa de Israel.'" Mt 10,5-6
    Noutra passagem, Ele vai declara abertamente esta condição de Sua Missão a uma estrangeira, que Lhe implorava socorro à filha possessa: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Mt 15, 24
    Mas essa mulher era bem informada sobre a Vinda do Salvador, e realmente acreditava que Jesus era Sua Encarnação. Isso se verifica quando ela por Ele chamava, fazendo menção à Sua ascendência, que era hebreia, e à Sua tribo, conforme as profecias: "Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim!" Mt 15,22
    E assim, demonstrando humildemente sua fé, ela tocou Seu Sagrado Coração: "Jesus respondeu-lhe: 'Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos.' 'Certamente, Senhor', replicou-Lhe ela, 'mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...' Disse-lhe, então, Jesus: 'Ó mulher, grande é tua ! Seja-te feito como desejas.'" Mt 15,26-28
    Era tão específica Sua manifestação humana que, ao ouvir que Seu Nome já havia chegado aos judeus que moravam nas antigas colônias gregas, Jesus percebeu que chegava a hora de Sua Paixão: "Havia alguns gregos entre os que subiram para adorar durante a festa. Estes se aproximaram de Filipe (aquele de Betsaida da Galileia) e rogaram-lhe: 'Senhor, quiséramos ver Jesus'. Filipe foi e falou com André. Então André e Filipe o disseram ao Senhor. Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto.'" Jo 12,20-24
    Tanto que, mesmo após Sua Ressurreição e momentos antes de Sua Ascensão, na última conversa os Apóstolos ainda falavam apenas na restauração do Reino de Israel, enquanto um mero país: "Assim reunidos, eles O interrogavam: 'Senhor, é porventura agora que ides restaurar a realeza em Israel?'" At 1,6
    De fato, após a multiplicação dos pães e dos peixes, a multidão quis fazê-Lo rei de Israel, por reconhecê-Lo como o Profeta anunciado através de Moisés: "À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: 'Este é verdadeiramente o Profeta que há de vir ao mundo.' Jesus, percebendo que queriam arrebatá-Lo e fazê-Lo rei, tornou a retirar-Se sozinho para o monte." Jo 6,14-15
    Mas, conforme as próprias Escrituras, Suas ovelhas não seriam apenas o povo de Israel. Essa, contudo, seria outra etapa do projeto da Salvação, a ser realizado por intermédio de Sua Igreja como Ele mesmo afirmou: "Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a Minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor." Jo 10,16
    Por isso, ao rezar ao Pai, Ele pediu não apenas pelos Apóstolos, mas por todos os fiéis que através da pregação do Doze formariam a sólida Unidade da Igreja: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-21
    E assim Ele garantiu aos Apóstolos: "Se guardaram a Minha Palavra, hão de guardar também a vossa." Jo 15,20
    São Paulo, enfim, interpreta com maestria os desígnios de Deus realizados através da Cruz: arrebatar toda a humanidade: "Ele quis, assim, a partir do judeu e do pagão, criar em Si um só homem novo, estabelecendo a Paz. Quis reconciliá-los com Deus, ambos em um só Corpo, por meio da Cruz." Ef 2,15a-16b
    Ele detalha: "Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos Apóstolos e Profetas. A saber: que os gentios são co-herdeiros conosco (que somos judeus), são membros do mesmo Corpo e participantes da promessa em Jesus Cristo pelo Evangelho. Eu tornei-me servo deste Evangelho em virtude da Graça que me foi dada pela onipotente ação divina. A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou." Ef 3,4-9
    E com total convicção, em sua defesa ele vai dizer ao rei Agripa: "Mas, assistido do socorro de Deus, permaneço vivo até o dia de hoje. Dou testemunho a pequenos e a grandes, nada dizendo senão o que os Profetas e Moisés disseram que havia de acontecer, a saber: que Cristo havia de padecer e seria o primeiro que, pela Ressurreição dos mortos, havia de anunciar a Luz ao povo judeu e aos pagãos." At 26,22-23
    Por isso evocou as Escrituras perante os gálatas: "Prevendo que Deus justificaria os povos pagãos pela fé, a Escritura anunciou esta Boa Nova a Abraão: 'Em ti todos os povos serão abençoados' (Gn 18,18).' Assim a bênção de Abraão se estende aos gentios, em Cristo Jesus, e pela fé recebemos o Espírito prometido." Gl 3,8.14
    E garantia aos tessalonicenses, que também não eram judeus: "... porque desde o princípio Deus vos escolheu para vos dar a Salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade. E pelo anúncio do nosso Evangelho chamou-vos para tomardes parte na Glória de Nosso Senhor Jesus Cristo." 2 Ts 2,13-14
    Sem dúvida, foi exatamente essa universalidade que Jesus prometeu ao referir-Se à Sua crucificação: "E quando Eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a Mim." Jo 12,32


