domingo, 6 de agosto de 2017

A Aparição de Cimbres


    Em 1936, no dia 6 de agosto, no Sítio Guarda da localidade de Cimbres, a 18 km da cidade de Pesqueira, Pernambuco, Nossa Senhora apresentou-se a duas adolescentes: Maria da Luz, de 13 anos, e Maria da Conceição, de 16.
    Maria da Luz era filha do Sr. Artur Teixeira e Dona Auta, donos do sítio, e Maria da Conceição era uma amiga da família, a quem sua mãe ajudava a alfabetizar.
    Era uma manhã enevoada e elas estavam colhendo sementes de mamona aos pés de um penhasco, vizinho às terras de seu pai. Falavam sobre o famigerado Lampião, que àqueles tempos assustava toda a região. quando Maria da Luz perguntou o que Maria da Conceição faria se o cangaceiro aparecesse ali, naquele instante, e ela, assustada só em pensar, respondeu que Nossa Senhora cuidaria de protegê-las.
    Após essas palavras, Maria da Conceição viu a linda e radiante figura de 'uma senhora com uma criança no braço'. Estava aos pés de um grande entalhe, quase no topo do penhasco, e convidava-as a aproximarem-se.


    Apesar de muito impressionadas, elas acanharam-se e não subiram até ela. Ao contrário, correram para casa, sentaram-se ofegantes no chão do alpendre, comentaram entre si sobre a aparição por alguns instantes, mas não se contiveram: ainda antes do almoço contaram-na ao pai, à mãe e aos irmãos de Maria da Luz.
    Contudo, apenas conseguiram despertar curiosidade e estranheza. E após a refeição, foram em companhia do pai ao local da aparição, que se espantou com a rapidez com que elas subiram a pedra tão íngreme. Lá em cima, para surpresa de todos, a 'Senhora' apareceu às adolescentes mais uma vez e identificou-se: "Eu sou a Graça."
    Maria da Luz então perguntou a que se devia a aparição, e ela respondeu: "Vim avisar que hão de vir três castigos mandados por Deus. Diga ao povo que reze muito e faça penitências."


     Com a notícia correndo pela região, logo se formaram verdadeiras romarias ao local. Às tardes rezava-se o Terço e o Ofício de Nossa Senhora, e no terceiro dia o povo instou as meninas para que lhe pedissem um sinal. Cedinho na manhã seguinte, as meninas subiram o penhasco e viram que no lugar da aparição havia surgido uma fonte. Nossa Senhora apareceu mais uma vez e disse-lhes que era para curar as doenças daqueles que realmente acreditavam.
    No dia 15 de agosto, inquieto com todos aqueles acontecimentos, em viagem à cidade de Pesqueira, 'Seu' Artur viu-se na obrigação de ir à secretaria da Paróquia, onde relatou tudo a um jovem e recém-chegado sacerdote alemão.
    Padre Kehrle, cuja irmã desenganada pelos médicos tinha sido curada de acessos de loucura por um milagre de Nossa Senhora numa peregrinação que fizeram a Lourdes, na França, viera ao Brasil pensando em formar-se em medicina, e assim servir ao povo mais pobre. Mas, em convívio com os beneditinos em Olinda, acabou resolvendo tornar-se sacerdote. Ordenado, foi designado para servir no sertão de Pernambuco.
    O padre então solicitou ao senhor Artur que a filha perguntasse à aparição seu nome e o que ela desejava, e enviou-lhe também uma série de perguntas para que fizesse à 'Senhora'.
    No dia 20 de agosto, o próprio padre foi ao sítio Guarda, pois Nossa Senhora havia dito a Maria da Luz que gostaria de ter como interlocutor, dentre os membros da Igreja, 'o padre que havia enviado as perguntas'.
    Chegando eles ao local, logo Nossa Senhora manifestou-se às meninas, novamente com o Menino Jesus ao braço esquerdo. De imediato, o padre tratou de separar as meninas, para verificar se elas contradiziam-se a respeito de detalhes da aparição ou do lugar onde a estavam vendo. Tentou induzi-las a erro, mas percebeu que elas não mentiam nem sequer vacilavam: descreviam a mesma figura e indicavam o mesmo lugar.
    Segundo elas, Nossa Senhora e o Menino Jesus apresentavam-se na forma que conhecemos como a imagem de Nossa Senhora do Carmo: seu manto era azul e o vestido era da cor creme, 'entre o branco e o amarelo', com uma faixa à cintura, e ambos usavam coroas. Ou seja, tal e qual foram vistos no último dia da Aparição de Fátima.


