sexta-feira, 25 de agosto de 2017

São Luís


    Um rei da França serviu tão sincera e humildemente a Deus que se tornou Santo. Luís IX foi coroado com apenas 12 anos, pois seu irmão mais velho, Felipe, o príncipe herdeiro, havia morrido bem antes de seu pai, o rei Luís VIII. Contava, porém, com o firme e inteligente apoio de sua religiosa mãe, a rainha Branca de Castela, e do velho camareiro da corte, chamado Bartolomeu do rei. Dizia-se com ironia que a França estava nas mãos de uma criança, uma mulher e um velho.
    Mas, por capricho de seu pai e de sua mãe, esse jovem já havia tido contato com as mentes mais brilhantes de seu país: teve os melhores professores. Tanto que o jogo de interesses, que moviam os casamentos entre príncipes e princesas da Europa, não enganaram sua mãe nem seduziram o jovem rei, que lhe era muito obediente.
    E, de fato, eles conduziram o reino promovendo não apenas a justiça, mas a dignidade humana. Eram tempos de grande aclamação das ordens mendicantes. Dominicanos, mercedários e franciscanos tocavam o coração do povo e também de Luís IX. Ele assistia à Santa Missa diariamente; a humildade, a prudência, a oração e a caridade eram suas virtudes. Deus estava com ele.
    Em 1234 sua mãe arranjou-lhe um bom casamento, logo após os completar 20 anos, com Margarida, que realmente foi uma esposa religiosa e dedicada.
    Durante seu reinado, São Luís teve que resistir a rebelião e invasões, ocasiões em que demonstrou habilidades de grande estrategista e mesmo de guerreiro. Lúcido governante, estruturou a administração da nação e resolveu divergências com reinos vizinhos. Organizou o sistema judiciário, levando o povo a um notável período de paz e ordem pública, suprimindo os desmandos dos juízes, instituindo juízes extraordinários para recursos de apelação e colocando-se ele mesmo no posto juiz supremo.


    Em caso de erro de seus oficiais, primeiro penitenciava severamente a si mesmo, depois a eles, e só promovia os que agiam com correção. Proibiu, em definitivo, os duelos como forma de resolver disputas e de estabelecer direitos.
    Era religiosamente zeloso, mas também muito tolerante. Velando pela Salvação das almas, construiu várias catedrais, combateu heresias e proibiu a jogatina e a prostituição. Trouxe de Constantinopla a Santa Coroa de Espinhos e adquiriu relíquias da Santa Cruz, encontrada por Santa Helena, e em 1246 mandou construir a Santa Capela, em estilo gótico, no centro de Paris, exclusivamente para abrigá-las.


    A Santa Coroa de Espinhos hoje é guardada na Catedral de Notre-Dame, também em Paris.


    Seu reino viveu a bonança e a prosperidade, tempos que foram chamados de 'Século de Ouro de São Luís'. A França era o centro intelectual e artístico da Europa; Paris era a maior cidade; sua arquitetura atingia um inegável esplendor; nascia a Universidade de Sorbonne; o rei era reconhecido como um Santo em vida.
    Mas um rei católico de seu tempo, principalmente por sua capacidade de arregimentação e poderio, não poderia deixar de tentar libertar os sagrados lugares da Terra Santa, que estavam sendo tomados, saqueados e profanados por muçulmanos. Em 1244 esteve muito doente, e prometeu que se sobrevivesse partiria o mais rápido para a Palestina. Miraculosamente curado, organizou a VII Cruzada e partiu com a benção do Papa Inocêncio IV. Viajando em navios rumo ao Egito, teve que se abrigar de um forte inverno no Chipre, onde uma peste exterminou um sexto de seu exército.


    Fez acordo com os governantes mongóis para atacar Bagdá, ponto de partida dos invasores da Terra Santa, e convenceu o rei do Chipre a segui-lo. Mas, por uma grande tempestade no Mar Mediterrâneo, parte da esquadra foi desviada para o Egito, onde chegou com a tropa reduzida a apenas um quarto da inicial. Realmente valente, atacou o Cairo mesmo assim, porém foi derrotado e preso por 5 anos. No cativeiro, teve notícia do nascimento de seu filho João, e por sua autêntica  e religiosidade, conquistou o respeito dos emires, que quiseram proclamar-lhe sultão. Foi libertado pela paga de um caro resgate.
    Todavia, não quis retornar a França. Fez acordos com líderes do Egito e da Síria e consolidou importantes posições militares em várias cidades na Palestina. Ao receber notícia da morte de sua mãe, porém, decidiu retornar. Foi recebido em Paris como um vitorioso.


    Novos e destruidores ataques à Terra Santa, contudo, levaram São Luís a organizar a VIII Cruzada. Partiu em 1270 seguido por seus filhos, mas havia convencido e conquistado o apoio do rei Eduardo I da Inglaterra e muitos príncipes e senhores feudais. No entanto, em ainda em Cartago, morre de enfermidade seu filho João e também ele, provavelmente por peste bubônica.


    Excelente pai, criou seus filhos em estrita obediência à Igreja Católica. Não lhes permitia usar coroa ou qualquer adereço sobre a cabeça nas sexta-feiras, em respeito à Santa Coroa de Espinho de Jesus. Movido pelo Espírito de Deus, deixou em um manuscrito recomendações à sua filha Isabel, dignas da inspiração de um grande santo, que ainda hoje são admiradas. Após sua morte, sua esposa Margarida entrou para o convento de Santa Clara.
    Por espontânea veneração, parte de suas vísceras foram enterradas lá mesmo, na Tunísia, e outra parte, na Sicília, onde morava seu irmão, o rei Carlos I. Seu corpo foi levado a Bolonha, na Itália, para homenagens, a Lion e finalmente a Paris, onde foi enterrado na importante Abadia de São Dionísio. No século XVI, porém, com as batalhas provocadas pela Reforma Protestante, seu sepulcro foi profanado, ficando de seus restos nessa abadia apenas o osso de um dedo. E terminado o período de influência francesa na Sicília, as relíquias que lá estavam foram levados a Tunísia, a Cartago, reunidas às que lá haviam ficado, sendo tempos depois todas transportadas a Paris, quando as sepultaram na Santa Capela, que ele havia construído para o madeiro da Santa Cruz. E assim elas aí permanecem zelosamente guardadas, e até quase esquecidas.
    Surgiram, entretanto, relatos das relíquias que estavam na Abadia de São Dionísio. Elas teriam sido resgatadas antes da profanação pelos protestantes, e na atualidade acredita-se mesmo que seu fêmur e parte do crânio estejam na modesta igreja da comuna de Écuelles, departamento de Saône-et-Loire, região de Borgonha, centro leste da França, onde foram muito bem escondidas.


    São Luís, rogai por nós!