"IDE POR TODO O MUNDO"

    Porque se Israel foi o povo escolhido para receber a Revelação de Deus, não saberia, como visto, receber o Messias. E pelas sérias responsabilidades que tinham, desfaz-se o argumento de que teriam sido apenas privilegiados pelas manifestações de Deus. Jesus mesmo vai dizer: "Porque a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir." Lc 12,48b
    Por isso, em Sua última Páscoa, ao contemplar do monte das Oliveiras a cidade Jerusalém, Ele chorou e lamentou sua insensibilidade: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os Profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas... e tu não quiseste!" Mt 23,37
    As consequências, de fato, seriam trágicas: "Virão sobre ti dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados; destruir-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada.'" Lc 19,41-44
    São João Evangelista resumiu assim esse descompasso entre Jesus e Seu povo: "Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam." Jo 1,11
    E quanto à primazia dos judeus como povo de Deus, o próprio Jesus deixou claro que, depois de São João Batista, passava a vigorar a Nova Aliança. Ou seja, o Antigo Testamento deixava de ser o centro da Revelação, que passou a ter em Sua manifestação o principal acontecimento: "A Lei e os Profetas duraram até João. Desde então é anunciado o Reino de Deus..." Lc 16,16a
    Mas isso não significa que Ele estivesse renegando o Antigo Testamento, pois afirmou: "Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição." Mt 5,17
    Segundo São Paulo, o próprio Jesus era um estrito praticante da Lei:"Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a Sua adoção." Gl 4,4-5
    São Lucas registrou até Sua circuncisão: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno." Lc 2,21
    Pois Nossa Senhora e São José eram perfeitamente obedientes a Deus, cumprindo também eles todos os ritos: "Concluídos os dias para a purificação de Maria segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor (Ex 13,2).' E tendo os pais apresentado o Menino Jesus, para cumprirem a respeito d'Ele os preceitos da Lei..." Lc 2,22-23.27b
    E assim, em perfeita obediência ao Antigo Testamento, Jesus viveu Sua vida pública: "Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade." Mt 9,34
    Incluindo as Páscoas: "Todos os dias ensinava no Templo. Os príncipes dos sacerdotes, porém, os escribas e os chefes do povo procuravam tirar-Lhe a vida." Lc 19,47
    Ele mesmo vai declará-lo ao sumo sacerdote, explicitando, contudo, o verdadeiro alcance de Sua Palavra: "Jesus respondeu-lhe: 'Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no Templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.'" Jo 18,20
    De fato, Ele é a própria consumação do Judaísmo. Tanto que Elias e Moisés, suas mais importantes figuras, apareceram-Lhe. E os mais íntimos Apóstolos, que, aliás, eram todos judeus, foram testemunhas oculares: "Passados uns oitos dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar. Enquanto orava, transformou-Se o Seu rosto e as Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que falavam com Ele dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em Glória, e falavam da morte d'Ele, que se havia de cumprir em Jerusalém." Lc 9,28-31
    Quanto às lideranças judaicas da época, até então os representantes do povo de Deus, Jesus sentenciou: "Por isso vos digo: 'ser-vos-á tirado o Reino de Deus, e será dado a um povo que produzirá os frutos dele.' Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava." Mt 21,43.45
    Ele até já havia declarado o anátema de algumas cidades à margem do mar da Galileia: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem recusado arrepender-se: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam se arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso vos digo: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque, se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro dos teus muros, subsistiria até este dia. Por isso te digo: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!'" Mt 11,20-24
    Tal juízo está em perfeita concordância com Sua profecia contra os filhos de Israel, quando um centurião de Cafarnaum Lhe pedia apenas uma Palavra pela cura de seu servo: "Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: 'Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel. Por isso, Eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos Céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.'" Mt 8,11-12