    O padre pediu que Maria da Luz perguntasse a Nossa Senhora se ele poderia fazer-lhe algumas perguntas em outras línguas, ao que ela e o Menino Jesus sorriram, parecendo já esperar que ele usasse desse recurso de averiguação, e ela respondeu que sim.
    Então se dirigiu a ela com preguntas em latim e alemão, que as meninas sequer entendiam, mas, conforme Nossa Senhora respondia em português às adolescentes, elas retransmitiam-nas ao padre. E todas as respostas deixaram claro que ela era realmente a Mãe de Deus.
    Como já vinha acontecendo, uma multidão cada vez maior acorria ao local em peregrinação e os milagres com a água da fonte multiplicavam-se. Mas alguns inescrupulosos, que pagavam jovens para subir ao rochedo, começaram a recolher da água em grande quantidade e a negociá-la, e assim na pequena bacia de pedra já não se juntava mais o suficiente para atender aos peregrinos. Foi quando o senhor Artur mandou construir uma cerca para proteger a fonte, afastando os vendilhões e garantindo acesso às pessoas que lá chegavam.
    O delegado de Pesqueira, porém, sob o argumento de que a fonte era pública, mandou destruir a cerca. Como resultado, ela subitamente secou. Em uma aparição, Nossa Senhora disse a Maria da Luz que não havia gostado da intervenção do delegado, e o senhor Artur, percebendo que essa era a vontade de Deus, por si mesmo mandou construir uma nova cerca e a fonte voltou a jorrar.
    Na última aparição, Maria da Luz viu uma longa escada que subia até aos Céus, repleta de anjos em toda sua extensão, e por ela, em seguida, desceu Nossa Senhora. Não foi por acaso. Essa escada foi vista por Jacó num sonho, quando Deus lhe apontou o lugar onde estava como a Terra Santa (conf. Gn 28,12s). Foi também a promessa feita por Jesus a São Bartolomeu para simbolizar Sua Divindade (conf. Jo 1,51). Ou seja, sinalizava o lugar e o momento em que os Céus e a Terra se encontravam. Ao despedir-se, Nossa Senhora subiu pela mesma escada, que, após sua completa ascensão, riscou os céus formando um brilhante traço e desapareceu.
    O Bispo de Pesqueira, no entanto, proibiu o Padre Kehrle e Maria da Luz de falar sobre a aparição, impondo-lhes voto de silêncio. Mas, em troca de correspondência com teólogos da Alemanha e da França, o que não lhe havia sido proibido, nosso padre obteve várias confirmações, assim como detalhes das características das pessoas a quem Nossa Senhora escolhe para apresentar-se. São invariavelmente virgens, adolescentes ou muito jovens, de origem humilde e pouca escolaridade. Assim havia sido nas aparições mais importantes, como as de Paris, Salette, Lourdes e Fátima.
    Tempos depois, Padre Kehrle foi enviado para a cidade de Buíque, a 68 km de Pesqueira, onde levou uma vida santa. Aí Nossa Senhora lhe apareceu em sonho e indicou onde deveria cavar um poço, num terreno que havia sido doado à igreja, ao que ele atendeu e com sua água irrigou uma horta, árvores e, ao lado dele, construiu a casa onde viveu até o dia de sua morte. Ergueu também uma pequena Capela em honra de Nossa Senhora das Graças, onde foi sepultado. Ele faleceu no dia 6 de agosto de 1978, exatamente na data da primeira aparição.
    Nas mensagens de Cimbres, em conformidade com as profecias que fez em Quito e em Akita, Nossa Senhora avisa que sem conversão a humanidade passaria por uma grande catástrofe, um banho de sangue. Com efeito, o mundo estava às vésperas da Segunda Grande Guerra Mundial, e a bomba de Hiroshima iria explodir exatamente no dia 6 de agosto, no ano de 1945. Para o Brasil, especificamente, ela previu tempos difíceis com a adoção das assassinas políticas do comunismo. De fato, ela havia advertido na aparição de Fátima: "... a Rússia espalhará seus erros pelo mundo."
    De Buíque, Padre Kehrle tentou encaminhar Maria da Luz para vários colégios de freiras, mas, ao saberem de quem se tratava, por causa das ordens do Bispo de Pesqueira, sempre a recusavam. Por fim, foi aceita no de Garanhuns, onde ela chegou a ficar por um ano enquanto desconheciam sua identidade. Mas, ao descobrir, o Bispo mandou que ela fosse dispensada, pois 'a Diocese precisava de padre e não de freiras', e não tinha recursos para arcar com tal despesa.
    Pouco tempo depois, graças aos sucessivos esforços do Padre Kehrle, ela foi acolhida pela Congregação Damas da Instrução Cristã, no Recife, onde adotou o nome de Irmã Adélia e viveu humildemente até 13 de outubro de 2013, chegando aos 91 anos.


    Nos anos 80, acometida de câncer, Irmã Adélia só não faleceu, segundo ela própria, por miraculosa intercessão de Nossa Senhora. Depois de curada, porém, decidiu não mais se calar e passou a divulgar intensamente os detalhes e as mensagens da aparição.
    Maria da Conceição, em sua tocante simplicidade, preferiu casar-se e ter filhos, e também já é falecida.
    Apesar do voto de silêncio imposto pelo bispo ao padre e às videntes, a repercussão que se deu naqueles dias foi suficiente para manter vivas as peregrinações, ainda que irregulares, e os relatos da Aparição de Cimbres através dos tempos. Ademais, as centenas ou milhares de milagres alcançados pelos que visitam o santuário, assim como a de católicos que tomaram conhecimento da história, fortaleceram sobremaneira essa devoção.
    Correm informações de que, já em Buíque, Padre Kehrle teve notícia de novas aparições de Nossa Senhora em Cachoeirinha, uma cidade a 70 km de Pesqueira, e por carta teria pedido a Maria da Luz que fosse confirmá-las. Semanas depois ela teria respondido, também por carta, queixando-se da cansativa viagem em lombo de burro, mas reconhecendo a veracidade das aparições e dizendo que Nossa Senhora estaria desapontada com a má acolhida dada pela Igreja às suas manifestações nos arredores de Cimbres. Em anos recentes, porém, Irmã Adélia questionou tais informações, dando a entender que, segundo suas memórias, apesar da idade avançada, não procedem.


    Cimbres é um lugarejo muito antigo, da época das primeiras incursões dos colonizadores no Nordeste, partindo do litoral e seguindo, entre outros rios, as margens do Ipojuca, que banha a cidade de Pesqueira. Como mostra esse mapa de 1811, feito por padres oratorianos, fica nas encostas do planalto da Borborema, na serra do Ororubá. Foi a primeira Vila, como eram chamadas as cidades, do interior do Brasil a ter um Senado, equivalente às atuais câmaras municipais, prédio que ainda hoje é preservado.


    Em 1692, o Bispo de Olinda e Recife, Dom Frei Matias de Figueiredo e Melo, que esteve à frente da Arquidiocese entre 1687 e 1694, criou a freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, no povoado de Monte Alegre, que pouco mais tarde viria a ser a 'Mui Nobre e Real Vila de Cimbres'.
    Segundo alguns documentos, a atual igreja de Nossa Senhora das Montanhas já estava erguida em 1762. Há informações também de que ela foi construída por descendentes do feitor de João Fernandes Vieira, herói da Insurreição Pernambucana, combatente da Batalha dos Guararapes, que viveu entre 1610 e 1681.
    Quanto ao nome da Vila, não há dúvidas que se trata de uma homenagem à Freguesia de Cimbres, em Portugal, ao norte do Distrito de Viseu, que era paragem de uma antiga via romana, portanto da época do Império dos Césares, e possuía uma densa floresta de onde se retirava madeira para construção de arcos de pedra, daí seu nome. O nome do sítio do senhor Artur, Guarda, também é nome de um distrito português, na fronteira com a Espanha, vizinho ao Distrito de Viseu. Outro grande sinal de Deus é que a padroeira da Cimbres portuguesa é Nossa Senhora da Graça, no singular, como é da tradição portuguesa e exatamente como ele se apresentou, cuja capela data do século XVII.
    Na Vila de Cimbres, a brasileira, em 1850 nasceu Joaquim Arcoverde, aquele que viria a ser o Cardeal Arcoverde, primeiro Cardeal da América Latina, consagrado em 1905.


    "Oh Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!"