    Com a conclusão da parábola do grande banquete: "Pois vos digo: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a Minha Ceia." Lc 14,24
    Ou ainda com a provocação que fez aos fariseus, na parábola de Lázaro e do Rico: "Abraão respondeu-lhe: 'Se não ouvirem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer mesmo que alguém ressuscite dos mortos.'" Lc 16,31
    Por isso, após cumprida Sua Missão, Jesus manda Seus Apóstolos a todos os povos, seguindo o divino procedimento de dar-Se a conhecer pessoa a pessoa: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura." Mc 16,15
    Mas vale notar que, ao avisar da Vinda do Espírito Santo, mais uma vez Jesus pede aos Apóstolos que comecem pelo povo judeu, que estava em Jerusalém e na Judeia, para só depois estender a missão aos demais povos. Isso bem demonstra a fidelidade de Deus ao Seu povo e à Sua Palavra, empenhada na Aliança: "... mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo." At 1,8
    Por outro lado, sabemos que àquele tempo se tinha uma distinta concepção de 'mundo'. São Paulo, por exemplo, faz menção à prioridade dos judeus, mas com evidentes restrições do que seriam 'todos os povos da terra'. Aí fica claro, porém, que a primazia dos judeus implica algumas consequências quanto à ordem das divinas punições, o que só lhes aumenta a responsabilidade: "Tribulação e angústia sobrevirão a todo aquele que pratica o mal, primeiro ao judeu e depois ao grego; mas glória, honra e Paz a todo o que faz o bem, primeiro ao judeu e depois ao grego." Rm 2,9-10
    E essa mesma responsabilidade agora é dirigida aos cristãos, como lembra São Pedro: "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus?" 1 Pd 4,17
    Por isso São Paulo falava em 'vasos de barro': "Se o nosso Evangelho ainda estiver encoberto, está encoberto para aqueles que se perdem, para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós." 2 Cor 4,3-4.7
    Por fim, sabemos que foi pela Palavra anunciada pelo Príncipe dos Apóstolos que o Espírito Santo quis derramar-Se sobre os não-judeus, confirmando o conceito de 'Casa de Oração para todos os povos' que agora se aplica à Santa Igreja Católica: "Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra. Os judeus, que tinham vindo com Pedro, admiraram-se profundamente vendo que o dom do Espírito Santo era derramado também sobre os pagãos..." At 10,44-45
    Aliás, havia sido também por suas mãos, junto às de São João Evangelista, que se deu o 'Pentecoste dos Samaritanos': "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois apóstolos impuseram-lhes as mãos e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    Ademais, tal e qual os Doze Apóstolos, São Paulo também começou seu ministério dirigindo-se ao judeus. Mas, como vimos no acontecido em Roma, diante da resistência que lhe faziam, já nas primeiras comunidades da Europa ele irá voltar-se essencialmente aos não-judeus: "Quando Silas e Timóteo chegaram da Macedônia, Paulo dedicou-se inteiramente à pregação da Palavra, dando aos judeus testemunho de que Jesus era o Messias. Mas como esses contradissessem e o injuriassem, ele, sacudindo as vestes, disse-lhes: 'O vosso sangue caia sobre a vossa cabeça! Tenho as mãos inocentes. Desde agora vou para o meio dos não-judeus.'" At 18,5-6
    Pois assim ele pregara em Atenas, no Areópago, convidando todos os povos à Confissão dos pecados e a uma verdadeira conversão: "Deus, porém, não levando em conta os tempos da ignorância, convida agora a todos os homens de todos os lugares a arrependerem-se." At 17,30
    Contudo, foi-lhe igualmente revelado que os tempos dos não-judeus, ou seja, dos demais habitantes da Terra, também estão contados: "... esta cegueira de uma parte de Israel só durará até que haja entrado a totalidade dos não-judeus." Rm 11,25
    Essa, aliás, era um profecia feita por Joel: "Sabereis então que Eu sou o Senhor, Vosso Deus, que habita em Sião, Minha montanha santa. Jerusalém será um lugar sagrado onde os estrangeiros não mais tornarão a passar." Jl 4,17
    Eis porque São Paulo advertia: "Declaro-o a vós, homens de origem pagã: como Apóstolo dos pagãos, eu procuro honrar o meu ministério com o intuito de, eventualmente, excitar à imitação os homens da minha raça e assim salvar alguns deles. Se alguns dos ramos foram cortados, e se tu, oliveira selvagem, foste enxertada em seu lugar e agora recebes seiva da raiz da oliveira, não te envaideças nem menosprezes os ramos. Pois, se te gloriares, sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Não te ensoberbeças, antes teme. Se Deus não poupou os ramos naturais, bem poderá não poupar a ti." Rm 11,13-14.17-18.20a-21

    "Santificai e reuni o Vosso povo!"